1.1 PANORAMA HISTÓRICO DA ADOÇÃO NO DIREITO BRASILEIRO
1.1.5 C ÓDIGO C IVIL DE 2002
O Código Civil de 200280 cuidou do instituto da adoção em seus artigos 1.618 à 1.629, trazendo algumas modificações conforme se passará a verificar.
Uma das alterações fundamentais do Código Civil foi a redução da idade para o exercício dos atos da vida civil, fixando no artigo 5º a idade de 18 anos para a capacidade absoluta e no artigo 4º a incapacidade relativa para os maiores de 16 e menores de 18 anos.81
Dentro da orientação do ECA que condicionou a capacidade para adotar à maioridade civil, o artigo 1.618 Código Civil fixou que “só pessoa maior de dezoito anos pode adotar”. Desta forma, tem-se a nova idade-referência para questões relativas à adoção: o adotante poderá ter 18 anos e o adotando deverá ser menor desta idade. Embora a obrigatoriedade de que a sentença seja constitutiva, imposta pelo legislador, para a adoção em qualquer idade (art. 1623),
78 GUIMARÃES, Giovane Serra Azul. Adoção, tutela e guarda: conforme o estatuto da criança e do adolescente e o novo código civil. p. 33-34.
79 RODRIGUES, Maria Stella Vilela Souto Lopes. A adoção na Constituição Federal o Eca e os Estrangeiros. p. 21.
80 Doravante denominado Código Civil.
81 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. 3 ed., 2. tir., ver. atual e ampl.
Belo Horizonte: Del Rey, 2003. p. 159.
mantém-se a competência exclusiva das Varas da Infância e Juventude quando o adotando for menor de 18 anos, conforme o art. 148, III, ECA.82
O Código Civil manteve em seu art. 1619 a mesma diferença de 16 anos entre adotante e adotando, assumida, originalmente, pela lei civil e presente no art. 42, § 3º, do ECA.83
Ressalta Guimarães84 sobre a implantação do Código Civil:
[...] foram mantidas essas duas espécies de adoção, ou seja, a adoção de menores de 18 anos e a de maiores de 18 anos, ambas regidas pelo novo Código Civil, sendo que, no caso da adoção de menores de 18 anos de idade, aplicam-se também, e prioritariamente, as normas contidas no Estatuto da Criança e do Adolescente, por ser ele lei especial e principiológica, no que se refere à proteção dos interesses de crianças e adolescentes.
Assim, as regras do novo Código Civil somente são aplicáveis à adoção de crianças e adolescentes, se não forem incompatíveis com os princípios orientadores do Estatuto. Sendo incompatíveis com os princípios adotados pela referida lei especial, ou seja, com a proteção integral, que tem como fundamento o reconhecimento de direitos especiais e específicos a todas as crianças e adolescentes, decorrentes da condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, não serão aplicáveis as regras do novo Código Civil.
Contudo, observa-se que o este diploma legal, praticamente, apenas reproduziu alguns dispositivos do ECA, procurando adaptá-las às modificações que por ele foram introduzidas no ordenamento jurídico. O legislador, com o Código Civil, não pretendeu alterar de maneira significativa as normas referentes à adoção de crianças e adolescentes contidas no Estatuto.
Aliás, o projeto de lei que altera Código Civil, em tramitação, inclui neste diploma
82 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 159.
83 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 160.
84 GUIMARÃES, Giovane Serra Azul. Adoção, tutela e guarda: conforme o estatuto da criança e do adolescente e o novo código civil. p. 33.
legal as demais disposições do Estatuto referentes à matéria, que foram omitidas anteriormente.85
A regra do art. 44 do ECA foi acolhida pelo art. 1620 do Código Civil ao exigir do tutor ou curador a prestação de contas de sua administração para adotar o pupilo ou curatelado. Por força do art. 82, inciso II, do Código de Processo Civil, cabe ao Ministério Público, sob pena de nulidade, intervir, obrigatoriamente, nos procedimentos pertinentes.86
O artigo 1621 do Código Civil corresponde ao artigo 45 e parágrafos do ECA, que determina o consentimento dos pais ou representante legal do adotando, menores de 18 anos. Porém, a dispensa do consentimento está vinculada às condições previstas no § 1º que reza: “sejam os pais desconhecidos ou tenham sido destituídos do poder familiar”, exigindo o art. 24 do ECA procedimento contraditório. Portanto, esta dispensa está vinculada ao instituto da representação e ao poder familiar.87
O legislador de 2002 fixou um novo critério referente ao prazo para o arrependimento dos pais biológicos no consentimento para a adoção, estendendo-o à “publicação da sentença constitutiva”.88
As pessoas casadas ou que conviverem em união estável podem adotar, conforme o disposto no art. 1622 do Código Civil. Os divorciados e os judicialmente separados de acordo com o parágrafo único deste artigo podem adotar conjuntamente, contanto que acordem sobre a guarda e o regime de visitas, e desde que o estágio de convivência tenha sido iniciado na constância da sociedade conjugal. 89
85 GUIMARÃES, Giovane Serra Azul. Adoção, tutela e guarda: conforme o estatuto da criança e do adolescente e o novo código civil. p. 33.
86 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 160.
87 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 160.
88 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 160-161.
89 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 161.
De acordo com Dias90:
Não se deve excluir deste artigo a oportunidade dos ex- companheiros também poderem fazê-lo, desde que sejam acertadas regras de convivência e visitação. O Estatuto não fixou condições mínimas para a configuração da união estável para fins de concessão da medida, limitando-se a exigir que seja comprovada a estabilidade da família (art. 42, § 2º, da Lei n.
8.069/90). O novo Código, no artigo 1.723, mantém o critério anterior no sentido de “exigir a comprovação de uma convivência pública, contínua e duradoura estabelecida com o objetivo de constituição de família”.
Ademais, o disposto no art. 1623 do Código Civil determinou que a adoção “obedecerá a processo judicial, observados os requisitos estabelecidos neste Código”. Diverso do Estatuto que estabelece procedimentos comuns (arts. 165/170) para todas as formas de colocação familiar.91
No entanto, o artigo 165, incido I, do ECA, exige a anuência do cônjuge ou companheiro, o que não foi recepcionado pelo Código Civil.92
Determina o art. 1625 do Código Civil que a medida deve constituir em “efetivo benefício para o adotando”, mantendo desta maneira, as diretrizes do art. 43 do ECA ao indicar que a adoção deve “apresentar reais vantagens para o adotando e fundar-se em motivos legítimos”.93
Assim, o Código Civil de 2002, instituiu determinadas regras para a efetivação da adoção, levando em consideração o disposto no Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo que para haver a possibilidade da efetivação da adoção, deve constituir em efetivo benefício ao adotando.
90 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 161.
91 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 161.
92 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 162.
93 DIAS, Maria Berenice. Direito de família e o novo Código Civil. p. 165.