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A BORIGRAFIA COMO EPISTEMOLOGIA DAS MACUMBAS

Dando continuidade ao encruzo do percurso 2 trago a “macumba” por entendê-la como um sopro de encantamento, uma palavra que se faz princípio construtor e ao mesmo tempo princípio de produção de encantamento de um mundo. O termo “‘cumba” é muito comum na cultura do jongo. Na cultura das macumbas brasileiras, nas próprias umbandas e nos 'omolokôs', é um termo que indica a noção do poeta feitiço, o poeta encantador de palavras. Sugiro pensar, então, o ‘cumba’ como um filósofo da linguagem, um inventor de mundo e a

‘macumba’ seria essa capacidade de constituir o mundo de encantamento. A seguir, compartilho com Simas e Rufino uma noção de encantamento, na qual os autores revelam que:

“Nas bandas daqui a noção de encantamento vem sendo ao longo do tempo trabalhada como uma gira política e poética que fala sobre outros modos de existir e de praticar o saber. O encantado é aquele que obteve a experiência de atravessar o tempo e se transmutar em diferentes expressões da natureza. A encantaria, no Brasil, plasmada na virada dos tambores, das matas e no transe de sua gente cruza inúmeros referenciais para desenhar nas margens do Novo Mundo uma política de vida armada em princípios cósmicos e cosmopolitas.” (SIMAS; RUFINO, 2020, p. 7).

Este ‘xirê’ de encantamentos da ‘macumba’ pode ser feito em uma perspectiva imanente como questão ligada ao rito simbólico e religioso, assim como a ideia do terreiro como um território em devir, em movimento de metamorfose, uma vez que envolve uma materialidade vinda do espaço desta ritualística. Faz-se compreender que o terreiro e a ‘macumba’ estão vinculados a um conjunto de práticas em que se aprende fazendo, ações processuais que movimentam constantemente novos sentidos, que abordam ou desbordam o indivíduo que esteja praticando aquele tipo de rito. A macumba, nesse sentido, conduz a possibilidade de encantamento.

Nesse sentido é possível pensar por exemplo, que a ‘macumba’ traz um manancial para elaboração conceitual e uma série de conceitos vinculados às práticas das ações ritualísticas e macumbísticas, para que se pense o Brasil, a história, a pedagogia, a antropologia. Desta forma é possível trabalhar com uma série de objetos de estudos que vão do samba ao carnaval, passando pela prática escolar e do cotidiano de uma sala de aula.

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Assim como a figura de ‘Exu’ foi demonizada, existe também a depreciação da palavra ‘macumba’. A desqualificação que a palavra sofreu atinge frequentadores de religiosidades de matrizes africanas. Dessa maneira, muitas vezes encontramos pessoas que não querem vincular esta palavra à sua história, assim como, à sua prática de fé. Nesses casos é comum a utilização de outras nomenclaturas, como espírita, afastando-se da etimologia da palavra e logo operando numa estrutura colonizadora e cristã imposta por séculos.

Portanto, disputar este termo, mostrar como houve uma desqualificação no campo simbólico destes e das práticas, que a rigor referem a desqualificação de saberes potencialmente capazes de produzir beleza e olhar original sobre o mundo.

Diante desta desqualificação, sugiro flertar com o posicionamento de Fanon (2008), que levanta a questão de a vítima do racismo acabar de certa maneira incorporando a noção da inferioridade de sua própria cultura, que é a tarefa medonha da educação. Por isso se faz necessário dialogar sobre uma (des)educação da educação. Estamos de acordo com Pacheco (2011) ao definir a noção de (des)educação da seguinte maneira:

A palavra que motiva meu ato ilícito pode ser, por alguns, considerada ofensiva, pois coloca em questão outra, esta ícone do mundo contemporâneo: (Des)educação. Ainda existe a possibilidade de que estudiosos, através de argumentos pinçados da gramática da língua portuguesa, digam que isto não é uma palavra. Confesso que gosto dessa possibilidade. Por outro lado, ao trazê-la para a cena não busco criar um lugar de certeza ou de substituição para verdades. Estou mais interessado em encontrar formas de fugirmos desses. Tenho alegrias com a desordem e não com certezas sem suspeitas. Tenho desconfianças dos métodos, compêndios acabados, guias definidos que escolhem caminhos fixos para buscar lugares, que na grande maioria das vezes é conhecido.

