4. APLICANDO OS PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL NA DEFESA DO MEIO AMBIENTE DO TRABALHO EM FACE DO RISCO EM POTENCIAL DE NOVAS
4.1 WORKING ANYTIME, ANYWHERE OS RISCOS DO TELETRABALHO
Prosseguindo a análise das novas tendências advindas, em especial relevo, à utilização de novas tecnologias no meio ambiente laboral, a Organização Internacional do Trabalho editou em 2017 relatório chamado de “Working anytime, anywhere” (trabalhando a qualquer hora, em qualquer lugar – tradução nossa).
243 Idem.
Esse relatório “mostra que o uso das novas tecnologias de comunicação abre caminho para um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal, mas também diminui as fronteiras entre trabalho e casa”. Esse documento aponta que a utilização de meios telemáticos de comunicação, como celulares smartphones, tablets e laptops permitem o trabalho em outros lugares que não o confinamento comumente esperado na empresa, o que poderia permitir um maior equilíbrio entre os problemas enfrentados entre a vida pessoal e profissional desses trabalhadores, além do notório gasto de tempo menor com deslocamento245.
Esse mesmo relatório aponta, também, que algumas desvantagens podem ser observadas nessa nova tendência de trabalho, como em jornadas de trabalho mais longas, a interferência dele em um ambiente doméstico, fomentando conflitos familiares, bem como um estresse ocupacional, destacadas por essas questões ora apontadas. A Organização Internacional do Trabalho já sinaliza para o teletrabalho como uma das modalidades presentes no dia a dia do nosso futuro, acrescentando que ele pode se mostrar uma grande oportunidade e “pode trazer inúmeros benefícios para o trabalhador, não deve cobrar um preço em termos de formalização e proteção social”246.
Nesse contexto, o Brasil regulamentou a questão do teletrabalho com a Lei nº 13.467/17, popularmente chamada de “Reforma Trabalhista”, dando um conceito e regulamentação a esse instituto e conferindo maior segurança jurídica para as empresas explorarem esse tipo de atividade, em substituição à genericidade que existia na redação dos artigos 6º247 e 83º248 da Consolidação das Leis do Trabalho.
245 OIT. Novo relatório destaca oportunidades e desafios na expansão do trabalho a distância.
2017. Disponível em: <https://www.ilo.org/brasilia/noticias/WCMS_544296/lang--pt/index.htm>. Acesso em: 12 out. 2019.
246 OIT. Futuro do Trabalho no Brasil: Perspectivas e Diálogos Tripartites. 2018. Disponível em:
<https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---americas/---ro-lima/---ilo- brasilia/documents/publication/wcms_626908.pdf>. Acesso em: 12 out. 2019.
247 BRASIL. Decreto-Lei nº 5.452, de 01 de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis do
Trabalho. Rio de Janeiro, RJ, 01 maio 1943. Disponível em: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-5452-1-maio-1943-415500-publicacaooriginal-1- pe.html>. Acesso em: 10 jan. 2019. Em seu artigo 6º, não se distingue entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado a distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de emprego.
Parágrafo único. Os meios telemáticos e informatizados de comando, controle e supervisão se equiparam, para fins de subordinação jurídica, aos meios pessoais e diretos de comando, controle e supervisão do trabalho alheio. (NR).
248 BRASIL. Art. 83 do DECRETO-LEI Nº 5.452, DE 1º DE MAIO DE 1943 que Aprova a Consolidação
das Leis do Trabalho – “É devido o salário mínimo ao trabalhador em domicílio, considerado este como o executado na habitação do empregado ou em oficina de família, por conta de empregador que o remunere”.
Alguns comentários são necessários a tal regulamentação, ainda que de forma muito breve, para não fugir muito do tema. Primeiro, sobre as vantagens e desvantagens do teletrabalho, sob o ponto de vista do empregado, são apontados pela doutrina de Marília Mottin Borges249, em uma enumeração, como sendo:
[...] diminuição das despesas com transportes e combustíveis, diminuição do estresse, possibilidade de trabalhar sem interrupções ou interferências, maior liberdade para organizar sua vida de um modo diferente com a possibilidade de controle do seu ritmo de trabalho, diminuição dos conflitos decorrentes da convivência empresarial, aumento do bem-estar, maior disponibilidade para a família.
[...] não ter colegas de trabalho, possibilidade de problemas familiares em virtude da dificuldade em separar a vida profissional da vida pessoal, quebra da comunicação informal, sensação de insegurança econômica, social e profissional, isolamento social e afetivo, falta de metodologia, dificuldade na adaptação num novo emprego; redução das oportunidades profissionais no caso de promoções ou incrementos na carreira, [...]
