1. Ver Wilde como não é: determinismo e conversão
1.2 Wilde como precursor, o baptista
To feel things as we don’t, and write art from that.
[BNP 72-55r]
Em Fevereiro de 1913, Pessoa começou um diário no qual registraria a sua actividade laboral e intelectual, provavelmente com a intenção de impor maior disciplina ao
seu trabalho.54 Previamente, em Abril de 1912, “A Nova Poesia Portuguesa
Sociologicamente Considerada” inaugurou a escrita crítica pessoana na recém-fundada revista A Águia, do grupo autobaptizado como A Renascença Portuguesa. Este importante acontecimento na vida do jovem de vinte e quatro anos fora assinalado auspiciosamente pela polémica levantada pelo anúncio de um “super[supra]-Camões” prestes a aparecer no cenário cultural português. Pessoa teve, então, de defender as suas ideias perante um dos professores do Curso Superior de Letras que abandonara em 1907 (cf. Prista, 163-164).
O diário de 1913 dá conta precisamente disto, e a necessidade de disciplina que manifesta derivaria de um compromisso assumido com a obra futura. Por esses anos, já trabalhava como tradutor de correspondência em escritórios comerciais, ganhando o dinheiro estritamente necessário para sobreviver, como deixam adivinhar as constantes referências a empréstimos pedidos aos sócios e patrões dos escritórios a que estava associado. Nas entradas do diário, com os detalhes da vida quotidiana, aparecem também as informações sobre a sua actividade literária, da qual Oscar Wilde já fazia parte. Veja-se uma entrada completa desse diário:
[18 de Fevereiro de 1913]
Almocei cedo (10) e sahi cedo de casa. Ao barbeiro, escriptorio do M[ayer] e depois ao Ministerio de Guerra e Arsenal do Exercito. De tudo salvou-se o passeio; agradavel ao sol e ao frio. Dirigi-me para a repartição de J[oão] C[orreia] d’ O[liveira] para lhe pedir 5000 reis para devolver ao Mayer os 1500 reis para pequenas despesas. No Chiado encontrei o José Figueiredo e estivemos uns tempos á entrada da R[ua] da Emenda a discutir Wagner, e depois o Valerio de Rajanto. Passou J[oão] C[orreia] de O[liveira] e disse-me que ia para a Brazileira. Fui lá ter, encontrei-o com o A[ugusto] Santa-Rita. Discuti “O Doido e a Morte” de Pascoaes, elle fraternalmente contra, eu quasi calado. Fallamos do plano da minha revista Lusitania, plano completo, e elle ficou um tanto *preso do assumpto, promettendo escrever para um editor do Porto sobre o assumpto. Vim para baixo, para a L[ivraria]
54 Como já foi visto, esta não era a primeira vez que o impulso diarístico aparecia na sua vida e a intenção, uma vez mais, não durou muito tempo – neste caso menos de quatro meses. Em quanto as páginas do diário avançam pode ver-se claramente como o rigor diarístico ia desaparecendo (cf. EAB, 110-133).
Ferreira, com o S[anta]-R[ita]. Deu-me para lêr uma carta a uma actriz, Esther Durval, que vae publicar, parece que nas “Novidades”: do género.— Escriptorio da R[ua] da Prata das 15 1/2 ás 16 1/4; duas cartas. Vim escriptorio Mayer. Mandei carta Lavado pedindo 1.000 réis. Continuei copiar carta para o Natal. – De noite estive na Brazileira sahi logo, com o Costa. Fui para casa a pé com elle. Esbocei o folheto sobre o O[scar] Wilde e parte da theoria da Aristocracia. – Recebi um bilhete da tia Lisbella e “O Doido e a Morte” do Pascoaes, no correio da manhã.
