trigonométricas; transformações trigonométricas; senoides e fenômenos periódicos.
Na ementa da disciplina Matemática III está previsto o estudo dos seguintes conteúdos: propriedades de figuras geométricas; se- melhança de triângulos; relações métricas no triângulo retângulo;
polígonos regulares inscritos na circunferência e comprimento da circunferência; áreas (medidas de superfície); geometria espacial de posição; poliedros (prismas e pirâmides), corpos redondos (ci- lindro, cone e esfera) e troncos.
A disciplina Matemática IV, com carga horária total de 60 horas (assim como sua antecessora), traz em sua ementa os conteú- dos: poliedros (prismas e pirâmides); corpos redondos (cilindro, cone e esfera); troncos (troncos de prismas, de pirâmides, de ci- lindros e de cones); geometria analítica: ponto, reta, circunferên- cia e secções cônicas (parábola, elipse, e hipérbole); números complexos; polinômios e equações polinomiais.
De forma análoga aos percursos formativos analisados no pre- sente trabalho (dentro do recorte temporal de 1960 a 1990), a Matemática no atual currículo do curso Técnico em Estradas é disciplina importante. Verifica-se a presença dessa disciplina nas quatro séries com carga horária relevante.
A partir da década de 1960, o mercado de trabalho passa a demandar uma mão-de-obra com domínio da ciência e da tec- nologia e autonomia intelectual para resolução de problemas.
Assim, a Matemática torna-se ainda mais relevante e outra pe- dagogia surge dentro dos muros da ETFES. A organização ad- ministrativa e pedagógica da escola torna-se responsabilidade do Conselho de Representantes e do Conselho de Profes- sores. Conforme exposto, esses conselhos possuíam visões diferentes das finalidades educativas da escola. O Conselho de Professores defendia a autonomia da escola procurando a melhor educação para os estudantes e uma sólida prepara- ção para o mundo do trabalho. O Conselho de Representantes procurava garantir que a formação profissional da instituição atendesse às demandas das empresas e da sociedade54. As décadas seguintes são marcadas por aproximação com o ensino propedêutico. Com a oferta de ensino gratuito e de qualidade, a ETFES também é procurada por estudantes al- mejando a continuidade dos estudos no ensino superior. Pro- fessores de Matemática começaram a se questionar sobre as finalidades dessa disciplina na escola.
Os professores, utilizando a autonomia que possuíam dentro da instituição, foram relevantes na construção do currículo de Matemática do curso Técnico em Estradas. Na década de 1960, os professores da disciplina elaboravam os programas com seus pares e encaminhavam os mesmos para aprova- ção do conselho de professores. A prescrição do currículo de Matemática era a mesma para os cursos técnicos ofertados à época. A prática curricular em sala de aula era diversa. Cada
professor escolhia as formas de mediar o currículo aos alunos.
Por exemplo, alguns procuravam estabelecer relações entre a Matemática e as disciplinas técnicas; em outras práticas havia ênfase à Álgebra; possivelmente alguns professores que atua- vam em escolas do ensino propedêutico traziam para suas práticas dentro da ETFES aspectos desses outros espaços.
No início da década de 1970, o Conselho de Professores é extinto. Uma equipe técnico-pedagógica assume a responsa- bilidade pela organização didática da escola. A elaboração dos programas de Matemática acontece com a participação dessa equipe. Trata-se de uma época marcada pelo tecnicismo: a prática é planejada de forma rigorosa; há ênfase na organi- zação e no controle do processo de ensino-aprendizagem; os professores passam a ser controlados em seus cotidianos; é realizada a adoção do livro didático na disciplina de Matemá- tica. Mesmo nesse cenário, os docentes encontram meios de exercer papel de construtores do currículo com criatividade e protagonismo.
E esse protagonismo torna-se evidente quando docentes de Matemática da ETFES e de outras escolas técnicas da rede federal iniciam um movimento buscando uma Educação Ma- temática mais condizente com a formação profissional. Nesse movimento de professores, o currículo de Matemática também se movimentou. As propostas curriculares passam a atender cursos técnicos de áreas afins (diferentemente da proposta de percurso único de todos os cursos técnicos para a Matemá- tica). E como culminância desse processo, no caso do curso Técnico em Estradas, tem-se o programa utilizado de 1984 a
1986 que foi pensado exclusivamente para esse curso. Como participante do movimento, a ETFES também sedia um EN- CONAM em 1988.
Todavia, a proposta enfrenta algumas dificuldades: a inércia de alguns docentes de Matemática (no que diz respeito à for- mação continuada e à avaliação e reformulação da proposta curricular); a possível resistência de alunos que não viam na proposta um caminho para o sucesso no vestibular; a necessi- dade de mais de um volume da coleção de Gelson Iezzi em um mesmo ano, gerando custos altos para os estudantes adquiri- rem os livros. Por fim, os professores de Matemática da escola resolvem abandonar essa possibilidade de percurso curricular, retomando um currículo baseado na obra de Iezzi et al.
O livro didático contribuiu de forma significativa na construção do currículo de Matemática do curso Técnico em Estradas.
Com relação à prática curricular, a obra de Iezzi et al. ofereceu aos docentes o conteúdo com formalização reduzida ao míni- mo necessário, seguida de exercícios resolvidos e exercícios propostos. Essa apresentação dos conteúdos curriculares in- fluenciou a prática dos docentes da ETFES. Contudo, como foi possível constatar, o uso do livro feito pelos docentes era diverso. Outro ponto importante é que a sequência de con- teúdos disposta na coleção adotada coincidiu em sua maioria com alguns dos programas de Matemática do curso Técnico em Estradas que foram analisados. Essa situação passou por mudanças na década de 1980, conforme exposto. O livro adotado é uma das interpretações do programa. Um dos ela- boradores do currículo. Entretanto, sua relevância e perma-
nência na ETFES (a mesma coleção foi utilizada por mais de 20 anos), suscitam o questionamento: no cotidiano de sala de aula, a preponderância era do currículo prescritivo ou do livro didático?
Os estudantes também trouxeram suas contribuições para essa construção social do currículo. Em cada aula de Matemá- tica, os discentes do curso Técnico em Estradas participavam da construção da prática curricular. Em suas facilidades e di- ficuldades procuravam os mestres e prestavam auxílio mútuo quando necessário. Os professores possivelmente sentiam a necessidade de buscar outras metodologias de acordo com o rendimento das turmas. O aluno ainda ocupava um espaço pri- vilegiado no qual podia cursar as disciplinas técnicas e as de cultura geral, estabelecendo relações entre as mesmas. Esse processo de trocas entre as disciplinas, dado muitas vezes por meio dos discentes, contribuiu com a construção do currículo de Matemática do curso Técnico em Estradas.
A construção curricular que foi objeto de pesquisa do presente trabalho se deu nesse movimento. O percurso trilhado em mo- mento algum foi retilíneo. Vários foram os sujeitos que cons- truíram essas estradas que buscaram a direção de uma for- mação profissional de qualidade. E nessa formação de técnico em Estradas, fica clara a relevância da Matemática.
No caminhar que resultou na escrita desse trabalho, foi possí- vel esclarecer algumas questões. Entretanto, questionamentos permaneceram em aberto e o que se pôde conhecer suscitou outras inquietações. O volume de informações presente nas
fontes históricas acessadas durante a investigação mostra que a pesquisa é apenas o início de uma história dos currículos de Matemática no Ifes. Foi possível devassar algumas verda- des parciais. E é assim se constrói a ciência histórica: pouco a pouco, por meio de revisões do trabalho histórico, verificações sucessivas e acumulação de verdades parciais55.