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Wittgenstein e a comunicação como jogo de linguagem

No documento Entre palavra e imagem: um espaço possível (páginas 185-200)

AS PALAVRAS E AS COISAS

3. Wittgenstein e a comunicação como jogo de linguagem

Ao final do século XIX e início do século XX, os problemas sobre a linguagem já ocupavam claramente um lugar de destaque no pensamento ocidental. Enquanto a psicanálise buscava interpretar a linguagem do inconsciente, a filosofia ocupava-se com as relações entre linguagem e real.

A filosofia analítica, ao final do século XIX, movimentava o pensamento filosófico através de uma série de novas concepções sobre diversos temas e mesmo sobre o papel da própria filosofia, entretanto, a contribuição fundamental talvez tenha sido a utilização do método de análise lógica da linguagem.

A preocupação com a linguagem, ou com a relação entre a linguagem e o mundo, ou, mais especificamente, entre as palavras e as coisas, sempre esteve presente na história do pensamento. Platão em Crátilo e no Sofista investigou a natureza da linguagem em relação ao nome e ao enunciado: se a linguagem existe por convenção ou por natureza; se ela expressa a essência das coisas; e, ainda, se o discurso falso é possível.31. Aristóteles, por sua vez, definiu a linguagem como símbolo, elaborando uma teoria da significação, balizada pela lógica. À palavra, corresponderiam estados de alma, ou seja, as palavras são em verdade, símbolos das coisas.32. Na Idade Média, Agostinho, em De Magistro, examina a fala como ação

31 V. PAVIANI, Jayme. Escrita e linguagem em Platão. Porto Alegre: EDICUCRS, 1993.

significante, a finalidade da linguagem e a força interior da palavra.33 Abelardo, em De Intellectibus, trata do significado das palavras, afirmando que não é importante que as palavras sejam iguais, mas que tenham o mesmo significado no contexto do discurso.34

No século XVII, Leibniz, preocupado com a purificação da linguagem de modo a torna-la instrumento adequado às formulações e resoluções de problemas filosóficos, ocupou- se do seu aspecto formal, podendo ser considerado o precursor das análises lógicas da linguagem posteriores. Leibniz, seguindo a concepção cartesiana de uma matemática universal, dedicou-se ao projeto de uma língua artificial formalizada, que eliminasse as imperfeições e ambigüidades da linguagem natural. O pensamento de Leibniz estava fundamentado na crença metafísica de que existe uma correspondência entre a lógica do pensamento e a estrutura das coisas.

O pensamento filosófico, no final do século XIX, retoma essa perspectiva de modo inverso: para investigar o alcance real da linguagem, é preciso compatibilizar a expressão dos fatos com uma lógica mais perfeita que a da linguagem ordinária. Esse objetivo diz respeito fundamentalmente à preocupação epistemológica sobre se os problemas e soluções filosóficos são verdadeiros ou apenas fruto do caráter ambíguo e obscuro da linguagem ordinária. A crença comum de que as palavras e a ordem sintática do discurso podem traduzir razoavelmente o pensamento não poderia ser aplicada à formulação de problemas precisos, à construção de expressões lógicas. Ou seja, a forma da linguagem assume para a filosofia uma importância muito maior do que para a comunicação ordinária. A lógica seria, portanto, o instrumento de análise formal da linguagem, pois tem como função traduzir a linguagem ordinária em proposições formalmente precisas.

33 V. PAVIANI, Jayme. “A Linguagem além da linguagem. Notas sobre o De Magistro de Santo Agostinho”. In: DE BONI, L. A. (Org.) Encontro Brasileiro de Filosofia Medieval. 4. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1995.

34 V. CELLA, Mario. “Os elementos do conhecimento e a significatio no De Intelectibus, de Pedro Abelardo”. In: DE BONI, op. cit.

A filosofia analítica teve como expoentes máximos o filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970), o matemático alemão Friedrich Ludwig Gottlob Frege (1848-1925) e o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951).

Friedrich Frege, matemático, elaborou um novo sistema de lógica, em Conceitografia (1879) – muito mais complexo do que o modelo aristotélico – e propôs a criação de uma linguagem formal transparente, balizada por leis visíveis, porque rígidas, que contribuiria para eliminar as ambigüidades e dúvidas da linguagem comum.

