5. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
7.2 A VIVÊNCIA DOS PAIS COM FILHO EM ESCOLA PÚBLICA
Essa categoria teve como objetivo desvendar as vivências dos pais tendo seus filhos inseridos no ensino comum. Sendo as subcategorias:
-Dificuldades relacionadas a permanência diária na escola.
Ramos (2010) considera que todos os funcionários da escola devem estar preparados para que a inclusão tenha êxito. Já Carvalho (2004) entende que a escola é uma instituição educacional e uma unidade social aplicada em concretizar a intenção educativa estabelecida segundo a filosofia de educação empregada. Para tanto, muito mais do que os cenários em que ocorre o ensino-aprendizagem de conteúdos, consideram-se os valores, princípios e todas as relações que se asseguram entre os grupos que nela interagem e que, em seu conjunto, formam-se como comunidade de aprendizagem. Assim entendemos que, não só o professor
deve ter qualificação, e os outros funcionários serem desprovidos de um conhecimento sobre as pessoas com deficiências, como lidar com elas; e o significado de incluir.
Percebe-se que o preparo para lidar com pessoas com deficiência é essencial, pois elas apresentam características e comportamentos diversos conforme apontaram as entrevistadas 01e 03 a dificuldade da escola como um todo em lidar com os seus filhos .
“Eu queria assim,.. eu pensando de não levar mais ele pra escola, porque quando ele...dá umas 3 horas da tarde, quando ele começa a chorar, assim... o pessoal me liga logo pra mim ir buscar ele”. (ENTREVISTADA 1, Mãe de um menino de 11 anos)
“Mas, às vezes eu tenho que sair daqui, e chegar lá, porque ela não quer tá na sala, tenho que sair mais cedo, aí eu tenho que sair, qualquer hora eu tenho que tá disponível”. (ENTREVISTADA 03, Mãe de uma adolescente de 14 anos).
Ambas as entrevistadas relataram a dificuldade de seus filhos em permanecer na escola durante todo o turno, o que fez a entrevistada 03 pensar em não levar mais seu filho a escola. A partir disso, percebe-se que e a escola não se responsabiliza pela permanência do aluno quando eles não queriam mais ficar, estes fatos podem indicar o despreparo em não saber lidar com esses alunos, optando pela solução mais fácil, que é ligar para os pais e levá- los para casa.
Para Araújo e Lima (2011) por mais que as escolas se mostrem receptivas à chegada dessas crianças, os pais e até os próprios educadores, ainda percebem que há o despreparo ou a falta de formação para recebê-las, o que gera inseguranças. Pode-se refletir que a inclusão é uma proposta que vai além da oferta do ensino ou inserir o aluno em sala de aula regular, pois, de acordo com Carvalho (2004) o que a inclusão propõe é muito mais abrangente e significativo do que o fazer parte é assegurar e garantir a ativa participação do aluno em todas as atividades do processo de ensino-aprendizagem, principalmente em sala de aula.
A próxima subcategoria abordará aspectos relacionados aos sentimentos de medo e preocupação presentes nos pais dos alunos com deficiência.
-Sentimento de medo /preocupação.
De acordo com Araújo e Lima (2011) os pais tendem a estabelecer relações de superproteção com a criança com deficiência, o que resulta em uma limitação do desenvolvimento desta, e reforça a dependência emocional e a insegurança em lidar com o mundo. Por causa do sentimento de medo, preocupação, os pais de crianças com deficiência tendem a superproteger seus filhos, e impede que esses indivíduos possam se desenvolver ampliando suas vivências diante de várias novas situações. No que se referem aos entrevistados, os 01e 02, foram encontrados os sentimentos de preocupação.
“Eu fico preocupada com ele, o que tá acontecendo com ele, só que eu deixei ele, eu boto ele pra ir mesmo, só pra ir mesmo. “(ENTREVISTADA 01, Mãe de um menino com 11 anos)
“Eu principalmente, eu se eu pudesse eu ficaria 24 horas do lado dele, não pra mim querer ser a mãe protetora, mas, né? A gente tem que tá olhando, e nem toda vez você pode, porque é proibido né? .A criança tem que... que se estimular junto com os outros né? Só que pra gente fica difícil, a gente fica preocupado.” (ENTREVISTADA 02, Mãe de um adolescente com 14 anos
Assim as duas entrevistadas acima, apesar de expressarem o sentimento de preocupação em relação a seus filhos inseridos na escola de ensino comum, de querer protegê- los, consideram importante os seus filhos irem à escola para estarem convivendo com outras pessoas, se socializando. Dados de pesquisa relatados por Costabile e Brunello (2005) indicaram que as famílias de crianças com deficiência inserida em escola pública regular, consideravam que a escola tinha contribuído para a socialização e convivência de seus filhos, além de considerarem a importância da escola como um espaço para a criança aprender a viver em grupo pela convivência.
