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Você só pode trazer um problema de cada vez

No documento Sirlene de Fátima da Silva Dela Torre (páginas 62-65)

3 RESULTADOS

3.5 Você só pode trazer um problema de cada vez

Como vimos, a queixa principal registra o motivo pelo qual o paciente procura atendimento, ou seja, o problema principal que a leva ao médico. Podem existir outros problemas ou necessidades de saúde que ele não perceba, e outras que ele perceba. A perspectiva da integralidade implica a identificação no conjunto de queixas apresentadas pelo paciente e para problemas futuros. Sobre este ponto, destacamos alguns atendimentos realizados que nos chamou a atenção.

O atendimento destacado a seguir refere-se a uma mulher que veio até a unidade de saúde para realizar a coleta de preventivo de câncer de colo do útero agendado com a enfermeira, e ao perceber que a unidade estava vazia, perguntou à recepcionista se poderia consultar com o médico. Estávamos no consultório médico conversando com o médico sobre a pesquisa quando entrou no consultório a recepcionista e entregou uma ficha de consulta. O médico pediu para que chamássemos à paciente e solicitássemos autorização para observar seu atendimento. Saímos no corredor e a chamamos pelo nome que estava na ficha, ninguém respondeu. Só havia uma mulher sentada na frente do consultório quando perguntamos se era aquele seu nome; ela disse que não. Andamos até o final do corredor onde havia mais duas mulheres que também não tinham esse nome. A funcionária, ao ver que não encontrávamos a paciente, foi até o consultório retirou a ficha e disse que a ficha estava trocada, e foi até a recepção para pegar a ficha correta da paciente. Perguntamos à mulher que estava sentada na frente do consultório se iria consultar com o médico, ela disse que não sabia, e explicou que tinha vindo até a unidade para fazer uma coleta de preventivo com a enfermeira, mas ao ver a unidade vazia perguntou à recepcionista se tinha vaga de consulta, a recepcionista disse que sim, mas não lhe falou nada, pediu que aguardasse ali, e disse que estava esperando sem saber se iria ou não consultar. Com toda essa movimentação, uma auxiliar de enfermagem disse que, se a paciente fosse se consultar, precisaria se preparar, pesar, medir e verificar pressão arterial. A enfermeira veio ao corredor e disse que a paciente precisaria fazer primeiro a coleta de preventivo e depois a consulta. Em seguida a recepcionista entrou no consultório com a ficha da paciente e a chamou para ser atendida; conversamos com a paciente sobre nossa

pesquisa e ela nos autorizou a observar sua consulta. A paciente entrou no consultório sem realizar a pré-consulta e sem realizar o exame de preventivo.

AT. 8: A mulher entra no consultório com uma queixa de dor abdominal (em baixo ventre), e diz ao médico que veio até a UBS para fazer coleta de preventivo e aproveitou a oportunidade da unidade estar vazia e ter vaga para consultar com o ginecologista. O médico investiga outras queixas ginecológicas, como leucorreias, se essa dor é durante todo o mês ou somente próximo a menstruação. A paciente relata que mais acentuada durante o período de menstruação e diz ao médico que gostaria de engravidar, mas não está conseguindo, pois não está fazendo uso de nenhum método contraceptivo e não engravida. O médico diz: “o que você quer primeiro tratar esta dor ou tentar engravidar? O que está te incomodando mais? A dor? Ou o fato de não poder engravidar? A paciente diz: “os dois”. O médico sugere que ela agende o preventivo com ele, para que ele possa analisar e fazer inspeção do colo uterino da mulher. A mulher aceita a sugestão do médico e continua dizendo: “doutor às vezes quando fico muito nervosa, estressada eu tenho uma dor na bexiga, será que é emocional”? O médico diz: “e você toma algum remédio”? A paciente diz: “sim eu tomo e melhora”. Houve um silencio. A paciente relata ter cólica renal, o médico diz: “já procurou ajuda pra ver isso”? a paciente sorri e diz: “ainda não”. O médico encerra dizendo que vai passar um remédio para melhorar a dor e que a paciente agende o preventivo na recepção.

Vejamos que a mulher tinha duas queixas, dor abdominal em baixo ventre e o fato de não conseguir engravidar. Entretanto, o que chama a atenção é o profissional solicitar que ela fizesse uma escolha, e é curioso nesse momento que ela não faz tal escolha, o médico faz por ela – ou seja, ele só vai resolver a dor, quanto ao problema da gravidez, nada será feito nesse momento. E ainda com relação ao preventivo que ela mulher veio até a unidade para fazer, ela terá que agendar novamente outro dia para fazer o exame. Curiosamente, a mulher que tinha vindo até a unidade para fazer um exame de preventivo que já estava agendado, sai da unidade com seu exame reagendado.

