A reflexão sobre a casa, situada num espaço e contex- tualizada no tempo como um esforço de permanência de uma memória que não existe mais, leva-nos a outras reflexões. Seria uma tentativa de paralisação do tempo? Seria uma medida de desaceleração diante do ritmo cada vez mais acelerado da vida? Seria um esforço para não esquecer?
Para avançar sobre estas questões, lanço mão aqui do conceito “lugar de memória”. Esse conceito, hoje largamente utilizado, foi criado pelo historiador Pièrre Nora quando este teve diante de si o desafio de refletir sobre as mudanças cada vez mais acentuadas na relação da sociedade contemporânea com o passado.
As questões que serviram de fundo para esta reflexão esta- vam relacionadas com o conceito de Estado-nação, o uso social das tradições, a cultura da memória, as linhas identitárias, a dicotomia entre memória e história, as questões da individualidade e da diferença, os desafios entre o global e o local. É importante dizer que o trabalho de Nora estava inserido num ambicioso projeto, que pre- tendia refletir sobre a construção da nação francesa.
Nora escreveu num momento em que os franceses preparavam-se para comemorar os 200 anos de sua Revolução e tinham diante de si questões que apon- tavam para a revisão do processo de construção da identidade nacional frente aos novos desafios de um mundo globalizado, no qual as identidades nacionais e locais estavam profundamente “ameaçadas” pelo
A casa de
madeira do Museu da Maré se propõe a ser uma, mas possibilita devaneios e
percepções por parte de todos aqueles que aden-
tram sua porta
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multiculturalismo e por uma economia muito além das fronteiras, cuja expressão mais concreta estava na proposta de unificação dos países da Europa por meio da União Européia.
Este desenho conjuntural exigia um olhar para si, criando as condições para o surgimento do conceito
“lugar de memória”, o qual que ganhou rapidamente a atenção de estudiosos dos mais diversos países, trans- pondo fronteiras políticas e ideológicas. Se a noção de lugar de memória surge num contexto histórico e nacional, sua percepção revela que os problemas nela expostos estão enraizados nos mais diversos níveis da sociedade e do espaço e podem ser transplantados, como reflexão, para as realidades locais e regionais. Os dilemas trazidos pela problematização da memória e da história, da relação do eterno presente com o passado e o futuro, da mesma forma estão globalizados.
Do texto de Nora, podemos depreender que os lugares de memória surgem a partir da inexistência de meios de memória, da necessidade de ancoragem de uma memória encarnada. Apesar de criar um con- ceito, Nora em nenhum momento o define de forma absoluta, mas discorre sobre uma série de intuições que nos ajudam a compreender o que propõe ser lugar de memória:
Os lugares de memória são, antes de tudo, restos. A forma extrema onde subsiste uma consciência come- morativa numa história que a chama, porque ela ignora.
É a desritualização de nosso mundo que faz aparecer a noção. O que secreta, veste, estabelece, constrói, decreta, mantém pelo artifício e pela vontade uma coletividade fundamentalmente envolvida em sua transformação e sua renovação (Nora, 1993, p.13).
Para Nora, os lugares de memória são frutos de
um sentimento de perda de uma memória espontânea e, por isso, mesmo são instituídos. É uma memória comemorativa, referencial, formal, porque perdeu sua existência no mundo social, não mais interage nas relações humanas, é uma memória musealizada:
Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter aniversários, organizar celebrações, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque essas operações não são naturais. É, por isso, a defesa, pelas minorias, de uma memória refugiadas sobre focos privilegiados e enciumadamente guardados nada mais faz do que levar a incandescência a verdade de todos os lugares de memória, Sem vigilância comemorativa, a história depressa os varreria (Nora, 1993, p. 13).
O texto de Nora ganha força no momento em que atribui aos lugares de memória os efeitos mate- rial, simbólico e funcional. Nesse aspecto, o lugar de memória, inicialmente tido como representação de um passado que não existe mais, que não tem mais meios de transmissão, assume uma abrangência que pode nos levar justamente para uma ampliação desse conceito, cujas repercussões fogem do concreto e passam para o campo da subjetividade.
Dessa forma, Nora enumera, a título de exemplo, como lugares de memória, o arquivo, que mesmo sendo material, traz em si um caráter imaginário e uma aura simbólica; um manual de aula, um testa- mento ou uma associação de ex-combatentes, todos de caráter funcional, mas que podem ser considerados lugares de memória se portadores de ritualismos; e, num exemplo mais audacioso, o “minuto de silêncio”, ato aparentemente simbólico, pela carga de unidade material e temporal de que está revestido.
