1.5 Três filmes latino-americanos e seus diretores: o que diz a crítica
1.5.2 Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll
Diz a sabedoria popular que tamanho não é documento. A máxima se aplica perfeita- mente à pequena (no que se refere à quantidade) filmografia dos amigos e cineastas Juan Pa- blo Rebella (1974-2006) e Pablo Stoll (1974-). Em menos de meia década, Rebella e Stoll dirigiram duas películas que continuam sendo sucesso de crítica, independentemente de o acesso a essa produção ocorrer com um atraso de seis (!) anos.
Whisky, um filme uruguaio de 2004, que (só) estreou esta semana em Portu-
gal, é uma jóia cinematográfica que joga com pequenos pormenores, como por exemplo esse sorriso de papel, que nos presenteia, em tom alegórico, com uma fantástica história humana da vida quotidiana e das suas repetidas particularidades (NORAS, 2010).
Whisky é o segundo (e último) filme de Rebella e Stoll; o primeiro havia sido 25 Watts (2001), cuja distribuição no Brasil, se que é que ela existiu, está muito aquém da ―per- formance‖ do recém-eleito melhor filme latino-americano dos últimos vinte anos, conforme discutimos em 1.5, ―Sobre nossa iniciação no cinema latino-americano‖, ou de como fomos apresentados a ele. Esse quadro nos faz pensar que, dificilmente, a ópera prima de Rebella e Stoll venha a estrear em terras portuguesas.
Embora 25 Watts não tenha tido a mesma visibilidade que seu ―irmão mais novo‖, a crítica não poderia ter sido mais receptiva. Acerca dessa questão, ou seja, sobre o filme de estreia de Rebella e Stoll, o crítico argentino Rodrigo Seijas observa que pouco se sabia acer- ca da produção cinematográfica uruguaia, pois esta quase nunca chega à Argentina. Essa constatação, entretanto, não impede que a crítica reconheça em 25 Watts a influência de dire- tores importantes como Jim Jarmusch, Raúl Perrone, e de expoentes da Nouvelle Vague fran- cesa como Francois Truffaut e Eric Rohmer, e acredite que o filme faça parte da Nueva Ola uruguaia.
A referência a um dos cineastas mais prolíficos do cinema independente argentino é pertinente, pois, assim como Rebella e Stoll, Raúl Perrone é um cronista do cotidiano que opõe à construção ―do ser nacional‖ a construção de um ―sujeito do bairro‖, destituído da épi- ca e da figura do herói, recuperando a dimensão do cotidiano e da experiência, conforme a- firmam Oliva e Gaetano em ―Raúl Perrone: uma enunciación artesanal‖.71 Essas característi-
cas parecem fazer-se presentes, de certa forma, em Hiroshima: um musical silencioso (2009) e 3, ¿cómo recuperar a tu propia familia?(2012), as mais recentes produções de Pablo Stoll em carreira solo.
Na falta de acesso a essas produções72, fiquemos, então, com a crítica de quem assistiu a Hiroshima...
Juan [protagonista do filme] está sempre sozinho, mesmo que acompanhado. Está quase sempre em silêncio, e qualquer que seja a situação ele parece permanentemente indiferente. O que a câmera transmite é a juventude ente-
diada. O tédio não é a única marca demonstrada, a incapacidade de se co-
municar com o mundo também pode ser vista. No filme existe um silêncio
desolador, as poucas falas aparecem como as velhas vinhetas do cinema
mudo, mas os personagens podem ser vistos falando, o que causa no espec- tador a sensação de que ele mesmo é um surdo, que não pode dialogar com as situações. As músicas do velho walkman de Juan são escutadas também por quem assiste e o único refúgio do jovem protagonista – a música – tam- bém é vivenciado pelo público, talvez essa seja também a única forma de expressão conhecida por ele, já que somente cantando sua voz pode ser escu- tada (ANDRADE, V., 2012, grifos nossos).