Russell inaugurou a preocupação com a estrutura da linguagem enquanto argumento contra a filosofia idealista (Wittgenstein irá prosseguir nesta mesma linha). No início da vida intelectual de Russell, a filosofia inglesa – e ele próprio – era dominada pelo pensamento hegeliano. Em parceria com George Edward Moore, seu contemporâneo na Universidade de Cambridge – e especialmente influenciado por ele – Russell se dedicou à demolição das doutrinas do idealismo britânico – representadas então por Bradley (Universidade de Oxford) e J. M. McTaggart (Cambridge).

Resgatando o empirismo inglês dos séculos XVII e XVIII, Russell rejeitou o monismo idealista de influência Hegeliana (à época professado em Cambridge), considerando o mundo uma pluralidade de elementos ordenados em indivíduos, classes, relações e possibilidades, que poderiam ser expressos em palavras. Afirmando que a ciência, através de observações e inferências, agrupa fatos e estabelece leis, Russell defendia que a linguagem deve corresponder ao método do conhecimento científico. Como somente os resultados científicos são referenciais semânticos confiáveis, a linguagem deve expressar o mundo através de uma ordem para os fatos observados e inferidos.

Russell diferenciou as formas de denotação para coisas e fatos e considerou que nomes e descrições são construções lógicas – ou seja, que são entidades complexas que devem ser reduzidas a seus elementos básicos. Desse modo, não existiriam verdadeiramente objetos ou

pessoas, mas apenas dados sensoriais, objetos dessas construções. Os dados dos sentidos seriam então átomos do mundo factual. Por exemplo, a frase “o autor do Tractatus era austríaco” é uma frase composta por diversas sentenças, que resultam nas seguintes análises lógicas: 1) “x escreveu o Tractatus” não é sempre falsa; 2) se x e y escreveram o Tractatus, x e y são idênticos: 3) “ se x escreveu o Tractatus, x era austríaco” é sempre verdadeira. Em linguagem ordinária, significa que ao menos uma pessoa escreveu o Tractatus, que no máximo uma pessoa escreveu op Tractatus e que quem quer que tenha escrito o Tractatus era austríaco. Portanto, somente uma análise lógica desse tipo esclarece a frase original complexa.

Leitor de Leibniz e seguindo os caminhos abertos especialmente por Frege e Russell, Wittgenstein conclui no seu Tractatus Logico-Philosophicus35 que somente se pode pensar e representar, seguindo uma lógica discursiva, a realidade empírica. As questões transcendentais que ocuparam em especial os filósofos idealistas, seriam impensáveis e indescritíveis. Essa idéia central de Wittgenstein negou a possibilidade de uma teoria filosófica, afirmando apenas a possibilidade de uma atividade filosófica de análise lógica de proposições empíricas.36 Em Investigações Filosóficas37 ele muda em grande parte o caminho do seu pensamento, mas continua negando à filosofia o estatuto de teoria. Segundo Wittgenstein, em Investigações Filosóficas, a função da filosofia seria elucidar as “condições de significatividade” das expressões de linguagem.38

“A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pelos meios de nossa linguagem”39

.

O pensamento de Wittgenstein, condensado especialmente nos dois textos canônicos da sua filosofia – Tractatus Logico-Philosophicus e Investigações Filosóficas -, é

35 V. WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus logico-philosophicus. 2. ed.. São Paulo: Edusp, 1994. 36 Idem, §124.

37 WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophical investigations. Second edition. Oxford: Basil Blackwell, 1974, 250p.

38 Ver idem, § 126-128.

39 Idem, § 109. As citações referentes a Investigações Filosóficas foram traduzidas livremente para o português, a partir da edição inglesa da Basil Blackwell.

emblemático em relação às transformações do pensamento do século XX sobre a linguagem. De fato, o pensamento de Wittgenstein reuniu os dois pólos da filosofia do século XIX – o positivismo e o idealismo – apresentado sob a forma de uma filosofia aforística e fragmentária e, segundo Luiz Antonio Giron, “próxima da nudez da poesia modernista”40

Entretanto, o caminho intelectual percorrido da primeira à segunda fase filosófica também pode servir de epíteto da trajetória do pensamento do século XX, pois Wittgenstein transitou da busca pelas condições lógico-transcendentais e definitivas da linguagem, através de um grande sistema filosófico – no Tractatus – à percepção de que é possível apenas se descrever as condições contingentes de uso de uma determinada linguagem num contexto concreto da vida. E assim como a Grande Guerra Mundial é um dos marcos simbólicos do fim da Era Moderna, a participação na I Guerra também foi símbolo da aparente ruptura entre os chamados “Primeiro e Segundo” Wittgenstein.