(PACHECO, 2011, p.31)

Entendo então como tarefa urgente, que desenvolver um compromisso com a educação pode ser entendido como deseducar para que vivamos a experiência política e a experiência poética da liberdade. Este é o movimento da liberdade, da espiral em processo de transmutação, pois “pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos com sensações. Pintamos, esculpimos, compomos, escrevemos sensações”, como nos dizem Deleuze e Guattari (1992, p.216).

Chamo atenção que nós herdamos do projeto colonial uma compreensão que remete ao estado de vida que se apresenta muitas vezes

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como a aniquilação de existências e a precarização dos modos de existir. De modo que é fundamental que se produza outras formas e possibilidades estéticas e éticas de se expressar e de viver, modos que, perpassando por uma educação antirracista, anticolonialista, possam revisar a distribuição de oportunidades que incluem a todos, determinados campos do saber e do poder, campos epistemológicos e empíricos. O encruzo que aspiro desenha um processo de descolonização:

A descolonização se propõe a mudar a ordem do mundo, é, como se vê, um programa de desordem absoluta [...] é um processo histórico: isto é, ela só pode ser compreendida, só tem inteligibilidade, só se torna translúcida para si mesma na exata medida em que discerne o movimento historicizante que lhe dá forma e conteúdo. A descolonização é o encontro de duas forças congenitamente antagônicas, que têm precisamente a sua origem nessa espécie de substancialização que a situação colonial excreta e alimenta. [...] a descolonização é verdadeiramente a criação de homens novos. Mas essa criação não recebe a sua legitimidade de nenhuma potência sobrenatural: a ’coisa’

colonizada se torna homem no processo mesmo pelo qual ela se liberta”

(FANON, 2008, pp.. 52-53).

Torna-se paradoxal porque o Brasil é um país estruturalmente racista, e

“é este racista que cria o inferiorizado” (Fanon 2008, p. 90). A operação colonizadora se realiza na completa espoliação do estatuto de sujeito das gentes colonizadas e na devastação do seu universo material e simbólico. Conforme Fanon,

Aos olhos do branco, o negro não tem resistência ontológica. De um dia para outro, os pretos tiveram que se situar diante de dois sistemas de referência. Sua metafísica ou, menos pretensiosamente, seus costumes e instâncias de referência foram abolidos porque estavam em contradição com uma civilização que não conheciam e que lhes foi imposta (FANON, 2008, p.104).

Como gesto de descolonização epistêmica e insurgência ético-política, incremento que se faz necessário efetivar uma epistemologia das macumbas, a fim de redistribuir a violência colonial como autocuidado, tal como evoca Mombaça (2016). Já para dar conta dos efeitos psíquicos do colonialismo, sugiro uma revisão dos escritos de Fanon (2008); sobre o racismo cotidiano como trauma colonial, aponto o apoio em Grada Kilomba (2010); para tratar das práticas de mediação e resistência ao capitalismo e à morte, faço uso das ideias de Mbembe (2018); por fim, remeto a desidentificação como subversão cultural e

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política e tomo as reflexões de Muñoz (1999). Com esse conjunto em encruzo, em conexão, recebo e me ponho a pensar e a agir, a criar com as orixalidades presentes.

A ideia da “macumba” como uma instância de subversão de um Brasil colonial, território político e econômico em que as senzalas se transformam em quartos de empregada da classe média; país do elevador de serviço, do forjado no genocídio dos povos indígenas, da desqualificação simbólica dos saberes que vêm das matas, que vêm do outro lado do Atlântico e que costumam ser entendidos como saberes rasurados em um projeto cuja proposta de democracia social que até agora deu certo.

Por isso, minha tarefa artística e pedagógica é propor uma arte do devir, do ser em movimento, ser de axé, que faz parte da cultura ‘macumbista’, provocadora de novos pontos de vista no que refere a reflexão epistemológica, ontológica, poética e estética; enfim, no que refere a outras formas de expressão e de arte educação.

Praticar a ‘macumba’ como campo de subversão das experiências de mundo, em nome de uma pluralidade, em nome do rei-encanto, em nome da política, em nome da ação na rua, em nome da ação intelectual, enfim, é provocar da macumba para trazer uma proposta de plenitude subversiva e possibilidade de libertação do pensar o corpo educacional. É preciso raspar o fundo do tacho. Enquanto não provocarmos rupturas epistemológicas não conseguiremos raspar o fundo do tacho e pensar com e pela ‘macumba’ como um caminho. Laroyê, para este feito.

