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4� ASPECTOS E CARACTERÍSTICAS DO FENÔMENO

g) Tensionar internamente ângulos da dispersão

O último ponto de nosso programa de ação é o enfrentamento da dispersão de propostas, teorias, perguntas, interpretações e conceitos da área. Mais preocupante que a dependência de “teorias alheias” sobre a comunicação, é o fato de que não tenhamos conseguido, até hoje, pôr em contato os elementos dessa dispersão.

Não se trata, é claro, de pensar em uma teoria abrangente que dê conta do disperso – mas sim, de fazer conversar entre si os diferentes ângulos, os diferentes aportes teóricos, as diferentes definições e prefe- rências por objetos, as diferentes experiências metodológicas. Não para obter harmonia e eliminação de atritos, mas para que possam se desafiar e, no enfrentamento dos desafios, desenvolver suas próprias perspectivas para além de mera reiteração das posturas assumidas.

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Esse programa, que tem alimentado o encaminhamento de minhas pesquisas, não é uma proposição teórica nem um projeto de pesquisa.

Apenas sugere angulações táticas e metodológicas para ampliar a pos- sibilidade de descobertas propriamente comunicacionais nas diferentes investigações em que haja essa preocupação.

A comunicação é tentativa na medida mesmo da dificuldade de exercer um controle rigoroso, de definir padrões fechados para seu desempenho. Alguma coisa relativamente previsível (ou desejada) pode ocorrer ou não ocorrer; e outras coisas não pensadas igualmente ocorrem. Além disso, parece haver sempre alguma imprecisão entre falas e entendimentos, entre objetivos e processos (Braga, 2010c). As diferenças – de perfil dos participantes, de acervo, de objetivos, de táticas e de compreensão – deixam espaços vazios ou sobrecarregados de inferências não coincidentes.

Por outro lado, dizer “tentativo” não é dizer “aleatório”. O aleatório implica inexistência de previsão ou resistência. A comunicação não é aleatória – uma coisa que ocorra ou não ocorra, como total acaso. O fato de ser tentativa implica que é sempre prevista, buscada e ocorrente – mas se realiza em diferentes graus de efetividade ou sucesso.

b) A sociedade organiza processos tentativos

Quando afirmamos que a comunicação é tentativa, não estamos nos referindo apenas aos objetivos dos participantes de episódios comunica- cionais, embora estes mereçam igualmente estudo. A sociedade desen- volve historicamente processos interacionais de alcance mais largo que o episódio singular – disponibiliza construções organizadoras, oferecendo diretivas a quaisquer participantes para interações em espaços mais ou menos reconhecidos.

Assim, um dos ângulos de investigação relevantes para ampliação do conhecimento comunicacional é, justamente, a observação das diferentes tentativas de processos sociais que se oferecem como base interacional; o estudo de sua criação e desenvolvimento, suas lógicas, seu alcance e seus limites. Ver adiante o tópico sobre dispositivos interacionais.

c) A comunicação é canhestra

Como a comunicação é imprecisa e tentativa, não cabe caracterizar o fenômeno apenas pelos episódios comunicacionais de alto valor, pelos processos bem sucedidos, igualitários, voltados para a produção de harmonia, articuladores felizes de diferenças a serem necessariamente superadas. A comunicação é frequentemente desencontrada, conflitiva, implicando possíveis intenções rasteiras. Relacionar e fazer compartilhar diferenças não corresponde sempre a busca de harmonia; e certamente

não pretendemos eliminar as diferenças entre os seres humanos: estas fazem parte da riqueza expressiva da espécie.

Valores altos e democráticos devem ser pragmaticamente buscados – mas não fazem parte substantiva da ideia de comunicação. Devemos estudar os processos comunicacionais como estes ocorrem na sociedade, até para poder fazer praxiologicamente, com base nesse conhecimento, distinções axiológicas. Circunscrever o estudo e o conceito de “comunica- ção” apenas a suas ocorrências valiosas implicaria deixar de lado caracte- rísticas importantes do fenômeno, levando a valorizar sem compreender.

Podemos explicitar essa característica diversificada do fenômeno com a proposição de que a comunicação é canhestra.

d) Códigos e inferências são componentes elementares

Observando a diversidade de episódios interacionais ocorrente na sociedade e a variedade de participantes, de objetivos compartilhados ou polêmicos, de táticas acionadas, como organizar o pensamento para não se perder na dispersão infinita dessas possibilidades?

Através do estudo de múltiplos índices dessa grande variedade de processos, em pesquisa na qual estudei uma centena de artigos que faziam observações empíricas diversificadas, fui consolidando a percepção de elementos básicos que parecem estar presentes em todo episódio intera- cional, aquém de seus enfoques e táticas específicas: as interações acionam necessariamente códigos e processos inferenciais (Braga, 2010c; 2011).

Os aspectos de código são frequentemente enfatizados, conforme os estudos, pelas suas especificidades: linguagens; gramáticas; regras; lógi- cas institucionais, culturais, políticas, econômicas, linguísticas, éticas, de mídia; etc. Tais tipos de códigos aparecem como se fossem determi- nadores do processo comunicacional – como variáveis independentes.

Mas junto a esse tipo de componentes, encontramos sempre – reforçando aquela ideia da comunicação como tentativa – aspectos não codificados, não pré-compartilhados.

A pragmática da linguagem já observa que os espaços vazios entre as representações da língua e aquilo que realmente se comunica não são preenchidos por mais codificação, e sim por processos inferenciais (Sperber e Wilson, 1997). Nessa perspectiva, o inferencial se mostra a serviço dos códigos, completando lacunas, tornando mais explícitas as referências ao mundo, propiciando ajustes de entendimento entre participantes.

