Com os avanços das tecnologias e a aproximação e integração dos mercados, além da viabilidade na aquisição de produtos e serviços estrangeiros, a vulnerabilidade do consumidor se mostra mais evidente, e a proteção dessa parte mais fraca da relação de consumo tem propiciado grandes desafios aos Estados na efetivação da proteção do mais vulnerável. (MARQUES, 2011)
Eduardo Antônio Klausner (2015, p. 76 – 77), ao tratar da globalização como processo de natureza econômica e política mundial estabelece que tal fenômeno apresenta as seguintes características:
[...] (a) intenso comércio internacional assentado numa estrutura de produção pós- fordista, influenciado diretamente por poderosas empresas transnacionais e por organizações econômicas internacionais, financiado por um mercado financeiro internacional e interdependente; (b) relações político-econômicas entre os Estados de interdependência complexa; (c) formação de blocos comerciais regionais; (d) homogeneização de padrões culturais e de consumo; (e) intensificação do consumo transfronteiras (internacional), especialmente através de contratos eletrônicos e turísticos; (f) impacto do comércio e do consumo internacional sobre a ordem jurídica nacional, especialmente sobre aquela destinada a proteção do consumidor, suscitando novos problemas a exigir a necessidade de harmonização e uniformização de normas entre os diversos países e incremento na produção de novos instrumentos jurídicos de direito internacional público e privado para regulação desta nova realidade mundial.
Quando se refere ao processo de globalização, salienta Eduardo Antônio Klausner (2012, p. 71) que “o consumidor, como também resta evidente, é agente econômico, é beneficiário, e é vítima neste processo. É a parte fraca do capitalismo global, o qual está sujeito aos ditames da ordem de produção, do marketing, da cultura, e da Economia internacional”.
Portanto, globalização trouxe uma infinidade de benefícios ao consumidor, possibilitando à este a aquisição como destinatário final de bens e serviços além das suas fronteiras, além de disponibilizar um leque maior de opções. Contudo, a vulnerabilidade do consumidor aumenta no momento em que começa a lidar com fornecedores de Estados diversos do seu, pois estão sujeitos a ordenamentos jurídicos diferentes além de uma barreira linguística entre eles. (FREIRE, 2015)
Além desta barreira linguística e jurídica, o consumidor internacional enfrenta ainda a falta de informação, as diferenças nos costumes, as dificuldades relacionadas à garantia dos produtos e serviços adquiridos além da insegurança relacionadas à entrega e ao pagamento. Estas dificuldades intensificam-se quando envolvem consumidor leigo conforme bem salienta Cláudia Lima Marques (2011, p. 4) ao dispor que “a primeira das especificidades do consumo internacional é, pois, o desequilíbrio intrínseco informativo e de especialização entre os parceiros contratuais internacionais face ao status leigo e vulnerável do parceiro-consumidor.”
Ademais, o consumidor encontra dificuldades ao buscar o acesso à justiça por não saber qual a jurisdição competente, além de muitas vezes os gastos para requerer seus direitos se tornam maiores do que aqueles tidos na aquisição do bem ou serviço, desmotivando-se a buscar a justiça nas relações consumeristas. (FREIRE, 2015)
Cláudia Lima Marques (2011, p. 2) ao tratar da vulnerabilidade do consumidor internacional, expõe que:
Em teoria, o consumidor não deve ser prejudicado, seja sob o plano da segurança, da qualidade, da garantia ou do acesso à justiça somente porque adquire produto ou utiliza serviço proveniente de um outro pais ou fornecido por empresa com sede no exterior. Em teoria, o consumidor turista, o viajante, aquele que adquire produtos e serviços em outro país deve poder contar com uma proteção mínima aos seus interesses, assim como aquele que assistindo publicidade de fabricante localizado em outro país, resolve contratar a distância ou por meios eletrônicos.
