Não é verdade, como de hábito se ouve afirmar, que o público faz baixar o nível da arte; é o artista que rebaixa o público, e em todas as épocas em que a arte decaiu, ela declinou por causa dos artistas39.
Seria demasiado pretencioso discutir a relação entre Wagner e Nietzsche em um subcapítulo, porém seria menos correto se não abordássemos alguns pontos dessa amizade, pois a afinidade até um determinado período foi suficiente para que ambos discorressem sobre diversos temas, entre eles: a cultura da arte, da música, dos mitos, dos próprios alemães, entre outros. A discussão pode ser muito bem dividida quando unimos em um texto este dois nomes, há quem defenda a apropriação de Nietzsche em algumas teorias de Wagner, porém também existem aqueles que pensam o contrário. É inegável que ambos beberam desta aproximação para a produção intelectual de cada um, talvez possamos comparar a venerável admiração que Nietzsche sentia por Wagner, com a admiração que Wagner tinha por Schopenhauer. Vejamos o momento em que Nietzsche confessa ter se tornado um wagneriano.
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WAENY, Wagner e o Drama (Ensaios). p.12.
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A partir do momento que havia um excerto para piano de Tristan – meu elogio ao Herr von Bülow! – eu fui um wagneriano. Eu vi os trabalhos mais antigos de Wagner abaixo de mim – ainda muito indecente, muito “alemão”... Mas procuro ainda hoje uma obra perigosa de igual fascinação, de uma infinidade doce e horripilante, como é Tristan, – em vão eu procuro em todas as artes. Toda a estranheza de Leonardo da Vinci desencantou-se perto dos primeiros sons de Tristan. Esta obra de Wagner é absolutamente non plus ultra; ele recuperou-se de seu Meistersingern e do Ring.40.
Segundo sua irmã Elizabeth Förster, essa admiração começou no Outono de 1860, quando Nietzsche juntamente com dois amigos, Wilhelm Pindar e Gustav Krug formaram uma sociedade intitulada Germania41. Mas, o que nos interessa abordar sobre a filosofia de Nietzsche a teoria de Wagner? Primeiramente, a ideia de que a Alemanha necessitava de descobrir sua origem sócio-político e estético a partir de uma nova arte. Para Wagner, seria através da apropriação e alteração dos mitos anglo-saxões em seus dramas musicais e, segundo Nietzsche, a arte da tragédia grega reformulada e modificada sem perder a essência cultural para os seus dias atuais. Por esta razão, Nietzsche via na obra de Wagner, a possibilidade de reviver na cultura alemã, não uma cópia da tragédia grega, mas o cerne nos moldes desta cultura.
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NIETZSCHE, Ecce homo In: KSA – Band 6. pp. 289-290.
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De acordo com Elizabeth Förster “O objetivo dessa sociedade, como indicado na sua constituição, consistia na aquisição de um largo conhecimento das artes e das ciências, e um dos primeiros passos foi subscrever o Zeitschrift für Musik – a única publicação musical existente ao tempo na Alemanha que tinha defendido ativamente a causa de Richard Wagner e as suas obras. Contribuindo com o seu modesto dinheiro de bolso para um fundo comum, os três entusiastas wagnerianos conseguiram comprar o arranjo para piano de Tristão e Isolda”. (FÖRSTER, Nietzsche correspondência com Wagner. p. 15). Em outra citação de Förster é possível comprovar indiretamente a importância da sonoridade harmônica que Wagner construiu em Tristan und Isolde, pois Fritz e Gustav não conseguiam fazer com que a melodia sobressaísse da harmonia. Quando analisamos a partitura de Tristan und Isolde fica visível a dificuldade, principalmente se for uma redução para piano, já que na orquestra, os vários timbres dos instrumentos facilitam a identificação de cada linha sonora tocada. “Foi em nossa casa que os três amigos se encontraram para estudar a música de Tristão e Isolda, pois a arte de Wagner encontrava viva oposição nas casas de Pindar e de Krug. E devo confessar que, ao princípio, a música soava medonha tocada por Fritz e Gustav; aparentemente, não compreenderam como fazer a melodia sobressair do rico fundo harmônico e a nossa boa mãe, pouco disposta como era a interferir com o divertimento de meu irmão, admitia francamente que não sentia prazer com esse «ruído horrível», como ela lhe chamava. Eu própria não conseguia sentir qualquer entusiasmo a esse respeito, inicialmente, mas os rapazes persistiam nos seus esforços até terem conseguido realçar tão bem o efeito das trompas de caça na abertura do segundo ato que eu me senti completamente subjugada pela música. – Qualquer pessoa tem de ser arrebatada por ela, – declarou meu irmão”. (FÖRSTER, Nietzsche correspondência com Wagner. p. 17).
