I. DESPROPORÇÕES”
3. A “Beleza trágica”
95
96
eterna comunicação com os homens deste mundo. Por isso o niilismo se torna tão trágico: admitir o nada é desistir de Deus. A tragicidade se manifesta, então, em termos teoréticos, nos caminhos do conhecimento do verdadeiro. Por isso, Bruno Forte afirma que é neste ponto que a questão radical do mal se apresenta como desafio permanente à existência de Deus como a verdade eterna e absoluta do mundo. Esse pensamento se torna terrivelmente angustiante, pois “se Deus existe, o horror do mal que devasta a terra é infinito. Mas este horror é infinito: então, Deus existe. Ao mesmo tempo, porém, o argumento se inverte: se Deus existe, não pode ser admitido o horror de um mal infinito” (ET 107). Entretanto, o que se percebe é que todo esse horror existe. “Então, Deus não existe!” (ET 107)45, é a conclusão lógica. Mas será a verdadeira?
Pode-se permanecer nesse paradoxo indefinidamente, como muitos antigos que nele se fixaram. Somente uma conversão radical do próprio conceito de Deus pode ser a solução da questão: “somente se Deus fizer seu o sofrimento infinito do mundo abandonado ao mal, a dor é redimida e a morte é vencida” (ET 107)46. Esta leitura nos coloca bem distantes de um discurso tradicional a respeito do sacrifício do Filho exigido pelo Pai para a redenção do mundo e nos aproxima da relação amorosa das Pessoas da Santíssima Trindade entre si e com os homens.
A Cruz se torna um elemento aglutinador na teologia de Bruno Forte: no evento da cruz a Trindade se revela plenamente. Na cruz o infinito amor de Deus- Trindade se manifesta infinitamente ao homem. Na cruz Cristo é a verdade que salva, é a verdade alternativa a todas as outras presunções de verdade que a razão constrói.
A cruz é a prova da singularidade do verdadeiro, da “verdade encarnada em uma Pessoa, identificada com a sua pessoa, é o que de mais distante pode existir em relação a um pensamento „euclidiano‟: mas é o que Dostoievski escolhe, precisamente como alternativa ao êxito niilista da metafísica ocidental” (ET 107)47. Bruno Forte chega à conclusão de que é a verdade que “dá razão a tudo e tudo
45 Cf. PB 67. Cf. AEO 91.
46 Cf. PB 69.
47 Cf. PB 67-69. Cf. AEO 91.
97
organiza em uma harmonia universal, a „apoteose do conhecimento‟ de que fala Ivan Karamazov, não vale o seu preço” (ET 107)48:
Ora, “somente a verdade, que passou através do fogo da negação e se deixou lamber pelo nada, somente esta verdade salvará o mundo” (ET 108). Somente a verdade do Filho crucifixo por amor pode dar sentido àquilo que parece não ter nenhum sentido, pois o niilismo se deixa contestar somente a partir do seu interior:
“somente das trevas da Sexta-Feira Santa, quando Deus sofre e morre por amor ao mundo, é possível proclamar a vitória da vida, porque esta morte é a morte da morte”
(ET 108).
O Deus definitivamente morto é a verdade concebida metafisicamente como razão e fundamento do mundo, garante desta sufocante totalidade, que é toda entranhada pelo horror do infinito sofrimento humano. Aqui está a tragicidade não eliminável do conhecimento da verdade: não se chega à luz senão pela Cruz; não se entra na vida senão conhecendo a morte. Por isso a fé deve passar pelo trabalho da dúvida, a afirmação pela noite da negação, e a verdade precisa se fazer caminho através do escândalo e nas trevas mais densas49. (ET 108)
Essa tragicidade da vida humana se manifesta também no plano ético: “a dignidade do sofrer – que aparece entre as formas mais altas de purificação e de acesso ao bem – ela também se revela ambígua ao homem do subterrâneo!” (ET 108)50. Há aqui dois elementos: a ambiguidade da dignidade do sofrer e o fato de isto ser considerado como uma das mais altas “formas de purificação e de acesso ao bem”. Uma certa espiritualidade tradicional que superestima o sofrimento não encontra lugar nesta reflexão. Forte sublinha o fato de Dostoievski desmascarar as delícias obscuras e a equivocidade da vontade, que acompanham os sofrimentos e se afirmam nele. A vontade de viver verdadeiramente “impõe um revés moral, um ato corajoso que se expressa em uma ética da decisão. [...] é a suprema decisão moral:
48 Cf. PB 68.
49 Cf. PB 74.
50 Cf. Cf. PB 70. AEO 92.
98
abandonar-se ao nada ou reagir” (ET 109)51. Entretanto, a decisão não se dá tão facilmente, pois pode decidir somente aquele que “tocou o fundo desesperador do niilismo: é ali que a expiação se torna possível, precisamente para quem se coloca diante de Deus que entrou no abismo, como supremo companheiro da dor humana e supremo e misericordioso juiz do pecado do mundo” (ET 109)52.
Por isso, a verdade, a alegria advinda do bem e do belo podem ser encontradas no sentimento. É no “caminho do sentimento, que anseia pela alegria e pela beleza, que se experimenta a tragicidade da existência humana: poucos como Dostoievski perceberam a relevância do plano estético em relação à redenção do mundo” (ET 109)53. No caminho humano onde o amor se faz peregrino, não há conciliação entre beleza e dor, amar comporta sofrimento, daí a tragicidade da beleza que salva: “O espetáculo do sofrimento é tal que nenhuma redenção pode ser procurada na direção de uma conciliação harmônica, que desconsidere o escândalo da dor do mundo” (ET 110).
Eis porque a beleza, por quem o mundo será salvo, deve ser diferente de todos os sonhos e desejos possíveis de harmonia:
sem passar através da sua negação – que é o escandaloso espetáculo do mal que cobre a terra – nenhuma beleza pode se salvar e salvar. E eis que é com a aproximação do fim que a beleza escondida é revelada: o tempo redime a eternidade porque passa com muita, inexorável, fugacidade. Somente a morte confere a profundidade da totalidade e de uma segura eternidade ao átimo: somente se se aproxima o nada do morrer, percebe-se a maravilha do tempo, a alegria da vida54. (ET 110)
A verdadeira beleza é revelada somente com a aproximação do fim, ela ganha profundidade com a aproximação da plenitude. Na tragicidade do fim, a beleza verdadeira “se oferece no sinal da ambiguidade, na fronteira entre o ser e o nada, carregada de uma aura trágica [...]. Somente no final se mostrará vitoriosa” (ET
51 Cf. PB 70.
52 Cf. PB 70.
53 Cf. AEO 93.
54 Cf. PB 74.
99
110)55. Na inexorabilidade final a beleza se apresenta com o sinal da ambiguidade:
entre o ser e o nada. Revela-se trágica56. A beleza amedronta, é terrível, é enigma, é contraditória. É mistério, é o lugar onde Deus e Satanás lutam: o coração do homem57. Ela pode se manifestar vitoriosa somente no final, no futuro. No presente podemos experimentá-la na conversão do coração e no dom das lágrimas, segundo Dostoievski.
Em Dostoievski vemos, então, que estão relacionados vários planos da tragicidade da existência. O plano teorético58 se liga ao ético, e este está constantemente à procura da beleza. A decisão da fé que abre o ser humano à
“singularidade do verdadeiro”59 revelada no Deus crucificado, faz com que a via da verdade se encontre com a da decisão moral. Assim, compreende-se porque é somente a conversão do coração que pode abrir o acesso ao conhecimento da beleza que salva: a via estética se une à ética. Afirma Forte que a grande relevância da
“dimensão moral emerge assim em primeiro plano: na verdade é justamente nela que se dá mais intensamente o conflito entre niilismo e redenção. E é aqui que se revela o nível mais profundo da tragicidade da existência humana, o que está mais em jogo na eticidade do ato: a dimensão da liberdade”60 (ET 11).
Em “O Grande Inquisidor”, Dostoievski trabalha a questão da liberdade na eticidade do ato humano. Segundo o autor, a tragicidade desta tomada de consciência de ser livre reside exatamente no fato de o homem não pertencer somente a este mundo, mas também a outro mundo, que, agora, não é tão evidente.
No conflito entre a felicidade imediata e a entrega de si mesmo, o grande escritor diz que a felicidade na terra é obtida somente com a renúncia à liberdade e à imagem de Deus presente em cada ser humano: “se Deus fez sua a morte, pagando até o fim o preço da liberdade, o caminho da cruz será sempre sobre esta terra o caminho da
55 Cf. PB 73-74. Cf. AEO 94.
56 Cf. PB 74.
57 Cf. AEO 94.
58 Cf. AEO 91.
59 Cf. AEO 91-92.
60 Cf. AEO 94.
100
liberdade. E contudo, porque o cálice amargo foi bebido até a última gota pelo Filho eterno, será este o mesmo caminho que levará à vida” (ET 111)61.
61 Cf. PB 74, cf. AEO 95.
101