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5 – DOPAGEM E O ORDENAMENTO JURÍDICO

No documento DIREITO E LEGISLAÇÃO DESPORTIVA.indd (páginas 85-93)

CAPÍTULO V

5.1 - O QUE É “DOPING”

A palavra “doping” é de origem inglesa, usada no turfe, significa injeção ilícita de uma droga estimulante aplicada no animal de corrida a fim de asse- gurar-lhe a vitória. O “doping”, ou “dopagem”, que este capítulo referencia é o uso de drogas ou de métodos específicos que visam a aumentar o desempe- nho de um atleta durante uma competição.

A primeira definição de dopagem surgiu em 1952, na Confederação Ale- mã de Desportos. Assim, pode-se conceituar dopagem como:

... a tentativa de aumento não fisiológico da capacidade de desempenho do es- portista, por meio da utilização (ingestão, injeção ou aplicação) de substâncias pelo próprio esportista ou por auxiliar (líder da equipe, treinador, acompanhan- te, médico ou massagista), antes ou durante a competição, e, no caso de esteroi- des anabólicos, também no treinamento. (SANTOS, 2007, p. 132).

No âmbito do Comitê Olímpico Internacional - COI, a definição so- mente foi publicada durante os Jogos Olímpicos do México de 1968, dis- correndo que dopagem consiste na administração ou uso de agentes estra- nhos ao organismo ou de substâncias fisiológicas em quantidade anormal, capazes de provocar no atleta, no momento da competição, um comporta- mento anormal, positivo ou negativo, sem correspondência com a sua real capacidade orgânica e funcional. Na época, o COI queria, por meio da definição, algo que abrangesse aspectos farmacológicos, toxicológicos e clínicos, não se esquecendo dos aspectos éticos, educativos e de costumes regionais (FERRO, 2014).

Em conceito mais restrito, a WADA trata a dopagem como sendo “uma ou várias violações das regras anti-doping anunciadas no Código Mundial Anti- dopagem”(TUBINO, 2017, p. 722).

Estaremos diante de um caso de dopagem, portanto, quando for verificado que um atleta utilizou, antes ou durante uma competição, uma substância proibida pelas instituições de controle.

O “doping” é proibido nos esportes porque, além de prejudicar a saúde, trata-se de uma conduta antiética do atleta ao proporcionar uma vantagem competitiva desleal em relação aos outros competidores. Mais do que uma

violação ao regramento, é uma violação também a princípios básicos do es- porte, como o fair play e a isonomia.

5.2 - A WADA

Após os escândalos ocorridos no Tour de France e no Campeonato Mundial de Natação, ambos de 1998, o COI, demandando prestígio e protagonismo na luta contra a dopagem organizou em fevereiro de 1999 a Conferência Mundial Antidopagem, da qual participaram, além de repre- sentantes do próprio Comitê, representantes de governos, comitês olímpi- cos nacionais e federações internacionais. O objetivo do evento era discu- tir e adotar medidas para evitar que novos casos manchassem o esporte.

(CABALLERO, 2003)

Neste cenário, em 10 de novembro de 1999, é fundada a Agência Mundial Antidopagem (WADA, na sigla em inglês, ou AMA em francês e português), uma fundação privada baseada no Direito Civil suíço e de organização inde- pendente, sediada em Lausanne, na Suíça, com o objetivo coordenar a luta contra a dopagem.

Em 2001, a instituição transferiu sua sede para a cidade de Montreal, no Canadá. Há em funcionamento, ainda, gabinetes na África (Cidade do Cabo – África do Sul), na Europa (Lausanne - Suíça), na Ásia (Tóquio - Japão) e na América do Sul (Montevidéu - Uruguai).

Em termos orçamentários, a WADA é mantida por um financiamento colaborativo, sendo 50% (cinquenta por cento) advindo do COI e os outros 50% (cinquenta por cento) de vários governos do mundo. Em contrapartida, sua atuação ajuda Federações Esportivas Internacionais a realizarem ações nas áreas de educação e pesquisa, além de elaborar a lista de substâncias que os atletas não podem consumir. (PAIVA in SOUZA, 2017)

Conforme a Declaração de Copenhagen, de 2003, a parte do orçamento que cabe aos entes públicos se divide conforme as regiões olímpicas da se- guinte forma:

África: 0,5%

Américas: 29%

Ásia: 20,46%

Europa: 46,5%

Oceania: 2,54%

Cada região possui um órgão reconhecido e incumbido de viabilizar acordos para o cumprimento destes percentuais. No caso das Américas, por exemplo, os Estados Unidos arcam com metade do valor devido pelo con- tinente, enquanto o Canadá, com um quarto. O restante é dividido entre os demais países. (WADA, s.d.)

