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A cidade Xarpi do colonizado

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 32-64)

 

Como já tenho comentado, a piXação/ Xarpi é um desses fenômenos do popular, que se movimenta pelo escape das necessidades de dominar o corpo. Sua existência não acontece apenas no risco/ traçado/ desenho em um muro, parede ou alguma outra superfície, mas sim na obra completa, de relação constantemente incompleta dos sujeitos envolvidos com a cidade: o universo piXador não traz o movimento apenas em episódios esporádicos na vida da pessoa que piXa; o universo piXador se posiciona como uma disposição da própria vida da pessoa que piXa.

Ligado à cultura de rua, posso dizer que quando me aproximei do Xarpi, a piXação carioca, na intenção de realizar essa pesquisa, percebi o que os praticantes desse fenômeno têm em comum, mesmo que sejam de lugares diferentes. Eles são autores expressivos da cidade que eles pertencem. Suas grafias, a maneira de escrever, é um dos exemplos dessa afirmação, pois os traços e escritos nos levam justamente às variadas piXações e maneiras de piXar, entre as cidades, estados e/ ou lugares. Vejam o que quero dizer, a seguir, nas imagens de piXações de cinco cidades diferentes.

A primeira, para abrir minha cisma, são de Xarpi na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro: Pifil (o de cima) e Placa (o de baixo). Não sei onde começa a letra “p”, nem de um, nem do outro. Apenas conheço as grafias por ser amigo de longa data dos dois. Trarei alguns relatos deles mais à frente. Mas, por agora, é importante verificar que, no Rio de

Janeiro, as letras são entortadas de forma arredondada, como se fosse algum objeto plástico, após ter pegado fogo. Ainda na imagem, percebemos o número “14” (quatorze), representando o ano do ato; e embaixo do nome do Pifil, pode ser enxergado (apesar da distorção da foto, que foi tirada de meu celular), a sigla CM, que significa “Cachaça e Maconha”. Também iremos falar um pouco mais a frente (nos próximos capítulos) sobre as siglas.

Figura 4: Placa e Pifil no Centro.

 

(a) 

 

(b) 

Fonte: O autor, 2017.

A segunda imagem é da cidade de Belém, do estado do Pará, na Região Norte do Brasil.

Não sei o que está escrito, mas encontrei várias grafias desse tipo pelo Centro, na região do Ver-O-Peso, parte importante e bem transeunte, cheia de gente, sejam visitantes ou locais.

Essa foto foi tirada em uma esquina, uma encruzilhada, próximo à Avenida Castilhos França com a Travessa Frutuoso Guimarães, que fica em frente ao Mercado Ver-O-Peso. A piXação

estava localizada na lateral das costas da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. Não sei o que está escrito. O que percebo, assim como outras piXações que avistei em Belém, é que, muitas delas, são feitas com duas cores, nessa imagem, presenciamos a azul e a preta, e também, para além de embolada, exibe um tamanho grande, o que dificultaria realiza-la em um lugar alto, mesmo que não muito alto, como na imagem anterior, do Centro do Rio de Janeiro.

Figura 5: piXação em uma esquina de Ver-O-Peso.

 

Fonte: O autor, 2016.

A terceira em diante será de imagens da Bahia (estado localizado na Região Nordeste do Brasil), presenciadas em duas cidades litorâneas: Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro. Em uma rua de Santa Cruz Cabrália, vi essas siglas visadas na imagem e, dentre elas, como se pode ver, uma expressão conhecida no Rio de Janeiro pelo Terceiro Comando Puro (TCP), uma das facções armadas de venda de drogas ilícitas. “TD3”, no Rio de Janeiro, significa

“Tudo 3”, o que explana o “Está tudo certo.”, do citado grupo criminoso. Mas, o “CV”, que também está escrito nessa piXação de Santa Cruz Cabrália, na mesma cidade, ou seja, no Rio de Janeiro, significa Comando Vermelho, outra facção armada de venda de drogas ilícitas;

grupo que repudia a expressão “TD3”, ou qualquer outra relação com o TCP, pois os dois grupos são rivais, a partir das disputas dos pontos de vendas de drogas ilícitas, que ficam

dentro das favelas da cidade do Rio de Janeiro12. Não sei o que significa essa piXação baiana. O que sei é a existência de outra significância, pois, como um prático morador a cidade do Rio de Janeiro com 30 (trinta) anos de idade no ano de 2017, sei que seria impossível encontrar um “TD3” e um “CV” próximos assim, um do outro, em espaços cariocas.

Figura 6: piXação em Santa Cruz Cabrália (Bahia).

