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Vulnerabilidade do litoral da Ilha Grande a eventos de tempestades

No documento Jaciele da Costa Abreu Gralato (páginas 113-138)

4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.4 Vulnerabilidade do litoral da Ilha Grande a eventos de tempestades

parecem ficar aprisionados na retaguarda da barreira arenosa, com exceção do canal localizado na área do perfil 3 (Figura 50), que secciona a faixa de areia da praia durante a ocorrência de fortes chuvas. Os sedimentos de fundo da Baía da Ilha Grande, na área adjacente ao litoral de Lopes Mendes, como já ressaltado, são constituídos basicamente por areias grossas (Figuras 66 e 67 - Mahiques, 1987; Medeiros & Dias, 2005), contrastando com a areia fina da praia (Figuras 69, 72 e 75). Uma outra hipótese a ser considerada é que essas areias finas podem ter sido originadas a partir da erosão de antigas dunas formadas em uma planície costeira mais larga e sob condição de nível do mar mais baixo que o atual.

Figura 78 – Planície costeira e sistemas de drenagem no litoral de Lopes Mendes

Fonte: IBGE, 1974, f. SF-23-Z-C-II-2, escala 1:50.000.

4.4 Vulnerabilidade do litoral da Ilha Grande a eventos de tempestades

O monitoramento da dinâmica morfológica e sedimentar das praias na borda oriental da Ilha Grande possibilitou o conhecimento da vulnerabilidade destas aos eventos de tempestade.

A praia de Abraão apresentou baixa dinâmica e uma vulnerabilidade à incidência das ondas de tempestade ligeiramente distinta entre as áreas monitoradas. O perfil 1 (setor noroeste - Figuras 4 e 18A) está abrigado e, consequentemente, protegido das ondas de tempestade.

Diferentemente, o perfil 2 (Figuras 32, 33 e 34) apresentou uma baixa vulnerabilidade (Figura 79), provavelmente devido a proteção exercida pelas Ilhas Macedo, que interceptam boa parte das ondas que chegam ao trecho do litoral correspondente ao perfil 1 (Figura 4). O perfil 2 (setor sudeste - Figuras 4 e 18A) apresentou - se exposto à incidência de ondas de tempestade, o que representa um risco para o tráfego de embarcações que é intenso neste setor (com embarque e desembarque pelo píer), para o funcionamento dos restaurantes localizados muito próximo ou mesmo dentro do pós-praia, entre outros (Figura 79).

A praia de Pouso (Figuras 5 e 18B) apresentou uma dinâmica moderada e mostrou-se vulnerável a incidência das ondas de tempestade, mesmo estando abrigada entre promontórios rochosos e voltada para o continente (Figura 79). Este resultado, corrobora o trabalho de Godoi et al. (2011), que apontam para a entrada de ondas de alta energia na Enseada de Palmas, com base em um simulador de propagação de ondas (Figura 31). A faixa emersa de areia da praia que se manteve sempre estreita, durante o decorrer desta pesquisa, desapareceu totalmente no monitoramento realizado no verão de 2015 (Figura 28), em resposta à incidência de ondas de tempestade (Figuras 36 e 37). As ressacas, neste caso, representam uma ameaça às atividades náuticas realizadas nesta praia (Figura 79), que funciona como entreposto para o acesso à praia de Lopes Mendes. Embarcações de pequeno e médio porte realizam o transporte diário de algumas centenas e/ou milhares de pessoas entre a Vila de Abraão e a Enseada de Palmas.

Durante a ocorrência de ressacas foram observadas ondas de tempestade com altura superior a 5 metros ao longo do trajeto.

O litoral de Dois Rios apresentou um comportamento e uma vulnerabilidade à incidência de ondas de tempestade distinta ao longo do arco praial (Figura 79). O perfil 1, no setor sul (Figuras 6B e C e 18C) apresentou-se menos vulnerável, quando comparado ao perfil 2 mais ao norte (Figura 6B e 18C). A menor vulnerabilidade às ondas de tempestade no setor sul de Dois Rios se deve a proteção exercida pelo costão (Figura 6C), que impede que parte das ondas de tempestade vindas dos quadrantes sul e sudoeste atinjam diretamente este trecho do litoral. No entanto, ondas de tempestade podem atingir este trecho da praia e inundar áreas localizadas na retaguarda deste ambiente, oferecendo risco para as instalações do CEADS (o que já ocorreu anteriormente, conforme relatado por alguns funcionários). A presença de uma discreta escarpa de tempestade com concomitante evidência de ação destrutiva sobre a vegetação rasteira foi observada no monitoramento de inverno de 2015 em toda a extensão da praia (Figura 40). O

Fonte: A autora, 2016.

perfil 2, mais ao norte, (Figura 6B e 18C) é mais dinâmico e vulnerável a incidência de ondas de tempestade (Figura 79). Este setor da praia sofreu as maiores variações morfológicas (Figuras 39, 41, 42, 43), devido à sua localização (próximo ao meio do arco praial) e a consequente exposição a incidência direta de ondas vindas de várias direções.

