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YARA COSTA – PERCEBENDO O LUGAR E A INTERCULTURALIDADE

Yara Costa é uma artista amazonense que tem um caminho intercruzado por diferentes trilhos de experiências. Sua trajetória perpassa pela vida acadêmica e artística. Motivada por diferentes danças, faz acontecer experiências de corpo, onde discute o que faz, provoca acontecimentos no plano da criação, promove encontros de experiências que elabora do fazer-conhecer. Na cidade de Manaus, busca entender o chão que vive manifestado no teor de sua arte.

Percebem-se, em seu olhar para o cotidiano, fissuras que recriam; ao contar impressões sobre a gente da cidade, que suas questões sociopoéticas evocam, questiona o colonialismo do corpo indígena, estudo que tem alimentado por bom período de tempo. Transforma em poesia do corpo um modo particular de dizer sobre vivências de pessoas pertencentes a lugares, como o corpo da cultura ameríndia e suas reverberações e o entendimento no contexto da arte.

As experiências de Yara Costa se apresentam como parte dos relatos escritos pela artista, acompanhados de comentários e percepções acerca da própria vida. Abre-se o espaço para narrar o percurso enviesado por outros olhares que se fizeram no acompanhamento da artista em alguns momentos da carreira artística e como pesquisadora.

Desde muito cedo, teve desejo pela dança, mas sua trajetória a levou por caminhos que intercruzaram os campos das Ciências Exatas e Humanas, efeitos rizomáticos que engendraram os seguimentos da vida artística de Yara Costa.

Após o ensino básico, iniciou um curso técnico em eletrônica, ministrado na Escola Técnica Federal do Amazonas. Nesse período, teve a oportunidade de começar experimentações de corpo no campo da educação física, com a prática da ginástica artística (GR). Aos 13 anos, integra o grupo de GR da Escola Técnica Federal do Amazonas; ali tem seu preparado de força muscular e habilidades específicas da modalidade (ritmo, força, velocidade, movimentos retilíneos e precisos), elementos que mais tarde tendem a fazer parte de sua produção, com uso sutil de movimentos de força e resistência em trabalhos por ela elaborados no período de graduação, e o conceito de resistência acaba por fazer parte de seu discurso

artístico e político, com questionamentos ao corpo da floresta num sentido antropológico da arte.

Quando ingressa no curso de Engenharia Elétrica da antiga Universidade do Amazonas (UA), no ano de 1989, participava como intérprete Grupo Experimental de Dança da Educação Física (GEDEF) coordenado pela coreógrafa Chang Yen Yin, então professora do Curso de Educação Física.

É importante destacar que nessa época, no Amazonas, ainda não existia graduação em Dança. O curso de Dança foi implementado no ano de 2001 pela UEA. Havia apenas o curso de Educação Artística com formação na área de Música e Artes Plásticas. Tendo, assim, o curso de Educação Física como foco de formação para quem já atuava na área de dança e tinha interesse na profissionalização.

Chang Yen Yin, também professora de Dança do curso, na década de 1990, testava uma dança livre e abstrata; seus bailarinos experimentavam movimentos leves e sinuosos como técnica coreográfica. Os trabalhos coreografados por Chang Yen Yin não se caracterizavam como um espetáculo, mas eram experimentos isolados, com fins de coreografias de pouca duração. Chang Yen Yin abria a possibilidade de experimentar outros discursos da dança e dava oportunidade aos bailarinos de participar de criações e mesmo de criar as próprias coreografias, o que deu a possibilidade a Yara Costa de exercitar a prática da criação.

Após a passagem pelo GEDEF, Yara inicia um período no Grupo Experimental de Dança do Amazonas (GEDAM), conhecido como Espaço de Dança do Amazonas, sob a direção de Conceição Souza, coreógrafa que trazia um trabalho experimental utilizando técnicas de dança moderna, balé clássico e usando, por vezes, narrativas regionais.

