E. E PROFº LEONILDA ROSSI BARRIQUELO
2.1 A creche
Nascida da eliminação dos institutos Onmi, a creche de "tipo novo" tende a distanciar-se o mais possível, desde os seus primórdios, dos modelos assistenciais de cuidados às crianças pequenas. A creche não deve mais ser nem um orfanato, nem uma salle d' asyle (escola materna), locais de vigilância e custódia de crianças consideradas tão pouco autônomas e tão pouco ativas que necessitam exclusivamente de cuidados fisiológicos. Não pode mais ser a sede onde se exercita uma política filantrópica em favor de famílias necessitadas. Deve, além disso, evitar o estilo asséptico das enfermarias pediátricas, a rigidez da obra de caridade, o fechamento, em relação ao social, da instituição total.
65 A ―Roda‖ foi uma instituição criada por Romão Duarte em 1739 para abrigar ―almas inocentes que tivessem sido abandonadas, enjeitadas ou desamparadas. Também chamada de Casa dos Expostos ou Casa dos Enjeitados‖.
A conscientização do aspecto negativo de tais modelos orientou as propostas inovadoras da Lei 1044 e das leis regionais sucessivas, nas quais se configuravam novos objetivos, entre os quais, prioritário, o de caracterizar a creche em sentido educativo. Faltavam, porém, objetivos detalhados, estratégias definidas, itinerários testados. (BONDIOLLI, 1998, p.26 ).
Bondiolli (1998) cita que frente à falta de linhas programáticas precisas e a dificuldade de inventar projetos totalmente novos, a creche sofreu então contágios e contraiu premissas das instituições/agências a ela contíguas, em particular com a família, como local legitimamente destinado ao cuidado e a criação dos pequenos, e com a escola materna, enquanto agência educativa extradoméstica difundida para a faixa etária subsequente. Trata-se de locais onde vigoram modelos pedagógicos "fortes", não apenas porque testados no tempo, mas também porque autorizados e legitimados socialmente.
Para BONDIOLLI (1998) é pedagogia familiar é um modelo educativo caracterizado por laço estreito e prolongado com a figura materna, cujos traços típicos são a simbiose e o apego.
Enfim, é uma pedagogia "natural" enquanto instintiva, afetiva e não-planejada.
A partir desse paradigma, a creche tentou defender-se em busca de uma identidade própria, muitas vezes sem ter obtido sucesso, ou então a importou de maneira acrítica. O nó do problema era a relação com a família, uma vez que se tratava de identificar funções da creche que não fossem substitutas de carentes cuidados maternos e, ao mesmo tempo, de criar robustos fios de ligação entre o contexto extradoméstico e o familiar. O paradigma materno, de modelo no qual inspirar-se, devia tornar-se, pelo contrário, um modelo com o qual seria necessário comparar-se e interagir, para tornar o mais possível "continuadas" as primeiras experiências dos bebês. (BONDIOLLI, 1998, p.27).
2.2.1 A experiência de Reggio Emilia
Na Itália, a creche surgiu em 1971 como serviço público, sem uma tradição pedagógica de suporte, pesadamente condicionada por preconceitos ideológicos, ―tanto por parte de quem era contra quanto por quem era a seu favor. Um traço que chama atenção no panorama italiano é a ausência de levantamento e dados globais sobre os quais apoiar os argumentos a favor ou contra a creche‖. (BONDIOLI,1998, p.13).
Bondioli, (1998, p.332) cita que a história da creche de ―Reggio Emilia está enraizada no cerne de uma difundida cultura urbana dos serviços e da infância, sob a égide de uma continuidade política capaz de garantir uma trama construtiva de funções administrativas e pedagógicas‖. As primeiras creches são ―inauguradas no signo da continuidade com a escola da infância cujas origens são também caracterizadas por um forte envolvimento público, logo depois da Libertação (final da II Guerra Mundial)‖. Reggio Emília é o primeiro município italiano que organizou uma coordenação pedagógica capaz de elaborar, organizar e integrar as experiências formativas realizadas nas creches e pré-escolas.
Bondioli (1998) cita, ainda, que a gestão do relacionamento com as famílias assume uma importância central e possui a tendência de articular-se em planos diferentes.