[BNP 20-19V; EAB, 110-111]
Ao escrever esta nota, Pessoa já teria lido o suficiente de Wilde e sobre ele para pretender dedicar-lhe uma publicação curta, que o ocupará durante vários dias. Na entrada do dia 20 de Fevereiro do mesmo diário, lê-se: «[...] Nada a fazer. – Noite toda em casa. Serão dormi. Acordado das 0 ás 4, escrevendo varios fragmentos sobre O[scar] Wilde, educação, e theoria aristocratica. Li W. W. Jacobs até dormir, para abater a excitação de ter
pensado.» [BNP 20-20v; EAB, 112]. No dia 26 de Fevereiro, escreveu: «De manhã decidi
escrever em portugues “O Templo de Jano”; e em inglês só “Controversial Matter”, como “Concerning Oscar Wilde”, a defesa da Rep[ublica] Portuguesa, etc. – De noite na Brazileira. Varias idéas paradoxaes.» [BNP 20-23v; PI, 40-41]. Percebe-se como,
entre decisões relevantes para o seu futuro literário – entre as quais, a ponderada escolha de uma língua segundo o tipo de texto a redigir, o que ilustra o quão cedo apareceria o critério editorial no processo criativo –, Wilde se tornava assunto da escrita pessoana. A relevância deste dado cronológico para a compreensão do desenvolvimento da escrita de Pessoa, dependerá necessariamente do quanto pode saber-se dos textos redigidos entre os dias 18 e 26 de Fevereiro de 1913, ou num período próximo destas datas, o que reclama uma reconstrução de conjuntos de escrita hoje dispersos pelo espólio.
Com este objectivo em mente, um primeiro documento a considerar apresenta um plano de ensaio com um título que não reaparece em nenhum dos outros documentos localizados até hoje: «Defense of Oscar Wilde» [BNP 14E-64r; AL, 554].55 O título encontra-se
acompanhado de uma listagem, como é usual entre os papéis pessoanos: «<Principio Aristocratico>|<A um revolucionario morto>56|A Linda Andorinha». Este tipo de listas podem
corresponder a textos de diferente índole e frequentemente são úteis quando se pretende relacionar alguns projectos com momentos de escrita específicos, por exemplo, uma versão de «A um revolucionario morto» confirma a associação a data 18 de Fevereiro de 1913, que
55 Este texto foi parcialmente reproduzido em Zenith 2008, 37.
56 Com este mesmo título, encontra-se no espólio um poema [BNP 57-31e 32r] datado precisamente de «18/02/13». O texto foi manuscrito a lápis numa folha impressa de «Proposta para Hypotecha», semelhante a outros materiais do que aqui será apresentado como um primeiro corpus de textos sobre Wilde. O título «Revolucionario Morto», apareceria ainda numa lista do Orpheu 3 datável de finais de 1916 (cf. SEN, 80).
aprece no diário. Repare-se na aparição, que será reiterativa, embora com variações, da referência a um “Princípio Aristocrático” 57, título possível de um ensaio sobre a
persistência de elementos próprios de sociedades excludentes no meio da expansão das sociedades democráticas, tema que será muito próximo de uma reflexão acerca da obra e da pessoa de Wilde. Isto mesmo é manifestado num texto pessoano, que aqui será várias vezes referido, e que explicita a reflexão associada ao desenvolvimento do processo judiciário que acabou com a condena do autor de Intentions: «Everybody knows now that much of anti- aristocratic feeling went into the matter, that there was much from purpleness in it.» [BNP 144-18A; AL, 302]. Aqui, Wilde aparecia como uma figura que sofrera por causa do
“sentimento antiaristocrático” do seu tempo, mas esta opinião terá algumas mudanças nos textos de Pessoa, como se verá.
À lista de projectos antes citada, que continha o título «Defense of Oscar Wilde», segue- se um apontamento esquemático, que concorda com o anotado por Pessoa no seu diário em Fevereiro 18 de 1913:
Wilde can be 3 things, if a genius:|(1) a representative man|(2) an uncharacteristic man of genius|(3) a representative genius | W[ilde] internationally, Englishly α [and] Irishly representative.|His enormous European influence. He a type – absolute selflessness.
[BNP 14E-64r; AL, 300]
Estas frases sugerem uma correspondência directa com o título «Defense of Oscar Wilde», uma vez que partem da hipótese de Wilde ser um “génio” para em seguida caracterizarem a sua genialidade, sublinhando a sua “enorme influência europeia”, é isto dito num tom tendencialmente apologético. Compare-se este caso com o que tem sido visto por alguns críticos como uma falta de consciência da importância de Wilde por parte de Pessoa, fazendo uma leitura isolada de um outro apontamento que, tendo em conta as suas características materiais, será datável de aproximadamente 1919, e que está longe de ser um juízo apressado:
Wilde | Na realidade, a influencia de Wilde é muito pequena, sendo evidente apenas no que é immoral. O seu intellectualismo não affecta ninguem; e o seu intellectualismo é uma das cousas sãs que ha no seu espirito. O seu romantismo, o seu odio á realidade, ao povo, as cousas materiaes – que cousa ha que seja mais contraria á norma ideativa da estupidez moderna?