Em 1992, houve um marco referencial na vida de Yara Costa, em termos de pensamento, nova gestualidade e experimentação de corpo, novos desafios de linguagem, quando passa a integrar o Grupo Renascença de Dança e Cia de Dança do SESC, dirigidos por Jorge Kennedy. O coreógrafo sai de padrões de movimento e apresenta aos bailarinos modos não convencionais de elaborar coreografias. Utiliza- se do uso de técnicas de dança para discutir gênero, relações, o corpo no mundo. Traz no espaço cênico elementos simbólicos para significar narrativas, do homem, da mulher em meio a diferentes conflitos. E Yara, sob a direção de Kennedy, mergulha

em um ambiente de dança pós-moderna e tem a oportunidade de escrever, em dança, textos do corpo ampliando o vocabulário poético-conceitual da dança.

Em 1995, com base na formação na área de Engenharia Elétrica, alça voos que iriam ampliar-lhe os contornos artísticos na área de dança. No mesmo ano é aprovada no curso de pós-graduação em Coreografia no Curso de Dança da Universidade Federal da Bahia. Lá, experimenta recursos e discursos sobre o campo da criação em dança, tendo a oportunidade de lançar ideias e atrair olhares sobre os próprios processos de criação.

No retorno a Manaus, ainda ligada ao campo da Engenharia, trabalha como pesquisadora do DTI/Capes no assentamento Iporá, localizado em Rio Preto da Eva, município de Manaus. O lugar parece ter-lhe despertado o olhar para o meio rural, ao se pensar nas obras feitas em anos posteriores.

Em 1998, após audição, passa a fazer parte do primeiro Corpo de Dança do Amazonas (CDA), financiado pelo governo do Estado. A estrutura do Corpo de Dança concentrava aulas de moderno e balé clássico. Segundo a artista, foi um tempo que aperfeiçoou a técnica de dança com o professor búlgaro Ivo Karaqueorquiev e com o diretor Joffre Santos. Na companhia, atuou como assistente de coreografia e coreografou o trabalho Dual, em 2001, e Quem te conduz?, em 2003.

No ano de 2001, com a criação do curso de dança, algo inusitado aconteceu: a artista participou do processo seletivo para docente, pois na época estava-se formando o Corpo docente de Dança da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e do vestibular para o próprio curso de Dança. Cursou somente o 1º semestre e logo foi chamada para ministrar disciplinas de Dança Moderna, Dança Clássica e Composição Coreográfica no curso de licenciatura e bacharelado em Dança.

No mesmo ano (2001), cria a Índios.com Cia de Dança, com a proposta de experimentação e práticas de criação, tendo o espetáculo O processo como primeiro trabalho da companhia. Na tentativa do encontro com a linguagem, propõe a interação com o esporte, tendo no rapel um ponto de apoio para os trabalhos. Assim, escolhe o rapel, adquire os domínios do esporte e faz disso um elemento de experimentação em dança integrando as dificuldades peculiares do esporte (força, resistência, tempo e espaço). A artista envereda por longo tempo na busca da linguagem artística, tendo

como base de experimentação o rapel, denominado de “dança aérea”. Leva tais experimentos para dentro da universidade na forma de ensino, pesquisa e extensão.

Yara Costa vai da dança em espaços cênicos nas alturas (dança aérea, balé aéreo) ao corpo no chão de barro, de cimento, de tábua, de rio. E, dependendo do lugar, ela o habita e o torna junto ao corpo, há compartilhamento entre coisas significantes do fazer político do corpo. Tem-se observado durante muitos anos, a contar desde o início da graduação, um empenho diferenciado de Yara Costa na busca da dança experimentada, talvez tentando encontrar a dança, a sua dança, com desbravamento de ideias. Chama atenção o que vem do olhar para as obras e como elas têm refletido as pessoas, o lugar, o discurso, a poeira que paira no ambiente de discussão, quer seja nas abordagens do corpo indígena e do corpo urbano, quer mesmo no entrecorpo das designações com diferentes especificidades culturais.

Como elemento novo na cidade, a companhia é convidada pelo governo do Estado para participar de eventos. E, com as composições cênicas de dança aérea, Yara Costa cria trabalhos para lugares como a fachada do Teatro Amazonas, Largo de São Sebastião, Centro Cultural Povos da Amazônia, locais de grandes dimensões. Ali experimenta diferentes dimensões de tempo e espaço de significações.