Juventude entediada e silêncio desolador são imagens recorrentes na produção fílmica de Stoll, vêm desde sua parceria com Rebella: estão em 25 Watts e Whisky, respectivamente. Isso nos faz pensar se o cineasta não estaria fazendo o ―mesmo‖ filme (NAGIB, 2002, p. 243), já que, em uma década, suas preocupações parecerem ser as mesmas e refletirem aspec- tos da contemporaneidade.
Em 3, ¿cómo recuperar a tu propia familia?, Pablo Stoll faz um filme menos pessoal. Não porque em Hiroshima... seu próprio irmão [Juan Stoll] tenha protagonizado a película, mas porque, dentre todos os filmes que poderia ter feito, esse representa um momento de sua vida. Em entrevista à BRAVO! (2011), Stoll afirma que
em Hiroshima estão expostas coisas que havia pensado com Juan [Rebella], como o propósito de fazer um filme sobre um personagem extraviado. Tam- bém estão todas as minhas influências: as histórias em quadrinhos, o rock, o cinema. E Juan, claro, como influência permanente nos últimos dez anos da minha vida.
Em 3, ¿cómo recuperar a tu propia familia?, Stoll revisita a parceria com Rebella, mantém a ―ideia do triângulo, não necessariamente amoroso, como núcleo básico. Três ami- gos em 25 Watts, três solitários em Whisky, três também é número de membros de uma famí- lia‖, de acordo com Horacio Bernardes (2012). Mas o crítico chama a atenção para o fato de que a maior diferença no mais recente trabalho de Stoll reside na capacidade de transformação dos personagens, inclusive de eles serem felizes. Bernardes destaca também que Stoll ―volta a
72 Essa falta não é ―privilégio‖ nosso, pois, de acordo com Campanella, no que se refere ao cinema, há uma au-
sência de comunicação entre os países da América Latina a ponto de, entre 2006 e 2011, o último filme peruano que havia chegado à Argentina foi Pantaleón y las visitadoras (1999, de Francisco Lombardi); do México, Amo-
res perros (2000, de Alejandro González Iñárritu); do Chile não havia registro, e do Uruguai alguma ―cosita‖, não pelo tamanho da obra, mas pela quantidade de filmes, explica o diretor de O segredo de seus olhos em en- trevista à Red de Bibliotecas Meddelín (2011).
demonstrar poder de síntese, de eloquência visual e rigor para definir os personagens não a- través do que é dito sobre eles, mas pelo que eles fazem.‖
Essas considerações levam-nos de volta a um dos filmes objeto de nosso estudo: Whisky, cujo currículo ostentava o Regard Original Award e o Prêmio FIPRESCI73 da Mostra Um Certo Olhar, no Festival de Cannes de 2004, além de três Kikitos de Ouro no Festival de Gramado; ignorávamos, entretanto, essas qualificações. Importava-nos, ou melhor, inquieta- va-nos o fato de já ter assistido ao mesmo filme tantas vezes e, ainda assim, torcer para um desfecho mais alentador.
Whisky é um desses filmes raros em que a crítica é unânime. Em Una lección de cine (2005), Jorge Morales observa que ―em ocasiões contadas, um filme pode demonstrar total coerência entre propósito, argumento e estética‖. Morales credita tal feito ao talento dos cine- astas e sentencia que o cinema chileno não chega a esse patamar porque simplesmente lhe falta um Rebella e um Stoll.
Whisky é o registro da vida de Jacobo e Marta. Aquele é dono de uma velha fábrica de meias na capital uruguaia; Marta é seu braço direito há muitos anos, mas a relação deles é estritamente profissional. A rotina de Jacobo é ameaçada com a chegada de Hérman, que veio ao país para a cerimônia do Matzeivá – conforme reza a tradição judaica, cerimônia da pedra tumular colocada um ano (ou um mês) após a morte da mãe deles. Marta e Jacobo são perso- nagens solitários, e a chegada de Hérman é a mola propulsora para despertar a antiga rivalida- de entre os irmãos e para que os silêncios do filme comecem a falar.