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Uma questão que pode ser posta em evidência para a discussão sobre os rumos diferentes tomados por Nietzsche e Wagner se dá justamente pela arte, enquanto Nietzsche a entende como filósofo, Wagner preocupasse com o seu lado artístico além da questão cultural que deseja alcançar na Alemanha. Já apresentamos no subcapítulo anterior como Wagner pensou o drama. Agora, veremos a posição de Nietzsche sobre o mesmo tema. Primeira grande diferença: enquanto que para Wagner drama é Handlung, para Nietzsche, se pudéssemos designar drama em apenas uma palavra, de acordo com o filósofo, esta palavra seria coro42. O coro trágico é a essência de toda a tragédia grega, é como se fosse a música no drama wagneriano, isto é, a sustentação de todo o drama, “diz Richard Wagner, que ela43
, pela música é levantada como o brilho da lâmpada pela luz do dia”44. Sobre viver a essência do drama como cultura, ambos pensavam iguais, pelo menos no início Wagner pensava da mesma forma que Nietzsche sobre este ponto. “Para o poeta antigo o coro era igualmente importante, como os poetas trágicos
franceses realizavam com as pessoas, ambos os lados da cena tinha os seus acentos e o palco transformava até certo ponto, em uma antecâmara principesca45”.
Uma observação de Nietzsche sobre a música na tragédia é relevante para discutirmos o drama wagneriano, assim como um dos processos e motivos pelo qual a
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No fragmento 1[56] de 1869, Nietzsche escreve: “ A ação (Handlung) aconteceu na tragédia primeiramente no diálogo. Isto mostra, como neste gênero de arte, desde o início não foi além do δρᾶν: mas para o πάθος [...] Os ciclos do canto para o coro com a união da narrativa: esta é a origem do drama
grego”. E no fragmento 3 [2] de 1869, discorre: “O drama grego é em seus primórdios um ciclo de canção para coro com a união da narrativa [...] O drama musical grego é a fase preliminar da música absoluta”. Mais tarde em uma carta de 1889, sobre Der Fall Wagner (A Caso Wagner), Nietzsche irá afirmar que Wagner cometeu um grande erro quando traduziu a palavra drama como Handlung. Portanto, é possível observar a diferença na interpretação nietzschiana e wagneriana sobre o drama musical grego. Enquanto que para Wagner o drama é Handlung, para Nietzsche, drama é Pathos, e, somente o coro é capaz de criar este efeito, este afeto, uma vez que o coro representa o povo, ou seja, o coro é o povo.
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Nietzsche se refere à interpretação que Wagner realiza sobre a tragédia. Porém o filósofo discorre sobre o coro trágico com mais propriedade do que quando Wagner discorre sobre o mesmo tema, “eu acredito que o homem da cultura grega em face do coro satírico sentiu-se suspenso (aufgehogen): e este é o próximo efeito da tragédia dionisíaca, que o Estado e a sociedade, sobretudo, as diferenças entre um homem e outro homem que no coração da natureza retorna”. (NIETZSCHE, Die Geburt der Tragödie. In:
KSA – Band 1. p. 56).
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NIETZSCHE, Die Geburt der Tragödie. In: KSA – Band 1. pp. 55-56.
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ópera teve uma receptividade exponencial. No caso, me refiro á harmonia, ou seja, o desenvolvimento da harmonia ao longo da história da música. Se a “música originalmente grega é inteiramente música vocal: o ligamento natural da palavra e a língua dos sons ainda não tinham sido rompidos: e isto até tal grau que o poeta era necessariamente também o compositor de sua canção46”. Logo, a música grega instrumental neste período não era de uma sonoridade suficientemente rica para fazer com que o expectador dispersasse. A música instrumental, em outras palavras, era uma música pobre, pois o canto necessariamente devia ser evidenciado pelo espectador através da grande música que era o coro.