Ainda em relação aos sentimentos relatados pelos entrevistados. Observou-se na fala dos entrevistados sentimentos de proteção e temor diante de situações que os filhos deverão enfrentar fora do lar, observa-se também que entrelaçado a esse sentimento de proteção e de medo há um reconhecimento de que só estando inserido na escola o filho poderá ser
estimulado, assim o entrevistado 04 expressou o sentimento de medo em levar seu filho a escola.
“É! eu mando pra escola, mas é com aquele medo, a gente sente medo, porque ele não tem progresso nenhum, então, eu tenho medo que ele se machuque, que ele regrida mais ainda, isso é a pior coisa que eu acho.” (ENTREVISTADO 04, Pai de um adolescente com 12 anos)
De acordo com a fala do entrevistado 04, ele não se sente seguro em levar seu filho a escola, pois, a instituição não estava correspondendo às expectativas deste em relação ao desenvolvimento de seu filho. Assim, o pai coloca em evidência o medo em decorrência da escola mostrar seu despreparo para trabalhar com a criança. Conforme apontam Araújo e Lima (2011) que quando a escola se mostra despreparada para atender as necessidades educacionais das pessoas com deficiência geram sentimentos de insegurança nos pais.
A subcategoria seguinte trata sobre situações de preconceito, percebido por algumas mães, em relação a seus filhos, inseridos em escola pública regular.
-Preconceito:
De acordo com Bray et.al (2009) nos dias atuais verifica-se um discurso que defende, favorece à inclusão de pessoas com deficiência, não somente no contexto escolar, mas em vários segmentos da nossa sociedade, porém, apesar disso, essas pessoas ainda continuam vítimas de preconceito e estigma, por serem consideradas diferentes. Além disso, existem vários tipos de preconceito, em relação à criança com deficiência inserida na escola, de acordo com a pesquisa de Stella e Sequeira (2013) o preconceito de pais de alunos não deficientes em relação aos alunos deficientes é apontado como existente dentro do âmbito escolar. Estas situações de preconceito podem ser vivenciadas e interpretadas pelos pais de forma negativa. Isto se torna evidente na fala da entrevistada 06.
“Bom, eu já tive alguns problemas assim, nessa questão que eu te falo do preconceito, porque assim, existe o pai, que ele, ele de certa forma ele, alguns pais eles até compreendem, outros não. Já tive problemas de pai chegar na escola, reclamar porque ele bateu no aluno, porque que escola coloca gente doido pra estudar na escola.” (ENTREVISTADA 6, Mãe de um adolescente de 15 anos)
A partir do relato da entrevistada 06, percebe-se que as informações sobre pessoas com deficiência não devem estar circunscritas só a professores, alunos ou funcionários da escola, os pais de família de pessoas com e sem deficiências também fazem parte da comunidade escolar, considera-se que é necessário que a sociedade em geral esteja preparada para a inclusão.
Atitudes preconceituosas podem estar presentes até nos profissionais que devem efetivar a inclusão escolar assim a entrevistada 09 indicou que a filha sofreu preconceito por parte do próprio professor.
“[...] na outra escola onde ela tava, todo dia quase, ela chegava chorando em casa, porque o professor falou isso, o professor falou aquilo. Já teve professor de sala de aula chegar chamar ela de burra, dentro de sala de aula na frente dos colegas.” (ENTREVISTADA 09, Mãe de uma jovem de 18 anos)
Estes dados corroboram, com o que Stella e Sequeira (2013) afirmam, o preconceito inclui o próprio professor, e muitas vezes ele como responsável pelo ensino acaba não só reproduzindo esse preconceito, mas também o disseminando. Isto nos leva a refletir sobre os direitos das pessoas com deficiência aparentemente, tais direitos se concretizaram mais na instituição de leis e normas, do que a sua efetivação na prática (Bray; Leonardo; Rossato, 2009).