 

Fonte: O autor, 2017.

Eu disse baiana? Não sei se essa piXação em Santa Cruz Cabrália é baiana. O que fiz foi encontrar ela por lá, assim como encontrei outras, que se mostraram serem de fora.

Encontrei o piXo de São Paulo, em uma pousada “abandonada”. Verifiquem a sigla “SP”,       

12 Mais informações em publicações como a de Luke Dowdney em “Crianças do tráfico: um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro” (2003), e a de Carlos Amorim em “Comando Vermelho – a história secreta do crime organizado” (1993).  

que significa São Paulo, e também a grafia, no estilo logo de “banda de rock” dos anos de 1970/80, como narra o documentário “Pixo”13 (entre 9 min. 34 seg. e 9 min. 56 seg.).

Figura 7: pousada abandonada em Santa Cruz Cabrália (Bahia). 

 

Fonte: O autor, 2017.

Também presenciei Brasília, na mesma Santa Cruz Cabrália, em um ponto de ônibus.

Figura 8: ponto de ônibus em Santa Cruz Cabrália (Bahia).

 

Fonte: O autor, 2017.

A próxima foi tirada na praia de Trancoso, distrito de Porto Seguro, lugar onde passou um piXador de Minas Gerais que, um pouco depois, por alguns contatos, fiquei sabendo que este piXador é de Belo Horizonte (e não é por menos a sigla “BH”), terra natal do Goma,       

13 Documentário de 2009, dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira. O filme chegou a ser exibido na exposição “Né dans la Rue” (Nascido da Rua), na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain em Paris. 

piXador sobre qual irei falar mais à frente, ainda neste texto. Mas sobre os contatos entre Xarpi e piXadores de outros estados, Fita, um Xarpi de Nova-Iguaçu (cidade do Rio de Janeiro), ficou sabendo de minha pesquisa, e entrou em contato falando sobre os Cruéis Piratas do Gueto, ou melhor, a CPG, uma sigla piXadora que é de Minas Gerais, criada por um piXador mineiro chamado Leo, que acabou conhecendo outro Xarpi do Rio, o Zuly, da sigla Epidemia Urbana. Segundo Fita, em trocas que tive com ele pelo Facebook, Leo (de Minas Gerais) e Zuly (do Rio de Janeiro), são piXadores que participaram de uma coligação entre dois estados, fazendo suas siglas adquirirem uma notoriedade nacional, inclusive com pessoas de outros estados, escrevendo que são da CPG, ou da Epidemia Urbana.

- A relação Epidemia Urbana e CPG acabou tornando-se essas siglas de espaço nacional. Ela tem em Fortaleza, na Bahia... tem gente assinando aqui no Rio. Somos conhecidos lá, em Minas e aqui. Todos se conhecem... e o Xarpi acabou formando uma união dos piXadores, de modo geral, no Brasil. Principalmente com a internet, quando começamos a ver melhor as ações na rua, acompanhando e se comunicando online. Daí, acabamos vendo as revoltas Brasil a fora. Porque essa prática de escrita é pra protestar mesmo, pra sujar tudo que é deles. Vemos as fotos uns dos outros. E sempre tem um “Fora”: Fora Cabral; Fora Temer; Fora eles tudo! (Xarpi Fita, através de informações trocadas por mensagens no Facebook, em janeiro de 2018).

Figura 9: muro de um resort na praia de Trancoso (Bahia).

  Fonte: foto registrada pelo próprio autor, 2017.

Figura 10: Fita, com CPG.

 

Fonte: foto enviada pelo Whatsapp do Xarpi.

A última piXação é a de uma foto tirada em Porto Seguro, na região próximo ao cais das balsas, no centro dessa cidade. Conhecida por ser a “costa do descobrimento”, Porto Seguro traz poucas piXações, e se mostra como um lugar que, para além de um coração rasurado pela letra “A”, que parece cruzar como símbolo da cultura anárquica, acabou manifestando uma afirmação também em meu “coração” de pesquisador: mesmo que em alguma cidade brasileira não exista piXadores, existirá piXações.

Figura 11: Centro de Porto Seguro (Bahia).

 

Fonte: foto registrada pelo próprio autor, 2017.