A afirmação da vida que Nietzsche observou nas tragédias gregas foi a representação do coro nos festivais trágicos. Os gregos afirmavam sua vida, suas dores e alegrias nestes mesmos festivais, pois era preciso suportar a vida através de máscaras, ilusões e toda a representação trágica que abarcava todos os envolventes e envolvidos dos festivais. Era através da arte que a vida se renovava a cada primavera, o jogo da arte era o meio de tornar a vida possível e desejável. Através de uma citação de Nietzsche em Die Geburt der Tragödie (O nascimento da tragédia) é possível realizar uma interpretação nietzschiana sobre o homem grego, a saber, que este supera todos os horrores de sua existência, assim como as questões mais difíceis de sua vida através da arte. Neste mesmo pensamento nietzschiano podemos relacionar a necessidade do filósofo e também do compositor Wagner sobre o povo alemão. pois ambos percebem que a Alemanha estava praticamente dissolvida em termos culturais, por isso que Wagner buscou a unificação através da arte e Nietzsche a unidade através do consolo
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metafísico47, isto é, a vida que o coro sustenta independente da mudança de qualquer que seja o povo, desde que este viva plenamente sua cultura cantada pelo coro satírico.
Com este coro consola-se o Heleno profundo, único capaz do mais tenro e pesado sofrimento, com visão cortante no terrível impulso aniquilador denominado história do mundo, exatamente como viu a crueldade da natureza e está em perigo de anseio por uma negação budista do querer. Salva-lhe a arte, e através da arte salva-lhe – a vida48.
E sobre o drama wagneriano escreve:
Se agora, em tal humanidade ferida soa a música de nossos mestres alemães, o que realmente soa? Precisamente a sensação autêntica, o inimigo de toda a convenção, todo o estranhamento artificial e a incompreensão entre homem e homem: esta música é o retorno à natureza, enquanto, ao mesmo tempo ela é a purificação e a transformação da natureza; pois da alma dos seres humanos mais amáveis surgiu à necessidade desse retorno e em sua arte ressoou o
amor transformado em natureza49.
No início da amizade e da admiração de Nietzsche por Wagner, não há motivos para negar a esperança nietzschiana no drama wagneriano, pois era naquele momento o acontecimento mítico que estava se moldando. Nietzsche via a fórmula dionisíaca e o consolo metafísico, com isso o drama wagneriano poderia moldar o povo alemão não para um mundo metafísico, mas um mundo de arte através da unidade. O povo alemão seria o coro que cantaria a vida junto ao coro wagneriano. A justificativa da existência em Nietzsche se dá pelo fenômeno estético, portanto Wagner foi o mais próximo que
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“Esse consolo metafísico aparece na nitidez corpórea como coro satírico, como coro de seres naturais que vivem, por assim dizer, por trás de toda civilização indestrutível, e, apesar de toda mudança de gerações dos povos permanecem sempre os mesmos”. (NIETZSCHE, Die Geburt der Tragödie. In: KSA
– Band 1. p.56).
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NIETZSCHE, Die Geburt der Tragödie. In: KSA – Band 1. p.56.
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Nietzsche pode chegar de sua filosofia estética na prática. Da mesma forma com que Wagner afirmava seu drama wagneriano como sendo a Gesamtkunstwerk (Obra de arte total), Nietzsche afirmava que arte é a divinização da existência. A existência através da arte é a possibilidade de romper com a vida e a morte do dogma cristão. Na tragédia, de acordo com Nietzsche, a morte é superação, é o exemplo de vida que findou para dar seguimento a outro momento, este momento é representado pelo herói, sem a morte não há afirmação da vida, o coro deve cantar a morte do herói para que o povo possa novamente viver, na tragédia não é o herói a causa primeira, mas sim o coro. O povo assiste e canta com o coro, o herói é um único indivíduo enquanto que o coro é a unidade do homem grego. Diferente em Wagner, que a ação do todo no drama, inclusive do herói resignado faz parte do objetivo final, a morte de Tristan e de Isolde é necessária para que a metafísica da música e o amor tido por Wagner como verdadeiro seja posto em evidencia para o espectador. Vejamos a interpretação de Rosa Dias sobre a morte em Nietzsche na vontade criadora, algo que podemos associar com a tragédia grega.
