Capítulo II “Uma geral Epidemia de Bexigas” (1776-1778)
XVII- XIX), op cit., p 105.
aparecendo os limites a oeste, mas que eram os atuais Peru e Colômbia. No correr dos setecentos as fronteiras limítrofes entre o Grão- Pará com as possessões espanholas e a fronteira com a Guiana Francesa foram motivo de grande preocupação da Coroa portuguesa:
“(...) Para resolver os seus problemas com a Espanha e a França, Portugal firmou alguns tratados ao longo do século XVIII. Os principais tratados foram os de Utrecth (1713), de Madri (1750), El Prado (1761) e Santo Ildefonso (1777). O último ratificou como limite entre Portugal e Espanha o rio Solimões com o rio Napo, a oeste, e o rio Yapouque, ao norte, com a Guiana Francesa”.403
Tendo em vista esse contexto de importantes processos voltados a assegurar a ocupação e defesa das fronteiras do Grão-Pará, podemos dimensionar melhor o que representava nesse momento uma baixa de soldados agravada pela epidemia. Do mesmo modo, esses processos estavam ligados com a necessidade de manter o controle luso sobre a região, promovendo a ocupação, conquista e militarização desse espaço.
Durante as bexigas, os sujeitos na condição de soldados não foram os únicos a desertarem. As fugas realizadas na tentativa de escapar da doença também foi uma aventura empreendida por índios utilizados como mão de obra nas vilas. Para esses últimos, o ato de fugir diante de um evento epidêmico também se revestia de um caráter simbólico.
2.3.2 – “O pavor que lhes deve causar a geral epidemia de bexigas”
A epidemia não apenas grassou sobre os colonos da vila de Mazagão, como também nos índios que para lá foram enviados para servir de mão de obra. Sobre esta situação, em dezembro de 1776, o governador Pereira Caldas apontou ao comandante da vila que considerava que “as deserções de índios que ahi se experimenta na ocasião presente pode ter alguma desculpa pelo pavor que justamente lhes deve causar a geral epidemia de bexigas, que em todo Estado está se experimentando”. 404Além de Mazagão, Cametá também foi palco para fugas de indígenas, os quais foram encontrados depois de longos dias “amotinados com o temor das bexigas.”405
Essa movimentação indígena por meio das fugas, em tempos de epidemia, era frequente no passado colonial amazônico. Ainda sobre o contágio ocorrido entre os anos
403Idem, p. 285.
404Carta de João Pereira Caldas para comandante da Vila de Mazagão, em 2 de dezembro de 1776. APEP, Fundo: Secretária da Capitania. Diversos com o governo. Códice 0306.
405 Carta de João de Moraes Bittancourt para o governador do Estado, João Pereira Caldas, em 10 de Março de 1777. APEP, Fundo: Secretária da Capitania. Diversos com o governo. Códice 207.
de 1748-1750, analisado no primeiro capítulo deste trabalho, já havíamos ressaltado os casos de deserção indígena dos aldeamentos. Do mesmo modo, era acionado por esses sujeitos um sentido simbólico para o ato de fugir diante da epidemia, pois muitos fugiam, dando grandes rodeios nas matas para escapar do “inimigo perseguidor” da doença.406 E esse temor e fuga diante das epidemias- mesmo que compreendido de forma distinta daquela acionada pelos índios- era de ciência e perceptível aos olhos das autoridades, já que as mesmas chegaram a informar sobre esses casos de deserções.
As fugas empreendidas pelos indígenas nos anos de 1770 desenvolveram-se em uma nova perspectiva voltada a utilização desses sujeitos enquanto força produtiva. Diferentemente do que ocorrera no surto de fins da primeira metade do XVIII, os nativos não mais fugiam de missões ou aldeamentos missionários, mas sim de vilas administradas por leigos, as quais muitas vezes apenas constituíam em espaços temporários de trabalho para esses indivíduos.407 Para elucidarmos melhor tal questão, analisemos de forma mais detalhada os meandros dessa nova gestão colonial.