[BNP 55J-7; AL, 306]58
57 Uma forma posterior do ensaio levaria o nome de «Teoria da Republica Aristocratica», como Pessoa anunciava em carta de Setembro de 1914 a Armando Côrtes-Rodrigues (cf. COR I, 120).
58 Na edição de Bothe foi apontada a data de «1913?» para este texto, como parte do projecto “The Plebeian Age”, ao qual alguns trechos poderiam pertencer, incluído este acerca de Wilde. Não obstante, o suporte material é idêntico ao de outros textos datados de 1919 (cf. SQI, 355 e 359). O projecto “The Plebeian Age”
A mudança da «enormous European influence», para a pequena influência é relevante, e o caminho que leva de uma asserção a outra é aquilo que é preenchido por um certo desenvolvimento da obra de Pessoa. Note-se que este último comentário é parcialmente oposto ao anterior. No primeiro, Wilde era representativo da sua época e, portanto, muito influente, no segundo, Wilde é pouco influente mas o elemento são da sua obra, constantemente escurecido pela sua imoralidade, é notável por estar em contraposição do que Pessoa chama de generalizada «norma ideativa da estupidez moderna». Segundo o segundo comentário quando Wilde é intelectualmente anti-social é saudável.
Regressando ao ponto de partida, veja-se como no verso da mesma folha que contém o apontamento apologético acerca de Wilde, correspondente ao título «Defense of Oscar Wilde» se encontra o seguinte desenvolvimento:
All his life was a lie. That is the beauty α [and] the representativeness of it. He was one of the few men who did not believe even in himself.59 His
interest in himself was an interest in the nearest of his surroundings.
He was not himself. Neither for him [or] anybody else. His soul was peripheric [...] Every pose of his was pre-posed. His consciousness of his
pose bewildered pose.|He became an attitude not a soul.
[BNP 14E-64v; AL, 301 e cf. Zenith, 2008]
Nestes termos o texto completo, incluindo o esquema antes citado e este parágrafo de desenvolvimento, reconhece a singularidade de Wilde e sublinha uma característica
inovadora: a sua “absoluta impessoalidade”.60 Wilde, segundo o autor deste texto, fabricou
a sua vida como uma mentira e converteu-se num “tipo”, numa pose consciente de si.61 A
condição de fabricante consciente de si próprio e da sua obra o tornaria verdadeiramente notável. Esta consciência transcenderia a afectação ligada à pose, tornando essencial o acidental, ao unificar os dois elementos num mesmo acto de produção artística que
parece ter tido ainda vigência no começo dos anos vinte, nos quais teria sido transformado, após 1923, em “O Catholicismo Imoral” [BNP 48H-9r; Barreto 2009A].
59 Este apontamento é manifestamente próximo de uma descrição de Hamlet feita por Wilde em De Profundis: «[Hamlet] makes himself the spy of his proper actions, and listening to his own words knows them to be but “words, words, words.” Instead of trying to be the hero of his own history, he seeks to be the spectator of his own tragedy. He disbelieves in everything, including himself, and yet his doubt helps him not, as it comes not from scepticism but from a divided will» (CFP 8-583, 132). No exemplar de Pessoa o parágrafo foi sublinhado com uma linha lateral e tem a indicação «Note» manuscrita a lápis.
60 Opto por esta tradução de «selflessness» como “impessoalidade” acima de “despersonalização” por um conteúdo de agência e condição que habita estas duas palavras.
61 Uma ideia semelhante foi dessenvolvida por Julia P. Brown a respeito da digressão de Wilde pelos Estados Unidos: «By the time of his skyllfully marketed tour of America in 1882, during which his playful narcissism reached its height, [Wilde] was the publicist more than the practitioner of the cult of art-for-art’s-sake. Cultivating “posing” he kept his distance from the cult.» (Brown, 10).
substituiria a “alma” do indivíduo. O Wilde criado por Wilde substituiria qualquer Wilde anterior ao seu próprio acto criativo.
