A complexificação da ambiência midiatizada, estruturada em fee- dbacks complexos e em processualidades interacionais dinamizadas por um “ir adiante” (Braga, 2013), além de tirar o ator jornalista da condição de “elo de contato”, desloca-o para um novo regime de trânsito discur- sivo e no qual se constitui o principal ator de uma atividade circulante da enunciação. Por vezes, ele é convertido no acontecimento, e em outras circunstâncias, é a própria dinâmica enunciativa que se converte no acon- tecimento. Para evitar, ou não deixar que o trabalho de enunciação não se desfigure dos ideais, das rotinas e dos cenários produtivos – e não resvale para a órbita do leitorado – o mediador jornalista ocupa um outro lugar nesta cadeia, segundo um deslocamento imposto pela circulação. Sua função passa a ser a de atorizar o acontecimento e, nestas condições, se transforma em fonte, objeto, narrador, receptor.
Se os jornais pedem para que os leitores os sigam2, despacham tam- bém os jornalistas não mais empunhar a cobertura, mas para se consti- tuir nos próprios acontecimentos, cuja fonte da intelegibilidade é a sua própria autoperformance. Mergulhado em uma nova “zona de contato”
com o leitorado, emerge um novo modo de dizer no qual desaparece o
“analista do dia”, surgindo um novo narrador de caráter autorreferente. O objeto (notícia) não resulta mais de transações e lógicas complexas entre
2. Siga a Folha: “A folha segue o que eu penso e o que eu não penso. A Folha me segue e eu sigo a Folha” (FSP, DE4, SP, 19/12/2013).
jornalistas e fontes, mas segundo lógicas de muitas outras interfaces. E nestas condições a circulação estaria também eclipsando singularidades como as que caracterizam as posições enunciativas do trabalho jorna- lístico. Na medida em que os discursos de produtores e de receptores se contatam pela articulação ensejada por esta dinâmica da circulação, resulta a emergência de discursividades sociais que não podem ser con- tidas unilateralmente, seja pelas instituições jornalísticas ou então, pela comunidade do leitorado... É para o funcionamento desta zona, construída pela interpenetração de atividades discursivas de leitores e produtores, segundo lógicas distintas, que se chama atenção para os novos cenários de pesquisas (Fausto Neto, 2013). Há, por fim, nestas paisagens, outros observáveis que mostram os efeitos da ambiência e das operações tecno- -discusivas da midiatização, sobre as condições de gênese de acontecimen- tos. Ao ler as manifestações de rua de 2013, engendradas segundo lógicas de “autocomunicação”, mostra-se que uma das suas consequências foi a ausência de mediadores-referentes (sejam campos ou atores sociais). Os acontecimentos tomaram corpo segundo estratégias de coletivos, e isso colocou a apuração midiática em “estado de desamparo”, fazendo per- guntar, afinal quem é o mediador? Esta ruptura de protocolo no contato fonte-mídia ocorre no calor das manifestações de 19 e 20 junho de 2013.
Neste contexto, em uma das edições do JN, seu âncora principal anuncia ao vivo que “abandona” (a atorização de um acontecimento) seu posto de cobertura, acompanhando a seleção brasileira em Fortaleza durante a copa das confederações, porque há um imperativo compromisso que impõe o seu retorno à bancada física do telejornal, no Rio de Janeiro, aludindo a amplitude das manifestações de rua. A justificativa para uma meia-volta ratifica a importância de outra operação de atorização do âncora, qual seja de resituá-lo na esfera da produção da inteligibilidade midiática sobre as manifestações. Da “rua, volta para casa”, pois é de lá que o contrato de leitura lhe profere a possibilidade de um reconhecimento que não pode ser conferido de um lugar deslocado, o de um corpo de ator, seguindo um acontecimento esportivo, na periferia... da bancada. Ao reassumir o telejornal, no ápice das manifestações, o âncora confessa também e, ao vivo, ser impossível produzir o telejornal segundo o espelho elaborado pela edição, porque a redação não controla o acontecimento. Este lhe e escapa, está indo adiante, nas mãos dos manifestantes. Só lhe resta fazer outra meia-volta, de caráter enunciativo, e fazer um segundo retorno
mergulhando em uma cobertura autorreferente. Organiza em torno dele uma conversação que envolve apenas jornalistas espalhados em pontos distintos no país, onde se passam as manifestações, fazendo emergir uma cobertura de impressões. Uma emissão coenunciada apenas pelos peritos jornalísticos que seguem o acontecimento a distância, deixa de fora vozes das ruas que ali não ingressam; não se deixa emergir pregnâncias, estas evitadas também pelas vozes em off dos jornalistas. Sobrevivem apenas as vozes dos jornalistas, como tentativas do restabelecimento da mediação Algumas muito parecidas com tom das narrativas de locutores que trans- mitem emissões esportivas. No meio deste diálogo de interpares emerge em certo momento, uma pergunta, possivelmente, em off: “Bonner com quem a gente vai conversar agora?”. De modo mais imediato, o repórter pergunta quem seria o próximo interlocutor (colega) com quem ele deveria se dirigir? Porém, o contexto da enunciação permite inferir que a fala do jornalista lembra a existência de um outro interlocutor ausente na cadeia e a quem certamente, uma palavra interrogativa lhe poderia ser dirigida.
Ou seja, o que fazer com estas palavras que estão aqui na beira das câmeras e dos microfones? (Fausto Neto, 2014).
Estas questões resituam a problemática da recepção, especialmen- te como os sistemas sócio individuais, através dos seus atores, estão se transformando em gestores e enunciadores de acontecimento, bem como atores na transformação de muitos outros. Promovem rupturas “em ato”
em muitos deles, segundo outras lógicas que se impõem às próprias gra- máticas de acontecimentos complexos. Foi o caso da “subversão” do ritual de uma das maiores cerimonias religiosas católicas mundiais, a procissão do Círio de Nazaré, em Belém do Pará. Promesseiros que participam deste circuito de mais de três milhões de pessoas, roubam dos campos religioso e midiático a protagonização ritualística de sua produção e realização.
Quebram o protocolo de corte da corda que abrigaria o cinturão humano de mais 40 mil pessoas, que serve de proteção ao andor da imagem de Nossa Senhora de Nazaré. Ao invés de romper a corda ao final da procis- são, quando o bispo local saudaria os fieis, resolvem subitamente antecipar o ato estilhaçando a corda no meio do cortejo, e distribuindo seus fios e pedaços que são disputados freneticamente pelas multidões de fiéis, sob os olhares midiáticos de celebridades e autoridades atônitas (Fausto Neto, 2014). Gera-se aí uma nova narrativa: a aclamação ao evento é substituída por leituras de condenação à quebra do ritual. A ruptura do ritual não é
capturada segundo a complexidade de sua operação de sentido, mas pelas matrizes de outras inteligibilidades e que são cumplices, apenas, com as lógicas aclamatórias que presidiriam o acontecimento. A emergência, ali, de um ato do “homem ordinário” não estava prevista segundo a expecta- tiva dos dispositivos institucionais da celebração que, diante da ruptura, se viram desemparados e ofendidos. Não soube certamente, lidar com o micro, mas complexo acontecimento que emergiu no próprio corpo da majesticidade da celebração sócio-antropológica-religiosa e que ao atra- vessá-la sombreia os efeitos desenhados por suas “gramáticas produtivas”.