Assim como essas imagens, pode-se dizer que não precisa ter uma identidade piXadora como a do Xarpi do Rio14 ou o piXo de Sampa15, para o fenômeno da piXação brotar nos muros da cidade. Ouso dizer que qualquer grafia exposta em alguma superfície urbana, marcada de forma sem forma - embolada, esbodegada, de caligrafia “feia”, siglas que não sabemos bem se são siglas (...), enfim, aquilo que olho e, mesmo que eu possa ler, não consigo compreender e, por isso, primeiramente, se torna um enigma, pois acaba que, quando tento revelar, aparece como um segredo relevado para ser outra coisa, o “aquilo” apenas entendido na existência da disposição de não querer entender em uma única definição -, provavelmente, é uma piXação.

Tal afirmação me remete a Frantz Fanon (1968), filósofo e psiquiatra que citarei bastante durante todo o texto, sobretudo quando seus pensamentos levam a comentários como, por exemplo, o “sangue no ar” (FANON, 1968, p. 52) causado pelas realizações coloniais, pois quando ele traz os momentos de colapsos sociais no livro “Os Condenados da Terra”, realiza uma importante troca envolta da admissão da capacidade revolucionária do povo, está presente na vida coletiva. Os versos nas composições musicais do Funk Carioca, tal como o refrão “Mais não me bate doutor/ Porque eu sou de batalha/ Eu acho que o senhor tá cometendo uma falha/ Se dançamos funk é porque somos funkeiros/ Da favela carioca flamenguistas brasileiros”, da dupla Cidinho e Doca, cantada de forma fidalga (como sempre) por Cidinho General16, retratam esse povo, dando como exemplo o morador de favela no Rio de Janeiro: o trabalhador que é tratado como bandido, apenas por apreciar a cultura funk.

Mais à frente, falarei dessa ideia do bandido, através de Fanon. Por agora, o foco estará no

“apreciar” de algo que torna o sujeito bandido. Meu trabalho afina-se na conjuntura de quem realiza o Xarpi, algo que, apenas na apreciação, torna o sujeito bandido, pois piXação é crime, e apreciar piXação seria “apologia” a algo fora da lei. Mas, como estou provocando, piXação também é enigma presente a partir do drama da mentalidade moderna, está divulgadora da ideia onde tudo precisa ter a certeza e a convicção do que é, e por isso, penso que a exaltação do indecifrável evidencia características presentes na admissão revolucionária e conflituosa da vida coletiva, vide Fanon.

Quase como se fosse uma regra, quem não está próximo desse universo de vida coletiva, cria um “vão” entre os fenômenos admitidos nessa relação, versus as certezas sobre       

14 Expressão ditas em ideias de gíria, para localizar algo ou alguém da cidade do Rio de Janeiro.

 

15 Expressão ditas em ideias de gíria, para localizar algo ou alguém da cidade de São Paulo.

 16 “Não me bate doutor”, do álbum “Rap das Armas”, de Cidinho e Doca (2008).  

eles; situação que coloca o corpo disposto nessa posição coletiva como uma espécie de “ímã enigmático da violência”, instante que, segundo Gustavo Coelho, desarmadura e fica “forte porque frágil e por isso” se torna “bom condutor de sensações.”. (COELHO, 2016, p. 103). O dito “vão” se dá entre “aquilo”/ “algo”, e a razão que se pretende ter desse “aquilo”/ “algo”.

O bom. O ruim. O bonito. O feio. O apreciado. O depreciado. O certo. O errado. Uma razão julgadora e problemática que pode também ser pensada em Fanon, quando ele problematiza a “verdade”.

O problema da verdade deve também reter a nossa atenção. No seio do povo a verdade sempre pertence aos nacionais. Nenhuma verdade absoluta, nenhum discurso sobre a transparência da alma pode esboroar esta posição. A mentira da situação colonial o colonizado responde com uma mentira igual. (FANON, 1968, p.

37-38).

É verdade que, em apenas um muro na cidade do Rio de Janeiro, existem várias grafias que não deveriam estar ali. Mas é verdade também que não soubemos (até agora), de ninguém que apanhou por ter colocado “Só Jesus expulsa os demônios das pessoas”, ou algo do tipo. (COELHO, 2016). O único que é penalizado, dentro da oficialidade de lei ou não, por marcar/ sujar muros alheios, é o piXador, já que, quando isso aconteceu com grafiteiros, eles teriam sido confundidos com piXadores (mais a frente, falarei um pouco mais do caso).

O que quero dizer neste instante é que em apenas um muro, como na imagem a seguir, presenciamos grafites, propagandas, dentre outras ações gráficas que podem ser lidas e/ou apreciadas. Mas o único que recebe o julgamento, em uma lei imposta, é a piXação, possivelmente por não ter uma definição prevista no aceito, no comum.

Figura 12: Praça dos Estudantes, em Campo Grande (Zona Oeste, Rio de Janeiro – RJ)

 

Fonte: O autor, 2017.