A Índios.com Cia de Dança conquista os prêmios: “Amazônia celular”, para montagem de espetáculo Processos (2001); Caravana Funarte de Circulação Regional-Brasil, para o espetáculo O processo (2004); Pequenos Projetos Grandes Ideias (PPGI) pela Fundação Villa Lobos, para apresentação e montagem do mesmo

O processo e montagem do espetáculo Por um fio (2005).

Ainda nesse ano, ingressa no mestrado em Performance Artística – Dança na Universidade Técnica de Lisboa, na Faculdade de Motricidade Humana, em Portugal. Como pesquisadora, tem interesse pela investigação da cultura indígena, sob o título Análise das danças Baniwa: uma reflexão sobre a dinâmica identitária e

cultural dos povos indígenas da Amazônia. Sem apoio da universidade, por ainda

estar em regime de contratação de professores, sem previsão de concurso docente, solicita dispensa do curso no Brasil e, com recursos próprios, segue os estudos de mestrado. Estando em Lisboa, frequenta aulas no Centro em Movimento (CEM), com a professora Sofia Neupah.

No campo acadêmico (UEA), atua na área da criação artística com processos coreográficos. De 2015 a 2019, realiza doutoramento em Comunicação e Semiótica da PUC/SP, orientada pela professora Christine Greiner com a pesquisa

Corpos da floresta – experiências para resistir. Paralelamente ao estudo, engravida

das gêmeas Lara e Nina e divide o tempo entre pesquisa, maternidade e processos de criação. Sua pesquisa traz o discurso de natureza indígena que reconhece em seus aspectos, contornos da relação do corpo de resistência em outras dimensões da vida cultural de pessoas. Como parte do discurso da escrita há obras artísticas: Rito de

passagem, Rastros híbridos e AEEE pra falar do que não foi perdido.

Os trabalhos de Yara Costa foram construídos como atos de experimentações, sendo estes a própria arte do acontecimento. Foi crescendo com o tempo, aprendendo, revendo com progressivas tentativas, reelaboradas, alimentadas umas pelas outras, tornando o que se pode chamar de arte que gera discurso micropolítico. Traz a mulher amazonense, o corpo de sensações do corpo amazônico, não somente para discutir um lugar, mas para discutir o mundo em impressões poéticas do corpo de lugares. Questões que tratam do lugar do corpo no mundo, no ambiente e suas relações com o entorno.

Suas obras desfiguram o que poderia ser caricatura em trabalhos já vistos pela cidade do ambiente, para questionar, em ato cênico, as inquietações que o chão14

carrega. São pensamentos que imprimem conceitos e sensibilidades do entorno, corpo de resistência.

Nosso estudo tem interesse nos trabalhos da artista, que atenta ao ambiente, observa o corpo nas suas relações, num Ümwelt, como propositor de suas obras. Tem como característica principal a dança com o olhar contemporâneo de

fazer-sentir o corpo na relação com os outros e suas coisas, desejos, pensamentos

hábitos, posicionamentos de um campo do ser que se coloca, sobrevive, se opõe. Acolhe nos trabalhos interfaces do corpo e suas experiências ritualísticas,

14O termo “chão”’ é entendido como ambiente histórico, político, cultural e social, nesse platô o artista

sofre interferência e interfere, e nesse processo atua em criação. André Lepecki (2003 ) em O corpo colonizado faz crítica ao sentido de “chão” quando pensado como terraplenagem linear que o bailarino precisa ter para realizar a dança e, contrapondo essa ideia, ele vai dizer que o chão carrega abismos, armadilhas para corpos que fazem desmoronar paradigmas de movimento.

experimentadas, tocadas, sentidas, criando a partir do lugar da experiência humana a experiência estética.

O fazer artístico de Yara Costa há bastante tempo tem enviesado pela leitura do corpo indígena, alimentando-se ao longo do tempo das experiências que provoca e com que se contamina do lugar onde busca sensações; olhar do corpo, do comportamento, de atitudes, da expressão de um espaço de sobrevivência; isso reage em ato cênico.

