APRESENTAçãO E DISCuSSãO DOS DADOS
3.1. Vivência no processo de RVCC
De acordo com Mezirow (1991) a aprendizagem dos adultos passa por: i) explicitar um determinado aspecto da relação que estabelece consigo próprio, com os outros, ou com o meio; ii) esquematizá-lo tendo por base o seu quadro de referência; iii) apropriá-lo, aceitando-o e integrando-o nos quadros de referência; iv) memorizá-lo; v) validá-lo; e vi) agir em conformidade, mudando a atitude e a forma de actuar. Este processo permite, desta forma, transformar a experiência assimilada numa experiência nova.
Considerando que o processo de RVCC possa ter sido um processo de aprendizagem com estas características, procurámos caracterizar a vivência no processo de RVCC de 356 adultos. Assim, no estudo alargado aos pais, recolhemos alguns elementos que nos permitiram analisar aspectos inerentes à frequência dos adultos neste processo.
Num primeiro momento, centrámo-nos sob aspectos que nos permitissem caracterizar o contexto em que decorreu este processo quanto ao tipo de estabelecimento onde os indivíduos realizaram o processo de RVCC e à duração do mesmo.
Figura 5: Estabelecimentos/Entidades dos Centros Novas Oportunidades onde os inquiridos realizaram os processos de RVCC
No que diz respeito ao tipo de estabelecimento/entidade onde foi realizado o processo de RVCC verificou-se que 34,94% dos inquiridos realizaram-no num Centro Novas Oportunidades sediado numa Escola Pública (Básica ou Secundária). Os restantes participantes inquiridos (65,07%) realizaram este processo noutro tipo de estabelecimentos.
Relativamente à duração do processo, os resultados indicaram que 57,22% dos inquiridos realizou o processo de RVCC até 6 meses e 42,77% realizaram em mais de 6 meses. É de evidenciar o facto de a maioria realizar este processo em muito pouco tempo.
Num segundo momento, procurámos saber como é que o processo de RVCC foi vivido e sentido por esses adultos, procurando saber qual a sua satisfação relativamente ao pro- cesso e se, voltando atrás, o voltariam a realizar novamente. Sabendo que o tempo decorrido após o processo de aprendizagem, tem influência na forma como o inquirido se reporta à vivência do mesmo, procurámos ainda verificar quanto tempo tinha passado desde a conclusão do processo até ao momento do preenchimento do questionário.
Assim, verificámos que mais de metade dos participantes (64,41%) tinha concluído o processo de RVCC há menos de 1
que ficaram satisfeitos e apenas um inquirido (0,3%) referiu que ficou pouco satisfeito com este processo. Esta satisfação sentida está bem expressa nos seguintes excertos recolhidos no estudo alargado aos pais:
“Estou muito satisfeita, valeu a pena investir.” (I*38)
“Porque no final a satisfação que eu senti foi muito grande.”
(I87)
“Foi de tal forma positivo que em seguida fiz com que a minha irmã fosse tirar o básico também.” (I218)
Quando questionados sobre se, voltando atrás, realizariam novamente o processo de RVCC, a quase totalidade da amostra respondeu afirmativamente (98,6%). Ainda sobre esta questão, procurámos saber os motivos pelos quais os inquiridos voltariam a realizar o processo de RVCC. As respostas dos inquiridos a esta questão foram objecto de análise de conteúdo, de acordo com a metodologia já explanada. Da análise dos dados, foi possível identificar seis grandes categorias: i) Satisfação atribuída; ii) Importância/Utilidade atribuída; iii) Processo de Outras instituições de ensino
Escola Profissional Instituições de desenvolvimento local Autarquias, Empresas Municipais e Associações... Centros de Formação Profissional do IEFP Outras entidades Empresas e Associações Empresariais Escola Pública (Básica ou Secundária)
0% 5% 10% 15% 20% 25% 30% 35% 5,7% 11,65% 34,94% 13,92% 12,22% 11,08% 8,24% 7,39%
seis categorias; destas, a que concentra o maior número de respostas dadas pelos adultos é a categoria “conhecimentos/ competências” (25,73%). Este resultado dá-nos a indicação que os adultos atribuem importância à aprendizagem e à obtenção de conhecimentos e que consideram que o processo de RVCC lhes permite manter os conhecimentos e competências adquiridos ao longo da vida, bem como aumentarem e melhorarem conhecimentos e competências, nomeadamente ao nível das novas tecnologias.
“Tive a possibilidade de aprender as novas tecnologias e alguns conhecimentos ao nível do Ensino Básico” (I7)
“Valeu a pena, aprendi e recordei muitas coisas” (I3)
“Para poder estar actualizado e ter mais alguma cultura e seguir o avanço das novas tecnologias” (I327)
Com menos ocorrências, mas não desprovidas de importância, surgem, por ordem decrescente, as categorias “satisfação atribuída” (18,89%), “importância/utilidade atribuída” (18,24%), “processo de escolarização” (13,68%), “valorização/realização” (11,41%), “profissão” (6,19%) e, por fim, “outras” (5,86%). Quanto a estes resultados, podemos inferir que os adultos inquiridos associam uma dimensão de satisfação a todo o processo de RVCC, onde se incluem os formadores, colegas e o modelo de aprendizagem.
“Gostei muito dos formadores, colegas e claro, o que aprendi!”
(I57)
“Para além de ter adquirido conhecimentos adorei o convívio de equipa.” (I77)
A importância/utilidade atribuída ao processo de RVCC é sentida pelos inquiridos tanto a nível pessoal, como familiar ou profissional. A nível pessoal, reflecte-se na possibilidade de uma nova oportunidade para investir nos estudos, com a mais-valia de aumentar os níveis de escolaridade e obter uma certificação.
“Porque acho que se torna útil para várias tarefas que nos surgem no dia-a-dia a nível profissional e familiar.” (I70)
“Porque [o processo de RVCC] contribuiu para melhorar o meu nível escolar.” (I231)
“Porque sem esse processo não teria o 9.º ano.” (I106)
Ao nível familiar, parece que o processo de RVCC permitiu a alguns pais sentirem-se mais aptos a ajudar os filhos no seu percurso escolar.
“Porque já ajudo a minha filha (…)” (I55)
No âmbito profissional, ingressar neste processo traduz-se numa maior realização e motivação profissional e numa maior oportunidade de progredir na carreira.
“Porque me deu a oportunidade de reconhecimento de todo o meu percurso profissional e das minhas experiências em diversas áreas de trabalho e a possibilidade de maior credibilidade no mercado de trabalho nos tempos actuais em que vivemos. Obrigada CRVCC.” (I144)
Deste modo, realizar o processo de RVCC parece ter permitido a estes adultos uma maior valorização e realização em várias esferas da sua vida.