Salienta-se que a Convenção Americana é um tratado multilateral, com função de promover um intercâmbio entre os Países-Membros. Conta atualmente a adesão de 24 Estados, dos quais, nem todos aderiram prontamente ao sistema jurisdicional da Convenção.119 A Convenção Americana estabelece um aparato de monitoramento e implementação dos direitos que enuncia. Tal aparato é integrado pela órgãos estes abordados na seqüência desse trabalho.
Membros122. Portanto, compete a ela123 responsabilizar seus signatários, sobre as violações dos direitos humanos consagrados na Convenção e na Declaração Americana.124
Conforme estabelece seu Estatuto, a Comissão exerce três categorias de competências. A primeira é com relação a todos os Estados Membros da OEA, possuindo competência de: a) estimular a consciência sobre direitos humanos; b) recomendar medidas em favor dos direitos humanos no âmbito da legislação nacional e dos compromissos internacionais; c) elaborar os estudos ou relatórios que considerar oportunos; d) solicitar aos Governos relatórios sobre as medidas que adotadas nacionalmente; e) atender às consultas e prestar serviços de consultoria; e f) conduzir observações in loco com o consentimento ou o convite do Estado.125
A segunda categoria é relativa aos Estados-Membros da Organização que não são partes na Convenção Americana. Desta forma, a Comissão tem poderes específicos para: a) dedicar especial atenção à
122 GALLI, Maria Beatriz, DULITZKY, Ariel E. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos e o seu papel central no sistema interamericano de proteção dos direitos humanos. In: GOMES Luiz Flávio, et al. O sistema interamericano de proteção dos direitos humanos e o direito brasileiro. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2000, p. 53-55.
123 Art. 41 – “A Comissão tem a função principal de promover a observância e a defesa dos direitos humanos e, no exercício do seu mandato, tem as seguintes funções e atribuições: a) estimular a consciência dos direitos humanos nos povos da América; b) formular recomendações aos governos dos Estados-Membros, quando o considerar conveniente, no sentido de que adotem medidas progressivas em prol dos direitos humanos no âmbito de suas leis internas e seus preceitos constitucionais, bem como disposições apropriadas para promover o devido respeito a esses direitos; c) preparar os estudos ou relatórios que considerar convenientes para o desempenho de suas funções; d) solicitar aos governos dos Estados-Membros que lhe proporcionem informações sobre as medidas que adotarem em matéria de direitos humanos; e) atender às consultas que, por meio da Secretaria-Geral da Organização dos Estados Americanos, lhe formularem os Estados-Membros sobre questões relacionadas com os direitos humanos e, dentro de suas possibilidades prestar-lhes o assessoramento que eles lhe solicitarem; f) atuar com respeito às petições e outras comunicações, no exercício de sua autoridade, de conformidade com o disposto nos artigos 44 a 51 desta Convenção; e g) apresentar um relatório anual à Assembléia- Geral da Organização dos Estados Americanos”. Convenção Americana dos Direitos Humanos. Disponível em: <www.oea.org>. Acesso em: 10 out. 2007.
124 ANNONI, Danielle. Direitos Humanos e Acesso à Justiça no Direito Internacional. Curitiba:
Juruá, 2003, p.94. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos é composta por sete membros eleitos em sua capacidade individual pela Assembléia Geral da OEA, a partir de uma lista de candidatos proposta pelos Estados-Membros, conforme artigo 36 da Convenção Americana. Os candidatos à Comissão devem ser pessoas de elevada reputação moral e de notória competência no campo dos direitos humanos, conforme artigo 2 da Convenção Americana.
Os membros da Comissão são eleitos por um prazo de quatro anos, com a possibilidade de uma reeleição. PINZÓN, Diego Rodríguez, MARTIN, Claudia. A Proibição de Tortura e Maus-tratos pelo Sistema Interamericano.Switzerland: OMCT, 2006, p.33-34.
125 PINZÓN, Diego Rodríguez, MARTIN, Claudia. A Proibição de Tortura e Maus-tratos pelo Sistema Interamericano.Switzerland: OMCT, 2006, p.34-35.
observância de alguns direitos contidos na Declaração Americana, tais como:
direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, direito à liberdade de investigação, opinião, expressão e difusão do pensamento, direito a um julgamento justo, direito à proteção contra detenção arbitrária e direito ao devido processo legal; b) examinar comunicações, requerer informações e fazer recomendações uma vez ques e verefique o esgotamento das instâncias domésticas de recurso.126
A terceira e última categoria, no que concerne aos Estados Partes da Convenção Americana, o Estatuto estabelece os seguintes poderes adicionais à Comissão: a) atuar sobre petições e outras comunicações; b) comparecer perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos; c) solicitar à Corte que adote medidas provisórias en casos graves e urgentes, d) consultar a Corte sobre a interpretação da Convenção Americana ou outros tratados de direitos humanos, e) submeter propostas de protocolos adicionais à Convenção Americana, de modo a incluir progressivamente outros direitos e liberdades sob o sistema da Convenção, e f) submeter à Assembléia Geral, através do Secretário Geral, propostas de reformulação da Convenção Americana.127
De acordo com o artigo 44 da Convenção Americana, a Comissão têm competência para processar queixas individuais, de grupos ou Organizações não-governamentais, antes do envio do caso à Corte.128 Mister se faz salientar que a Comissão examina a denúncia, verificando se esta se enquadra nos pré- requisitos de admissibilidade elencados no artigo 46.1 e 2 da Convenção Americana, sendo de regra necessário que o denunciante esgote todos os
