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A desobediência civil

Antes de tratar especificamente da resistência não violenta, é necessário abordar um conceito correlato e que serve de inspiração e base para esse tipo de manifestação: a desobediência civil. O responsável pela sua popularização foi o filósofo e poeta Henry David Thoreau (1817-1862), o qual escreve um ensaio justamente com o título “Desobediência Civil”

(2012). Thoreau levou uma vida condizente com suas principais ideias políticas, envolvendo o

Utopia than our States of Progress governed by war-hungry princelings in Versailles & Vienna, Washington &

Westminster?”.

50 “‘Embrace your enemy,’ the elders urged, ‘to prevent him striking you.’”.

51 Conferir o seguinte artigo: https://www.nationalreview.com/2003/04/moriori-lesson-paul-gallant/

isolamento da sociedade estadunidense e a recusa em obedecer às leis e regras sociais. Tais atitudes, intensificadas pelo não pagamento de impostos, ocasionaram na sua prisão e na inspiração do ensaio mencionado.

Tratando do contexto político e social da metade do século XIX, Thoreau traz inúmeras críticas não apenas às ideias defendidas pelo governo estadunidense, mas principalmente ao sistema político e social em si. Para o pensador, a existência ou eleição de um político não necessariamente indica a obrigatoriedade de os cidadãos respeitarem toda e qualquer decisão efetivada pelos que estão no poder. Segundo Thoreau (2012), “O governo em si, que é apenas o modo que o povo escolheu para executar sua vontade, está igualmente sujeito ao abuso e à perversão antes que o povo possa agir por meio dele” (p. 6). Dessa maneira, o autor compreende não só a falibilidade por parte do governo, mas principalmente a possibilidade do uso deturpado do poder para ações imorais e perversas. Traz-se, então, a seguinte pergunta: por que deveríamos obedecer a um governo, um sistema político e um sistema legislativo que claramente são repletos de falhas e servem, por vezes, para fins opressivos?

Essas mesmas indagações, embora realizadas de formas diferentes, são também feitas por Mo Muntervary, protagonista do oitavo capítulo, “Clear Island”, do romance ghostwritten (2001). A narrativa expõe um curto período da vida da personagem, uma renomada cientista irlandesa, fugindo do governo dos Estados Unidos, o qual a pressiona a fim de utilizar seus conhecimentos para a criação de tecnologias usadas em guerras. Assim como conta Mo, quando fora contratada pela empresa Light Box, não sabia exatamente da possibilidade do uso de seu conhecimento para esses fins:

“Você acreditou de fato que a Light Box conduzia experimentos só para se divertir?”

“Não. Eu realmente acreditava que os experimentos da Light Box eram realizados somente para agências espaciais. Disseram que a cognição quântica servia para isso. Então, nesse meio tempo, começa uma guerra e descubro que minha modesta contribuição para o esclarecimento global está sendo usada para construir mísseis ar-terra com o objetivo de matar pessoas não suficientemente brancas” (MITCHELL, 2001, p. 319, tradução nossa)52.

Em um diálogo com a personagem identificada como Texano, Mo revela a surpresa tida ao ser informada do uso de suas contribuições quânticas para o aperfeiçoamento de instrumentos usados na guerra. Além de vermos a personagem abordar rapidamente o quesito

52 “‘Did you really believe that Light Box conducts experiments purely for fun?

‘No. I really believed that Light Box conducts experiments purely for space agencies. Thats what we’ve been told quantum cognition is for. Then a war comes along, and I discover that my modest contribution to global enlightenment is being used in air-to-surface missiles to kill people who aren’t white enough’”.

racismo e xenofobia presentes nos alvos das guerras provocadas pelo ocidente, há uma defesa de posturas não violentas e não bélicas. De fato, a não violência se demonstra no capítulo quando Mo recusa-se a obedecer às ordens do governo dos Estados Unidos e decide fugir pelo mundo, a fim de que suas descobertas quânticas não sejam usadas para a violência.

Assim como em “Desobediência Civil”, a personagem de Mitchell compreende a necessidade e a possibilidade de, em algumas circunstâncias, ser desobediente aos governos.

Nesse caso, inclusive, há uma certa extrapolação ao contexto de Thoreau, visto que a influência imperialista estadunidense não se limita ao país, mas também a outros territórios no mundo.

Dessa maneira, Mo exerce a desobediência civil a regras impostas pelo governo de outro país, fugindo e se recusando a cooperar com os funcionários do Pentágono.

A respeito do direito à recusa, de acordo com Thoreau, “Todos os homens reconhecem o direito de revolução; isto é, o direito de recusar obediência ao governo, e de resistir a ele, quando sua tirania ou sua ineficiência são grandes e intoleráveis” (p. 8). É muito difícil não associar esse excerto com a situação contemporânea nacional. Em janeiro de 2021, com a incompetência e ineficiência53 do governo federal, presenciamos os graves efeitos da pandemia de covid-19, com destaque à situação preocupante em Manaus54. As palavras de Thoreau fazem muito sentido e deveriam ser fonte de inspiração frente à barbárie e ingerência de governos extremistas.