O litoral de Lopes Mendes é o mais dinâmico e também o mais vulnerável a incidência de ondas de tempestade dentre as praias estudadas (Figura 79). Os mais de 2 quilômetros de extensão do arco praial de Lopes Mendes estão vulneráveis a incidência direta de ondas de tempestade que podem apresentar altura superior a 3 m na arrebentação. No limite interno da praia, a presença de uma escarpa de tempestade e a exposição de raízes e árvores tombadas (Figura 50 e 80), expõe a fragilidade desta praia às ressacas e à erosão costeira (Figura 79). As áreas dos perfis 1 e 2 (Figuras 7C e 18D) são mais dinâmicas e se mostraram mais vulneráveis a incidência de ondas de tempestade, com destaque para o meio do arco praial (perfil 2) devido a largura reduzida da faixa de areia emersa, quando comparado aos demais perfis (1 e 3). A existência de um pós-praia estreito, a exposição de raízes ou a remoção da vegetação de restinga são apontados em diversos estudos como indicadores de erosão costeira (SOUZA, 2009;

SOUZA e LUNA, 2009). O perfil 3 (Figuras 7B e 18D) foi considerado o menos dinâmico de Lopes Mendes e também o menos vulnerável a incidência de ondas de tempestade (Figura 79).

A dinâmica fluvial atua de forma eficaz neste trecho da praia (através da migração do canal fluvial), e parece ser responsável pela exposição de raízes e derrubada de árvores no limite interno do pós-praia, causando uma intensa remoção e deposição de sedimentos neste trecho do litoral (Figura 50).

Sendo assim, as praias do litoral oriental da Ilha Grande apresentaram diferentes níveis de exposição aos eventos de tempestade relacionados a sua localização e orientação. As praias de Abraão e Pouso voltadas para o continente apresentaram vulnerabilidade baixa e moderada, respectivamente, frente a incidência de ondas de tempestade (Figura 79). Nessas áreas, o tráfego de embarcações é intenso, devido a sua ampla utilização nas atividades ligadas ao turismo na ilha, o que aumenta o risco de acidentes durante a ocorrência de ressacas. Essas embarcações, juntamente com o lançamento de esgoto in natura, são responsáveis pela degradação dos ecossistemas presentes neste trecho da Ilha Grande. Já as praias de Dois Rios e Lopes Mendes, voltadas para o oceano, apresentaram níveis diferenciados de vulnerabilidade a ação das ondas de tempestade (Figura 79). A praia de Lopes Mendes foi a que apresentou maior exposição e vulnerabilidade à incidência de ondas de tempestade, e risco à erosão costeira (Figura 79). As tempestades de maior magnitude promovem rápidas mudanças na morfologia desta praia, alcançam o limite interno do póspraia e removem grande quantidade de sedimentos, removendo

a vegetação rasteira, expondo as raízes das árvores e, eventualmente, derrubando algumas delas (Figura 80). Portanto, como ressaltado anteriormente em diversos momentos, os impactos e danos causados pelas ondas de tempestade nas praias estudadas tendem a ser mais intensos: (1) nas áreas de maior exposição à incidência direta de ondas de tempestade, com destaque para o setor nordeste de Dois Rios, e o meio do arco e o setor noroeste de Lopes Mendes; e (2) nas áreas com tráfego intenso de embarcações, como em toda a extensão da praia de Pouso e no setor sudeste de Abraão (Figura 79).

Figura 80 - Efeitos das ondas de tempestades na praia de Lopes Mendes

Legenda: (A) Árvores tombadas. (B) Exposição de raízes junto ao limite interno da praia.

