categoria prática do que como categoria analítica e, sendo assim, não devem ser reificadas ou naturalizadas.
Estou de acordo com essa oposição à reificação ou a qualquer visão essencialista da questão, afinal, a identidade deve ser fundamentalmente entendida de forma relacional e histórica, a partir de uma construção simbólica e social (WOODWARD, 2014). Contudo, defendo que a noção de identidade segue sendo útil para o entendimento de diversos processos sociais. Assim, entendo, conforme Hall (2014, p. 104) que a identidade é “uma ideia que não pode ser pensada da forma antiga, mas sem a qual certas questões-chave não podem ser sequer pensadas”. Fundamentalmente, sem a noção de identidade, a temática da agência e da política tornam-se de difícil formulação.
Assim, ao defender o conceito de identidade não pretendo buscar aquele “eu coletivo ou verdadeiro que se esconde dentro de muitos outros eus [...] que um povo, uma história ou uma ancestralidade mantém em comum”; ou “um eu coletivo capaz de estabilizar, fixar ou garantir o pertencimento cultural a uma ‘unidade’ imutável que se sobrepõe a todas as outras diferenças – supostamente superficiais.” Identidades não são nunca unificadas, são cada vez mais fragmentadas e fraturadas, e não são nunca singulares, mas multiplamente construídas ao longo de discursos e práticas. Portanto, “as identidades estão sujeitas a uma historização radical, estando constantemente em processo de mudança e transformação” (HALL, 2014, p. 108).
É preciso, portanto, compreender a identidade como um fenômeno social e que se manifesta em diferentes formas de solidariedade, em disposições compartilhadas ou na consciência de interesses e problemas comuns e, eventualmente, em ações coletivas. Ao mesmo tempo, ela deve ser vista como um produto da ação política e social, a partir do desenvolvimento processual e interativo do tipo de autocompreensão coletiva, de solidariedade ou de agrupamento que pode tornar a ação coletiva possível. Em oposição a qualquer essencialismo da identidade, deve-se e pensá-lo de forma estratégica e posicional. Afinal, trata-se de algo nunca completo, mas sempre “em processo” e que nunca é inteiramente determinado, podendo sempre ser sustentado ou abandonado. (HALL, 2014).
Na base da discussão a respeito da identidade está a questão da identificação, pois ela é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum ou de características partilhadas ou ainda a partir de um mesmo ideal. E é sobre essa fundação que ocorre o fechamento que dá base para a solidariedade e fidelidade do grupo em questão (HALL, 2014).
Uma vez que essa identificação opera por meio da diferença ou da oposição, ela envolve, necessariamente, um trabalho discursivo de fechamento, de marcação de fronteiras simbólicas, o que denota encontrar as semelhanças internas ao grupo, mas principalmente as diferenças
externas, isto é, as oposições em relação a um outro (HALL, 2014). É apenas por meio da relação com o outro, da relação daquilo que não é ou com o que falta, que o significado
“positivo” de pertencer identitariamente a um grupo pode ser construído (HALL, 2014).
Seguindo as premissas apresentadas na introdução desta tese, procuro adotar um ponto de vista que tenha como horizonte a ação social e que enxergue a possibilidade de autonomia relativa dos sujeitos. Assim, a identidade dos sujeitos deve ser pensada a partir da articulação deles com as formações discursivas e dentro de determinadas práticas sociais a fim de entender como os sujeitos se identificam ou não com as posições para as quais são convocados. Esse é, conforme Hall (2014), o passo que Foucault não dá, pois lhe faltaria complementar a teorização da regulação discursiva e disciplinar com uma teorização das práticas de autoconstituição subjetiva.
Desse modo, a identidade “tem a ver não tanto com as questões ‘quem nós somos’ ou
‘de onde nós viemos’, mas muito mais com as questões ‘quem nós podemos nos tornar’, ‘como nós temos sido representados’ e ‘como essa representação afeta a forma como nós podemos representar a nós próprios’” (GILROY, 1994 apud HALL, 2014, p. 109). Devendo, portanto, ser entendida como uma espécie de costura – ou sutura, para usar a metáfora médica de Hall – entre os discursos e as práticas que nos convocam a assumir nossos lugares como sujeitos sociais e os processos que produzem subjetividades, que nos constroem como sujeitos aos quais se pode “falar”. “As identidades são, pois, pontos de apego temporário às posições-de-sujeito que as práticas discursivas constroem para nós. Elas são o resultado de uma bem-sucedida articulação ou “fixação” do sujeito ao fluxo do discurso.” (HALL, 2014, p. 112).
Sendo assim, retomo uma questão tratada na parte introdutória deste texto por ser relevante para apontar como pretendo analisar a questão identitária nas linhas que seguem. Falo da noção de configurações trabalhada por Elias (2008). Tendo em vista que nossos sujeitos participam de múltiplas configurações, é imaginável que elas possam, eventualmente, produzir formas de identificação distintas, uma vez que as relações travadas em cada uma delas são formadas por práticas e discursos diferentes. Como resultado, temos uma multiplicidade ou uma fragmentação da identidade de que fala Hall.
É preciso, portanto, analisar em que medida e em que condições históricas concretas foi possível uma costura ou uma convergência entre essas múltiplas identidades capaz de se produzir uma identidade minimamente coerente. No caso específico em análise, trato da identidade de trabalhador construída em três configurações concretas que serão analisadas nas seções seguintes deste capítulo. Primeiramente na relação com o Estado e na busca pelos
direitos de cidadania, em seguida no mundo do trabalho, mais especificamente no ambiente de trabalho fabril e, finalmente, no nível da vizinhança.
Procuro argumentar, assim, que a identidade de trabalhador tem um significado triplo:
de identificação – de si e de outros –; de auto-entendimento, no sentido de localização social; e de conectividade, ou seja, de pertencimento a um grupo circunscrito, distinto, envolvendo tanto um sentimento de solidariedade ou unicidade com os companheiros de grupo e uma diferença ou antipatia a “outros” específicos. Dessa maneira, a noção de identidade não encontra substituto à altura para os propósitos desta tese e se mostra essencial para a interpretação aqui desenvolvida.