Para o autor, no entanto, a resistência não é passiva, momentânea ou circunstancial. O conceito de desobediência civil envolve uma postura de boicote e recusa da obediência total das regras impostas pelo Estado. A respeito disso, Thoreau (2012) comenta:

Vejam como uma incoerência das mais graves é tolerada. Ouvi alguns de meus conterrâneos dizerem: “Queria ver se me convocassem para ajudar a reprimir uma insurreição dos escravos ou para marchar contra o México: eu não iria de jeito nenhum”. No entanto, cada um desses mesmos homens, seja diretamente, com sua conivência, seja indiretamente, com seu dinheiro, propicia o envio de um substituto (p. 11).

A incoerência apontada pelo filósofo em recusar uma ação opressora, mas mantendo um poder opressor evoca paralelos com um tema bastante em voga na contemporaneidade: o movimento antirracista. Estabelecendo cotejos entre tal movimento e os dizeres de Thoreau,

53 Incompetência do Ministério da Saúde na preparação para campanhas de vacinação:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2021/01/estados-dizem-que-pazuello-enviou-dados-errados-de- seringas-e-vacinas-para-o-stf.shtml

54 Falta de oxigênio em hospitais de Manaus:

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/01/oxigenio-acabou-e-hospitais-de-manaus- viraram-camara-de-asfixia-diz-pesquisador-da-fiocruz.shtml

certos princípios de ambos apresentam similaridades: no antirracismo, impulsionado pelas recentes manifestações do Black Lives Matter, não basta não ser racista, mas é de fundamental importância que ações antirracistas sejam desenvolvidas. Assim, uma postura majoritariamente passiva deve ser substituída por atitudes ativas de combate direto ao racismo nas estruturas sociais. De forma semelhante, o filósofo estadunidense também advoga como necessário, para haver uma mudança efetiva na sociedade em termos das opressões e das atitudes “nefastas” do governo, mais do que uma recusa parcial ou esporádica, mas sim uma recusa ampla, efetiva e ativa ao sistema em si. Dessa maneira, tanto o Movimento Antirracista percebe como o racismo está embrenhado nas instituições e na própria estrutura social, quanto Thoreau nota que só haverá mudança efetiva quando houver recusa ao sistema em si, não apenas a situações específicas.

Mais do que meramente simbólico e pouco concreto, o discurso de Thoreau conclama para a ação efetiva e para a não conivência, por menor que seja, com as injustiças sociais: “Se a injustiça […] for do tipo que requer que você seja o agente da injustiça contra outra pessoa, então, eu digo: Viole a lei. Deixe que sua vida seja uma contrafricção que pare a máquina. O que eu tenho a fazer é cuidar, de todo modo, para não participar das mazelas que condeno” (p.

12). Distinto de um posicionamento anárquico, o pensador considera a violação da lei e o desrespeito às regras sociais como uma recusa na participação, ainda que indireta, na manutenção de opressões.

Todavia, vivendo numa sociedade organizada em torno de deveres e obrigações e com uma Constituição que dita como um cidadão deve agir, na ocasião de não cumprimento da lei o sujeito é passível de inúmeras punições. Thoreau, mesmo sabendo dessas consequências, avalia como necessária a desobediência civil. Com relação à prisão, o autor declara: “Em um governo que aprisiona qualquer um injustamente, o verdadeiro lugar para um homem justo é também a prisão” (p. 13), revelando ser melhor estar preso do que compactuar com um Estado que aprisiona os indivíduos injustamente. Assim, ser preso é melhor do que obedecer ao governo e, consequentemente, compactuar com atos diretamente contrários a seus preceitos éticos e morais.

A respeito disso, a personagem Mo segue os mesmos princípios de Thoreau. Ao invés de ter cumplicidade para com as ações do governo estadunidense, a cientista pede demissão da empresa Light Box e inicia uma fuga para outros países, com o objetivo de resguardar os familiares na Irlanda. Ao fim da narrativa, Mo depara-se com um destino, aparentemente, inevitável: os funcionários do Departamento de Defesa forçam-na a se mudar para os Estados Unidos e a trabalhar em projetos relacionados à guerra. Entretanto, ainda apresentando uma

postura de desobediência civil, a personagem toma a decisão de destruir seu caderno, o qual continha anotações sobre a tecnologia quântica:

O Texano fingiu surpresa. “[...] Você é nossa, doutora, e o seu caderno preto também.”

“Um caderno preto, não é? Um caderno preto valeria algo para você agora?”

A impaciência estreitou seus olhos. “Senhora, você não parece entender. Seu trabalho é propriedade do Departamento de Defesa estadunidense. […]

Comece bem o seu relacionamento de trabalho com o Pentágono e dê-o para mim. Agora.”