Nota-se que a mulher, tendo colocado os dois problemas, só terá um problema enfocado pelo médico. Ela acrescenta, durante a conversa, mais informações, traz outro problema ao dizer que teria cólica renal, novamente o médico recusa o problema e indaga se ela já procurou ajuda, dando a entender que isso não seja um problema que ele possa resolver, o que parece ser compreendido pela mulher, num sorriso. Novamente a insistência da mulher pelo atendimento, querendo ser ouvida e atendida, ao dizer que tem outros problemas de saúde, como dor na bexiga quando fica nervosa, mas novamente o profissional se silencia diante de tais fatos, como se não fosse o momento para tal investigação. Esse diálogo deixa, em quem o ouve, a nítida impressão da centralização do atendimento – fora isso, outras questões apresentadas pela paciente são descartadas como não sendo foco do trabalho.

Gostaríamos de destacar que, durante a pesquisa, houve uma conversa de corredor, ocorrida na Unidade de Saúde 2, que sugeriu que esse tipo de prática é muito frequente nos

atendimentos. Enquanto esperávamos para entrar no consultório e acompanhar as consultas, iniciamos uma conversa com as mulheres que iriam ser atendidas.2

“... Onde você faz mestrado? Fala um pouco pra nós sobre esta sua pesquisa? O que você vai olhar?...” Então eu começo a dizer sobre os objetivos da pesquisa, sobre a observação que vou fazer no atendimento delas, que irei observar o relacionamento entre o profissional e a mulher, e também a questão da investigação de outros problemas que a mulher não apresenta no momento da consulta, falo rapidamente sobre os princípios do SUS e sobre a integralidade.

Uma das mulheres comenta: “... olha, aqui é assim, bom! a maioria dos médicos é assim, você só pode trazer um problema de cada vez, se você começa a falar outra coisa ele fala, tem que pegar outra ficha e consultar pra ver isso outro dia, hoje vamos resolver isso.” E as outras mulheres também confirmam esta colocação. (grifo nosso)

Essa mulher parece que tentou nos explicar, de forma resumida, como funcionam as coisas nessa unidade, dizendo que só se pode trazer um problema de cada vez, e que outro problema se resolve outro dia. A população parece perceber que existe tal conduta. Com isso, a fala da mulher é clara em afirmar que os médicos, ou a maioria deles, só querem resolver um problema de cada vez, uma só queixa de cada vez. Isso torna a escuta bastante seletiva, focada nas características iminentemente clínicas da doença ou do problema atual, mesmo em atendimentos nos quais há maior possibilidade de diálogo; quando as mulheres insistem pelo atendimento, percebe-se a seletividade deste. Tal relato nos faz refletir sobre a atuação dos profissionais de saúde na construção de práticas eficazes de integralidade, uma vez que tais profissionais trabalham no SUS, que tem como um dos princípios orientadores a integralidade na assistência à saúde. Nota-se, nesse cenário, que a integralidade surge na ausência de algo como expressão da insatisfação das maneiras como as práticas de saúde vêm sendo realizadas.

Sobre isso, Pinheiro (2007) apontam claramente, ao falarem sobre um dos eixos da integralidade – o eixo da operacionalização da política de saúde – que diz respeito ao modo de organização do processo de trabalho em saúde. Muitas vezes são desconsiderados os aspectos sociais, históricos e culturais dos usuários, havendo contradição entre os serviços ofertados e a real necessidade da população.

Cabe destacar, ainda, que a atitude dos profissionais nos leva a crer na desintegralidade do atendimento as mulheres, ao perceber que o atendimento não vai além da queixa principal, mostrando-nos um silenciamento a tudo o que é apresentado como queixa, dificuldade ou necessidade pela população. Isto não é ouvido, e ao não ouvir, os profissionais deixam de refletir sobre suas próprias ações na construção de práticas eficazes de integralidade.

2Este relato foi constituído a partir do diário de campo.

Sabemos que o cuidar do ser humano não se traduz apenas como um procedimento realizado, ou no auxílio da cura de uma doença. O cuidado humano é mais amplo e se revela como forma de expressão, de relacionamento com o outro. O diálogo se torna instrumento fundamental para diminuir o relacionamento que muitas vezes se torna distante entre paciente e profissional. Neste sentido, nos mostram Pinheiro (2007) que cuidar é uma ação integral, com significados e sentidos que compreendam a saúde como um direito de ser. É atender às pessoas em seu sofrimento com respeito e acolhida, sem perder de vista sua fragilidade, também social. Requer a aceitação do outro como sujeito, no sentido da construção da saúde como projeto de cidadania. O cuidado torna o mundo social seguro, pois aposta na comunicação e na solução dos problemas. É uma proposta ética que não se resume a regras ditas, mas num relacionamento sensível a perceber as necessidades do outro, sempre respeitando sua autonomia.

No documento Sirlene de Fátima da Silva Dela Torre (páginas 62-65)