126 Idem.
127 Idem.
128. Artigo 44 da Convenção Americana: “Qualquer pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não- governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados membros da Organização, pode apresentar à Comissão petições que contenham denúncias ou queixas de violação desta Convenção por um Estado Parte. Convenção Americana dos Direitos Humanos. Disponível em:
<www.oea.org>. Acesso em: 10 out. 2007. As autoras Fernanda Lapa e Chrystiane de Castro alegam que: “A Comissão tem competência consultiva e recebe denúncias de indivíduos e organizações não-governamental que tenham seus direitos fundamentais violados, adquirindo, assim, a legitimidade processual. Nesse cao, o Estado sempre será réu. Pelo fato de possuir apenas competência consultiva, não há litígio ou sentença, apenas faz-se uma recomendação por meio de relatório ao Estado violador do direito.” LAPA, Fernanda, PAUL, Chrystiane de Castro Benatto. A Primeira Condenação do Brasil perante a Corte Interamericana de Direitos Humanos. In: Revista de Direito: Direitos Humanos e História da Democracia. Florianópolis:
CESUSC, 2007, p.90.
recursos internos de jurisdição129 e que a comunicação ou a denúncia obedeça o prazo de seis meses depois do trânsito em julgado da sentença prolatada na esfera interna.130
Após reconhecer a denúncia a secretaria da Comissão notifica o Estado dando a ele o direito de ampla defesa, sendo que após justificar-se, decorrido os trâmites legais, a Comissão lhe envia uma proposta contendo medidas corretivas131 a serem adotadas e caso não sejam respeitadas, leva-se então o caso a Corte, a qual será objeto de estudo no próximo subítem.
129 Artigo 46 da Convenção Americana: “1. Para que uma petição ou comunicação apresentada de acordo com os artigos 44 ou 45 seja admitida pela Comissão, será necessário: a) que hajam sido interpostos e esgotados os recursos da jurisdição interna, de acordo com os princípios de direito internacional geralmente reconhecidos;b)que seja apresentada dentro do prazo de seis meses, a partir da data em que o presumido prejudicado em seus direitos tenha sido notificado da decisão definitiva;c) que a matéria da petição ou comunicação não esteja pendente de outro processo de solução internacional;d) que, no caso do artigo 44, a petição contenha o nome, a nacionalidade, a profissão, o domicílio e a assinatura da pessoa ou pessoas ou do representante legal da entidade que submeter a petição. 2.As disposições das alíneas a e b do inciso 1 deste artigo não se aplicarão quando:a) não existir, na legislação interna do Estado de que se tratar, o devido processo legal para a proteção do direito ou direitos que se alegue tenham sido violados;b) não se houver permitido ao presumido prejudicado em seus direitos o acesso aos recursos da jurisdição interna, ou houver sido ele impedido de esgotá-los; c) houver demora injustificada na decisão sobre os mencionados recursos”. Disponível em: <www.oea.org>. Acesso em: 10 out. 2007.
130 Com base no artigo 46(1)(b) da Convenção Americana: “1) Para que uma petição ou comunicação apresentada de acordo com os artigos 44 ou 45 seja admitida pela Comissão, será necessário: b) que seja apresentada dentro do prazo de seis meses, a partir da data em que o presumido prejudicado em seus direitos tenha sido notificado da decisão definitiva.” Convenção Americana dos Direitos Humanos. Disponível em: <www.oea.org>. Acesso em: 10 out. 2007.
Denota-se que não há necessidade de constituir um advogado, mas se recomenda que os peticionários sejam assistidos por um. Friza-se que não há no sistema interamericano programa de assistência judiciária, tendo o demandante que arcar com os ônus. PINZÓN, Diego Rodríguez, MARTIN, Claudia. A Proibição de Tortura e Maus-tratos pelo Sistema Interamericano.
Switzerland: OMCT, 2006, p.90.
131 “A Comissão pode requerer ao Estado que adote medidas cautelares em casos graves e urgentes e a Comissão ainda pode solicitar à Corte que adote medidas provisionais em casos urgentes. Geralmente as medidas provisionais visam a proteção da vítima, da sua família, testemunhas e outras pessoas envolvidas no caso.” PINZÓN, Diego Rodríguez, MARTIN, Claudia.
A Proibição de Tortura e Maus-tratos pelo Sistema Interamericano. Switzerland: OMCT, 2006, p.92. De acordo com o artigo 74 (1) do Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos: 1) Em casos de extrema gravidade e urgência, e quando se tomar necessário para evitar dano pessoal irreparável, num assunto ainda não submetido à consideração da Corte, a Comissão poderá solicitar àquela que adote as medidas provisórias que julgar pertinentes.”
Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.” Regulamento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. In: Documentos Básicos em Matéria de Direitos Humanos no Sistema Interamericano. Washington: OEA, 2007.