Para Izmirlian (2013), entre esses três personagens, infiltra-se um quarto personagem, um ambiente decadente que podemos identificar em vários momentos do filme: no bar da esquina, onde Jacobo toma o café da manhã todos os dias; na fábrica de máquinas velhas; na persiana quebrada; no apartamento em que Jacobo ainda mantém os vestígios da enfermidade materna e, especialmente, no hotel e no balneário com suas ruas desertas e lojas fechadas.
Adicionemos a isso o enquadramento imóvel da câmera, a utilização de personagens amargurados interpretados por ótimos atores sexagenários que ajudam a compor a imagem de um país que envelhece, que não tem vigor, que não acompanha ―o progresso‖ do país vizinho (Brasil). Se no filme de estreia de Rebella e Stoll a impotência da juventude e a falta de vigor denunciam a ausência de crença da/na juventude retratada, em Whisky identificamos ―os efei- tos demolidores de uma rotina elevada à máxima potência‖, conforme observa Pablo Sánchez Martínez em ―WHISKY: Crónica de una soledad anunciada‖ (2012).
Mas, não apenas a rotina é demolidora. O silêncio também tem os seus efeitos e é elo- quentemente demolidor, muito mais do que o são as palavras e ações dos personagens. Em Whisky, há solidão e silêncios. Isso mesmo, silêncios: do cotidiano, do ressentimento, do afe- to, da inércia... Entretanto, no filme de Rebella e Stoll, el silencio habla. Além disso, o crítico de cinema Marcelo Janot vê o filme como ―um tratado sobre a solidão, a decadência e a falta de comunicação entre gente comum‖ 74.
Essas considerações revelam muito da influência cinematográfica de Rebella e Stoll, ratificada por este último alguns parágrafos acima, mas que também é fruto de uma cultura cinematográfica. A ―educação audiovisual‖ dos cineastas não é apenas citada em entrevistas, ela aparece também nos créditos do filme e na escolha estética ao contar essa narrativa. Como influência declarada, destacamos a do cineasta finlandês Aki Kaurismäki e seus filmes Tuli- tikkutehtaan tyttö (A garota da fábrica de caixa de fósforos, 1990) e Le Havre (O Porto, 2011).
Da mesma maneira, como negar as semelhanças entre a protagonista de A garota da fábrica de caixa de fósforos (1990) e a protagonista de Whisky (2003)? Ambas são superviso- ras em uma fábrica, têm uma vida monótona, solitária, e parecem ter encontrado a chance de serem felizes quando conhecem Aarne/Hérman. Iris engravida de Aarne; Marta ―recebe‖ a proposta para encenar um casamento com Jacobo e parece ver na encenação a possibilidade de uma nova vida. Mas o sonho não se concretiza, e ambas veem-no se desfazer: Iris recebe uma carta do namorado com um cheque para fazer o aborto; Marta recebe de Jacobo o paga- mento pela encenação do matrimônio.
Ademais, os ingredientes do filme de Kaurismäki estão todos lá em Whisky: persona- gens mudos, silenciosos, sós; rotina das máquinas de uma fábrica de meias, a desumanização dos trabalhadores e o desejo de afeto.
Figuras 7 e 8 – Iris e Marta assistem, com um olhar ausente, à máquina trabalhar.
Figuras 9 e 10 – Iris e Marta etiquetam o produto: as caixas de fósforos/os pares de meia.
Figuras 11 e 12 – Iris e Marta esboçam leves sorrisos. Motivo? A leitura de um romance e o som de uma música romântica.
Fonte: DVDs A garota da fábrica... e Whisky, respectivamente.
Mas o filme de Rebella e Stoll não é apenas uma homenagem ao mestre, é principal- mente, a nosso ver, o modo de esses cineastas narrarem a busca por uma segunda chance, a transformação pelo afeto, a necessidade de olhar o outro, a assunção do ―qualquer um‖ – para lembrar o que nos diz Gonçalves e Rànciere, respectivamente –, sem dúvida, são filmes que revelam um comprometimento estético-político.
Cabe ressaltar que a solidão e o silêncio são duas categorias-chave para abordagem de um cinema político, contemporâneo, sem resvalar para o político-panfletário. Falamos de uma nova subjetividade política.