Outro ponto que merece destaque diz respeito à preocupação tecida no relatório de que o teletrabalho possa vir a fazer as pessoas trabalharem por muito mais horas é algo longe de ser hipotético no modelo tecido pelo nosso legislador. Isso porque, conforme destaca Fincato250, a Lei 13.467/17 incluiu o inciso III ao artigo 62,
afastando tais profissionais do controle de jornada, o que, na prática, subtrai os empregados da percepção de horas extras.
Contudo, o tema referente à saúde, higiene e segurança do trabalho também foi regulamentado com a inclusão do artigo 75-E251 à CLT, que determina que “o
empregador deverá instruir os empregados, de maneira expressa e ostensiva, quanto às precauções a tomar a fim de evitar doenças e acidentes de trabalho”, devendo, para tanto, o empregado “assinar termo de responsabilidade comprometendo-se a seguir as instruções fornecidas pelo empregador”.
249 BORGES, Marília Mottin. O teletrabalho como forma de (des) inclusão das pessoas portadoras
de deficiência. Porto Alegre: Monografia, 2009, p. 22.
250 FINCATO, Denise Pires. Teletrabalho na Reforma Trabalhista Brasileira, In: AZEVEDO, André Jobim
de (Organizador). Reforma Trabalhista: Desafio Nacional. Porto Alegre: Lex Magister, 2018, pág. 77.
251 BRASIL. Art. 75-E do DECRETO-LEI Nº 5.452, DE 1º DE MAIO DE 1943 que Aprova a Consolidação
das Leis do Trabalho –O empregador deverá instruir os empregados, de maneira expressa e ostensiva, quanto às precauções a tomar a fim de evitar doenças e acidentes de trabalho.
Parágrafo único. O empregado deverá assinar termo de responsabilidade comprometendo-se a seguir as instruções fornecidas pelo empregador.
Assim, fica claro que o princípio da precaução se mostra bastante presente e é utilizado como um instrumento de redução de riscos ocupacionais. Tais medidas são importantes, pois reduzem a possibilidade de que essa modalidade de labor possa precarizar a vida humana, jogando o empregado à toda sorte de ter que cuidar sozinho de sua higidez, em um ambiente pouco supervisionado como a sua casa.
Isso faz as desvantagens de teletrabalhar serem minimizadas, o que não impede que eventuais riscos ocorram.
Assim, resta claro que o teletrabalho, longe de ser apenas uma forma de laborar, é um fator determinante de novos riscos ocupacionais e que, em razão disso, os ensinamentos até aqui presentes devem ser verificados, com a finalidade de verificar de que forma a utilização dos princípios do Direito Ambiental podem minimizar os impactos sob a saúde dos empregados.
Nesta esteira, em estudo conduzido pela Carlota Bertoli Nascimento, em que esta analisa de forma reflexiva os impactos da utilização das novas tecnologias nas relações laborais, ao enfoque da ausência de uma regulamentação clara e específica sobre esse tema, aponta que, dada a falta de estudos científicos sobre os impactos dessas técnicas, o estado e as empresas deverão, em respeito ao princípio da precaução, atuar com a finalidade de não incorrer tais usos em prejuízo à saúde dos trabalhadores, dada “incerteza sobre as consequências que a não tutela do instituto possa estar causando na saúde dos trabalhadores”252.
Ainda que os danos de um labor executado fora dos limites da empresa não sejam empiricamente comprováveis, é notório que eles existem e, por isso, precisam ser ponderados na escolha dessa modalidade de labor. Não basta a ausência de pesquisas científicas que comprovem tais riscos, mas a iminência deles acontecerem e sua enorme previsibilidade, devendo o princípio da precaução ser aplicado nessa modalidade de trabalho com a sua máxima eficácia, para excluir ou, ao menos, diminuir ao máximo, a possibilidade de tais eventos maléficos de ocorrerem, garaindo, assim, que o a empresa cumpra seu dever social253.
252 NASCIMENTO, Carlota Bertoli. A aplicação do princípio da precaução nas relações de teletrabalho:
dever do empregador. In: REVISTA DIREITO CULTURA E CIDADANIA – CNEC OSÓRIO / FACOS, v. 4 – nº 1 – MARÇO/2014, passim.
4.2 INSTRUMENTOS DE APLICAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DO DIREITO AMBIENTAL