Digo como Simas (2019) que fomos criados na visão ocidentalizada colonial a pensar ‘macumba’ como estado pejorativo de ação e prática afro- brasileira. Porém pensar ‘macumba’ inicialmente é algo que transcende simplesmente o campo do rito religioso, é reforçar as ‘macumbas’, neste movimento plural deste conceito, em vista da diversidade, pluralidade e multiculturalidade ritualísticas, epistemológicas e criadoras.

‘Macumbar” está no sentido mais complexo de procedimentos de encantamento da vida, e faz-se no reconhecer de saberes que circulam em torno dos complexos das ‘macumbas’ que são muito eficazes para que possamos interpretar o Brasil, para interpretar a colonização do Brasil e para interpretar os nossos dilemas sociais, culturais, educacionais e políticos, além de deslocar

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para os campos epistêmicos e filosóficos.

Provocar uma abertura epistemológica do ‘macumbar’, do ‘Exusíaco’, é um desafio de pensar uma epistemologia a partir dos saberes oriundos dos terreiros das ‘macumbas’, visto que a ideia de ‘macumba’ ficou bastante fechada por muito tempo, sem que pudéssemos enxergar os caminhos, as encruzilhadas, as possibilidades de exploração conceitual, por conta do racismo estrutural na sociedade brasileira (ALMEIDA, 2018).

Afirmo com isso que é necessário reconhecer, problematizar e errar com

‘macumba’. Não um errar como conceito, mas como prática de uma desorganização colonial, que dentro da pesquisa-científica é olhar para as frestas e faíscas do fogaréu, rompendo com o racismo epistêmico, com o racismo na ordem do conhecimento (SIMAS, 2019). É de certa forma, pensar

‘macumba’ como um lugar de produção de encantamento, de credibilidade de outras formas de conhecimento. Como um grande complexo com disponibilidade conceitual para problematizações e deslocamentos no campo filosófico, histórico, educacional e epistêmico.

Este movimento ora epistêmico, ora contra epistêmico está em diálogo com a noção da linha de fuga com o pensar fora da curva. Como disse Gilles Deleuze em entrevista a Parnet (1997). Algumas pessoas

acham que fugir é sair do mundo, mística ou arte, ou então que é algo covarde, porque se escapa aos compromissos e às responsabilidades.

Fugir não é absolutamente renunciar às ações, nada mais ativo que uma fuga. É o contrário do imaginário. É igualmente fazer fugir, não obrigatoriamente os outros, mas fazer fugir algo, fazer fugir um sistema como se arrebenta um tubo... Fugir é traçar uma linha, linhas, toda uma cartografia (DELEUZE; PARNET, 1997, p. 47).

No entendimento deleuziano e deleuziano-guattarinao, o pensar fora da curva pode incluir narrativas que venham de outras ordens de saberes, as que estão presentes nos diferentes espaços de criação, culto, brincadeiras e espiral como no catimbó, na jurema, nas danças afro-brasileiras, nas umbandas, nos candomblés, nos botequins, nas rodas de capoeira, nas rodas de jongo, nas giras de malandros, entre outras diversidades de território. Portanto, são campos em que saberes são elaborados, visões de mundo são codificadas, a maneira de se comportar diante do precário a partir do que chamamos de “culturas de fresta”. São nessas frestas que se rompe com uma ideia de que só o ocidente

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judaico-cristão ou de recorte iluminista foi capaz de elaborar a reflexão sobre o mundo.

Quando adentro o desenho destas encruzilhadas e proponho a BORIGRAFIA e os encruzos dos percursos, mostro estar me envolvendo com outros saberes, gramáticas, conhecimentos; com uma pluralidade que abarca uma construção incessante de divisões de mundo, que fornece códigos variados para que se possa refletir sobre a realidade.

O colonialismo tem como mirada, em seu primeiro lugar de ataque, os corpos (FANON, 2008). As ‘macumbas’ são expressões destes corpos, dançantes, brincantes, modos de ocupar espaços de produção de encantamentos. Podem ser entendidas como formas de produção de uma crítica política acerca do genocídio, acerca da precarização da vida, da subalternidade.

Principalmente, quando se pensa o Brasil enquanto terreiro, como território ocupado por uma miscigenação de corpos e de culturas, se faz fundamental, em face aos resquícios ainda presentes do Estado colonial, agir de modo a romper com certas maneiras de representação que forma o conjunto do povo e da cultura brasileira. Passo, então, para as reflexões sobre o lugar do corpo preto artista, bailarino e professor neste debate.

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