A maioria dos países não possuem leis nacionais de proteção do consumidor quando trata-se do mercado transfronteiriço, e o desequilíbrio nestas relações de consumo é cada vez mais evidente, acentuando ainda mais a vulnerabilidade do consumidor quando este estiver diante de um fornecedor internacional. Isso se intensifica devido ao fato de que as normas nacionais de Direito Internacional Privado ser antiga e desatualizada, sendo que as únicas transformações vieram através das Conferências Interamericanas de Direito Internacional Privado (CIDIPs), formuladas no seio da OEA. (MARQUES, 2011)
Portanto, reconhece-se universalmente que existe no mercado uma desigualdade entre fornecedor e consumidor, da qual resulta uma vulnerabilidade em desfavor do consumidor. Assim, a proteção do pólo mais fraco justifica-se para que ocorra um reequilíbrio da relação jurídica mantida, além de uma proteção da população em geral, já que a atividade exercida pelos fornecedores pode repercutir sobre terceiros, e até mesmo sobre toda a sociedade, independente de sua relação direta na relação de consumo. (KLAUSNER, 2012)
Ramille Taguatinga Freire (2015, p. 19), em especial quando trata do consumidor internacional, expõe que podem ocorrer diferentes tipos de vulnerabilidade do consumidor, que pode ser:
[...] técnica (consumidor não tem conhecimentos técnicos sobre o bem ou serviço que está adquirindo), fática (desproporção fática de forças intelectuais e econômicas), jurídica ou científica (falta de conhecimentos jurídicos e científicos do consumidor sobre os elementos do produto, serviço ou do contrato com o consumidor), e ainda pode ser agravada de acordo com as condições pessoais da pessoa e pelas pulverizações das relações de consumo.
A proteção do consumidor mostra-se fundamental para o desenvolvimento político e econômico dos Estados, uma vez que, se um país obtiver um alto nível de proteção de seus consumidores, vai aumentar a qualidade de seus produtos, e consequentemente vai vender mais.
Da mesma forma, se um país proporciona mais proteção aos seus turistas, facilitando o seu acesso à justiça, vai estimular o turismo, gerando mais economia e desenvolvimento para seu país. (MARQUES, 2011)
Neste mesmo sentido, Eduardo Antônio Klausner (2012, p. 44) estabelece que:
Este homem, ao consumir, estimula a produção, a comercialização, a oferta de empregos e salários, e mais consumo. [...] o consumo possui um efeito acelerador do investimento, pois aumenta o investimento e a riqueza que, bem distribuída, proporciona melhoria das condições de vida das pessoas, meta última do Estado do Bem-Estar Social, e também das associações destes para a formação de mercados únicos, como, aliás, declaram a União Europeia e o Mercosul em seus tratados constitutivos.
Portanto, deve-se estimular o consumo internacional, e para isso, o consumidor precisa sentir-se protegido, saber que existem instrumentos processuais pertinentes, uma assistência judiciária capa, a custos acessíveis, tudo isso somado a uma efetiva proteção de Direito Material. (KLAUSNER, 2012)
Dessa forma, deve o Estado elaborar regras e jurisdições e adotar medidas capazes de assegurar ao consumidor uma situação de igualdade e equilíbrio na relação de consumo, evitando prejuízos e lesões injustas à este. Pois, no momento em que o consumidor sentir-se protegido pelo Estado, vai sentir-se mais seguro para estabelecer relações internacionais e atuar com mais confiança no mercado.
Apesar das normas já existentes que regulamentam a proteção do consumidor, especialmente no CDC, a legislação dos Estados ainda mostra-se insuficiente quando se trata do mercado interfronteiriço. Com a velocidade da modernização, não foi possível acompanhar as evoluções desse mercado impulsionado pela globalização e os avanços tecnológicos, portanto, não há um Direito Internacional específico do Consumidor.
Porém, atualmente, mesmo não havendo legislação própria, podem-se perceber os esforços dos Blocos Econômicos e dos Estados para alcançar a proteção dos consumidores no âmbito internacional no intuito de fortalecer ainda mais este mercado, como será abordado no capítulo seguinte.