Principal instrumento legal de combate à dopagem, o Código Mundial Antidopagem, elaborado pela WADA, tem por finalidade a promoção da pre- venção e repressão contra a dopagem no desporto, definindo padrões trans- nacionais e coordenando a atuação das mais variadas instituições envolvidas.

Graças a todo o trabalho de cooperação entre os mais diversos atores do movimento olímpico, atualmente a WADA é a instituição de maior relevância internacional no combate à dopagem. 

5.3 - A REGULAMENTAÇÃO NO BRASIL

Para que as entidades desportivas brasileiras possam participar de eventos internacionais direta ou indiretamente ligados ao movimento olímpico, é im- perioso que acatem as normas da WADA, respeitando a uniformização dos procedimentos de controle e punição da dopagem no mundo esportivo.

O Código Mundial Antidopagem possui aplicação em todo o território brasileiro, vez que o Brasil promulgou, sem ressalvas, através do Decreto n.º 6.653/08, a Convenção Internacional contra Doping nos Esportes (UNESCO), celebrada em Paris, em 19 de outubro de 2005.

A partir desta recepção, foi realizada consistente alteração no Código Bra- sileiro de Justiça Desportiva, excluindo-se as previsões constantes à época quanto à dopagem e incluindo-se o art. 244-A, que dispõe que “[a] s infra-

ções por dopagem são reguladas pela lei, pelas normas internacionais perti- nentes e, de forma complementar, pela legislação internacional referente à respectiva modalidade esportiva”.

Três anos depois, através do Decreto nº 7.630/11, foi criada a Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem - ABCD, entidade vinculada ao Ministério do Esporte e custeada com dinheiro público.

Atualmente, a ABCD encontra-se prevista na Lei 9.615/98 e possui entre suas competências:

• Estabelecer a política nacional de prevenção e de combate à dopagem;   

• Coordenar o combate à dopagem no esporte nacional; 

• Conduzir os testes de controle de dopagem e a gestão de resultados; 

• Expedir autorizações de uso terapêutico; 

• Certificar e identificar profissionais, órgãos e entidades para atuar no controle de dopagem;  

• Editar resoluções sobre os procedimentos técnicos;  

• Manter interlocução com os organismos internacionais envolvidos com matérias relacionadas à antidopagem; 

• Divulgar e adotar as normas técnicas internacionais relacionadas ao controle de dopagem e a lista de substâncias e métodos proibidos no esporte; e 

• Informar à Justiça Desportiva Antidopagem as violações às regras de dopagem, participando do processo na qualidade de fiscal da legislação antidopagem.

5.4 - DA RESPONSABILIDADE DO ATLETA

Conforme previsto expressamente no CMAD, o atleta é considerado o principal responsável por qualquer substância encontrada em seu corpo. As- sim, cabe a ele preocupar-se e manter-se informado acerca de tudo o que consome em seu cotidiano.

Não se pode esquecer, o compromisso e a responsabilidade dos profis- sionais que atuam em benefício do atleta com objetivo de zelar pelo seu bem estar, por exemplo: médicos, fisioterapeutas, massagistas, treinadores, dirigentes e até mesmo os clubes. Poderá haver responsabilização destes pro- fissionais e entidades caso fique configurada negligência, imprudência, im-

perícia ou omissão, no que tange a assegurar aos atletas o uso adequado de medicamentos que possuam substâncias proibidas.1

No entanto, o atleta ainda é o principal responsável por sua própria integridade, devendo zelar pelas substâncias que ingere, pelos tratamentos que faz e pela sua saúde de um modo geral (FARAH, 2005).

A caracterização da dopagem ocorre a partir do simples diagnóstico de existência de substância proibida no corpo do atleta ou da verificação da prá- tica de método proibido, sendo mitigados argumentos acerca da existência, ou não, de culpa ou dolo do atleta.

A partir do momento em que um teste positivo é identificado em competi- ção, os resultados do atleta são automaticamente anulados, conforme dispõe o Código Mundial Antidopagem.

Os atletas são responsáveis não apenas por qualquer substância proi- bida encontrada em seu corpo, como também pelos seus metabólitos ou marcadores. Igualmente, não é necessário fazer prova da intenção, culpa, negligência ou da utilização consciente de quaisquer destes elementos de forma a determinar a existência de uma violação de normas antidopagem nos termos do Artigo 21 do mencionado Código.