Este texto permite que o leitor se imagine frente a uma produção escrita desenvolvida numa data próxima de 18 de Fevereiro de 1913, quando, segundo o já citado diário, Pessoa teria esboçado o seu folheto sobre Wilde. O texto corresponderia à fase embrionária de um projecto que se dilataria no tempo, sendo testemunho de uma produção textual de que outras partes poderiam ser identificadas. Em concordância, existe um outro texto no espólio que parece subscrever alguns dos enunciados deste primeiro projecto:
Oscar Wilde | Of all the tawdry α [and] futile adventures in the arts, whose multiplied presence negatively distinguishes modern times, he is one of the greatest figures, [because] he is true to falsehood. His attitude is the one true one in an age when nothing is true; and it is the true one [because] consciously not true. | His pose is conscious, whereas all round him there are but conscious poses. He has therefore the advantage of consciousness. He is representative [because] he is conscious. | All modern art is immoral [because] all modern art is indisciplined. Wilde is consciously immoral, so he has the intellectual advantage [...]
[BNP 14E-73r; AL, 305 e cf. SP, 213]
Escreve aqui um Fernando Pessoa que não tem dificuldade em apresentar Wilde como uma das “maiores figuras” dos tempos chamados modernos. Lembrando o que acerca de Wilde Pessoa já teria lido até ao momento, torna-se relevante que estas afirmações contenham uma resposta a Max Nordau, formulada em termos semelhantes àqueles com que Pessoa o corrigiu a respeito de Baudelaire, como aqui já foi referido [cf. BNP 141-89 e 90, GL; 380].62 Em ambos os casos Pessoa sublinha uma necessidade de
manter separados no juízo crítico uma caracterização do artista de uma caracterização da sua obra, ou mais especificamente no caso de Wilde, da possibilidade de que certos elementos presentes na sua obra não decorressem directamente da sua personalidade. Pelo contrário, aquilo que foi a sua obra posteriormente definiria a sua personalidade com características que esta antes não possuía. O argumento pessoano supõe que Wilde não poderá ser tratado simplesmente como um artista mórbido ao ser “conscientemente mórbido”. Pessoa intui uma vantagem intelectual na consciência ou intencionalidade da
62 Contra a transparência na relação entre obra e autor, que Pessoa critica em Nordau, é relevante apontar para uma frase de Wilde em The Soul of Man Under Socialism, proferida precisamente num contexto onde este, antecipadamente em 1891, defendia o artista do ataque de um certo tipo de público que acusava uma obra de ser «unhealty»: «To call and artits morbid because he deals with morbidity as his subject-matter is as silly as if one called shakespeare mad because he wrote King Lear.» (Complete Works, 1188). O exemplo de King Lear também será utilizado por Pessoa, em 1915, quando caracterizou o seu tipo particular de sinceridade perante Côrtes Rodrigues (cf. COR I, 140).
acção. A defesa até aqui esboçada aparece como uma defesa de Wilde em relação a ataques como os de Nordau, mas a caracterização dos chamados “tempos modernos”, também aqui invocada, é ainda compatível com o cenário decadente que a Dégénérescence diagnosticava para a Europa finissecular (cf. Nordau I, 30-61). Pessoa aceitaria a contextualização nordauiana, mas nesse mesmo campo prepara um contra-argumento que implica um elemento oposto ao raciocínio de Nordau, e que se concentra numa atenta reflexão acerca de processos criativos contra políticas de recepção. Isto é, uma reflexão que se interessa em saber como uma obra foi escrita antes de pensar nas consequências que a sua leitura poderá ter.