2 O CONSUMIDOR INTERNACIONAL E A REGULAMENTAÇÃO JURÍDICA EXISTENTE
O ato de consumir sempre foi uma necessidade humana, visto que o homem não está apto a prover todo o necessário para a sua subsistência. Porém, a relação jurídica de consumo não tinha as características e nem a extensão que possui hoje, devido especialmente à globalização do consumo. (KLAUSNER, 2012)
Se antigamente a questão da proteção do consumidor era uma matéria de direito interno, com as relações consumistas ocorrendo dentro das suas fronteiras territoriais, na atualidade as relações jurídicas de consumo são diversas. A abertura dos mercados à produtos e serviços estrangeiros, com a facilidade de transportes, o turismo em massa, o desenvolvimento tecnológico, em especial com a difusão da internet de aplicativos de compras, entre outros fatores indicam que o consumo extrapola as fronteiras territoriais e atinge uma abrangência mundial. (MARQUES, 2011)
Essa nova ordem econômica mundial demonstra que a noção de Estado e de consumo anteriormente conhecidas estão defasadas, e não são mais suficientes para o pleno desenvolvimento dos países no plano econômico, político e social, à medida que a globalização intensificou o volume das interações econômicas impulsionando o mercado internacional e as relações interfronteiriças.
Dessa forma, denota-se uma mudança significativa na estrutura do mercado, que evidencia ainda mais as suas falhas e desmente essa falsa noção de “soberania” do consumidor no atual mercado de consumo. A realidade é que as normas internas de direito civil e de direito comercial não estão sendo eficazes na proteção do consumidor no mercado internacional, e a posição do consumidor está cada vez mais fragilizada e vulnerável, gerando um grande desequilíbrio nas relações de consumo. (MARQUES, 2011)
A necessidade de proteção do consumidor é algo percebido desde os primórdios e vem sendo cada vez mais relevante com o processo de globalização e o rumo que a sociedade de consumo vem tomando. Eduardo Antônio Klausner (2012, p. 75), ao tratar das origens da proteção do consumidor estabelece que:
Alguns autores identificam normas de proteção ao consumidor em ordenamentos da Antiguidade, como o Código de Hamurabi, o Código de Manu e também na Grécia clássica, identificando ainda tais normas na legislação medieval europeia e na legislação colonial brasileira.
Em 1891, nos Estados Unidos, fruto dos esforços de movimentos sindicalistas e consumeristas, surge a New York Consumer`s League, denominada atualmente de Consumer`s Union. Este instituto tinha como foco principal a conscientização dos consumidores sobre seus direitos, e foi um importante passo na efetivação do movimento consumerista. (NORAT, 2018)
Já em 1960, inicialmente constituída pela Austrália, Bélgica, Estados Unidos, Holanda e Reino Unido, surge a International Organiation of Consumers Unions - IOCU - com a finalidade de compartilhar conhecimentos e criar campanhas de proteção do consumidor. Atualmente é designada como Consumers International - CI -, e constitui-se em uma federação mundial de grupos de consumidores e atua em cento e quine países distribuídos por todos os continentes. Além disso, congrega mais de duzentas e vinte associações voltadas para a proteção do consumidor. O Brasil também é representado na CI por meio do Instituto Brasileiro de defesa do consumidor - IDEC - e pelo PROCON. (NORAT, 2018)
Um importante marco na proteção do consumidor foi a mensagem dirigida ao Congresso Estadunidense, em 1962 pelo então Presidente dos Estados Unidos da América, John Fritgerald Kennedy2. Nesta mensagem podem-se destacar importantes aspectos protetivos, como o direito
de consumir produtos seguros e saudáveis, o direito à informação e preços justos, além do direito à participação nos processos decisórios governamentais relacionados à qualidade dos produtos e serviços colocados no mercado de consumo. (KLAUSNER, 2012)
Preocupados com a questão da proteção do consumidor, em 1973, a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, em sua 29ª sessão, reconheceu a proteção do consumidor como princípio universal e direito fundamental do ser humano, que foi materializada em 1985 na Resolução da ONU de nº 39/248.