Ruptura que não é facilmente defendida e justificada por diversos críticos que, na verdade, encontram muita mais uma forte continuidade entre os dois períodos, pois em ambos o objetivo central de Wittgenstein é elaborar uma crítica radical da linguagem e de suas possibilidades, pois, segundo o próprio Wittgenstein, a linguagem deve ser a questão central de reflexão, pois é através dela que o mundo se torna cogniscível para o homem. A Linguagem é a imagem do mundo, e os limites do pensamento – e, conseqüentemente, os limites do mundo são os limites da linguagem.

A compreensão da dimensão, intensidade e fragmentação do pensamento de Wittgenstein pode começar pelo cenário social e intelectual da sua produção na Viena do final do século XIX, o mesmo contexto do surgimento da Psicanálise de Freud; do modernismo na música – com o dodecafonismo de Schoenberg -, na arquitetura – com o funcionalismo de Adolf Loos -, e na pintura – especialmente com a fragmentação de Gustav Klimt.

40 GIRON, Luís Antônio. Uma mente em chamas. Revista Cult, São Paulo: Editora 17, Ano VI, nº 60, agosto/2002, p. 47.

A forma de expressão do pensamento de Wittgenstein lembra o Romantismo alemão, na sua fragmentação e descontinuidade.

“Nada mais romântico e metafísico que a chama do pensamento cristalizada em um pedaço inacabado de proposição. A perfeição do argumento se converte em mero aceno, esboço a ser completado pelo leitor. O que consta escrito é um fragmento de algo que o precede e se encontra certamente na vida, nesse universo do inefável – segundo Wittgenstein, do indescritível.”41

O ideal romântico também está presente no pensamento de Wittgenstein na sua crítica à perspectiva moderna, já no Tractatus, onde ele afirma que a moderna visão de mundo está baseada na ilusão de que fenômenos naturais sejam explicados por leis naturais.

De qualquer modo, influenciado pelo lógico e matemático Friedrich L. G. Frege, e pelo lógico e filósofo Bertrand Russel, Wittgenstein propôs no Tractatus a criação de uma linguagem universal, cientificamente perfeita, que pudesse expressar com rigor a realidade.

Friedrich Frege já havia proposto a criação de uma língua formal, baseada em leis suficientemente rígidas, de modo a torná-la transparente, que eliminasse as ambigüidades, erros e incompreensões próprios da linguagem comum. Bertrand Russel também criou um sistema lógico-filosófico, baseado numa rigorosa linguagem, que pretendia eliminar qualquer tipo de paradoxo.

Para Wittgenstein, no Tractatus, ao mesmo tempo em que a linguagem é a expressão intersubjetiva do pensamento individual (“Os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”42), a linguagem é o limite do próprio pensamento – ela mascara o pensamento.

41 Idem, p. 50.

“A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento por meio da nossa linguagem”.43

No Tractatus, Wittgenstein pretendeu revelar a “estrutura oculta” do pensamento e da linguagem através de uma análise lógica.44

“A Linguagem é um traje que disfarça o pensamento. E, na verdade, de um modo tal que não se pode inferir, da forma exterior do traje, a forma do pensamento trajado”45.

Já em Investigações filosóficas, o objetivo não é mais construir uma linguagem universal formal e artificial, através da qual se poderia alcançar o Real subjacente a todas as linguagens comuns, o objetivo passou a ser uma reflexão sobre a linguagem como de fato ela é.

Ao abandonar o ideal de construção de uma linguagem perfeita, universal, Wittgenstein reconhece que a linguagem é apenas o uso das palavras.

“Todo signo [sozinho], parece morto. O que lhe confere vida? – [Ele está vivo] no uso. Ele tem em si o hálito da vida? – Ou é o uso o seu hálito?”46

Em Investigações Filosóficas, Wittgenstein assume que anteriormente havia se submetido à ilusão de compreender a essência da linguagem. O pensamento não está envolto em um “halo”. Os termos “linguagem”, “experiência”, “mundo”, devem ter um emprego tão modesto quanto as palavras “mesa”, “lâmpada”, “porta”.47

43 WITTGENSTEIN, Philosophical investigations, § 109. 44 V. WITTGENSTEIN, Tractatus logico-philosophicus , § 97. 45 Idem, § 4002.

46 WITTGENSTEIN, Philosophical investigations, § 432. 47 Idem, § 97.

Não há essências, o objetivo de construir uma linguagem geral é abandonado em prol da observação de casos particulares, que são infinitos e em constante transformação.

“O que está oculto não nos interessa”.48

§ 126

Wittgenstein utiliza, para isso, os verbos dizer e mostrar para explicar a distinção entre as leis fenomênicas e a transcendência. “Diz-se” o que é mundano. O transcendente, apenas “mostra-se”.

