DRUMMOND E DAIBERT
III. Visão geral dos desenhos
Pelos títulos dos contos escolhidos por Arlindo, deduz-se que eles fariam par- te do livro Contos plausíveis, publicado por
Drummond em 1981, pela José Olympio e o Jornal do Brasil, reunindo contos que durante vários anos ele divulgou no jornal. Como, ao que parece, Drummond não os havia revisto, é possível que os textos li- dos por Arlindo difiram dos editados. Não temos, também, a listagem dos 45 contos que Arlindo pôde ler. No livro publicado, eles são 150. A primeira edição, que saiu em outubro de 1981, foi uma pequena ti- ragem com ilustrações de Irene Peixoto e Márcia Cabral, várias a cores, em formato especial (21 × 28 cm), com venda exclu- siva por mala direta. Só em 1985 saiu o livro em edição comercial, em formato 16 × 26 cm, com as ilustrações das mesmas autoras em preto e branco. Ao que parece, Drummond gostou do trabalho de Arlindo, tendo talvez adquirido um dos desenhos, mas também pode ter percebido que um projeto de 150 trabalhos seria inviável para ser desenvolvido com ele, tendo op- tado por uma ilustração bem mais simples tecnicamente e, por vezes, mais direta ou completamente livre.
O destino dos 15 desenhos é, em parte, desconhecido, não se sabe se che- garam a ser expostos. Só é possível ter acesso a todos porque ficaram registrados em slides feitos pelo próprio autor. Eles fazem parte de um extenso conjunto de slides que esteve guardado durante mui- to tempo no Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora (IAD/UFJF).4 Sua titulação foi deixada
pelo próprio Arlindo, o que permitiu lo- calizar os contos, ainda que em um caso não haja correspondência entre os títu- los. E em quatro slides há menção aos colecionadores.
Os títulos dos contos e dos desenhos são: “A bailarina e o morcego”, “A beleza to- tal”, “A incapacidade de ser verdadeiro”, “Alma perdida”, “A terra do índio”, “Experiência”, “História mal contada”, “Idílio funesto”, “No
interior da baleia”, “O casamento do sécu- lo”, “Odisseia”, “Onde ninguém entra”, “Os esquadrões” e “Subsistência”. Há um slide intitulado “História de papagaio”, que deve corresponder a “O papagaio premiado”, no livro. Por acaso, no Diário Arlindo menciona que queria fazer um desenho que não está entre os 15: “Talvez ilustre hoje a história de Nabucodonosor feito boi” (Diário, 30.6.1979, p. 42), que corresponde no livro ao conto “O rei e o feno”, em que Nabucodonosor, por castigo de Deus, começa a comer feno e acaba assumindo a forma de um boi. Ainda pelas anotações do Diário, é possível saber precisamente em que data alguns foram fei- tos, iniciados e planejados, o que é raro, pois o artista deixou esse registro em poucos de seus inúmeros trabalhos: em 27 de junho iniciou “A incapacidade de ser verdadeiro”; “Odisseia” foi feito em 29 de junho; em 2 de julho anota que terminou “Os esquadrões” e “A bailarina e o morcego”; “Alma perdida”, o último desenho, foi feito em 22 de julho. Não apenas datas, mas esses desenhos são comentados por ele, bem como há outras observações de natureza geral sobre os con- tos e que iluminam o encaminhamento que deu ao projeto.
O sentido geral das imagens já foi indicado, é o mesmo com que Arlindo sem- pre trabalhou: não são ilustrações, mas fi- gurações que dialogam com os textos, ou, em suas palavras, “analogias”, evitando “representações lógicas e óbvias”. “Quero manter um certo contraste nas ilustra- ções: lirismo, agressividade e humor”, ele anotará (Diário, 30.6.79, p. 42). Três se- manas depois, em 21 de julho, o trabalho vem ainda mais especificado:
De repente, acelerou-se o ritmo e, quando me dei conta, o livro de Drummond estava pronto. Os dese- nhos mais recentes me parecem trei- namentos para trabalhos posteriores.
Também a interpretação dos textos mudou bastante. Algumas das ilus- trações são, quando muito, imagens associadas à ideia do texto e nunca representações literais das situações ou personagens narrados. [Diário, 21.7.79, p. 45]
O resultado final acabou lhe pare- cendo desigual, o que é encarado com naturalidade. Ao fazer o último desenho, “Alma perdida”, ele registra:
O último desenho de Drummond. Chegou um pouco tarde demais. O compromisso da Projecta [galeria em que montou uma exposição] me dei- xa ansioso e os últimos desenhos de Drummond foram feitos “às pressas”. “Alma perdida” não saiu exatamente o que pretendia. Enfim, toda produção tem pontos altos e baixos e este acho que é um dos baixos. Não há tempo nem cabeça para refazê-lo. [Diário, 22.7.1979, p. 46]
Sobre os contos de Drummond, suas primeiras impressões — “pequenos textos meio fantásticos”, “o humor e o senso crítico (bastante fortes nos textos)” — também vão amadurecendo até que em 2 de julho ele anotará:
O trabalho rende e o resultado começa a me agradar. Não sei qual será a rea- ção do público. Acredito que muitos ficarão um pouco chocados com mi- nha “concepção do universo poético” de Drummond. Não posso evitar. Levo as insinuações e o humor (por vezes negro) às suas últimas consequências. [Diário, 2.7.79, p. 43]
No mesmo dia ainda comenta: “Uma das marcas do desenho é que, por mais
poético ou fantástico que seja o texto, os desenhos são sempre rigorosamente fiéis às imagens do mundo real. Absurdo é o deslocamento da realidade para um outro contexto” (Diário, 2.7.79, p. 43), o que é um modo de articular o que pensa sobre o desenho com o que pensa sobre os textos do poeta. Ele captou com precisão alguns aspectos fortes nos contos: universo meio fantástico, lirismo, agressividade e humor negro, que ele pretende levar às últimas consequências, como poderá ser visto em alguns dos desenhos. Na realidade, a combinação desses elementos acrescenta aos contos um toque que hoje diríamos “bizarro”, ou “gótico”, há algo de terrível e de incômodo nas narrativas fantasiosas de Drummond. Daí, talvez, a palavra “plausí- veis” do título, cujo sentido dominante no livro me parece ser o de algo que se pode admitir e aceitar, mesmo que absurdo.5
Os desenhos guardam alguma di- versidade e também certo contraste entre registros (lirismo, agressividade, humor negro), como já observado. É difícil saber a que trabalhos ele está se referindo ao chamá-los de “treinamentos”; talvez o úni- co com essa característica seja “Onde nin- guém entra”. Todos os demais estão num patamar mais elevado de execução, com alguns meticulosos como “A bailarina e o morcego”, “A beleza total”, “A incapacidade de ser verdadeiro”, “O casamento do sécu- lo”, “Os esquadrões” e “Subsistência”, onde o referido “contraste” pode ser mais obser- vado. E se “Alma perdida” não ficou como pretendia, não está entre os pontos baixos. Por outro, lado, não há relação direta entre apuro técnico e sintonia com os textos: por vezes um desenho bem realizado diz me- nos em sua conexão com um conto do que outro de fatura mais simples. Na impossibi- lidade de vê-los, aparentemente todos fo- ram feitos apenas com grafite sobre papel que, ao lado do bico de pena, era a outra
técnica que o artista mais dominava. Não há também dados sobre dimensão.