CAPÍTULO 3: TEORIA DAS AFFORDANCES: FUNCIONALIDADES EM
3.3 REFINAMENTOS DA TEORIA
3.3.9 You e Chen: Comparação com a semântica do produto
Ao analisar diversos estudos de design centrado no usuário, os pesquisadores taiwaneses You e Chen (2007) identificaram, em alternativa à teoria das affordances, o conceito de
semântica do produto. As abordagens são similares, pois presumem que usuários não percebem simplesmente propriedades geométricas ou físicas de um objeto, mas sim significações. A semântica do produto é definida por Krippendorff e Butter (1984, p. 4, tradução nossa) como o “estudo das qualidades simbólicas das formas do artefato no contexto de seu uso e aplicação deste conhecimento para o desenho industrial.”40 O conceito leva em conta principalmente os contextos psicológico, social e cultural, que os autores denominam de ambiente simbólico. Segundo o conceito, é no ambiente simbólico que os produtos industriais são inseridos e onde devem funcionar em virtude de suas próprias qualidades comunicativas (KRIPPENDORFF; BUTTER, 1984, p. 4). Para a semântica, o produto é um veículo de comunicação que possibilita a reconstrução de significações intencionais (YOU; CHEN, 2007, p. 26).
A ambiguidade entre as duas teorias, no contexto do desenho industrial, termina quando se chama atenção para três tópicos fundamentais: a base teórica, as questões associadas ao design e seus respectivos métodos em atualização. Quanto à primeira diferenciação, a affordance é originária da teoria da percepção visual de Gibson, enquanto a semântica do produto é uma teoria do design influenciada pela psicologia cognitiva. Para Gibson, a percepção é uma consequência direta da realidade sem qualquer tratamento de informação; pelo contrário, para a semântica do produto a significação é cognitivamente construída na mente do usuário, a partir de informações percebidas pelos sentidos. Portanto, para You e Chen (2007, p. 28, tradução nossa), “a interpretação do usuário sobre o produto é predominantemente influenciada por suas experiências pessoais, pela base sociocultural, e suas necessidades”41.
A segunda diferença diz respeito às questões associadas ao design pelas duas teorias. Para Norman (1998), a affordance é uma relação intrinsecamente comportamental entre usuários e produtos e sua existência independe da consciência da pessoa. Por outro lado, na semântica do produto, a aparência exterior de um artefato suscita uma resposta cognitiva do usuário para determinado produto, como preferência estética, interpretação da funcionalidade e associações simbólicas. Ou seja, a perspectiva semântica foca na comunicação e nas questões sociais de design de produto (YOU; CHEN, 2007, p. 28).
Em terceiro lugar, os métodos de atualização desses dois conceitos no design de produtos também são distintos. Na abordagem a partir das affordances, as “limitações físicas” de um produto facilitam ou impedem determinados comportamentos do usuário. Ergonomia e
40 “study of the symbolic qualities of man-made forms in the context of their use and the application of this
knowledge to industrial design.”
41 “User’s interpretation of a product is predominantly influenced by their personal experiences, socio-cultural
dados antropométricos servem de parâmetro para controle das características dos produtos, voltados a uma utilidade esperada pelo designer. Na abordagem semântica, o design de produto enfatiza o auxílio dos usuários com relação à correta interpretação de uso dos produtos. De forma prática, os designers designam metáforas ou signos para transformar significações em formatação do produto. Os autores resumiram as principais diferenças encontradas na comparação entre os dois conceitos (Tabela 2).
Tabela 2 - Diferença entre semântica do produto e affordance42
Semântica do produto Affordance
Pressuposto da percepção Percepção mediada
(necessidade de processamento da informação)
Percepção direta
Significados do produto Interpretação cognitiva do usuário sobre o produto
Possibilidades de ação baseadas em condições objetivas
Conteúdo da interação Informação: qualidades perceptíveis sobre o produto em referência a modelos cognitivos
Ação física: características físicas do produto a partir das capacidades do usuário
Propósito do design Fornecimento de informações para indicar o uso, a função, e outras qualidades simbólicas do produto
Fornecimento da estrutura utilitária para facilitar ou evitar determinados comportamentos do usuário
Métodos de atualização Prover o entendimento de uma convenção do usuário por meio de um ícone, símbolo ou metáfora no desenho do produto
Adaptar dados ergonômicos e antropométricos para
modificação de um produto com a finalidade de encontrar a utilidade esperada
Papel do designer Através do design da aparência do produto e da interface para ajudar usuários a entender o produto
Através da manipulação de propriedades físicas do produto para regular o comportamento do usuário
Fonte: You e Chen (2007, p. 29, tradução nossa)
42 “Assumption of perception: Mediated perception (information processing needed) vs. Direct perception;
Meanings of product: User’s cognitive interpretation of the product vs. Action possibilities based on objective
conditions; Content of interaction: Information: Perceivable qualities in product with reference to cognitive models vs. Physical action: Physical features in product with reference to user’s capability; The purpose of
design: Providing information to express the usage, the function, and other symbolic qualities of the product vs.
Providing the utility structure to facilitate or prevent certain user behaviors; Methods of actualization: Following a convention understood by the user to apply icon, symbol, or metaphor in product design vs. Adopting ergonomic and anthropometrical data to modify product for the expected utility; The role of a designer: Through the design of product appearance and interface to assist users understand the product vs. Through manipulating physical properties of the product to regulate the user’s behavior.”
A distinção entre a teoria gibsoniana e a semântica de produto fica mais clara no exemplo utilizado por You e Chen (2007) dos controles de um aparelho de rádio estéreo, estilo boombox dos anos 1980 (Figura 65). Os botões da fita cassete possuem como ação intencional ser pressionados, portanto, a affordance de pressability. Porém, a teoria por si só não é capaz de reconhecer a função, a consequência da “pressionabilidade” de cada botão. Para isso, necessita-se de rótulos de texto e das formas simbólicas de tocar (4), avançar (8), retroceder (7), pausar (;), parar (<) e gravar (=) uma fita cassete. Estas últimas características remetem à semântica do produto. Outro exemplo apresentado refere-se aos controles de volume e balanço, representados por dois botões circulares na forma de relógio. A affordance para eles é de “aderabilidade dos dedos” (finger gripability) e “rotacionabilidade” (turnability). Porém, apenas os rótulos de texto indicam a função para cada uma destas funções, para identificar os índices de volume e balanço.
Figura 65 - Parte da tabela do artigo de You e Chen, exemplificando o caso de um aparelho de som e aspectos
de diferenciação entre affordance e semântica do produto. Fonte: You e Chen (2007, p. 34)
O termo significações (meanings) também aparece em artigo mais recente de Norman (2008), que trata de significantes sociais (social signifiers). Depois de vinte anos, o autor faz uma revisão de suas próprias ideias e sugere maior desprendimento do conceito de affordances pela comunidade de designers. Para ele, as transformações tecnológicas foram capazes de acentuar a importância de valores culturais e sociais do próprio homem na relação com seus objetos, em contraposição à percepção direta e individual. Norman chega a ser radical ao propor
uma nova postura: “Esqueça affordances: o que as pessoas necessitam, e o que o design deve oferecer, são significantes”43 (NORMAN, 2008, p. 19, tradução nossa). Para Norman, as pessoas são como detetives à procura de pistas (os tais significantes) e o designer é responsável por fornecê-las, para auxiliar na relação de uso entre objeto e usuário.