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2. CONCEITOS BÁSICOS DA PESQUISA

2.6. World Wide Web

A rede mundial, World Wide Web ou simplesmente Web, é um meio global de informação no qual indivíduos podem ler ou escrever textos interconectados por meio de computadores a ele ligados. Confunde-se com a internet, mas é apenas um serviço que opera sobre ela (MILLER et al., 2009; BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000), assim como o e-mail criado por Ray Tomlinson (BERNERS-LEE, 2010; KAHN e CERF, 1999). A grande diferença é que os e-mails apenas trafegam pela internet; no caso da Web, a informação finalmente encontra espaço para persistir e ser consultada de onde se queira (BERNERS- LEE e FISCHETTI, 2000).

Em 1965, Ted Nelson descreveu como funcionariam as “máquinas literárias” no seu projeto chamado “Xanadu”. Estes computadores permitiriam escrever e publicar textos em uma forma não linear, o hipertexto, que permitiria ao leitor, a qualquer momento, seguir elos de conexão gerados no texto, ou links, que se conectariam a outros textos. Portanto, todas as informações do mundo poderiam ser publicadas em hipertexto. Ele pensou, na época, que o acesso a qualquer texto pudesse render ao seu dono uma recompensa de pequeno valor (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).

Já em 1980, Tim Berners-Lee, físico inglês e consultor contratado pela Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (CERN) na Suíça, construiu o ENQUIRE. Tratava-se de uma base de dados descentralizada de pessoas e softwares, em que cada nova informação devia ser amarrada à outra, valendo-se para isso do conceito de hipertexto e da compatibilidade com o grande número de sistemas de computação existentes dentro do CERN (W3C, 2010; MILLER et al, 2009; BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000). Em 1984, deu-se conta de que os físicos no mundo inteiro tinham problemas para compartilhar e apresentar suas ideias. Em março de 1989, ele apresentou ao CERN uma proposta para fazer uma grande base de dados em hipertexto com links (MILLER et al., 2009; W3C,2010). Houve pequena receptividade, mas ele começou a desenvolver seu sistema em um computador NeXT. Na época, recebeu o nome de World Wide Web (W3C, 2010).

Em 1990, junto com Robert Cailliau, Tim Berners-Lee reescreveu a proposta, e apresentou-a na Conferência Europeia de Tecnologia de Hipertexto, novamente sem obter sucesso. No final de 1990, terminou de desenvolver todas as ferramentas necessárias para a Web: o protocolo de transferência de hipertexto (HTTP); a linguagem de programação da Web, ou o HyperText Markup Language (HTML); o identificador universal de recursos para endereçar documentos (URI, depois conhecido também como URL ou localizador uniforme de recursos); e o primeiro visualizador da Web, popularmente chamado de browser. Surge, então, o primeiro servidor com software HTTP da Web dentro da CERN e as primeiras páginas da Web (MILLER et al., 2009; BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000) (Figura 3).

Os primeiros a adotarem a Web foram laboratórios de física e departamentos científicos em universidades, mas a cada dia surgiam novos servidores conectando-se na Web. Foi então que, em 1992, Berners-Lee começou a participar da IETF (Força Tarefa de Engenharia de Internet ou Internet Engineering Task Force) com o objetivo de padronizar publicamente as especificações do URI, HTTP e do HTML. Os membros da IETF reuniam- se três vezes ao ano, sendo a participação aberta a quem quisesse (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).

FIGURA 3: Aspecto do primeiro browser da Web criado por Tim Berners-Lee em 1990, junto com as primeiras páginas da Web (Berners-Lee, 2010).

Em 1993, A Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign, liderada por Marc Andressen criou o primeiro browser gráfico, chamado "MOSAIC for X" (W3C, 2010), que depois veio a tornar-se o Netscape Navigator em 1994, que impulsionou muito a Web (MILLER et al., 2009; GILLIES e CAILLIAU, 2000). O Netscape foi o protagonista da guerra litigiosa entre seus criadores, que no início pretendiam vender as licenças do seu browser, e a Microsoft, que passou a entregá-lo gratuitamente junto com o seu sistema operacional Windows. A Netscape, então, passou a não cobrar mais pelas licenças. Percebeu que obtinha mais recursos vendendo anúncios do que licenças, ou seja, era mais vantajoso ser uma empresa de serviços do que de softwares (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).

Nesse mesmo ano, os criadores do maior concorrente do sistema desenvolvido por Berners-Lee, o Gopher desevolvido pela Universidade de Minnesota, decidiram que alguns tipos de usuários deveriam pagar uma taxa de licença para poder usá-lo. Apesar de os softwares para servidores e a navegação permanecerem gratuitos, esse movimento foi considerado uma traição pela comunidade acadêmica. Mesmo que nunca se cobrasse nada dos usuários, a porta estaria aberta para tal, sendo extremamente arriscado fazer

programas para o Gopher, não só pelo custo, mas também pelo risco de processos (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).