Para Nietzsche, assim como estamos submetidos à lei do crescimento, também estamos submetidos à lei da morte. Essa ideia não nos deve acabrunhar; pelo contrário, devemos suportá-la com certo júbilo. Sem a destruição, não há processo criador. É ele que mantém a vida, a força de vida. Força que, ao se voltar sobre si mesma, vai além de si, para de novo voltar a si mesma e retomar o processo criador. Poder não só criar, mas também destruir, exige excesso. A destruição, como consequência de uma superabundância de vida [...] A vida é o momento presente. A morte só triunfa a serviço da vida50.
Agora, a morte em Wagner na interpretação de Nike Wagner, especialmente em Tristan und Isolde:
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Nós temos na estrutura e no conteúdo de Tristan um jogo de oposições. Estas oposições podem ser chamadas de: homem e mulher, dia e noite, realidade e ilusão, amor e morte, mar e terra. Ou, em conceitos de espaço e tempo: aqui o material histórico, medieval, maneiras e costumes, honra, lealdade e ações externas de um drama-adultério com um final nefasto com bases na troca do bebedouro; lá a ação interna da decadência do amor, a dimensão não histórica, para jogar além do tempo no »grande império do mundo da noite«, individual, o sentimento puro independente como assunto dramático, um »sistema do imaginário« (Roland Barthes) [...] A forma de linguagem do paradoxo foi significativamente interligada preferivelmente em dois contextos culturais: nos místicos medievais, quando procurou descrever sua proximidade a Deus, e na literatura moderna, quando exigiu a separação existencial de Deus para a expressão, particularmente em Franz Kafka [...] Kafka inventou o contraste nas imagens de suas parábolas para a experiência de desespero, para o impasse da interioridade do mundo profano sem ajuda externa. Tristan und Isolde são o místico secularizado. Inefável como a experiência de Deus é a sua experiência mística, mas eles têm almas modernas. Eles prestam homenagem à própria religião (a salvação cristã há novamente em Parsifal), mas a tentativa de deificação mútua desencaminha. No final, a ilha deserta, a subjetividade, duas vezes a morte solitária51.
Com estas breves comparações, fica evidente que desde o início da amizade Wagner e Nietzsche tinham pensamentos muito próximos a respeito da arte e da cultura alemã, não é difícil perceber que os caminhos são num princípio muito semelhante. Mesmo que a base do drama wagneriano contrasteie com a forma que Nietzsche pensava o drama, não haveria de surtir efeitos tão dispares no resultado final. Todavia, parecia que Nietzsche estava à frente dos resultados wagnerianos antes mesmo do compositor realizá-los. O exemplo maior que Nietzsche se deparou sobre a obra e o artista wagneriano, ou seja, da verdadeira obra wagneriana e não mais de uma esperança vista no início da amizade, sucedeu no Bayreuth Festspielhaus. O teatro “grego” de Wagner possuía apenas um objetivo, a promoção da própria música wagneriana, a exaltação do artista Wagner. Os Festivais de Bayreuth, algo que Nietzsche esperava ser no mínimo uma aproximação do que ele entendia dos festivais gregos de tragédia, se tornou apenas em uma tragédia wagneriana e sua decadência como artista alemão. Podemos realizar aqui uma analogia sobre um dos escritos de Wagner, Was ist deutsch?
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(O que é alemão?). Esse artigo abandonado por Wagner em sua criação, mas publicado anos mais tarde, é um texto sobre a palavra deutsch (alemão), onde o compositor apresenta não apenas a semântica, mas também remete a história do povo alemão e suas diversas mudanças históricas. A busca pela identidade através de uma essência que aos poucos foi se perdendo. Não sabia ele que, na inauguração do Bayreuth Festspielhaus 52, tornar-se-ia o mesmo alemão da velha pergunta Was ist deutsch?.