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Sem dúvida, temos na casa um lugar de memória.
A materialidade talvez seja o caráter predominante deste “objeto”, já que existe e é concreto e, mais do que um objeto em si, apresenta-se como um conjunto de objetos. Por outro lado, a casa é portadora de uma extrema força simbólica, que não poupa qualquer de seus visitantes, expõe sentimentos, impõe um ritual de passagem, de imersão no tempo. É também funcional, explicada pelo contexto no qual está inserida, que se pretende como um espaço-museu.
Os lugares de memória podem, assim, assumir um caráter ativo, dentro de memórias inseridas no contexto social. Não necessariamente podemos consi- derar que o fato de constituirmos algo como lugar de memória significa dizer que esta memória não possui meios de estratificação na prática dos grupos sociais.
Ao contrário da visão um tanto pessimista e conclusiva de Nora, poderíamos enumerar uma série de práticas de memória, perfeitamente ativas no contexto da sociedade, que surgem como lugares de memória.
O lugar de memória pode ser um instrumento de ancoragem de uma memória ativa, que interage e se utiliza deste lugar como instrumento de mediação. No caso de nosso barraco de madeira, palafita fincada num espaço musealizado, retirada de seu espaço original, reconstruída, temos um lugar de memória por excelência.
Na verdade, a palafita é memória porque foi erradicada do espaço urbano e social no qual estava inserida. Foi erradicada por um movimento de rees- truturação do espaço urbano, realizado por meio de ações governamentais, mas não foi erradicada da memória. Decorridos cerca de 20 anos do fim deste tipo de habitação na chamada “região da Maré”, ela
está presente na memória de seus moradores, que não esqueceram o ritmo da vida no lugar, as adversidades, as alegrias, as formas de construção, as estratégias de permanência. Dessa forma, aquele tipo de habitação que marcou por mais de 40 anos a vida de milhares de moradores da Maré está inscrito no passado e, por isso, sobrevive na memória. Essa memória tem uma duração limitada para a geração que vivenciou tal experiência.
Sua reconstrução, porém, reacendeu a possibilidade de não esquecer, proporcionou a retransmissão daquela experiência de memória coletiva, permitindo o diálogo entre gerações e a continuidade dessa experiência por transmissão ou, como nos diz Pollack, como experiên- cias vividas “por tabela” (Pollack, 1992, p. 201).
Por fim, outro aspecto importante é o da legitimi- dade: quem a tem para instituir o lugar de memória? Do texto de Nora, depreendemos que o lugar de memória assume um caráter institucional, dentro de um processo de construção da idéia de nação. Fala-se, portanto, de monumentos, comemorações, datas nacionais e de outros elementos que podem atribuir identidade a um projeto de alcance nacional. A legitimidade para refe- rendar os lugares de memória seria principalmente dos historiadores, numa concepção de história que pudesse conferir e atribuir valores a esses lugares. Poderíamos falar de outras possibilidades além dos marcos institu- cionais e das referências de poder que impõem lugares de memória como um projeto político, o que sempre foi feito por todo e qualquer regime, no sentido de se utilizar ideologicamente dessas referências.
Não se pode esquecer o papel dos grupos sociais.
Na verdade, como portadores das memórias coleti- vas, eles podem romper com esta lógica do lugar de memória atrelado à história oficial e construir novos
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paradigmas que dêem novo sentido a este conceito e rompam com o que Nora diz ser o “esfacelamento da memória” (Nora, 1993, p. 17). Aos grupos sociais, cabe ressignificar os lugares de memória, devendo assumir o papel ativo na sua identificação. Um fator fundamental a ser considerado deve ser justamente o da “utilidade” dessa memória como combustível de transformação social.
Huyssen nos fala de uma memória integrada ao que chama de “febre mnemônica”, alertando para os riscos do desejo de tudo lembrar, o que, segundo ele, pode ocasionar, num efeito colateral, o próprio esquecimento (Huyssen, 2000, p. 35). Professando a fé na apropriação da memória pelos grupos sociais, Huyssen nos fala de uma rememoração produtiva em contraposição ao esquecimento produtivo. Fala-nos da seletividade como importante instrumento no desafio de lembrar e, vai além, diz que o esforço da memória deve seguir o sentido do que é usável, pelo reconheci- mento de que a memória é, em si mesma, transitória, porque é humana e social.