4. ANÁLISE DOS RESULTADOS
4.1 OBSERVAÇÕES INICIAIS
4.1.3 Visitas a supermercados, feiras e lojas especializadas
Após a participação nos dois eventos, foram visitados estabelecimentos que comercializam produtos orgânicos. Nesta etapa, inicialmente foi realizada uma ida a três grandes supermercados. O objetivo era perceber como, em que intensidade e quais as características da venda de produtos orgânicos nesses locais. Nestas visitas foi possível perceber que o espaço destinado aos alimentos orgânicos nos supermercados visitados ainda é muito pequeno, dado que foram poucos os produtos encontrados. Dentre estes os mais comumente encontrados estavam frutas, legumes e verduras e na parte de alimentos processados o café, o açúcar, o arroz e os sucos. Vale destacar que nos estabelecimentos é destinado um espaço específico para a exposição dos produtos orgânicos, tanto na parte de hortifruti quanto na parte de alimentos processados. Os produtos são separados dos demais e a seção à qual pertencem é destacada com cartazes e lâminas indicando que ali contém apenas produtos orgânicos.
Outra curiosidade percebida foi o fato de em dois supermercados os orgânicos ficarem expostos ao lado de produtos importados (que também tinham uma seção específica), em seções denominadas de Gourmet e que têm como uma de suas características apresentarem produtos com preços mais elevados. A observação de consumidores em supermercados foi prejudicada pelo fato de que o consumo parece ser muito pequeno. Nas três visitas, apenas 04 pessoas foram observadas comprando. Conversamos rapidamente com essas pessoas e ficou a percepção de que seus sentimentos eram de estar adquirindo uma “novidade”, ou seja, um produto do qual não se conhece muito e que está prestes a ser experimentado. Para esses informantes, o fator que mais influenciava em sua decisão de compra era o fato de serem produtos sem agrotóxicos, o que para eles seria benéfico à saúde, como afirmou uma consumidora:
“Bom eu ouvi falar que faz muito bem à saúde, então vou experimentar... quem sabe. Pena que são mais caros né? Mas também não tem jeito, se a gente quer uma coisa melhor não pode esperar que vá pagar mais barato”.
A percepção de um preço mais elevado desses produtos, aliás, era fator primordial para o não consumo ou para um maior consumo. As pessoas que foram vistas consumindo, levaram para casa apenas um tipo de produto, segundo elas para experimentar, o que reforça o consumo de uma “novidade”. A justificativa de experimentar apenas um tipo de produto era o seu maior preço em relação ao convencional. Outro aspecto que também pesava nas decisões de compra dessas pessoas era o fato de já terem ouvido falar que são alimentos mais saborosos.
A seguir, foram visitadas 03 lojas especializadas em produtos orgânicos, estabelecimentos nos quais foram encontrados uma diversidade maior de produtos disponíveis, como por exemplo, feijão, farinha, cachaça, vinho, picolé, doces, etc. Além da diversidade de produtos, foi maior também o número de pessoas observadas comprando. Aqui, embora a compra de uma “novidade” também estivesse presente, predominavam os consumidores que pareciam já possuir certos conhecimentos sobre o processo de produção orgânica e que já adotam esse hábito há um período maior de tempo. Fora isso, as compras nessas lojas especializadas parecem ser uma rotina desses consumidores, que colocavam nas cestinhas de compras uma maior quantidade e diversidade de produtos em relação aos consumidores de supermercados. Nas lojas especializadas os consumidores têm também a possibilidade de trocar informações e tirar dúvidas com os atendentes, que possuem maiores conhecimentos sobre os produtos que estão sendo comercializados, ao contrário do que foi percebido nos supermercados. Por conta disso, foram presenciadas conversas entre consumidores e funcionários das lojas sobre compras e produtos adquiridos em ocasiões passadas. Nessas conversas em nenhum momento foi discutida a associação dos produtos com qualquer questão social. Os diálogos restringiam-se ao sabor, ao preparo e ao valor nutritivo dos alimentos.
É importante destacar que as lojas visitadas estão localizadas em bairros com uma população de poder aquisitivo maior e dispõem de meios bastante interessantes para atrair os consumidores, como por exemplo, uma disposição atraente dos produtos, com flores e produtos do campo decorando o ambiente, ou seja, elas buscam adotar um estilo requintado e sofisticado para se diferenciar no mercado. Em uma das lojas visitadas, foi informado pelo vendedor que ali é possível encontrar
mais de 800 tipos de produtos, que inclusive vão muito além de produtos alimentares, contemplando também cosméticos e produtos de limpeza. Nessas lojas visitadas, o selo de garantia orgânica é um item obrigatório, que visa dar ao cliente a certeza de estar adquirindo um produto genuinamente orgânico.
Por fim, foram realizadas visitas à duas feiras livres, locais que também comercializam exclusivamente produtos orgânicos, principalmente frutas, legumes e verduras. A característica que distingue a feira das lojas especializadas é o fato de na feira o consumidor ter um contato direto com o produtor, além da possibilidade comprar produtos mais “frescos”. Para os consumidores abordados na feira, ali é um local onde é possível comprar produtos orgânicos a um preço mais acessível, fora o fato de o contato com o produtor aumentar a sensação de estar adquirindo um produto de melhor qualidade. Para os consumidores que fazem suas compras nas feiras, essa relação direta com o produtor traz também uma sensação de contato mais próximo com a natureza, pois aqui não há nenhuma assimilação dos produtos adquiridos com etapas de fabricação, industrialização e embalagem dos alimentos.
Vale ressaltar aqui que foi nesta etapa da pesquisa que começamos a ter uma idéia do crescimento e da amplitude que vem atingindo o mercado de produtos orgânicos, que já insere em seu escopo de atuação os mais variados tipos de produtos (inclusive não ficando restrito aos produtos alimentícios), numa perspectiva que vai muito além daquela idéia de que produtos orgânicos são frutas, legumes e verduras plantadas sem agrotóxicos. Entre os produtos encontrados, podemos citar: pães, cosméticos, vinhos, roupas, cachaças, geléias, temperos, embalagens, produtos têxteis, sorvetes, entre outros. Além disso, ressaltamos a existência de diversas empresas que não vendem produtos, mas que também interagem com este mercado, seja comercializando livros de receitas, revistas e publicações sobre alimentos orgânicos, seja oferecendo prestação de serviços de consultoria na implantação e/ou certificação de instituições.