Depois disso, ao ver o movimento em falso da Universidade de Minnesota, Berners-Lee e a CERN estabeleceram que todos os protocolos da Web pudessem ser utilizados sem pagamento de royalties (W3C, 2010; BERNERS-LEE, 2010; MILLER et al., 2009), como uma licença gratuita ao público em geral. Em 1994, Cailliau começou a organizar a Conferência Internacional da WWW na CERN, a fim dee esclarecer que ninguém controlaria a Web. Nesse mesmo ano, Berners-Lee fundou o World Wide Web Consortium (W3C) no Massachussetts Institute of Technology – MIT, a fim de reunir as empresas e os pesquisadores que quisessem contribuir com padrões, protocolos e recomendações para melhorar a qualidade da Web e para certificar-se de que ninguém iria controlar a Web (MILLER et al. 2009; BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).

O controle da Web seria possível caso houvesse uma verticalização em vários dos seus quatro níveis: o meio de transmissão, o hardware, o software e o conteúdo. O conteúdo somente existe porque existem os outros três. Essa modulação dos níveis é muito importante, já que a sua verticalização criaria mercados não competitivos em vez de mercados horizontais competitivos. E isso inclui acordos entre companhias nos diversos níveis, criando-se um viés sobre quais informações seriam facilmente acessadas e quais não, induzindo assim os usuários da Internet àquilo que os atores de cada nível quisessem (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).

A partir dessa liberalização do uso gratuito da Web, houve o crescimento exponencial do seu uso, devido à conscientização das grandes empresas privadas de que deveriam participar de algum modo da Web e das novas formas de comércio que ela apresentava (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000). Essa necessidade de participação – e as oportunidades que ela representava – deu-se não apenas com a disponibilização da informação, mas também com a criação de uma grande quantidade de empresas de comércio eletrônico (e-commerce) e com o desenvolvimento de ferramentas como o SSL

(Secure Sockets Layer), que permitiu proteger as compras com cartões de crédito, gerando altas expectativas de um crescimento exponencial do meio Web. Isso criou a "Bolha" das "ponto-coms" de 1999 a 2001, com perdas enormes de muitos investidores (MILLER et al., 2009).

Figura 4. Os quatro níveis da Web. Se houvesse verticalização entre eles, haveria risco de controle da Web. Elaborado pelo autor, com base em Berners-Lee e Fischetti, 2000.

Com o fracasso de muitas empresas da Web, as companhias de telecomunicações passaram a ter uma ociosidade bastante grande, o que as levou a manter baixos os preços de acesso. Com os investimentos programados em tecnologia, a velocidade de acesso passou a ser muito maior, e as empresas Web com modelos de negócio rentáveis cresceram e se tornaram lucrativas, tais como Amazon.com, Google, Ebay (Mercadolivre.com.br), entre outras. Também as redes sociais obtiveram grande visibilidade. Sites como Orkut, Facebook, MySpace e Twitter também cresceram, com milhões de pessoas relacionando-se pela Web, principalmente os jovens, que a tornaram parte importante de sua cultura (MILLER, et al, 2009).

No setor de música, nos anos 1990, surgem o Napster.com, my.Mp3.com., entre muitos outros, que permitiam obter faixas de músicas (tecnicamente denominadas de fonogramas) de forma gratuita, com alta compressão de dados e boa qualidade, no formato Mp3 (Motion Picture Expert Group layer three – grupo da ISO – International

Standards Organization, baseado em Genebra, Suíça, de 1993) (LEYSHON, 2001; GRAHAM e HARDAKER, 2003). Para cada minuto de música de CD que ocupa um espaço de 11 Mb, é necessário apenas 1 Mb de arquivo Mp3 (LEYSHON, 2001).

Apesar dos problemas vistos antes, o futuro da Web está na colaboração entre computadores que se tornam capazes de analisar todos os dados na Web. A esse tipo normalmente se chama Web Semântica, ou 2.0. Para isso, seria necessário que houvesse mais informação padronizada na Web, principalmente informação sobre a informação do que se tem na Web, ao que se chama metadata, ou metadados, ou, ainda, propriedades do documento. O futuro da Web depende que os computadores possam ler qualquer informação, página, relatório, formulário etc. e entenderem o que está em cada local de página padronizada, enfim, quando houver uma língua comum para representar e compartilhar dados, tanto como num pedido na Amazon quanto como outro das Americanas.com (BERNERS-LEE e FISCHETTI, 2000).