“Sobre o que não se pode falar, deve-se calar”.49

Tentar dizer o que não pode ser dito foi o caminho de Wittgenstein para perceber os limites efetivos da linguagem. Em Investigações Filosóficas já está clara a percepção da incapacidade da linguagem em exprimir o transcendente, o inefável. Portanto, o objetivo de Wittgenstein passa a ser a descrição das condições contingentes de uso das expressões lingüísticas, ou seja, a língua em seu contexto.

A idéia de que os limites da linguagem são os limites do pensamento significa dizer que tudo o que pode ser pensado também pode ser dito. Os problemas metafísicos decorrem, de acordo com o Tractatus da tentativa de dizer o que não pode ser dito.

A linguagem estaria estruturada em sentenças complexas e atômicas, sendo que as primeiras são constituídas a partir das segundas. Para explicar as regras de formação das sentenças, Wittgenstein utilizou-se da lógica de Russell, segundo a qual apenas uma proposição complexa pode expressar fatos do mundo. Fatos complexos correspondem às proposições complexas. Portanto, somente a compreensão da complexidade da linguagem pode levar à compreensão dos fatos do mundo.

48 Idem, § 126. 49 Idem, ibidem.

A verdade de uma sentença complexa pode ser extraída da verdade de suas partes. Compreendendo a verdade das partes é possível se compreender o todo. Além disso Wittgenstein distingue verdade lógica e contingência. Uma sentença é uma verdade lógica caso a substituição dos componentes primitivos resulte em uma sentença também verdadeira.

Essa teoria da verdade necessária leva à conclusão de que as verdades necessárias nada dizem porque nada excluem. São as chamadas tautologias veri-funcionais. As sentenças atômicas verdadeiras descrevem o que é real; já as tautologias refletem apenas as verdades do espaço da própria lógica.

A relação entre fatos atômicos e sentenças atômicas Wittgenstein chama de figuração; também afirma que tal relação não pode ser descrita, apenas mostrada, pois o que é mais básico só pode ser mostrado, senão nunca seria possível começar a descrição.

Roger Scruton explica esse ponto fundamental do pensamento de Wittgenstein:

“Quiçá a melhor maneira de compreender essa teoria – às vezes chamada “teoria figurativa do significado” – seja negar, para usar uma expressão ulterior de Wittgenstein, que podemos avaliar com palavras a relação entre uma fato atômico e uma proposição atômica, a não ser usando a proposição cuja verdade estamos tentando explicar. Não podemos “pensar” no fato atômico sem pensarmos na sentença que o “figura”. Os limites do pensamento são os limites da linguagem. Wittgenstein conclui seu livro com o lacônico enunciado: “o que não se pode falar deve-se calar”.”50

50 SCRUTON, Roger. Wittgenstein. http://www.cfh.ufsc.br/ ^mafkafil/scruton. htm, p. 5. (Escaneado de SCRUTON, R. Introdução à Filosofia Moderna, Rio de Janeiro: Zahar. 1982)

A filosofia posterior de Wittgenstein, condensada principalmente em Investigações Filosóficas, foi desenvolvida em reação à anterior, ou no mínimo, a partir de uma reinterpretação crítica do seu próprio pensamento.51

A filosofia posterior de Wittgenstein, embora tendo ainda como objetivo central questões sobre as relações entre significante e significado e os limites do significante, tem uma clara preocupação com a experiência humana.

“Wittgenstein introduz [o elemento humano] por meio de reflexões a priori sobre a natureza da mente humana e sobre o comportamento social que dota essa mente de sua estrutura característica. O que é “dado” não são os “dados sensoriais” dos positivistas, mas as “formas de vida” da antropologia filosófica Kantiana. Isso quer dizer que o objeto de qualquer teoria do significado e do entendimento é a prática pública do proferimento e tudo que torna tal prática possível.”52

Wittgenstein inicia suas investigações posteriores a partir dos resultados alcançados por Frege. Aproveitando a tese do “caráter público” do sentido desse autor, Wittgenstein não apenas desenvolveu uma nova concepção da linguagem, como do próprio pensamento.