A organização do trabalho indígena no período colonial passou por uma significativa mudança a partir da segunda metade do século XVIII. Na fase de administração josefina/pombalina foi retirada dos religiosos o poder temporal das aldeias, transferindo-se a gestão sobre a mão de obra indígena para o Estado.408 Amparado por uma nova legislação indígena, o Diretório dos Índios (1757), esse processo significou a laicização da administração das povoações indígenas, os quais passariam a ser “tutelados” por uma administração leiga, os diretores, devidamente nomeados pelo governador do Estado.409
406 CAMARGO, L. S. de. As “bexigas” e a introdução da vacina antivariólica em São Paulo, op. cit.,p. 2;MARTIUS, Carl Friedrich Philippvon. Natureza, Doenças, Medicina e Remédios dos Índios
Brasileiros. Companhia Editora Nacional, (1844) 1939, p. 99.
407Cabe destacar que as fugas não necessariamente se materializavam apenas no ato de ir para as matas. Muitos fugitivos poderiam deslocar-se para outras povoações, em busca de melhores condições, ou ainda visitar parentes em outras vilas. SOUZA JÚNIOR, José Alves de. Negros da terra e/ou negros da
Guiné: Trabalho, resistência e repressão no Grão-Pará no período do Diretório. Afro-Ásia, Salvador,
n. 48, jul./dez. 2013, p. 194-195. Ainda sobre a multiplicidade de movimentações indígenas na Amazônia colonial, consultar: ROLLER, Heather. Migrações Indígenas na Amazônia do século XVIII, op.cit. 408 ALMEIDA, Maria Regina Celestino. Os Vassalos D´EL Rey nos Confins da Amazônia: A
colonização da Amazônia Ocidental (1750-1798), Niterói, 1990, p. 120, (Dissertação de mestrado).
409A presença e importância desses administradores, nessas localidades, perpassavam pela ideia existente entre os colonizadores de que os indígenas eram incapazes de se governarem e gerirem seus interesses. Além disto, como chama atenção José Alves, a restauração da tutela sobre os indígenas era uma resposta à questão das fugas crescentes dos indígenas dos aldeamentos, mediante a Lei Geral de Liberdade de 1755. Do mesmo modo, era um meio de mantê-los nesses espaços, enquanto mão de obra disponível aos moradores. SOUZA JÚNIOR, José Alves de. Negros da terra e/ou negros da Guiné: Trabalho,
Entre os interesses metropolitanos intrínsecos ao estabelecimento deste novo dispositivo legal, estava à preocupação com povoamento e domínio do território colonial português, sobretudo no que condiz a defesa de fronteiras frente às incursões estrangeiras, além de desenvolvimento econômico do vale amazônico. Mauro Coelho nos ressalta, contudo, que essa legislação também foi conformada a partir das diferentes relações e interesses transcorridos no espaço amazônico, entre elas, a constante demanda reclamada por autoridades e moradores, em relação à utilização da força produtiva indígena. Assim, ainda que instituído e formulado pela Metrópole, o sentido e caráter empregado neste dispositivo resultou de uma série de questões impostas pela Colônia.410
O Diretório dos Índios, assim, constituía-se em um conjunto de medidas que visavam regular a liberdade concedida aos índios ainda em 1755, mediante a Lei de Liberdade dos Índios. Suas diretrizes consideravam a educação dos indígenas como uma estratégia de melhoria nas condições de vida dos mesmos, tanto a partir do domínio da língua portuguesa quanto à adoção de valores europeus, como o zelo pelo trabalho. Estabeleciam a transformação do estatuto de índio para o de vassalo português, o qual poderia receber honrarias e exercer responsabilidades nas esferas administrativas locais. O Diretório também incentivava os casamentos entre índios e colonos, como forma de integração e civilidade, além de possuir um papel regulador e de controle a respeito da distribuição do trabalho indígena no vale amazônico, garantindo aos moradores a utilização dos mesmos em condição de mão de obra.411
Se por um lado o Diretório, ao alçar os índios à condição de vassalos, lhes abriu brechas para honrarias e certos privilégios na sociedade colonial, por outro, estabeleceu um maior controle sobre a força de trabalho indígena. Foi organizada para todo o vale amazônico uma estrutura que enquadrava os indígenas como trabalhadores disponíveis, entretanto, que reforçava seu enquadramento na lógica de um regime compulsório de trabalho. Nesse sistema, havia um rígido controle do tempo de trabalho e a imobilização dos índios nos locais aos quais seriam empregados como mão de obra, isto é, eram proibidos de se retirarem dos mesmos sem autorização ou antes do término do tempo
410 ZÚNIGA, Vinícius Melo. Os diretores de povoações no Grão-Pará do Diretório dos Índios (1757-
1798): o serviço à monarquia e constantes infrações às suas normas. Trabalho apresentado no XVIII
Simpósio Nacional de História da ANPUH, Florianópolis, 27 a 31 de julho de 2015; COELHO, Mauro Cezar. Do Sertão para o Mar. Um estudo sobre a experiência portuguesa na América, a partir da
Colônia: o caso do Diretório dos Índios (1751-1798), op.cit., p. 26.