Esta Resolução da ONU foi o primeiro documento efetivo da proteção internacional do consumidor. Sua elaboração foi determinada pela Res. 1979/74 do Conselho Econômico e
Social da ONU, com a finalidade de criar padrões mínimos e adequados de consumo nos países integrantes da ONU. (SANTANA, 2015)
Na parte dos objetivos, a Resolução 248, além de tratar da vulnerabilidade do consumidor, trata também da proteção de bens jurídicos importantíssimos que merecem prioridade em sua proteção nas relações de consumo, são eles a proteção da vida, saúde e segurança do consumidor, além do direito que possuem os consumidores de um acesso a produtos inofensivos. (SANTANA, 2015)
Essa Resolução tinha por objetivo ajudar os países a alcançar uma proteção apropriada do consumidor, por intermédio de uma cooperação internacional, coibindo condutas antiéticas e abusivas por parte dos fornecedores e incentivando os Estados a desenvolverem legislações capazes de proporcionar a reparação dos danos sofridos pelos consumidores através de procedimentos rápidos e acessíveis. (KLAUSNER, 2012)
Uma importante forma de proteger o consumidor frente à globalização foi a união de determinados Estados em blocos econômicos regionais, que, na busca do fortalecimento do mercado internacional, buscaram se integrar de forma à facilitar a inserção internacional e buscar melhores condições de vida às pessoas, e de reduzir barreiras tarifárias, fomentando a economia por meio do favorecimento do comércio entre Estados partes.
Neste mesmo sentido, Octavio Ianni (apud KLAUSNER, 2012, p. 33) destaca a importância do processo de regionalismo para que os Estados consigam administrar o processo de globalização:
A globalização do capitalismo está sendo acompanhada da formação de vários sistemas econômicos regionais, nos quais as economias nacionais são integradas em todos os mais amplos, criando-se assim condições diferentes para a organização e o desenvolvimento das atividades produtivas. Em lugar de ser um obstáculo à globalização, a regionalização pode ser vista como um processo por meio do qual a globalização recria a nação, de modo a conformá-la à dinâmica da economia transnacional. [...] O regionalismo envolve a formação de sistemas econômicos que redesenham e integram economias nacionais, preparando-as para os impactos e as exigências ou as mudanças e os dinamismos do globalismo.
Portanto, esse processo de regionalização não significa uma resistência à globalização, mas sim, uma forma de controlá-la, de modo a adaptar os Estados partes neste novo cenário
mundial, buscando-se conter os excessos do capitalismo internacional, e proporcionar aos povos envolvidos maior bem-estar e segurança nas relações de consumo interfronteiriças.
Eduardo Antônio Klausner (2012, p. 82), ao tratar da proteção do consumidor nas áreas de integração econômica regional estabelece que:
A proteção do consumidor em áreas de integração econômica regional merece especial referência, pois tende sempre à uniformização de princípios, conceitos, definições, standards, e normas, no intuito de defender os consumidores, permitir o livre-comércio e evitar barreiras comerciais.
Desta forma, o processo de globalização vem sendo acompanhado por integrações econômicas de blocos regionais espalhados mundialmente, com intuitos de melhorar as condições populacionais socioeconômicas, além de proporcionar aos Estados partes uma maior interação e coordenação política, interligadas pela união de interesses políticos, econômicos e sociais na busca de mais vantagens no comércio internacional.
Entre eles pode-se citar a União Europeia, formada por vinte e oito Estados-membros europeus; o Mercosul, formado pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, com a Venezuela em processo de adesão; a Comunidade dos Estados Independentes (CEI); a Associação das Nações do Sudoeste Asiático (ASEAN); o North American Free Trade Association (NAFTA) que é integrado pelo Canadá, EUA, e México, entre outros blocos espalhados por todos os continentes.
No presente trabalho, o foco será a análise dos blocos regionais da União Europeia e do Mercosul, já que em matéria de proteção dos direitos dos consumidores foram os blocos que mostraram-se mais preocupados com o tema.