Tal olhar sobre a verdade em Fanon me remete ao contexto do filme “The Truman Show” (1998), distribuído no Brasil como “O Show de Truman: O Show da Vida”. Estrelado pelo ator Jim Carrey, que faz o papel de Truman Burbank o personagem principal da trama fictícia que retrata a vida do próprio Truman, um homem de menos de 40 (quarenta) anos de idade, que vive na ilha de Seaheaven, um lugar de realidade simulada, projetada em um programa de televisão transmitido mundialmente 24 horas, todos os dias. Dias perfeitos de uma vida perfeita, Truman é a única pessoa que não sabe dessa realidade simulada, ou seja, toda sua vida é baseada na verdade criada pelo diretor e criador do projeto, chamado Christof, interpretado pelo ator Ed Harris.

Toda a verdade do enredo do filme é baseado no personagem Christof. Todos da cidade são atores comandados por ele, durante toda a vida de Truman. Nessa relação entre pessoas de Seaheaven e Truman, algumas pessoas e acontecimentos são primordiais para a continuidade dessa verdade. Primeiro, a família, através de sua mãe e seu pai, pessoa que esteve em um acidente de barco com Truman, quando ele era criança, e acabou desaparecendo, o que criou no principal sujeito de Seaheaven uma talassofobia, uma psicose pavorosa com o mar. Por que? Como já disse, Seaheaven é uma ilha, logo, se Truman tentasse sair dessa ilha, seria impedido por fobia roteirizada. Outras duas pessoas são importantes no enredo de Truman.

Seu amigo de infância Marlon, que na verdade fora de Seaheaven é o ator Louis Coltrane (Noah Emmerich) e Meryl, a mulher com quem Truman casou-se, que (também) fora da verdade de Seaheaven, é a atriz Hannah Gill (Laura Linney). Esses dois personagens seguem o sentido de “para sempre” ao lado de Truman.

Marlon age como uma espécie de filtro, que acolhe Truman, para separar o que deve ser feito do que não se deve ser feito, mas não para o Truman, e sim para Crhistof, o diretor colonizador. Marlon é o conselheiro de Truman, pois acolhe suas angustias e, depois de ouvi- las, redireciona as mesmas, transformando-as em consentimentos: “Eu sou seu melhor amigo desde que tínhamos 7 anos Truman. Só passamos pela escola ajudando uma ao outro nas provas. A cada resposta, estávamos certos juntos, ou errados juntos. Você se recusa a acreditar. Você procura respostas em outro lugar. Mas, o caso, é que eu pararia o transito por você Truman, e a última coisa que eu faria, seria mentir pra você. Pense nisso. Se os outros fazem parte disso, eu teria que fazer também.”, disse Marlon, em uma das cenas de diálogo com esse filtro.

Já Meryl age como uma espécie de gravidade, pois, quando Truman voa em seus sonhos, de sair de qualquer lugar comum, para chegar ao incomum, o imprevisível explanado

anteriormente, ela o puxa para o chão. “Olha Truman, o dia mais felizes de nossas vidas.”, disse Meryl para Truman, apontando para uma foto do casamento deles, depois do momento de aflição entre “o casal”, que fez ela dizer “Você fala como um adolescente.”. Mesmo assim, Truman a responde: “Mas eu me sinto um adolescente.”.

Logo no início do filme, Truman já é revelado como o principal sujeito de Seaheaven, através dos depoimentos de Meryl, Marlon e (claro), do dono da verdade, Christof. “Minha vida é o Show de Truman. É um estilo de vida. É uma vida nobre. É uma vida abençoada.”, depõe Hannah Gill, exibindo satisfação total com a ideia de seu chefe Christof. “Tudo é real.

Nada que você vê nesse show é falso. Só é controlado.”, diz o ator Louis Coltrane, defendendo a lógica desse tipo de show de televisão, conhecido como “reality show”, visto que ele explica o aporte para a tal “realidade”: o controle. O dominador desse controle, Christof, explica o universo do Show de Truman: “Embora o mundo que ele habita seja em alguns aspectos artificiais, não tem nada de artificial com o Truman. Sem textos. Sem colas.

Não é um Shakespeare, mas é original. É uma vida.”.