2 PERCEPÇÃO – EXPERIÊNCIA CORPORIFICADA DO OBSERVADOR

2.1 SENTIDO DA EXPERIÊNCIA – CORPO DE ACONTECIMENTOS

Falar sobre as experiências dos artistas a partir da perspectiva de visão-

orpo15 às configurações da obra me levou a entender a necessidade de começar o

diálogo partindo de conceitos sobre experiência no campo das interações/composições do corpo com o ambiente, das percepções e olhares do corpo, da sensibilidade, dos sentidos corporais. Vejo-os como potentes conteúdos para discutir a experiência do processo artístico que observa de corpo inteiro, devido aos aspectos que envolvem a rede de relações do corpo com outros corpos.

Reconheço, de antemão, que o fazer artístico se dá a partir do corpo que observa, como ele está no mundo e como percebe e configura objetos, sendo ele próprio alimentado e alimentando por fluxos de experiências desses compostos. Por isso, falar da obra artística na perspectiva da relação do corpo percebedor requer como condição primordial adentrar no que se pensa sobre o sentido de experiência, pois não há obra sem experiência do artista.

A experiência não é privilégio de um tipo de indivíduo. E, segundo o plano teórico que se destaca para esta conversa, Jorge Larrosa (2018) propõe que a experiência também se dá a partir de condições empregadas no modo de vida de cada pessoa. Algumas são atravessadas, e outras deixam de passar por experiências que lhes poderiam ser significativas se seu estado de corpo estivesse disponível para realização de trocas com o entorno. Assim, há o corpo e o ambiente com seus atravessamentos, trânsitos de composições de pensamentos que proveem estados de sensações.

O corpo se disponibiliza a ter experiências, possibilita a abertura de passagens que dá acesso ao campo das ideias. A experiência que nos atravessa, acontece e toca. No dia a dia, muitas eventos cotidiano acontecem, passam, mas

15 A ideia de visão-corpo propõe o entendimento de que, quando olhamos algo, os sentidos do corpo

estão interligados, por isso, quando o corpo visualiza, não será somente pelos órgãos de sentido da visão, mas acontecerá pela atuação de outros sentidos. Nesse sentido, propõe-se aqui a expressão visão-corpo na ideia de visão de corpo inteiro, como organização que combina os órgãos dos sentidos para atuar na percepção.

pouco disso se apreende. Na experiência existe algo que nos toca, por isso é necessário que haja uma parada, um break (uma pausa), para que seja possível a escuta do corpo, a possibilidade de perceber o que se passa, se sente, se vê. A interrupção possibilita ao corpo pensar, olhar, escutar, sentir as pausas, perceber os detalhes, evitar opiniões e juízos, quebrar o automatismo das ações. O ser humano precisa cultivar a atenção, as percepções do corpo, necessita perceber e compartilhar o que lhe acontece, criar encontros. E o sujeito da experiência “[...] é sobretudo um espaço onde têm lugar os acontecimentos” (LARROSA, 2018, p. 25).

O sujeito da experiência é como território de passagem, “[...] algo como uma superfície sensível que aquilo que acontece afeta de algum modo, produz alguns afetos, inscreve algumas marcas, deixa alguns vestígios, alguns efeitos” (LARROSA, 2018, p. 25). Para ocorrer o acontecimento, segundo o autor, é preciso estar exposto, disponível, atendo-se ao jogo de interações em que o sujeito da experiência recebe e se dispõe a algo, age com certa passividade mas carrega em si certa dose de paixão. A exposição do sujeito levará não a qualidade da experiência, mas a oportunidade de se expor. E sendo o sujeito da experiência um sujeito exposto, receptivo, dá abertura aos acontecimentos, vai ao encontro, mostra-se, corre perigo e padece, mas também ocorre, nesse processo, a transformação.

Ter uma experiência significa ser tomado por algo percebido, seja o que for; somos atropelados, algo vem a nosso encontro, chega de modo que ao mesmo tempo nos avassala e transforma. O fazer da experiência significa atravessar, sofrer e receber o que vem no sentido de processo relacional com objetos e situações da vida da pessoa, não no sentido de produção ou operacionalização; fazer a experiência tem o sentido de estar a caminho, num caminho para o alcance de algo; fazer experiência com algo importa alcançar o que se consegue alcançar quando se está a caminho, de maneira que isso ao mesmo tempo nos alcance e comova, que sejamos tomados no encontro e transformados no percurso em sua direção (HEIDEGGER, 2003).

