3. DA PISTA À ARQUIBANCADA?: A ANATORG E AS MEDIAÇÕES COM
3.4. A ANATORG e a construção de uma agenda pública
ANATORG.80
O conceito a ser lapidado, portanto, deveria ser acompanhado de um quadro fixo de lideranças à parte dos dirigentes das torcidas. Deste modo, a associação operaria de forma mais regular, propiciando uma consistência maior para a elaboração da agenda a ser apresentada nas arenas públicas. Isto posto, a ANATORG conseguiria inverter a equação da CONATORG: não o conjunto difuso de torcidas pautando a associação, mas a associação pautando o conjunto das torcidas organizadas do país em direção a uma construção unitária.
dos estádios de futebol que decorre dessa lógica se alinha ao caráter popular e periférico das instituições torcedoras que, pelo menos desde os anos 1980, possuem grande penetração nas camadas populares, notadamente os mais impactados pela mudança no perfil do público dos estádios. Através do encarecimento dos ingressos, dos programas de sócio-torcedor e da nova setorização dos estádios inaugurados na última década, busca-se selecionar um novo público mais abastado, com hábitos de consumo que permitam aumentar a rentabilidade do espetáculo esportivo.
Esse processo impactou muito na vida associativa das torcidas organizadas na virada do século, quando houve a paulatina diminuição - quando não suspensão completa - da distribuição de ingressos para as agremiações. Até o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, o acesso a ingressos era uma das principais vantagens que as torcidas podiam oferecer aos seus associados, principalmente àqueles cujas fontes de renda eram insuficientes para manter uma frequência regular aos estádios. Embora uma parte significativa dos ingressos distribuídos às torcidas organizadas também pudesse ser destinada ao “cambismo”, também é verdade que elas mantinham uma espécie de “política social” entre seus associados, concretizando para os torcedores das camadas populares o direito ao lazer na cidade através de ingressos gratuitos ou subsidiados.
Contudo, isso mudou de figura ao longo dos anos 2000. Com a ascensão dos programas de sócio-torcedor, a distribuição de ingressos às organizadas representaria uma concorrência indesejada a esse novo mecanismo de associação criado pelos clubes. Além disso, a radicalização do discurso contra as instituições torcedoras se valia muito da questão do cambismo para marginalizá-las. Através da associação automática entre as torcidas organizadas e o cambismo era possível pautar a interdição de qualquer tipo de relação entre o clube e suas organizadas, pois elas sempre seriam caracterizadas como espúrias, imorais, quando não ilegais. A fala de Wallace Neguerê expressa bem o impacto dessas novas disposições na vida associativa das torcidas organizadas:
[...] hoje, com essa elitização do futebol, as torcidas organizadas perderam um pouco do espaço que tinham. Hoje as torcidas não tem muito o que oferecer pro sócio. Com essas promoções de sócio- torcedor dos clubes, algumas pessoas estão deixando de ser sócias da torcida e sendo sócias do clube, o que é bom também, é vantajoso, é muito importante. [...] Mas na situação na qual nos encontramos agora, não é mais vantajoso se associar a uma torcida organizada.
Hoje o interesse no futebol é mais empresarial, e o torcedor organizado não pertence a esse meio, porque são pessoas de periferia, são pessoas que precisam do ingresso barato, que ganham
pouco e que dependem do ingresso que a torcida disponibilizava.81
E prossegue sua crítica em tom de prognóstico:
Vai chegar um ponto que todo mundo vai entrar pra dentro do estádio, com seus filhos, com suas mulheres, com seus carros no estacionamento, e o torcedor, que somos nós aqui, vai ficar de fora.
Porque não vamos ter dinheiro pra entrar, não vamos ter espaço pra fazer nossa festa porque balançar uma bandeira atrapalha a visão de um cara que pagou ingresso caro né, ele vai reclamar, e a gente vai ter que acabar.82
A crítica à elitização do futebol dá o tom da fala de Neguerê, que associa a torcida organizada à condição do que é popular e periférico, distanciando-a do meio onde o “interesse empresarial” prevalece. Na segunda passagem é possível identificar um entrelaçamento entre o problema da lógica de acumulação, quando há a alusão ao valor proibitivo dos ingressos, e a questão da lógica das políticas de segurança, quando menciona as restrições aos artefatos usados pela torcida que atrapalhariam a visibilidade do “cara que pagou ingresso caro”.
Há, portanto, uma crítica ao modelo panóptico consumerista dos estádios de futebol, segundo o qual a disposição do público nesses equipamentos urbanos deve ser mediada pelo consumo individualizado e passivo do espetáculo, onde cada indivíduo é uma unidade apartada do corpo coletivo de torcedores que se forma. Disso decorre a burocracia para pôr materiais no estádio, já que, embora possam ser manejados individualmente, remetem à apropriação coletiva dos espaços urbanos.
Através da defesa das culturas torcedoras forjadas pelas apropriações populares do futebol profissional, a ANATORG busca consolidar um projeto capaz de dialogar não só com as torcidas organizadas, mas também com a sociedade civil de maneira mais ampla, em especial com atores sociais que se relacionam com o campo esportivo. Trata-se de uma estratégia de mobilização de noções sobre o “popular” e o
“periférico”, não mais apoiadas em códigos de masculinidade em conflito com o princípio dominante de “civilidade” dos corpos, mas por uma crítica à lógica de acumulação que se manifesta através da nova economia do futebol, cujas restrições às apropriações populares do esporte favorecem o modelo espetacularizado de consumo do esporte.
Para que esse projeto popular tenha visibilidade pública, sobretudo entre atores institucionais relevantes para a negociação de novas diretrizes para a segurança
81 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SmMSkQzzQ1I.
82 Idem.
pública nos eventos esportivos, a ANATORG e os torcedores organizados ainda buscam aliados primários para seus projetos a nível de Estado. É possível que essa busca por visibilidade tenha sido um dos elementos que explicam o engajamento da ANATORG e outros coletivos de torcedores nos chamados “atos antifascistas”
ocorridos entre maio e junho de 2020 em várias cidades do país.