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Este estudo procurou compreender as práticas educativas realizadas na Estratégia de Saúde da Família do município do Rio de Janeiro desde a Educação Popular e Saúde. Nesse sentido, as práticas educativas analisadas nesta pesquisa abrangeram duas clínicas da família na mesma área programática do município, porém com situações territoriais bastante distintas e, consequentemente, com profissionais que veem as ações em saúde também de formas distintas.

Neste contexto, o estudo em questão analisou as atividades que o profissional enfermeiro realiza na ESF, a forma como as práticas educativas são desenvolvidas em relação ao planejamento das mesmas e se tais práticas incorporam princípios da EPS e que fatores influenciam no desenvolvimento de atividades educativas pelos enfermeiros.

Partindo deste princípio, algumas inferências podem ser feitas a respeito da dinâmica da prática educativa identificada com a análise dos dados. São elas:

a) os enfermeiros realizam diversas atividades na equipe de saúde da família, atividades relacionadas à assistência propriamente dita, ações administrativas e de educação em saúde com a equipe de enfermagem e com os ACS e a população. Desta forma tornou-se importante perceber que muitas destas ações estão além das preconizadas na PNAB;

b) a sobrecarga de trabalho dos enfermeiros na ESF faz com que as práticas educativas, por vezes, permaneçam em segundo plano;

c) em relação às atividades educativas, que é o objeto do estudo em questão, a principal forma de realização são os grupos educativos baseados nos programas do Ministério da Saúde, em sua maioria, e tendo prioritariamente como metodologia a educação tradicional. Pode-se notar a presença de técnicos de enfermagem e os ACS atuando em conjunto com os enfermeiros no desenvolvimento das ações;

d) o planejamento das atividades educativas é realizado com a participação equipe de saúde da ESF, porém a população é excluída deste processo;

e) o ACS tem um papel fundamental no desenvolvimento das práticas educativas. Todo processo de construção da atividade, deste o convite à população até a durante a realização tem a ação deste profissional. Os enfermeiros atribuem a sua importância, pois eles consideram que o ACS

faz a articulação do profissional de saúde com a população. São construtores de vínculo entre a unidade de saúde e a comunidade;

f) alguns princípios da EPS foram identificados mediante o discurso dos sujeitos entrevistados como sendo formas utilizadas por eles na dinâmica de desenvolvimento da prática educativa, como uma forma de abordar e conduzir a atividade. São eles: a escuta ativa, a valorização do saber popular, a liberdade de expressão, a não verticalização das informações e construção da transformação social. Porém, foi identificado que diante do discurso expressado pelos sujeitos tais características aparecem de forma reduzida em relação a prática desenvolvida;

g) os principais fatores que influenciam no desenvolvimento de práticas na percepção do enfermeiro, tanto positiva quanto negativamente, são fatores relacionados aos usuários como desinteresse e o alto índice de falta nos grupos educativos. Isto decorre do fato da prática ser distante da população em sua construção, além de não ser focada nos verdadeiros interesses da população; a violência no território das clínicas como um mecanismo de afastamento da população dos espaços da unidade de saúde; a estrutura das unidades de saúde; falta de um local apropriado na concepção dos enfermeiros; a falta de material didático e a mídia, no sentido de pregar uma forma de vida que distancia a população da unidade de saúde.

No decorrer do estudo, percebeu-se que os profissionais atribuem uma parte de sua assistência às práticas educativas tanto com a população quanto com a equipe. Mas notou-se um vazio na orientação dos profissionais para realização desta prática, no sentido de atribuir ao indivíduo capacidade crítica de resolução das suas condições de saúde. Não houve, em alguns casos, a visão de que a saúde deve ser contemplada pelo prisma social e que a comunidade, enquanto território e meio de convívio social influencia diretamente na construção da visão de mundo da população.

Este fato é bastante perceptível, quando abordamos o desinteresse da comunidade adscrita com a atividade educativa. Como descrito nos resultados, percebeu-se que não há um envolvimento da população, não se procura saber o que a população quer ouvir nesta atividade e não há uma escolha em conjunto de que caminho seguir a ponto de obter um indivíduo empoderado para gerir sua própria saúde. Destaca-se, que estas características não foram citadas de forma homogênea em todos os relatos, porém foram bastante expressivas.

Esta visão de como são planejadas e desenvolvidas as práticas educativas varia de acordo com o enfermeiro da equipe e como ele vê este tipo de atividade.