Toma-se o exposto para direcionar o que chamo de corpo observador, que é atravessado por experiências significantes no fazer artístico. O corpo é observador e opera em estados de intercorporeidade16 dados pela história de vida empenhada

16 Dupond (2010, p. 44), acerca de Merleau-Ponty, diz sobre as relações entre os seres vivos, sendo

da mesma espécie ou de outras espécies. As relações estruturam um ser intercorporal, sendo a intercorporalidade uma extensão das ligações internas ao corpo que se esvai na relação com a

em arte, proporcionando condições de um olhar atento, sentido, mergulhado no fazer artístico. Por isso, a experiência na arte alcança uma dimensão outra, que é a experiência poética da observação. A arte está embebida de experiências, travessias intensas, produção de percepção, apreciação singular do olhar do criador.

John Dewey (2010), a respeito, faz ampliação do sentido de apreciação para dizer que o artista, quando se coloca em experiência, o faz pelo processo de observação elaborado por meio da sensibilidade estética. De perceber a obra pelos acontecimentos de composição que levam ao fazer-sentir do artista, longe da ideia de apreciação refletida de exclamações de admiração sem estímulo de expressão

afetiva. A apreciação do artista vai além de admiração, mas de um envolvimento direto

com a experiência do acontecimento percebido. Aqui se vê a condição do observador

atento, disponível e sensível que promove os afetos e investe no contexto da

experiência estética.

A inclinação de discussão sobre experiência tem-se voltado para a percepção de alguns compostos de potência artística: artista, experiência cotidiana, reverberações do olhar para ação criadora; relações do corpo com lugares/ambiente, estados de afetações do artista por meio de relações que mantém com o meio; estados de sensibilidade (acontecimento no/do corpo) investidos em estados de criação. Assim, tem-se o corpo envolvido no ambiente, um ümwelt17. Nessa

passagem, há os estados de sensibilidade e processos de afetações, que, nessa relação, disponibilizam o artista para criação em diferentes situações, lugares da vida empregada em arte. O contorno que envolve o sentido de experiência perpassa a ideia

experiência externa. Exemplificando, ressalta que as “[...] mãos são órgãos sinérgicos de uma única captura do mundo, um aperto de mão é o símbolo da abertura dessa sinergia para uma existência generalizada, intercorporal ou ‘várias entradas’.”

17 Ümvelt significa “o mundo em volta”, “o mundo do entorno”, “ou mundo particular”. O termo foi

utilizado pelo biólogo estoniano Jacob von Wexkull para denominar a interação do organismo vivo (animal, principalmente) com o ambiente. A teoria compreende conexões que podem ser feitas entre sistema vivo e realidade. Ümvelt é a “[...] interface que caracteriza a espécie, função de sua particular história evolutiva”. Em linguagem metafórica, ümvelt seria um sistema vivo encapsulado, como uma bolha transparente e com sistema de filtros que relaciona o processo de operação interna de informação com o envolvimento do sistema nervoso. Entendo, de todo modo, que o ser é complexo, e sua realidade, cada bolha ou sistema de filtros, como aqui se apresenta, denomina características, representações, perspectivas de formas diferentes. Portanto, compreende-se que espécies distintas possam ocupar o mesmo ambiente. Para os filósofos contemporâneos, o ümvelt deixa de ter o entendimento somente no campo biológico e passa a ocupar também estudos sobre a complexa relação da natureza humana com o ambiente, manifestada “[...] pela extrasomatização de nosso cérebro, que se dá pela extrasomatização de signos” (sic). Nesse contexto, o ümvelt participa também nos campos psicológico, psicossocial, social e cultural (VIEIRA, 2006, pp.78-9).

de atravessamentos em que a pessoa percebe algo quando, é tocada, sentida. Há nesse sentido a percepção, um certo significado se configurando, sobressaltando aos