SOBRE A VIOLÊNCIA 1 Conceituando violência
4. Vulnerabilidade e risco
Em sentido amplo, vulnerabilidade é entendida como a condição em que uma pessoa se encontra e a situações de insegurança, perigo, insatisfação, dependência33, isto é, alguém é vulnerável a algo e/ou lugar.
32 No Código Penal,
“maus-tratos” estão definidos como “expor a perigo a vida ou a saúde de pessoa sob sua autoridade, guarda ou vigilância, para fim de educação, ensino, tratamento ou custódia, quer privando-a de alimentação ou cuidados indispensáveis, quer sujeitando-a a trabalho excessivo ou inadequado, quer abusando de meios de correção ou disciplina” (ART. 136 – CÓDIGO PENAL). No Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90), a descrição se assemelha ao Código Penal, criminalizando a conduta de “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou constrangimento” (ART. 232 – ECA, 1990), estabelecendo a obrigatoriedade de comunicação nos casos de suspeita ou confirmação do ato ao Conselho Tutelar. Em 2001, o Ministério de Saúde publicou a Portaria nº 1968/2001, em consonância com a Política Nacional de Redução da Morbimortalidade por Acidentes e Violência, reforçando a obrigatoriedade da notificação às autoridades competentes de casos de suspeita ou de confirmação de maus-tratos atendidos nos serviços do Sistema Único de Saúde, por meio da Ficha de Notificação, que define maus-tratos, como “atos de ação (físicos, psicológicas e sexuais) ou de omissão (negligência) praticados contra a criança/ adolescente, sendo capazes de causar danos físicos, sexuais e/ou emocionais. Esses maus-tratos podem ocorrer isoladamente, embora frequentemente estejam associados” (BRASIL, 2001). No Estatuto do Idoso a definição de maus-tratos ganha abrangência, utilizando palavras que carregam maior subjetividade, como “expor a perigo a integridade e a saúde, física ou psíquica, do idoso, submetendo-o a condições desumanas ou degradantes ou privando-o de alimentos e cuidados indispensáveis, quando obrigado a fazê-lo, ou sujeitando-o a trabalho excessivo ou inadequado” (ART. 99 – ESTATUTO DO IDOSO).
33A música de Lenine,
“Ninguém faz ideia”, retrata que todas as pessoas estão no mundo e em algum momento são vulneráveis, pois “ninguém faz ideia de quem vem lá! [...] os duros, os desclassificados, a vanguarda e quem fica pra trás, os dorme-sujos, os emergentes, os
40 Diariamente, qualquer indivíduo expõe-se a questões vulneráveis ou de risco, mas o que diferencia são ações e recursos disponíveis para cada um. Uma ameaça não representará, implicitamente, o mesmo risco para diferentes indivíduos, a depender do local, horário, diferenças de gênero, idade, condição social etc., aspectos condicionados a questões intrínsecas34
e extrínsecas35.
As exposições são de origens diversas, como enchentes, desempregos ou quando o Estado isenta ou precariza as condições de vida da coletividade. Almeida apresenta a condição de vulnerabilidade como suscetível
a um dano e proveniente da interação entre contexto social (lócus, relações sociais, suporte social), cultural (crenças, estereótipos) e características pessoais (temperamento, fatores biológicos e cognitivos)”. Enquanto risco como “um processo dinâmico e processual, definido como a possibilidade de um dano em qualquer das diversas dimensões do ser humano que o percebe como ameaça”. (2011, p. 174)
Para a autora, quanto maior a vulnerabilidade maior a possibilidade do dano em um ambiente de alto risco e, consequentemente, quanto menor a vulnerabilidade em um ambiente de baixo risco, menor possibilidade de dano. Esclarece que a vulnerabilidade e o risco são variáveis inter- relacionadas; quando manifestado o dano, deve-se considerar a capacidade de enfrentamento e as defesas desenvolvidas.
A autora discorre sobre o dano praticado pelo Estado que não consegue proporcionar cidadania e condições aceitáveis de vida a uma parcela expressiva da população; refere-se a Ward, que propõe a definição de “state harm” como dano aplicado pelas práticas estatais que resultam em vitimização por parte do Estado, frustrando as exigências ou os interesses básicos de bem-estar. A ineficiência do Estado em assegurar interesses individuais ou coletivos acaba agindo como causador de dano (ALMEIDA, 2011).
espiões industriais [...] Os que catam restos de feira, milicos piratas da rede, crianças excepcionais, os exilados, os executivos, os clones e os originais”.
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Não possui defesa ou carências para se opor aos danos.
41 No campo das ciências sociais, vulnerabilidade está relacionada ao “cerceamento de bens da cidadania”; cerceamento articulado à maior exposição de danos ou menor facilidade de lidar com as situações adversas. Abramovay et.al. (2002) discorrem que a conceituação de vulnerabilidade perpassa diversas unidades de análise - indivíduos, domicílios e comunidade - e identificação dos cenários e contextos, pois os eventos que vulnerabilizam as pessoas possuem vários determinantes, de natureza econômica, social ou cultural, como fragilidade dos vínculos afetivo-relacionais; pertencimento social (discriminações etárias, étnicas, de gênero ou por deficiência), sendo a renda apenas um elemento vulnerável, associados a outras circunstâncias, como capacidade de agir, grau de resiliência36, idade, sexo, raça/etnia, orientação sexual e outras.
Para Abramovay (2002), a vulnerabilidade social é definida como situação em que os recursos e habilidades de um dado grupo social são insuficientes e inadequados para lidar com as oportunidades oferecidas pela sociedade. Essas oportunidades constituem uma forma de ascender a maiores níveis de bem-estar ou diminuir probabilidades de deterioração das condições de vida de determinados atores sociais. Vulnerabilidade social não pode ser reduzida às questões de pobreza ou de populações carenciadas.
Para a Política Nacional de Assistência Social – PNAS/2004, o conceito de vulnerabilidade social definido na Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social NOB/SUAS, pela Resolução nº 130, de 15 de julho de 2005, abrange as seguintes variáveis:
Famílias que residem em domicílio com serviços de infraestrutura inadequados. Trata-se dos domicílios particulares permanentes com abastecimento de água proveniente de poço ou nascente ou outra forma, sem banheiro e sanitário ou com escoadouro ligado à fossa rudimentar, vala, rio, lago, mar ou outra forma e lixo queimado,
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Capacidade humana de se recuperar e se superar, ou ser imune psicologicamente quando é submetido à violência de outros seres humanos ou a estresses das catástrofes da natureza. Ser resiliente é o resultado do conhecimento dos riscos, de sua intensidade e duração, e dos fatores de proteção que o sujeito descobre dentro de si, na família e no ambiente. file:///C:/Users/Sonia/Downloads/46-175-1-PB.pdf
42 enterrado ou jogado em terreno baldio ou logradouro, em rio, lago ou mar ou outro destino e mais de dois moradores por dormitório;
Família com renda familiar per capita inferior a um quarto de salário mínimo;
Família com renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo, com pessoas de 0 a 14 anos e responsável com menos de 4 anos de estudo;
Família na qual há uma chefe mulher, sem cônjuge, com filhos menores de 15 anos e ser analfabeta;
Família na qual há uma pessoa com 16 anos ou mais, desocupada (procurando trabalho) com 4 ou menos anos de estudo;
Família na qual há uma pessoa com 10 a 15 anos que trabalhe; Família na qual há uma pessoa com 4 a 14 anos que não estude; Família com renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo,
com pessoas de 60 anos ou mais;
Família com renda familiar per capita inferior a meio salário mínimo, com uma pessoa com deficiência.
Na política de assistência social a situação de vulnerabilidade social não está atrelada somente à renda, mas aos meios de acesso às políticas públicas e sociais, ao grau de escolaridade, às condições de moradia, à compreensão sobre cidadania, ao estado de saúde física e mental.
A fase da velhice não deixa de ser condição de vulnerabilidade, pois a idade acarreta perdas funcionais no indivíduo e torna essencial adequação no estilo de vida e novas formas de relacionamento com o meio. A vulnerabilidade fica suscetível ao contexto econômico, social, cultural e às características pessoais e familiares. Um indivíduo aos 40 anos, desempregado, é vulnerável pela idade e perda de renda; o mesmo pode acontecer com um adolescente à procura de trabalho e sem experiência profissional.
O desafio para a pessoa em idade avançada ocorre pela indiferença em relação aos direitos dos mais vulneráveis, cuja violação decorre, sobretudo, da ignorância da existência desses mesmos direitos, não só da parte deles, como daqueles que são responsáveis.
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