estabelecido para sua permanência. Os nativos também ficariam sob o controle e guarda das pessoas ou instituições para as quais fossem direcionados.412
Havia uma intensa migração das populações indígenas, transferidas de suas “localidades de origem”413 para servirem de mão de obra nas feitorias, fortificações ou outras áreas de produção agrícola e extrativista. Esses indígenas, geralmente, permaneciam nas vilas por um tempo maior do que o determinado para o seu retorno à povoação, o que também era um fator para fugirem desses lugares. Esse sistema de disponibilização de mão de obra indígena era denominado de “mudas”, ou seja, um rodízio de braços indígenas entre as vilas por um tempo pré-estabelecido, mas que comumente era negligenciado.414
Assim, a manutenção dessa força de trabalho enfrentava alguns obstáculos, dentre os quais a constante evasão dos mesmos sob esse regime de atividade compulsória. Para além da epidemia, que como vimos era um fator desencadeador de deserções, esses sujeitos dificilmente recebiam de forma correta os seus salários, além de, por vezes, serem submetidos a práticas de maus tratos e de violência nas vilas, o que também favorecia a ocorrência das fugas.415 Todo esse sistema em que estavam inseridos foi longo e penoso. Levantes, fugas, resistências, lutas, também acordos e alianças, foram tecidos diante dessa conjuntura.416
Em algumas situações, os diretores foram considerados grandes entraves à obtenção de mão de obra, sobretudo, pelas autoridades localizadas nas vilas. Aliás, em tempos em que as bexigas ardiam na faixa setentrional do Grão-Pará, Pereira Caldas chegou a afirmar ao governador de Macapá que não deveria “recair toda a culpa sobre os diretores” em relação ao número de índios enviados àquela vila não ter sido tão numeroso nos idos de 1777. E se os índios não foram em números satisfatórios era porque em muitas vezes os diretores “não conseguiam deles (indígenas) tudo quanto se
412ALMEIDA, Maria Regina Celestino. Os Vassalos D´EL Rey nos Confins da Amazônia: A
colonização da Amazônia Ocidental (1750-1798), op. cit, p. 125.
413 Nesse caso estamos nos referindo às povoações ou lugares de índios, estabelecidos no âmbito do Diretório.
414 FERREIRA. Eliana Ramos. Estado e administração Colonial: a Vila de Mazagão, op. cit., p. 105. 415 José Alves, em seu artigo intitulado “negros da terra e/ou negros da Guiné: Trabalho, resistência e repressão no Grão-Pará no período do Diretório”, analisa uma série de correspondências de autoridades em que são denotados os diferentes motivos que suscitaram as fugas indígenas durante a vigência do Diretório, entre as quais, as epidemias, maus tratos, arbitrariedades de diretores e principais e, em grande medida, a rejeição dos índios diante da disciplina de tempo e de trabalho que lhes era imposta pelos colonizadores. SOUZA JÚNIOR, José Alves de. Negros da terra e/ou negros da Guiné: Trabalho,
resistência e repressão no Grão-Pará no período do Diretório, op. cit., p. 181-184.
416GOMES, Flávio dos Santos. A Hidra e os Pântanos: Quilombos e mocambos no Brasil (Sécs.