6.1 A HERMENÊUTICA COMO CIÊNCIA: UM PERFIL HISTÓRICO
6.1.2 Wilhelm Dilthey e a Hermenêutica Humanística
Para Wilhelm Dilthey (1833-1911), há uma distinção entre as ciências naturais e as humanas. Naquela, a explicação, nesta, a compreensão. Com este pensador, a hermenêutica ganha força humanística, libertando o cientificismo de herança positivista. Sua fórmula hermenêutica: vivência, expressão e compreensão.
Com essas palavras iniciais, a dimensão que ora se apresenta ultrapassa a barreira da mera explicação das coisas, para alcançar um patamar de valoração própria.
206 GADAMER, Hans Georg. Verdade e Método. Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. Trad. Flávio Paulo Meurer. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1999. p. 295-296.
Depois da morte de Schleiermacher em 1834, a hermenêutica geral como ciência arrefeceu. Por este doutrinador, inicialmente, houve um ganho na dimensão própria da ciência hermenêutica.
Isso passa a ser resgatado com o filósofo alemão Wilhelm Dilthey, que se aprofundou nos estudos de Schleiermacher. Oriundo da Universidade de Berlin, aquele pensador contrastou os ensinamentos da Escola Histórica Alemã do século XIX, que pregava, em linhas gerais, o estudo da história como a principal fonte sobre as ações humanas e também quanto às relações econômicas, contrapondo-se ao pensamento liberal que surgia na Europa. Para Dilthey, tal redução das ciências humanas a partir da vinculação histórica de forma objetiva é incoerente e inconsistente para a dimensão que se mostra necessária à nova hermenêutica.
Para ele, a compreensão é o referencial teórico maior da hermenêutica enquanto ciências humanas, aprofundando-se, pois, nas ideias iniciais de Schleiermacher. Para estas ciências humanas ou dos espíritos, o seu conceito apoiou-se naquilo chamado de Geisteswissenschaften.
Para trabalhar com a hermenêutica como interpretação das experiências humanas, Dilthey percorre a discussão envolvendo o alcance da historicidade como elemento interior do homem. Naquela, a compreensão é fenômeno intrínseco do ser humano, situação em que coloca esta numa dimensão própria do saber, a que faz Rodolfo Pereira Viana afirmar que o pensador tinha por finalidade uma interpretação objetivamente válida dos específicos objetos de estudo das Humanidades, “definidos como expressões da vida, entendendo-se esta como experiência humana conhecida a partir do seu interior, portando dentro do mundo histórico”.207
Ao trazermos este referencial histórico de Dilthey para o estudo envolvendo ato administrativo, apontamos que a relação entre administrador e administrado emerge num ato de busca anterior, ou seja, de conhecimento específico das necessidades e realidades humanas a partir da reflexão passada. Isso porque elaborar um componente válido para a sua aplicação no mundo do direito significa escrever o contexto histórico vivido pelo homem e pela sua respectiva sociedade.
Dilthey apoiou-se em evidente afirmativa da compreensão como mecanismo apto a produzir validamente uma interpretação de resposta. É claro que a proposta momentânea significa entender o avanço hermenêutico no passar do tempo na
207 VIANA, Rodolfo Pereira. Hermenêutica Filosófica e Constitucional. Belo Horizonte: Del Rey, 2001. p. 14.
configuração dos atos administrativos válidos. Se, antes, nós começamos com a vagueza da hermenêutica como a mera arte de descrever condutas ou ainda explicá-las, a partir de agora a transformação alcança o referência de ciência e, mais a fundo, num contexto de ciências humanas da compreensão.
Com acerto, Richard Palmer traz do pensamento de Dilthey a proposta de compreendermos as Geisteswissenschaften:
A experiência concreta, histórica e viva tem que ser o ponto de partida e o ponto de chegada das Geisteswissenschaften. É a partir da própria vida que temos que desenvolver o nosso pensamento e é para ela que orientamos as nossas questões. Não tentemos encontrar ideias por detrás da vida. “O nosso pensamento não pode ir para além da própria vida.”208
Assim, a compreensão histórica das relações humanas deve ser encontrada dentro da história e não fora dela, não sendo, pois, possível valer-se do caráter naturalístico explicativo para as relações envolvendo a sociedade. É efetivamente a validade da hermenêutica como ciência humana.