Fonte: SILVA, 2014-2015.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As praias da Ilha Grande apresentam características geográficas e geomorfológicas bem distintas. Elas podem variar de centenas de metros (predominam pequenas praias encaixadas entre os costões - pocket beaches) como é o caso da praia de Pouso, até alguns quilômetros, como a praia de Lopes Mendes. Essas praias apresentam diferentes níveis de exposição à incidência de ondas e aos eventos de tempestades, dependendo da localização e orientação das mesmas. As condições de mar no litoral da Ilha Grande mudam rapidamente em resposta a passagem eventual de frentes frias provenientes do sul do país, causando grandes agitações na superfície oceânica com a aproximação de ondas de tempestade.

As praias abrigadas localizadas na borda da Ilha Grande voltadas para o continente, como é o caso de Abraão e Pouso, apresentaram no decorrer de 2 anos de monitoramento uma variabilidade topográfica baixa a moderada e, consequentemente, uma menor dinâmica em comparação com as praias voltadas para o oceano. Porém, mostraram-se vulneráveis a incidência de ondas de tempestade, com destaque para o setor sudeste de Abraão (perfil 2) e Pouso. Durante a ocorrência de ressacas as ondulações tendem a alcançar inclusive aquelas áreas normalmente mais abrigadas da ação das ondas, podendo oferecer riscos para a navegação e causar danos nas estruturas costeiras. Nessas áreas, o tráfego de embarcações de pequeno e médio porte é intenso, devido a sua ampla utilização nas atividades ligadas ao turismo na Ilha Grande, o que aumenta o risco para a navegação durante a ocorrência de ressacas. Essas embarcações, juntamente com o lançamento de esgoto sem tratamento, são diretamente responsáveis pela degradação dos ecossistemas presentes neste trecho da Ilha Grande.

No litoral voltado para o oceano, as ondas de tempestade alcançam 3 m de altura ou mais na arrebentação, como observado no inverno de 2014 em Lopes Mendes. Essas ondas promovem rápidas mudanças na morfologia praial, alcançam o limite interno da praia e removem sedimentos, expondo as raízes das árvores e, eventualmente, derrubando algumas delas. Esta praia também foi a que apresentou maior dinâmica morfológica e sedimentar. Ela apresenta forte corrente de deriva litorânea para oeste no meio do arco praial, formando extensos canais na face de praia. A presença de canais perpendiculares em toda a extensão da praia evidencia a presença de vigorosas correntes de retorno.

Os resultados indicam uma dinâmica sedimentar caracterizada pela grande mobilidade de sedimentos entre a parte emersa e submersa e, no caso específico de Lopes Mendes e Dois Rios, ao longo das mesmas em resposta a ação da corrente de deriva litorânea e rápidas mudanças na morfologia praial. A textura dos sedimentos varia bastante entre as praias estudadas, com o predomínio de areia quartzosa fina a muito fina, subangular a subarredondada, nas praias oceânicas de Dois Rios e Lopes Mendes; e areia média, grossa a muito grossa, subangular, nas

praias de Abraão e Pouso voltadas para o continente. O aporte sedimentar fluvial é expressivo para a maioria das praias da Ilha Grande. Os riachos e pequenos canais presentes na Ilha Grande são alimentados por um regime de chuvas tropicais concentradas nos meses de verão, com pluviosidade anual geralmente acima de 2000 mm, e chuvas extremas com totais acima de 200 mm em apenas 24h (SALGADO et al., 2007). As variações granulométricas observadas nas areias das praias são uma resposta as condições hidrodinâmicas relacionadas a influência dos processos costeiros e fluvial em cada ambiente e ao papel das áreas fonte (pequenos rios e plataforma continental interna).

As praias da Ilha Grande são praticamente desconhecidas no tocante a geomorfologia. O conhecimento das características físicas destas praias é fundamental para a compreensão da dinâmica costeira e, consequentemente, da vulnerabilidade aos eventos de tempestades e riscos de erosão neste litoral. O forte crescimento das atividades ligadas ao turismo na Ilha Grande, com um número cada vez maior de embarcações transportando turistas entre o continente e a ilha, assim como, da Vila de Abraão em direção às principais praias e ilhas da região, a construção de obras de engenharia dentro dos limites da praia (no caso de Abraão), o descarte inadequado e precário de resíduos sólidos e esgoto, representam um risco crescente para os diversos ecossistemas costeiros e comprometem a biodiversidade e a geodiversidade deste magnífico ambiente. Esta situação é preocupante e reforça a necessidade de realização de estudos voltados para o monitoramento permanente de médio e longo prazo das atividades desenvolvidas na Ilha Grande, com especial atenção para aquelas que representam intervenções diretas nas praias, sobretudo por se tratarem de ambientes dinâmicos e vulneráveis às

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