O Show de Truman gira em torno da perfeição de seu criador, que se preocupa com uma verdade entre os homens, a partir de um mundo mentiroso criado por ele mesmo. O perfeito desse mundo acontece em variadas formas. As propagandas de produtos que fazem esse mundo girar pode ser um exemplo da resiliência perfeita. Utensílios para o lar ou as drogas usadas por essa população como cerveja, se fixam nas mudanças das relações sociais e movimentos de Truman. Mas Truman, que, sem saber, faz o papel dele mesmo, e não mostra interesse com a verdade resiliente do seu criador; o que ele parece mostrar, durante todo o enredo do filme, é um forte desejo pela imprevisibilidade. Ele mostra isso logo em suas primeiras frases: “Você vai até o topo da montanha, mesmo com a perna quebrada. [...] Se eu morrer antes de chegar no topo, você vai me usar como uma fonte alternativa de comida. [...]

Gosta de uma carninha? Gosta de uma carninha... é, das macias.”. Falando sozinho, ou melhor, de frente para uma câmera que ele não faz ideia de que está ali, Truman chega ao ponto de colocar em cheque a sua sanidade, onde prefere ser devorado, ao que me parece, para ser sentido, logo sentir a sensação de ser. Enquanto fala sozinho, Truman é interrompido por sua esposa, que o chama, dizendo: “Truman, você vai se atrasar!”. O tardar está para o ponto de vista da ordem de Christof, o “manda chuva” de todos em Seaheaven que, diferente desses, o criador desse perfeito lugar não tem sobrenome, em outras palavras, ele não parece ter nem passado e nem futuro, pois é o direcionador, o Deus, o dono da grande novela colonial.

Vida perfeita, no território perfeito, com as pessoas perfeitas, de felicidade e tragédias perfeitas, até Truman conhecer alguém imperfeito: a atriz Lauren Garland, que na verdade é a personagem Sylvia (Natascha McElhone). A mulher que fez Truman sonhar com Fiji, e mesmo sem saber que fica “do outro lado do mundo” (na Oceania), acaba gerando um amadurecimento de sua angustia que preza, não se sabe como, tão pouco o porquê, a liberdade de sair do mundo perfeito. Momento do filme que entra outros personagens envolvidos com a colonização de Truman, os telespectadores do Show de Truman, ou melhor, do “Show do Mundo de Christof”, que tem como personagem principal, Truman. “Por que não seguiu ela até Fiji? Por que teve que se casar com Meryl?”, indaga uma telespectadora/ uma colonizada.

Nós aceitamos a realidade do mundo que nos é dado.”, disse Christof. Mas será isso mesmo? Para manter Truman como Truman, ou seja, para dar continuidade a seu show, é preciso que Christof deixe Truman confuso, e aliená-lo na direção do mundo do seu mundo. E o que acontece com os conflitos causados por esta confusão? O que acontece com, por exemplo, momentos angustiantes, desnorteadores das bússolas colonizadoras? O que acontece com Truman, quando enfrenta as causas de seu medo, de seus traumas, como a talassofobia?

O colonizador diz: “Eu dei a Truman a chance de uma vida normal. [...] Seaheaven é como mundo deveria ser.”. Mas no mesmo momento ele também diz: “Ele pode sair quando quiser. Se tivesse mais que uma mera ambição, e tivesse realmente determinado em descobrir a verdade, não teríamos como impedi-lo.”. No fim do filme, Truman enfrenta seus temores coloniais, fazendo com que o colonizador perca sua realidade verdadeiramente perfeita, mostrando que toda vontade do colonizado que possa incomodar o colono, poderá trazer grandes ambições, sobretudo, rompedora das colônias. “Você tem medo, e por isso, não pode sair. Tudo bem Truman, eu entendo. Eu presenciei você a vida toda. Não pode sair Truman.

Seu lugar é aqui, comigo.”, insiste Christof nas lógicas de seu show colonial como uma

Experiência positiva para Truman e os telespectadores”. Entretanto, o diretor, criador, Deus, acabou sendo provocado, pois Truman enfrenta a tempestade no mar, ou seja, rompe com a talassofobia, e faz o céu se abrir, provocando a luz do colono, que surge com uma voz, que diz, como se fosse Deus: “Sou criador do show de televisão que dá esperança, alegria e inspiração a milhões.”. E Truman pergunta para o “criador”: “Então, quem sou eu?”. E o criador responde: “Você é a estrela.”. Sim, Truman é. Aliás, é a única no universo de Seaheaven. Truman é o sol de Seanheaven, lugar sem sol e sem lua. Truman é o sol do mundo de seu criador, Christof. E sem o sol, a terra não vive. E sem o sol de Seaheaven, única coisa real deste mundo, ela desaparece, pois seu criador não se ilumina mais. Ainda na sua razão, a luz colonial diz: “Não existe mais verdade lá fora, do que no mundo que eu criei pra você.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 32-64)