Portanto, quando um atleta for flagrado positivamente em um exame de dopagem, aplica-se o princípio da responsabilidade objetiva, o que denota certa incongruência com algumas normas consagradas em nosso ordenamen- to jurídico pátrio, dentre elas em relação ao princípio da presunção de ino- cência. Haverá alguns casos excepcionais em que o atleta poderá comprovar a inexistência de sua culpa ou negligência, podendo, consequentemente, ser aplicada uma pena mais branda.

5.5 – OS DIREITOS DO ATLETA

A utilização das normas antidopagem dentro do território brasileiro deve respeitar e se adequar às leis pátrias no momento da aplicação das punições,

1 - Ver itens 3.4 a 3.8, acerca das Responsabilidades Civil e Criminal possíveis.

o que certamente impede a ocorrência de sanções desproporcionais aos atle- tas, principalmente àqueles que usufruem do desporto com profissão.

Além da observância geral da lei, é importante que o atleta conheça seus direitos quando da realização dos exames, os quais destacamos:

• Verificar as credenciais dos Agentes de Controle de Dopagem;

• Ser informado sobre todas as etapas do controle e o andamen- to da coleta de amostra, incluindo as consequências em caso de recusa;

• Contar com um acompanhamento e, se for preciso, com um intér- prete;

• Escolher um kit de coleta entre, no mínimo, três que lhe são apre- sentados;

• Solicitar prazo maior para apresentar-se ao Controle de Dopagem, desde que possua justificativas válidas e comprovadas;

• Com o consentimento do Oficial de Controle de Dopagem e sempre acompanhado por uma escolta, o atleta pode: receber sua premia- ção antes de realização do controle; fazer exercício de relaxamento;

receber atenção médica; atender compromissos com a imprensa;

competir em outros eventos no mesmo dia;

• Solicitar adaptações no processo de coleta da amostra se for defi- ciente físico ou menor de idade;

• Ser observado por alguém do mesmo sexo durante o processo de coleta da amostra;

• Receber uma cópia assinada do Formulário de Controle.

5.6 - A JUSTIÇA DESPORTIVA ANTIDOPAGEM - JAD

Paralelo ao sistema da Justiça Desportiva que tratamos no Capítulo II, construído ao longo de décadas por especialistas, desde 2016 existe no Brasil a Justiça Desportiva Antidopagem - JAD, criada pela Lei nº 13.322.

Fruto da intervenção estatal e desrespeitando o art. 217 da Constituição Federal, o órgão se encontra vinculado ao Ministério do Esporte, sendo cus- teado por dinheiro público e formado por representantes do Poder Executivo, de sindicatos e de entidades de administração do desporto (mesmo os repre- sentantes dos sindicatos e entidades desportivas são indicados pelo Conselho Nacional do Esporte, órgão vinculado ao Ministério do Esporte).

A Justiça Desportiva Antidopagem (JAD) tem competência para julgar ape- nas os casos referentes às infrações contra as regras de dopagem, tendo sido criada, na visão de Hostins (in SOUZA et al., 2017, p. 421-422), em razão da insatisfação da WADA com as decisões prolatadas no Brasil, o que caracteriza

verdadeiro ‘tribunal de exceção’, quadrando-se perfeitamente na definição clássica deste instituto que é objeto de governos totalitários e dados a fazer

‘justiçamento’”.

Conforme o Dec. 8.692/2016, submetem-se à JAD:

Art. 2º : [...]

I - atleta - qualquer pessoa, vinculada às entidades de que trata o inciso II, que parti- cipe de competições esportivas na condição de competidor em qualquer modalidade esportiva;

II - entidade - aquelas listadas no parágrafo único do art. 13 da Lei nº 9.615, de 1998 e suas congêneres internacionais; e

III - terceiro - qualquer técnico, treinador, funcionário, preparador físico, dirigente, em- presário, agente, pessoal médico ou paramédico trabalhando com, ou tratando de, atle- tas, participando ou preparando-o para competição esportiva ou fora dela. 

Assim como a Justiça Desportiva comum, há uma Procuradoria da JAD, responsável por elaborar as denúncias por infração aos regramentos antido- pagem. Tais denúncias serão julgadas primeiramente em solo brasileiro, ca- bendo recurso ao Tribunal Arbitral do Esporte.

Esta colaboração permite partilhar com os profissionais de Educação Física o conhecimento a respeito da temática da dopagem tonando-os, juntamente com as autoridades públicas e o movimento desportivo, capazes de trabalhar em conjunto em defesa do desporto limpo.

CAPÍTULO VI

6 - APONTAMENTOS SOBRE CONTRATOS NO ÂMBITO

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