O primeiro objetivo é o de tornar a creche transparente para as famílias que a frequentam, utilizando técnicas de comunicação eficazes, e o segundo objetivo é o que pretende instaurar um relacionamento positivo com as famílias a fim de desenvolver com elas um processo de troca, discussão, confronto em relação a tudo que diz respeito a criança. (BONDIOLI ,1998, p 327).
A creche de Parma, originariamente estava ligada à Secretaria da saúde e assistência social e desde 1980 as creche passaram à educação pública. As creches nasceram nos primeiros anos 70, promovidas pela psicóloga que atualmente é responsável por elas, pelo Secretario Municipal de Saúde e por um núcleo originário de educadoras. (BONDIOLI,1998, p. 328).
Bondioli, (1998) explica que
O que mais impressiona, nas creches de Parma, é o clima de flexibilidade, a alegria e a vivacidade do pessoal, o conhecimento extremamente individualizado das crianças, a real abertura da família. A exigência do próprio bem estar, do próprio prazer de estar com as crianças torna as pessoas disponíveis às exigências dos outros adultos. Isso é evidenciado na naturalidade com a qual os coordenadores voltam à atividade com as crianças e isso é particularmente percebido nas pequenas creches- apartamento. (p.330).
―Até fevereiro de 1981 as creches de Milão dependiam da Secretaria da a Assistência Social, não havia nenhum tipo de coordenação pedagógica: o responsável pelo serviço era um funcionário administrativo encarregado da gestão do pessoal‖, da compra de materiais, etc..
(BONDIOLI,1998, p.309).
2.2.2 A creche no Brasil
A trajetória da educação infantil, no Brasil, teve um foco inicial exclusivamente assistencialista.
Vieira (1988, apud Borges, 2009, p.47), afirma que no período de 1940 a 1960 foi marcado pela decisão de se fixar a instituição creche no Brasil, pois até então, havia uma grande controvérsia em relação à permanência dela. Para alguns estudiosos, a creche que se responsabilizava pelo atendimento ao bebê e a criança pequena, além de ocuparem prédios precários, ―eram um meio de transmissão de doença e impediam o aleitamento materno, o que facilitava o raquitismo e distúrbio digestivo, além de promover o afastamento materno, já, para outros, eram um meio de controlar a mortalidade infantil‖.
Mas o fator que realmente influiu na expansão das creches no Brasil foi a criadeira ou tomadeira de conta, mulher do povo que tomava crianças ao seu cuidados. Essas mulheres não tinham o mínimo de instrução para lidar com os bebês que exigiam cuidados especiais; e, em termos, elas se tornavam as responsáveis pelo aumento da mortalidade infantil. (VIEIRA, 1988, apud Borges, 2009, p.47).
Segundo HADDAD (1991), a creche tem sido objeto de todos tipos de discriminação por não ser ainda reconhecida como uma área legitima da educação e desenvolvimento da criança pequena.
Em sua trajetória, a creche foi pensada à sombra da família, de um padrão de família que tem sido privilegiada na responsabilidade pela guarda e educação da criança pequena. Portanto, o papel atribuído à família e à mulher no cuidado com a criança tem sido elemento controlador de práticas, atitudes e posturas, individuais ou públicas, relativas ao atendimento de crianças através de creches. (HADDAD,1991, p.21).
Quando lançamos nosso olhar sobre a história do atendimento à criança no Brasil, percebemos que esse direito esteve ligado: ao gênero, pois delegava-se à mulher, o cuidar das crianças por causa de seu ―instinto‖ materno; com a condição social, uma vez que eram organizadas instituições, principalmente, para as crianças pobres, indesejadas e abandonadas, e, a mudança econômica pois eram abertos espaços para o trabalho feminino, principalmente após a II Guerra Mundial, quando a mulher, em função do empobrecimento da classe média e da mobilização dos movimentos feministas, entrou no mercado de trabalho. (HADDAD, 1991).
Haddad (1991) cita que segundo informações dos estudos históricos, as creches surgiram durante o século XIX nos países norte-americanos e europeus e, no início do século XX, no Brasil acompanhando a estruturação do capitalismo, a crescente urbanização e a necessidade de reprodução da força de trabalho composta por seres capazes, nutridos, higiênicos e sem doenças.