De nossa parte, entendemos que as inferências desenvolvidas nos epi- sódios interacionais vão além desse papel subsidiário: elas são o próprio núcleo da atividade comunicacional. O “código” é o já dado, componente necessário que viabiliza o processo – mas a comunicação se desenvolve para além dos códigos.

Quando ampliamos a perspectiva para além dos episódios, para o conjunto sucessivo destes, podemos perceber que os códigos acionados pelos participantes, recebidos já do ambiente sociocultural, foram comuni- cacionalmente elaborados em algum momento anterior. Assim, entre esses dois componentes elementares do processo comunicacional, se os códigos viabilizam a interação (e por isso são constantemente gerados, acionados e transformados), as inferências estão na base da produção de todos os códigos sociais – viabilizando não só o exercício de códigos dados, mas também permitindo composições variadas e plurais de códigos disponí- veis e, particularmente, permitindo a criação de códigos para interação.

e) A sociedade produz dispositivos interacionais

Se o processo de redução da ambiguidade interacional, se o ajuste possível entre interpretações não coincidentes e a clareza de percepção dos referentes não podem ser subsumidos a uma regra geral; isso não significa, porém, que a cada episódio interacional os participantes sejam obrigados a inventar e a desenvolver processos ad-hoc, inteiramente espe- cíficos e originais, a serviço de seus objetivos interacionais.

Constatamos, ao invés, a existência – socialmente produzida e dispo- nível – de uma grande quantidade de táticas-padrão, de modelos reco- nhecidos que podem ser chamados pelos participantes, a serviço de sua comunicação. Trata-se daqueles processos desenvolvidos pelas sociedades, em suas tentativas constantes de viabilizar sua própria interação.

Denomino a esses modelos, para efeito de referência e conceituação, de

“dispositivos interacionais” (Braga, 2011). Trata-se de matrizes socialmente elaboradas e em constante reelaboração – através do processo mesmo de interações tentativas – que geram, por aproximação sucessiva, modos e táticas na busca de uma efetividade comunicacional ampliada, desenvol- vendo, na prática, objetivos e critérios indicadores de sucesso. Um dispo- sitivo interacional é um modelo desenvolvido pela prática experimental (tentativa) que estabiliza articulações entre processos “de código” e os espaços não codificados solicitadores da inferência dos participantes.

Trata-se então de refletir e observar os elementos interacionais mais per- tinentes a nosso tipo de objeto; e sobretudo investigar o sistema de relações que esses elementos organizam. Um primeiro aspecto é justamente uma reunião de aspectos heterogêneos que se articulam em um determinado processo social. Observamos que alguns destes elementos são da ordem da codificação (como a língua, por exemplo); outros são inferenciais. Os elementos articuladores são assim essencialmente comunicacionais.

O conceito é particularmente propício para estudos da mediatização – exatamente porque permite ultrapassar uma referência exclusiva aos “meios” (tecnologias, empresas midiáticas e/ou a forma de seus produtos) ou apenas às circunstâncias muito concretas e imediatas de sua apropriação (a relação “direta” de recepção). Tratar de “dispositivos”

permite incluir as incidências institucionais, as mediações que o usuário traz para a interação, as expectativas sobre o usuário, no momento da criação dos produtos – levando à “construção do leitor”, aos modos de endereçamento, às promessas e contratos; permite incluir os processos em geral que cercam a circulação mediática; e aí também os contextos significativos de produção, de apropriação e da “resposta social” (Braga, 2006).

Podemos então considerar que “dispositivos de interação” são espaços e modos de uso, não apenas caracterizados por regras institucionais ou pelas tecnologias acionadas; mas também pelas estratégias, pelo ensaio- -e-erro, pelos agenciamentos táticos locais – em suma – pelos processos específicos da experiência vivida e das práticas sociais. Fica evidente, ao tratarmos de regras e de agenciamentos táticos, que consideramos os dispositivos interacionais como modelos muito diversamente compostos de códigos e inferências. Isso é, aliás, evidente na medida em que tais dispositivos são comunicacionalmente desenvolvidos e culturalmente acionados para o exercício de episódios interacionais.

O episódio interacional é o próprio dispositivo em momento de reali- zação, caracterizado pela especificidade de seus objetivos e pelo sistema de relações comunicacionais assim constituído, modulado pelas circuns- tâncias da ocorrência singular.

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Essas características, que compõem nossa perspectiva sobre comuni- cação, podem agora ser sumariadas e relacionadas.

A comunicação é tentativa – se realiza probabilisticamente, com graus variados de sucesso. Essa tentativa se refere mais propriamente ao que a sociedade tenta viabilizar nas suas interações do que apenas ao esforço de atingir objetivos diferenciados pelos participantes. Em cada modo ou processo social, a sociedade gera, em modo prático, determinados padrões e expectativas inferenciais para seu funcionamento. Tais práticas acabam se organizando em dispositivos variados, que “modelam” o funciona- mento comunicacional que aí ocorre. O episódio comunicacional, que é a comunicação concreta, se desenvolve, assim, no âmbito de dispositivos interacionais, produzidos nas circunstâncias históricas e acionáveis nos contextos específicos dos participantes.

Com tais características, a comunicação é transformadora (Braga, 2013), acionando os elementos já compartilhados, em um determinado momen- to, como base para produção de novos compartilhamentos, produzindo assim mudanças de sentido. Esse processo de transformação implica uma transação contínua entre esses dois aspectos da comunicação, “códigos” e

“inferências”. O código se completa pela inferência que, na reiteração ten- tativa, se organiza como elemento estável para futuros compartilhamentos.