Conforme Rogério Gesta Leal, o trabalho de Dilthey abordou a relação do homem com a sua própria história para atingir a compreensão válida de interpretação:
Essa compreensão toma como pressuposto fundamental que o texto/realidade a interpretar é a própria realidade e o seu encadeamento no mundo dos homens, pois, antes da coerência de um texto vem a da história, considerada pelo autor como um grande referencial identificador do indivíduo temporalizado e especializado. Este homem, assim, não é um estranho para o seu semelhante, pois dá sinais de sua própria existência, perceptíveis e mesmo constituídos por seus pares, criando provas físicas e inteligíveis ao longo do seu processo de desenvolvimento: sistemas culturais, a filosofia, a arte e a religião, o Direito.209
Sob essa óptica, o pensador alemão entende que a vida se autointerpreta, numa relação com a história da individualidade causada pelas nossas condições naturais somadas às circunstâncias do mundo. Daí surge o significado de compreensão em si mesmo, situação em que o espírito de forma objetivada se encontra dentro de um contexto histórico quanto à sua origem.
208 PALMER, Richard. Op. cit., p. 105-106.
209 LEAL, Rogério Gesta. Op. cit., p. 135-136.
Nessa vertente de vida, Richard Palmer observa a fórmula hermenêutica em Dilthey, alcançando experiência, expressão e compreensão,210 o que admite a afirmativa de que a ciência somente se vinculará aos estudos humanísticos “se o seu objecto se nos tornar acessível através de um processo baseado na relação sistemática entre vida, expressão e compreensão”.211
Para Palmer, partindo das afirmativas de Dilthey, este, em se tratando de experiência, insiste na sua temporalidade, cuja historicidade ampara o aspecto subjetivo/objetivo das reações humanas para as vivências experimentadas. Não há um mero cientificismo, mas sim experimentos próprios do homem para com o mundo, a ponto de Palmer afirmar que “Tornou-se por demais evidente que a experiência não pode ser compreendida em categorias científicas. A tarefa é nítida:
fabricar as categorias ‘históricas’ adequadas às características da experiência vivida”.212
Quanto à expressão, segundo Dilthey, trata-se de uma manifestação exterior das experiências históricas, situação em que a linguagem torna-se essencial para que haja o alcance “interno” da experiência, passando-a para o mundo “externo”.
Esta troca é essencial na construção hermenêutica. Há, certamente, uma experiência análoga entre os atores da intersubjetividade, com o alcance real da interpretação entre os interlocutores. Segundo Palmer, “a expressão não é por conseguinte a de uma pessoa, como quando se trata de psicologia, mas sim a de uma realidade social e histórica, revelada na experiência, a realidade social e histórica da própria experiência”.213
Por fim, a compreensão, como terceiro elemento essencial na construção hermenêutica, segundo Dilthey, a sua perspectiva é o alcance da expressão, ou seja, uma ligação de mente para mente humana, não bastando afirmar que estamos apenas diante de um sentido meramente racional, pois este pode ser facilmente absorvido pela simples lógica formal. A compreensão vai mais além, segundo Palmer:
A compreensão é portanto o processo mental pelo qual compreendemos a experiência humana viva. É o acto que constitui o nosso melhor contacto
210 PALMER, Richard. Op. cit., p. 113-121.
211 Ibid., p. 113.
212 Ibid., p. 117.
213 Ibid., p. 120.
com a própria vida. Tal como a experiência vivida (Erlebnis), a compreensão tem uma plenitude que escapa a teorização racional.214
Assim, há uma universalização do conhecimento e da interpretação partindo-se das experiências individuais. O homem, como partindo-ser pensante, preocupa-partindo-se com a construção das ideias, agindo em conformidade com a hermenêutica recheada de historicidade. Essa troca de informações é a base para as ciências humanas consideradas como evidente para o pensamento de Wilhelm Dilthey, o que ficou compreensível na conclusão trazida por Richard Palmer.215