Sem entrar na longa discussão sobre a ruptura entre Wagner e Nietzsche, pois não é nosso objetivo, o que gostaríamos de salientar, nada mais é do que a produção de Richard Wagner antes da aproximação com Nietzsche. É relevante observar que os principais textos, assim como a composição que marcou uma nova trajetória na maneira de Wagner compor já estavam escritos e finalizados antes de conhecer Nietzsche. Se realmente houve uma influência significante de Nietzsche na obra de Wagner, o próprio Wagner não deixou explícito. No Outono de 1868 em Leipzig, de acordo com Mein
Leben (Minha vida), Wagner ouviu falar de Nietzsche antes de conhecê-lo pessoalmente
através da esposa de seu amigo, o professor e filólogo Ritschl, que foi professor de Nietzsche em Bonn e Leipzig. Mas os comentários ouvidos pela esposa de seu amigo foram exatamente o que já mencionamos, a saber, que Lohengrin não era um delírio de entusiasmos, e, da mesma forma, sobre Tristan und Isolde descreve: “a excitação dos nervos – cada filamento de meu nervo faz um movimento involuntário perante Tristan e
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“O Festival de Bayreuth de 1876 contou, além de Ludwig, com a presença de outros chefes de Estado, como o rei da Prússia Guilherme I e D. Pedro II, do Brasil, bem como a de vários membros ilustres da aristocracia. Depois da primeira apresentação do ciclo de O Anel, Wagner fez um discurso em que declarou: ‘Antigamente o artista tinha que cortejar imperadores e princesas e, agora, pela primeira vez, os imperadores e princesas vieram ter com o artista’. Porém, apesar destas palavras orgulhosas, a luta histórica de Wagner por um status igual do artista e do mecenas (aristocracia) estava quase perdida. O primeiro Festival de Bayreuth apresentou um déficit de 150 mil marcos que levou o empreendimento quase à bancarrota legal”. (DAHLHAUS e DEATHRIDGE, Wagner. pp. 55-56).
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Isolde”53. Esta fala de Nietzsche está registrada em uma carta a seu amigo Paul Deussen, datada na segunda metade de Outubro de 1868.
Pessoalmente, apenas em 8 de Novembro, eles vieram a se conhecer. Sobre a primeira obra publicada de Nietzsche, a seguinte observação localiza-se em Mein
Leben: “Die Geburt der Tragödie aus dem Geist der Musik foi uma relação estreita que
surgiu de considerações paralelas estéticas de Wagner e que não poderia ser pensado sem a experiência musical de Tristan e de Meitersingern”54. Diferente da obra de Nietzsche, que no início há elogios para o compositor, em Mein Leben de Wagner não existem elogios a Nietzsche, apenas críticas. Pela data que os dois se conheceram, Wagner estava finalizando o terceiro ato de Siegfried e no ano seguinte iniciava
Götterdämmerung (O crepúsculo dos deuses). O Anel foi composto entre várias
interrupções, de 1853 a 1874, por conseguinte, tendo em vista que a ruptura entre Wagner e Nietzsche aconteceu por volta de 1878 e a composição de Parsifal ocorreu entre 1877 e 1882, provavelmente, não ouve comunicação entre eles. Isso afirma que se o diálogo entre os dois realmente teve influência na composição da obra de Wagner, cronologicamente só poderia acontecer tal ação em Götterdämmerung e Parsifal.
A troca de cartas entre o compositor e o filósofo pode ser analisada como um indício de uma influência, porém não direta e muito menos mencionada por Wagner, pois algumas dessas cartas mostram uma discussão sobre os textos de ambos, sejam eles publicados ou ainda em fase de elaboração. Outra questão que não devemos esquecer, é que o primeiro contato entre eles por cartas foi feito por Cosima von Bülow, um convite a Nietzsche para que estivesse presente no dia 22 de Maio de 1869, aniversário de Wagner. Entre as cartas que Nietzsche trocava com Wagner, sempre dialogava em
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WAGNER, Mein Leben – Zweiter Band. p. 344.
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paralelo com seu amigo Rohde, como podemos ver em uma carta datada em 3 de Setembro de 1869, “Caríssimo amigo, é impossível dizer-te tudo quanto aprendo, vejo,
ouço e compreendo durante essas visitas. Schopenhauer e Goethe, Ésquilo e Píndaro vivem ainda – dou-te a minha palavra”55.
Entre várias cartas que foram trocadas, não seria possível apontar as principais, mas para o nosso interesse, talvez estas possam ser consideradas relevantes para a discussão.
De Wagner para Nietzsche:
Na noite passada li em voz alta a sua dissertação para a nossa amiga. Quando