A influência de Wilde, tão temida por Nordau em 1892 – quando apenas existia um ténue indício da dimensão do assunto –, é enfaticamente saudada por Pessoa num tempo em que Wilde se tornava uma referência entre intelectuais europeus e que a sua obra começava a ser publicada e estandardizada em Inglaterra. Se, para Nordau, Wilde era um doente mental que não podia evitar que os sintomas da sua personalidade degenerada se revelassem nos seus textos, confessando a sua imoralidade e propagando-a; para Pessoa, a perversão moral de Wilde encontrava-se mediada por uma consciência que imperava sobre a expressão e que transformava os elementos prévios em função de um objectivo, de um efeito pretendido, rejeitando com isto uma parte do determinismo causal que fundava as opiniões do sociólogo, a parte rejeitada é que o resultado da excentricidade de Wilde fosse a sua desadaptação absoluta a respeito do meio social.63 Nos termos desta consideração,
Wilde estaria mais próximo dos casos de génio que Pessoa descreveu em dezenas de páginas inspiradas por algumas leituras as que dedicou vários anos da sua «terceira adolescência» (cf. GL, Pizarro 2007 e Krabbehoft, 2011), do que dos casos de loucura que Nordau procurava diagnosticar. Nas descrições apropriadas por Pessoa, a possível diferença entre um caso de genialidade e um caso de loucura consistiria em que, sendo ambos característicos de indivíduos como um certo grau de desadaptação ao meio, no primeiro, seria mantida uma comunicação com o mundo externo capaz de funcionar como limite da alienação. Quanto maior for o domínio a desadaptação, mais afastado estaria o
63 Julia Brown elaborou um argumento que vai ao encontro da ênfase que Pessoa deu à consciência de Wilde para o defender da análise determinista de Nordau: «Wilde believed, in a fully classical manner, that we realize our potential as human beings by progressing from the realm of necessity and instinct to the real of self- consciousness and freedom.» (Brown, 17). Lawrence Danson aponta para este mesmo assunto quando pretende afastar Wilde dos seus contemporâneos realistas: «[Realist’s] “human nature” [...] is produced by conditions beyond individual control; but in Wilde’s terms, only the unique individual, or (to use his keyword) the ‘personality’, who is a creator not a product is fully human.» (Danson 1997, 87). Pessoa sublinharia quem, também era próprio da mentalidade clássica um outro determinismo forte associado à noção de fatalidade. Não obstante, por onde as considerações de Pessoa transitam, parece ser a fenda no meio destas duas posições.
indivíduo excepcional de um caso de loucura. A consciência, até aqui descrita por Pessoa como característica forte de Wilde, é um elemento análogo deste domínio, como o próprio
Pessoa intuía no texto intitulado «Feigning» [BNP 134-26r; GL, 107], citado anteriormente.
A argumentação de Pessoa nos textos acerca de Wilde, face às acusações de Nordau, também se manifestava numa reconfiguração do vocabulário que servia como ponto de partida ao precedente. Se, para Nordau, Wilde era o exemplo paradigmático de um caso de egotismo (égotisme) exacerbado (cf. Nordau II, 133)64, a palavra usada por Pessoa para
descrevê-lo é «selflessnes» [cf. BNP 14E-64v; AL, 300], que funciona precisamente como
antónimo de “selfishness” (egoísmo), insinuando também uma ideia de condição de separação do eu. Wilde não seria, para Pessoa, neste primeiro momento, um doente mental nem a sua obra existe como expressão descontrolada das suas obsessões pessoais, Wilde seria antes um fabricante consciente de uma personalidade que se sobrepunha triunfantemente a um “eu” originário.
Esta estratégia de contra-argumentação a partir de Nordau para defender Wilde não teria sido uma ideia original de Pessoa, embora seja quase certo que este tenha concebido o projecto ignorando o precursor directo de tal programa apologético que, curiosamente, teria sido o próprio Wilde. Em 1896 e desde a prisão, Wilde escrevia aos resposáveis do cárcere solicitando lhe fosse permitido o acesso a mais livros e de instrumentos de escrita. Na carta, Wilde afirmava que através do estudo das obras do «Pofessor Nordau», que num livro lhe dedicara um capítulo inteiro, era, “agora”, capaz de aperceber-se das motivações do seu comportamento, fruto, pois, de uma desafortunada relação entre genialidade literária e perversão psicológica:
The petitioner [Wilde] is now keenly conscious of the fact that while the three years preceding his arrest were from the intellectual point of view the most brilliant years of his life [....] still that during that entire time he was suffering from the most horrible form of erotomania, which made him forget his wife and children, his high social position in London and Paris, his European distinction as an artist, the honour and name of his family, and left him the helpless prey of the most revolting passions
[Holland, 656-657] 65
A estratégia de Wilde para se redimir das suas culpas perante um determinado público, assentou precisamente no argumento de que “agora” possui das suas acções uma
64 Krabbenhoft, parafraseia o que Nordau teria entendido como um caracter egotista, como uma personalidade que «não vê as coisas como são, não compreende o mundo e não sabe qual é a posição correcta que deve tomar em relação a sim mesmo.» (Krabbenhoft, 104). Não obstante, a passagem da atitude crítica de