A partir de 1980, com processo de redemocratização do Brasil, originaram-se debates em torno da infância e, com o advento da Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, crianças e adolescentes passaram a ser reconhecidos como sujeitos de direitos em face da peculiar condição de pessoas em processo de desenvolvimento.
Ao incorporar o princípio da proteção integral, a Constituição Federal inaugura um novo paradigma, rompendo definitivamente com as ideias decorrentes da doutrina da situação irregular. A partir do artigo 227, a Constituição Federal impõe à família, à sociedade e ao Estado o dever de assegurar à criança e ao ado- lescente o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária (BRASIL, 1988).
Baseados nos princípios da descentralização, desjudi- cialização, prioridade absoluta, despoliciação e democracia, o estabelecimento de meios adequados para a concretização dos direitos da criança e do adolescente se deu a partir da Estatuto da Criança e do Adolescente. Este previu a implementação de um sistema de garantias de direitos da criança e do adolescente baseado na tríplice responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Poder Público (CUSTÓDIO, 2006).
Com o reconhecimento dos direitos fundamentais da crian- ça e do adolescente estampado no artigo 227 da Consti- tuição da República Federativa do Brasil, de 05 de outubro de 1988, e seu disciplinamento no Estatuto da Criança e do Adolescente, Lei 8.069, de 13 de julho de 1990, instalou-se um compromisso institucional compartilhado visando prote- ção e garantia plena à efetivação dos direitos humanos de crianças e adolescentes brasileiros. Nesse contexto, foi pre- vista a criação do Conselho Tutelar como órgão central da política de proteção aos direitos de crianças e adolescente.
(CUSTÓDIO; SOUZA, 2011, p. 187).
A atuação do Conselho Tutelar na concretização dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes
Situado no segundo nível do sistema de garantias de di- reitos e disciplinado no artigo 131 do Estatuto da Criança e do Adolescente como órgão permanente, autônomo e não jurisdicio- nal, o Conselho Tutelar integra a política de proteção dos direitos das crianças e dos adolescentes (BRASIL, 1990). Composto por cinco membros que têm um mandato de quatro anos, o Conselho Tutelar é órgão público, pois é vinculado à administração pública municipal, que aplica medidas administrativas de cumprimento obrigatório.
O Conselho Tutelar é órgão permanente porque uma vez criado não pode ser extinto, prestando serviços de forma inin- terrupta 24 horas por dia, sem a necessidade da sede se manter aberta. Também é não jurisdicional porque não integra o po- der judiciário, de modo que as medidas tomadas são de caráter administrativo.
Autonomia do Conselho Tutelar, em geral, é vista coo sinô- nimo tão-somente de autonomia funcional, ou seja, em ma- téria de sua competência, quando delibera ou quando toma decisões, quando age ou quando aplica medidas, não está sujeito a qualquer interferência externa, a qualquer tipo de controle político ou hierárquico. As decisões de natureza ad- ministrativa são irrecorríveis, somente podendo ser questio- nadas e revistas em ação. (KONZEN, 2007).
Além do atendimento técnico e especializado nas situações de ameaça ou violação de direitos de crianças e adolescentes, os Conselhos Tutelares têm a finalidade de zelar pelos direitos de crianças e adolescentes, tomando decisões por meio de seu órgão colegiado, que pela natureza jurídica administrativa vincu- lante obriga tanto a administração pública quanto os particulares à adoção das medidas impostas (CUSTÓDIO, 2019).
O Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) prevê os requisitos básicos para a candidatura dos conselheiros tutelares, destacando a reconhecida idoneidade moral, exigida atualmente pela certidão de antecedentes criminais, idade superior a 21 anos e a obrigatoriedade do candidato residir no município onde está concorrendo. Já a exigência de apenas uma recondução ao cargo foi eliminada pela lei nº. 12.696, de 25 de julho de 2012.
Meline Tainah Kern e Maria Eliza Leal Cabral
As atribuições do Conselho Tutelar se encontram discipli- nadas no artigo 136 do Estatuto da Criança e do Adolescente e consistem no atendimento de crianças e adolescentes sempre que estes tiverem seus direitos ameaçados ou violados, aplican- do as medidas de proteção previstas no artigo 101 do Estatuto da Criança e do Adolescente; no atendimento e aconselhamen- to dos pais ou responsáveis; na promoção da execução de suas próprias decisões; no encaminhamento ao Ministério Público de notícia de fato que constitua infração administrativa ou penal con- tra os direitos das crianças e adolescentes; e no encaminhamento à autoridade judiciária os casos que saiam de sua competência.
Além disso, compete ao Conselho Tutelar tomar providên- cias para que sejam cumpridas as medidas de proteção aplicadas pela justiça ao adolescente autor de ato infracional; expedir notifi- cações; requisitar certidões de nascimento e de óbito de crianças e adolescentes quando necessário; assessorar o poder executivo local na elaboração da proposta orçamentária para planos e pro- gramas de atendimento dos direitos de crianças e adolescentes;
representar em nome da pessoa e da família contra violação dos direitos previstos no artigo 220, § 3º, inciso III, da Constituição Federal de 1988; representar o Ministério Público para efeito das ações de perda ou suspensão do poder familiar; e fiscalizar as entidades de atendimento.
Desde que o Estatuto da Criança e do Adolescente esta- beleceu o limite de, no mínimo um Conselho Tutelar em cada município, verifica-se a dificuldade em efetivar essa diretriz, indis- pensável para a concretização do sistema de garantias de direitos.
O processo de implantação dos Conselhos foi extremamente lento no Brasil e, em alguns Estados, foi necessário que o Minis- tério Público estabelecesse essa obrigação por meio de Termos de Ajuste de Conduta firmados com os municípios. Este aspec- to permite identificar uma situação de fragilidade no processo de implantação dos Conselhos Tutelares no Brasil. (CUSTÓDIO;
SOUZA, 2011, p. 189).
Dessa maneira, apesar das atribuições do Conselho Tutelar serem comumente confundidas com as atribuições dos ór- gãos da política de atendimento e da política de justiça, o campo de atuação daquela se encontra definido pelo artigo
A atuação do Conselho Tutelar na concretização dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes
136 do Estatuto da Criança e do Adolescente. O Conselho Tutelar deve agir sempre que ameaçados ou violados os di- reitos de crianças e adolescentes, incidindo apenas em últi- mos casos a atuação da política de justiça, representada pelo Poder Judiciário, pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública.