I. DESPROPORÇÕES”
1. O Homem: ser frágil
Para Bruno Forte, o ser humano é portador dos estigmas da Cruz, como Aquele Homem que assumiu a humanidade, que “assumiu a sua miséria: o Salvador da humanidade é tal porque entrou até o fim no abismo da cisão dolorosa que constitui a criatura humana” (ET 84).
Essa concepção da “desproporção” originária do homem, que foi intuída através da retórica da miséria e refletida por grandes pensadores desde Platão a Pascal e Kierkegaard, foi mais bem definida, segundo Forte, por Paul Ricoeur38. Ricoeur identifica três planos dessa desproporção presente no homem: o do conhecimento, o da ação e o do sentimento. Esses três níveis se manifestam com uma afirmação originária, uma diferença existencial e o processo da mediação humana, constituindo, assim, a chamada “dialética da falibilidade”. Em cada um destes níveis, portanto, é preciso considerar que há um “universal” e um “pessoal” particular em tensão, e é justamente nessa tensão, nem sempre equilibrada, que reside a
“falibilidade” humana.
Em relação ao conhecimento, o homem percebe a finitude da sua observação e o esforço de superar esta finitude para comunicar o que conseguiu conhecer. Este processo de superação do próprio ponto de vista para transmitir a outro o conhecimento precisa passar por categorias universais, para que o conhecimento seja compreendido: é a chamada “síntese transcendente”. “A receptividade ou abertura ao mundo, da qual tem início todo conhecimento, marcado inevitavelmente por um ponto de vista particular, une- se ao esforço da superação da própria visão parcial para atingir uma possibilidade de comunicação universal” (ET 84). Ora, temos, então, que a “síntese entre a perspectiva individual e o significado universal, entre o aparecer particular e o sentido geral, relaciona-se com a do olhar e da palavra, em que se encontram intelecto e sensibilidade: o resultado é a
„imaginação transcendental‟” (ET 85). Conclui-se, então, que o homem está sempre diante de uma defasagem enorme entre a consciência adquirida e a objetividade da coisa em si.
38 Obra mais citada de RICOEUR por Bruno Forte: Finitudine e colpa. Bologna 1970.
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No plano do agir se encontra a tensão entre a finitude da prática do caráter de cada pessoa e a felicidade infinita que, igualmente, todo ser humano procura. Pois “o caráter é a orientação originária das motivações do agir, a abertura concreta de cada um para a humanidade: por isso o destino do caráter” (ET 85) é o limite dado, fatual, da abertura do ser humano para as possibilidades do seu agir. No plano do agir, portanto, “o caráter equivale à perspectiva ou ponto de vista no campo do conhecer. A felicidade, como „totalidade de realização‟, ao contrário, é para o conjunto das escolhas o que é o mundo em relação às visões de percepção” [...] (ET 85).
Ora, a ideia de totalidade habita o querer humano. Por isso mesmo ela se apresenta como a origem da desproporção. A maior desproporção percebida pelo homem é aquela que é percebida no seu agir, que está entre a finitude do caráter e a infinitude da felicidade. Assim, a finitude do caráter e a infinitude da felicidade, tomados como a síntese da felicidade, manifestam-se na atitude moral específica, à que Kant ousou chamar respeito: “intermediário que pertence ao mesmo tempo à faculdade do desejar e ao poder de obrigação que procede da razão prática. O respeito é o reconhecimento da realização possível, sem que isto signifique renúncia à superação do que se conseguiu” (ET 85-86).
O respeito, portanto, é a mediação prática entre o caráter e a felicidade.
Ele se apresenta como “a aceitação da finitude de um, enquanto esta tende à infinitude do outro e, ao mesmo tempo, à felicidade possível nos limites do caráter da pessoa” (ET 86). Então, há uma diferença substancial do respeito em relação à desproporção do conhecimento, pois não se trata mais da defasagem entre o objeto e o sujeito, mas “da diferença existencial entre o desejo e a realização operada na pessoa, entre a felicidade sempre desejada e as ações inevitavelmente marcadas pela determinação do caráter” (ET 86).
São Paulo, na carta aos Romanos (7,14-25), expressa muito bem a consciência da defasagem do seu agir em relação ao seu querer. Assim, a pessoa humana sofre com a “desproporção” que percebe entre o seu querer e o seu agir, pois esta defasagem toca o dinamismo profundo do seu ser que é sair de si para ir ao encontro do outro, para projetar-se no seu agir exterior.
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As duas “desproporções” experimentadas pelo homem, a que diz respeito ao conhecimento e a que diz respeito ao agir tocam profundamente a realização de si mesmo. Bruno Forte conclui, daí, que a verdadeira desproporção constitutiva do ser humano se apresenta no plano do sentimento, pois a percepção da desproporção provoca as emoções humanas: infelicidade, tristeza, alegria... Aqui não se fala mais de desproporções entre objeto e sujeito, ou entre o agir e o desejo da felicidade, mas sim da desproporção mais radical que é aquela que se dá no encontro entre finitude e infinitude.
A felicidade afetiva se identifica com o maior prazer e, por isso, não é somente uma exigência de totalidade oposta à singularidade de uma perspectiva existencial.
Consequentemente, a incompletude que se experimenta no sentimento é a mais intensa: ela se apresenta com os traços da angústia, o sentimento, por excelência, da diferença ontológica. A razão profunda pela qual a “desproporção”
afetiva é advertida como angústia está no fato de que o mundo da afetividade tende constitutivamente à alegria [...].
(ET 86)
A finitude se apresentará sempre como opção à infinitude. O risco estará sempre presente na tensão entre finito e infinito. O homem, feito para o infinito, perceberá que é impossível a realização da própria felicidade no âmbito fechado e restrito do finito: o finito, o penúltimo não lhe basta! Eis o limite constitutivo do ser humano, como criatura presa à constante desproporção de finito e infinito: “A análise da „desproporção‟ constitutiva do homem, no triplo nível do conhecimento, da ação e do sentimento, consente, assim, uma descrição mais precisa da „falibilidade‟
característica da condição humana” (ET 87). Pode-se dizer que o ser humano apresenta esse traço de falibilidade porque “é tensão não resolvida entre a finitude do ponto de vista da estrutura do caráter e da fragilidade afetiva e a infinitude do horizonte do conhecimento, do agir e do sentimento: a falibilidade está no risco permanente de se fugir à tensão, abolindo um dos dois polos” (ET 87). Pois, “onde a finitude presume capturar a infinitude, a incomunicabilidade se debruça sobre o plano do conhecimento, como a felicidade e a angústia sobre os planos da razão prática e da afetividade” (ET 87). Eis, segundo Bruno Forte, o limite constitutivo da condição
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humana, que se apresenta também como o risco nunca possível de ser eliminado que advém da sua desproporção originária. O homem estará sempre na tensão entre finito e infinito: buscando a felicidade e, talvez, vivendo na angústia por não tê-la atingido.
Forte afirma que o risco se apresenta ao homem não só como possibilidade de falir mas também como escolha do fracasso. O homem pode optar livremente – embora se considere que a liberdade humana seja sempre condicionada – em certo grau de consciência, pelo fracasso. Como bem nos lembra o teólogo, a causa da culpa não é a própria fragilidade humana, mas esta é possibilidade para aquela: “o conceito de falibilidade não inclui, porém, somente a possibilidade e o risco de falir, ele abraça também o poder falir” (ET 87).
A fragilidade está para a culpa não como a causa está para o efeito, mas como a condição de possibilidade está para a possibilidade efetuada. É aqui que a fenomenologia da falibilidade cede o passo a uma análise da culpa, na profundidade da sua raiz e dos seus efeitos. E a observação fenomenológica remete a um olhar mais penetrante, que se deixa atingir pelo ato com o qual o mistério do homem é manifestado e, ao mesmo tempo, velado a si mesmo: a revelação. (ET 88)
Chega-se, assim, ao conceito de pecado como opção, livre em certo sentido, do homem. Bruno Forte não entende o pecado como consequência da fragilidade humana, mas sim que esta fragilidade possibilita o pecado. O homem, por opção própria, pode escolher a ruptura e não a comunhão. Essa possibilidade reside no fato de o ser humano, criatura falível, trazer consigo a liberdade da tensão entre finito e infinito. Diferentemente, na vida intratrinitária, essa liberdade infinita é totalmente amor, logo, não sujeita ao falimento, a rupturas e ao pecado.
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