Percebemos que em toda construção desta pesquisa e, mais precisamente, na análise dos dados nos deparamos com diversas contradições entre o discurso e o modelo de assistência preconizado e, mais, entre o discurso e o ato em si. Isto nos faz refletir que estes profissionais ao liderarem uma equipe de saúde da família, são conduzidos por diversas formas de concepção teórica aprendida durante sua graduação ou vida profissional que fazem da atividade educativa realizada por eles um misto de formas pedagógicas. Isso é bastante claro, ao percebermos que para cada grupo educativo, ou seja, para cada parcela da população dividida ou não pela patologia existe uma forma de abordar que pode ser mais tradicional ou mais participativa.

Constata-se o fato de terem surgidos mecanismos divergentes de condução das atividades educativas, como o diálogo, as atividades em roda, o respeito à fala do outro, a inclusão da população no processo de decisão sobre a prática educativa e outros como o profissional tem o conhecimento científico, utilização de posturas como o profissional fala e a população escuta, práticas realizadas sem diálogo, profissional visto como o que desmistifica a cultura e os mitos popular.

Diante de tais contradições, infere-se que, para que as equipes de saúde utilizem a educação popular, estimulando o empoderamento da população e a sua autonomia para decidir sobre sua vida e sua saúde, é importante que ela seja entendida como norteadora das capacitações dos trabalhadores da saúde (ALVES e AERTS, 2011), o que nos leva a perceber que o profissional deve ser capacitado ou apresentado a outras maneiras de realização de práticas educativas que não o modelo tradicional, mas que consigam atingir os objetivos traçados como prioritários para a condução do processo de trabalho deles e que chegue mais próximo das necessidades da comunidade onde estão atuando.

Todavia, segundo o Caderno de Educação Popular e Saúde (BRASIL, 2007), um dos maiores desafios do movimento de Educação Popular em Saúde é o delineamento mais preciso das estratégias educativas para sua incorporação ampliada nos cursos de graduação de todos os profissionais de saúde, na formação de agentes comunitários de saúde, na educação permanente em saúde dos trabalhadores do SUS, nos cursos de pós-graduação, etc.

Com esta incorporação nos currículos das universidades e a realização de educação permanente dos profissionais baseados nesta concepção pode-se promover a ampliação dos espaços de discussão e aprofundamento teórico sobre a EPS que culminaria na divulgação de sua proposta pedagógica para os serviços de saúde. Este tipo de abordagem seria uma

sugestão desta pesquisa para que as práticas educativas se tornassem menos higienistas diante dos encontrado nos resultados e que de fato fosse coerente com o modelo de atenção preconizado pela atenção básica em saúde.

Outras sugestões para os profissionais das equipes de saúde da família seriam as seguintes: trazer a população de sua área para os momentos de planejamento e discussão sobre as atividades a serem realizadas para eles; ampliar os espaços de práticas educativas dentro das comunidades, ir de fato até a comunidade e utilizar os locais que esta área dispõe como meio de integração entre a unidade de saúde a população; ampliar as atividades de educação em saúde nas escolas e não restringir-se somente a quando a escola necessita ou quando há uma alteração epidemiológica; fazer com que a prática educativa seja mais participativa no sentido de dar voz ao que a população questiona; considerar como importante o saber popular; desvincular a utilização de recursos audiovisuais como sendo indicadores de qualidade para a atividade e que sem eles não terão o mesmo efeito e, principalmente, mudar o foco de atuação dos grupos de espaços de orientação de práticas saudáveis e mudança de hábitos para formas de estimular o autocuidado e a transformação social desta população.

Diante do exposto, verifica-se que os objetivos propostos para esta pesquisa foram atingidos e que de uma forma bem tímida, mas presente foi possível identificar a presença de princípios da EPS nas práticas realizadas na ESF. Porém, é necessário que os profissionais se coloquem disponíveis para ouvir a população na construção de uma relação que considere o ser humano como um todo, a fim de respeitar sua cultura e sua crença e saiba fazer deste espaço um campo para o desenvolvimento de práticas educativas que se aproximem do que é preconizado na EPS.

Portanto, em relação às atividades acadêmicas, sugere-se que outras pesquisas sejam realizadas em torno das práticas educativas e suas perspectivas visto o pequeno número de publicações científicas com esta temática e o grande número de dados encontrados que merecem futuras análises, além da realização de pesquisas que busquem ouvir o usuário do SUS e sua visão sobre como as atividades educativas praticadas na ESF influenciam sua saúde.

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