“O que caracteriza, Wittgenstein é a transição que ele realiza no plano da articulação da filosofia da linguagem com a filosofia da mente. Ao realizar tal transição, tenta subverter a principal premissa de quase toda a filosofia ocidental desde Descartes – a premissa da “prioridade do caso da primeira pessoa” . Wittgenstein usa vários argumentos destinados a mostrar o que essa premissa realmente significa (...) Ela envolve a rejeição da busca cartesiana da certeza, o aniquilamento da concepção de que os eventos mentais são episódios privados que só podem ser observados pela própria pessoa e a recusa de todas as tentativas de compreender a mente humana isoladamente das práticas sociais por meio da quais ela encontra expressão”.53

51 V. WITTGENSTEIN, Philosophical investigations, § 115 e 118. 52 SCRUTON, op. cit., p.6.

Contra tais idéias, Wittgenstein desenvolveu o “argumento da linguagem privada”, que trata do privilégio envolvido no conhecimento das nossas próprias experiências. Isso resulta na “ilusão da primeira pessoa”, que define que cada um possui a certeza nos próprios estados mentais. Uma pessoa tem mais certeza no seu próprio estado mental do que no do outro. O que percebemos do outro é apenas a expressão que o acompanha de modo contingente. A dor, por exemplo, só pode ser diretamente observada por quem sofre. A própria dor estará sempre oculta por sua expressão.54

Especialmente nos parágrafos 243-315 de Investigações Filosóficas , Wittgenstein apresenta seus argumentos sustentando a impossibilidade de uma “linguagem privada”.55 O sentido do termo “linguagem privada” a ser criticado por Wittgenstein significa toda linguagem que não pode ser entendida por outro, uma linguagem que se refere a algo sobre o qual apenas quem fala pode saber.56

A idéia de qualquer sensação poder ser determinada, mas indescritível é criticada por Wittgenstein, pois qualquer sensação determinada pode ser diferenciada de outras sensações comparáveis, portanto pode ser identificada e reconhecida, portanto, nomeável. Para se nomear, segundo Wittgenstein , não é necessário empregar-se um nome ou predicado determinado. Por exemplo, “sinto um sabor semelhante ao de pêra, diferente do sabor da laranja”. Assim como uma sensação indeterminada e não diferenciável de outras pode ser nomeada como indeterminada e indescritível: e, novamente, não há nada nesses casos, que escape à linguagem.

Segundo Wittgenstein , o exercício da filosofia parece muitas vezes conduzir a um ponto no qual se desejaria somente proferir um som inarticulado. Mas tal som somente seria

54 WITTGENSTEIN, Philosophical investigations, § 283.

55 Ver também: TUGENDHAT, Ernst. Wittgenstein: a impossibilidade de uma linguagem privada. http//www.geocities.com/marcofk2/tugendhat.htm

uma expressão se ocorresse num jogo de linguagem determinado, que deve portanto ser descrito.57

Em primeiro lugar, a linguagem real é uma linguagem intersubjetiva por natureza, pois aprendemos intersubjetivamente. E, avançando ainda mais, Wittgenstein afirma que não é possível inclusive haver simultaneamente: um significado intersubjetivo e outro privado, pois a idéia de uma linguagem privada contradiz princípios gerais do emprego significativo de expressões.58. A questão crucial não é portanto o aprendizado da palavra, mas o seu emprego.

Ampliando esta idéia para o pensamento filosófico, Wittgenstein alega que a teoria e o que ela explica são ilusões. Segundo ele, não é possível explicar sensações por meio de palavras numa linguagem pública, pois a linguagem pública pressupõe que as palavras adquiram um sentido publicamente, ao serem associadas a condições publicamente acessíveis que determinarão o sentido e a referência das palavras. Se a referência é privada, o sentido não pode ser público.59

Se os eventos mentais funcionam segundo a premissa de “prioridade do caso da primeira pessoa”, como dizia Descartes, nenhuma palavra da linguagem pública poderia se referir a ele. Para Wittgenstein, se houver diferença entre como as coisas parecem ser e como elas são, há uma clara distinção entre ser e parecer. A linguagem torna-se, assim, apenas um jogo arbitrário.

Tal qual alguns fenomenologistas, como Merleau-Ponty e Sartre, Wittgenstein afirmou a diferença entre perceber e compreender o comportamento humano e perceber e compreender o mundo natural. O comportamento humano é explicado por razões, e não causas.60 Wittgenstein volta-se então para descrever e analisar as características do entendimento

57 V. idem, § 261. 58 V. idem, § 272 e 273. 59 V. idem, § 110 e 111 60 V. idem, § 531-533.

humano e negar que a ciência possa descrever tudo acerca da humanidade. Há um mistério nas coisas humanas que não poderá ser alcançado pela investigação científica. O que é dado não é o conteúdo da experiência, mas as formas de vida que tornam possível essa experiência.

No documento Entre palavra e imagem: um espaço possível (páginas 185-200)