“É melhor você perguntar a Feynman, então.”

[…]

O padre Wally riu. “Feynman, a cabra?”

[...]

O texano olhou para mim. “Você se importa de me dizer porque uma cabra se interessaria por cognição quântica?”

[...] “As cabras não são exigentes quando estão com fome” (MITCHELL, 2001, p. 370, tradução nossa)55.

A partir da situação cômica, sabemos que Mo deu o caderno para uma cabra comer, tornando a protagonista indispensável ao governo e detentora do poder de estabelecer algum tipo de negociação. Além disso, assim como relatado previamente na narração, a personagem tem como um dos objetivos utilizar seus conhecimentos a fim de criar uma inteligência artificial (IA). Apesar de conter a tecnologia bélica, essa IA estará proibida de a utilizar contra a vida dos seres humanos. Assim, embora coagida a contribuir com o governo, Mo encontra uma forma de resistir e ser dissidente mesmo dentro das estruturas hegemônicas. Em outras palavras, apesar de ser punida e coagida a desenvolver tecnologias quânticas para o governo dos Estados Unidos, a personagem consegue evitar ser conivente com a violência e a opressão.

Retornando à discussão trazida por Thoreau, ainda que não sustente o uso da violência, há em seu discurso um aspecto revolucionário, no sentido de levar a questionamentos ao sistema em si. De fato, o filósofo chega a questionar o próprio regime democrático: “Será a democracia, tal como a conhecemos, o último aperfeiçoamento possível em matéria de governo?” (p. 21).

Tal indagação é, de fato, interessante, ainda mais associando-a com a sociedade contemporânea.

55The Texan feigned surprise. […] You are ours, Doctor, and so is your black book.’

‘A black book, is it? Would a black book be worth something to you now?’

Impatience narrowed his eyes. ‘Lady, you don’t seem to realise. Your work is American Defense Department property. […] Get your working relationship with the Pentagon off to a good start, and give it to me. Now.’

‘You’d better ask Feynman, then.

[…]

Father Wally laughed. ‘Feynman the goat?’

[…]

The Texan glared at me. ‘You mind telling me what a goat wants with quantum cognition?’

[…] ‘Goats aren’t fussy when theyre hungry.’”.

O ato, por meio dos grandes meios sociais, de influência do pensamento das populações, seja para qual direção ou interesse político/econômico/social, vem transformando o cenário político atual. Assim, uma ramificação do questionamento de Thoreau pode ser feita: será que nas democracias o poder é realmente do povo? Será que as escolhas dos mais altos representantes políticos são realizadas de forma consciente e a partir de informações verdadeiras? Ou são influenciadas por fake news? Dessa maneira, concordamos com Thoreau sobre a necessidade de constantes aperfeiçoamentos nos sistemas políticos, ainda mais considerando as inúmeras heterarquias mantidas nas sociedades ocidentais.

O pensamento de Thoreau, portanto, respalda-se na liberdade – e até dever – do indivíduo de decidir recusar participar de um sistema injusto e opressivo, evitando ser conivente e contribuir na manutenção dessas desigualdades. Segundo o filósofo, a permanência de um governo e de sua postura ideológica depende simplesmente da adesão ou não às regras impostas.

Isso valeria não apenas a um governo isolado, mas a todo o conjunto do sistema democrático e de suas leis, as quais também carregam injustiças.

Essas ideias não perpassam um nível de recusa violenta ou de atos físicos contra a postura da hegemonia; pelo contrário, baseiam-se em uma postura não violenta. É interessante notar como essas atitudes geram, no entanto, uma reação autoritária e violenta por parte do governo. As punições são uma materialização disso, como visto anteriormente, por meio do cerceamento da liberdade. De fato, Thoreau esclarece que suas ideias estão bem longe de um radicalismo, o qual, por outro lado, é utilizado sem parcimônia pelo Estado:

Se a alternativa for entre colocar todos os homens justos na prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará em sua escolha. Se mil homens deixassem de pagar seus impostos este ano, isso não seria uma atitude violenta e sangrenta; violento e sangrento seria pagá-los, capacitando o Estado a cometer violência e derramar sangue inocente. Esta é, com efeito, a definição de uma revolução pacífica, se tal coisa é possível (p. 13).

O autor tem a clareza de perceber a responsabilidade e a violência presente no ato de compactuar com um regime autoritário, violento e opressivo. Para Thoreau, não há como relevar certos aspectos em prol de outros vistos como positivos.

Conforme dito pelo autor, para que a desobediência civil ocorra, deve haver a defesa de uma postura não violenta, por meio de uma “revolução pacífica”. Assim, embora não haja uma menção mais explícita à criação de um movimento não violento, podemos dizer que as ideias de Thoreau foram grandes influências para futuros idealizadores desses movimentos, como o próximo autor a ser analisado: Mahatma Gandhi (1869-1948).