Para o estudo do aspecto jurídico, é viável abordarmos a condição de estrangeira de Rute. Depois da decisão de acompanhar Noemi, no diálogo de Rt 1,15-18, Rute deixa seu povo, opta por ser membro do povo de Israel, professa a fé em YHWH, assumindo a condição de “prosélita”, e expressa o desejo de permanecer definitivamente com Noemi (v.
17). Esses três elementos remetem à história de Abraão, que era um estrangeiro na terra de Canaã, um prosélito e compra um lugar na terra prometida para sepultar Sara (Gn 23). O
36 Cf. DAVIES, E. W. Inheritance rights and the hebrew levirate marriage: Part 2. VT, Leiden, v. 31, n. 3, p.
257-268, July 1981.
37 Cf. ALONSO, Le rédemption, p. 449-472.
38 Cf. VAUX, Le istituzioni (1998), p. 47-48.
39 A relação entre o nome e a descendência está presente nas seguintes citações: 1Sm 24,22; 2Sm 14,7; Is 56,5; 66,22; Jr 11,19; Sl 109,13. No judaísmo tardio a expressão “perpetuar o nome” significa “herdar a propriedade” ou ser “proprietário” (cf. BELKIN, Levirate and agnate marriage, p. 289 e WESTBROOK, Property and the family, p. 75).
40 Cf. DAVIES, E. W. Inheritance rights and the hebrew levirate marriage. VT, Leiden, v. 31, n. 2, p. 138- 144, Apr. 1981 e BELKIN, Levirate and agnate marriage, p. 293.
41 Cf. KRAMER, P. Origem e legislação do Deuteronômio: programa de uma sociedade sem empobrecidos e excluídos. São Paulo: Paulinas, 2006. p. 173-175. (Exegese).
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mesmo se diga de Jacó (Gn 50,1-14) e de José (Gn 50,25; Ex 13,19; Js 24,32). No caso de Rute, ela expressa o desejo de morar na terra prometida e de obter um título de cidadania42.
Um segundo aspecto a ser examinado é o uso dos termos
yrIk.n"
(Rt 2,10) e moabita para denominar a situação de Rute em Belém e sua origem, dado que existem vários termos para expressar a condição de estrangeiro e cada um com sua particularidade.Na literatura pós-exílica43 de Esdras e Neemias, a mulher estrangeira era vista de forma negativa e todo israelita deveria se afastar dela (Esd 10,2.10.11.14.18.44; Ne 13,26.17; cf. também Pr 2,16; 5,20; 6,24; 7,5; 23,27). Era proibido qualquer matrimônio com estrangeiras, e era imposta a separação das uniões conjugais antes contraídas com estas.
O termo
yrIk.n"
, desse modo, assume vários matizes que dependem do contexto histórico, e, também, por causa de sua polissemia. Assim, pode servir para expressar a dimensão étnica distinta dos israelitas (Dt 17,15; Jz 19,12); referir-se à pessoa que pertence a outro povo, a uma outra nacionalidade (Ex 21,8); assumir o sentido de diferente (outro, diverso, estranho), com uma carga negativa (cf. Is 28,21; Jr 2,21 e Sf 1,8), ou designar o estrangeiro como aquele passível de benevolência (cf. Dt 29,21; 2Sm 15,19; 1Rs 8, 41.43 e 2Cr 6,32.33). Em Dt 29,21.23, não só os descendentes de Israel verão e conhecerão o porquê da ira de Deus, como também os estrangeiros oriundos de terras distantes. Em 1Rs 8,41.43, o estrangeiro representa aquele que é atraído por YHWH, e lhe é relatado o que significa a majestade do Deus de Israel.Os estrangeiros que aceitavam a YHWH, os chamados “prosélitos”, tinham o direito de viver no interior da vida do povo de Israel. Essa visão positiva do estrangeiro, que adere à fé de Israel e gozar dos direitos prescritos pela lei, provavelmente, está presente na narrativa de Rt. De fato, os moabitas eram excluídos da comunidade de YHWH em Dt 23,2-5, por ter uma origem marcada pelo incesto (Gn 19,30-38) e eram vistos como um povo idólatra (Nm 25,1-5). Com essas características, era improvável uma recepção tranquila de uma moabita na comunidade de Israel, como acontece em Rt, mesmo sabendo-se que na literatura rabínica essa lei era aplicada somente aos homens, como já foi mencionado. Outra proposta seria a de considerar a narrativa de Rt anterior a Dt 23,2-5.
42 SKA, J.-L., Il libro sigillato e il libro aperto. Bologna: EDB, 2004. p. 378. (Biblica).
43 Cf. CARDELLINI, I. Stranieri ed “emigrati-residenti” in una sintesi di teologia storico-biblica. RivBib, Bologna, v. 40, n. 2, p. 129-181, apr./ magg./ giugno 1992.
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Siquans compara a condição de Elimelec em Moab com a de Rute em Belém, e apesar da ausência de informação sobre a vida do estrangeiro Elimelec e sobre o que a lei moabita prescrevia para os estrangeiros, ela ressalta que na lei de Israel, não é prescrito nenhum direito a favor dos denominados
yrIk.n"
, conforme a afirmação de Rute em 2,10, somente para orGE
e obv'AT
, porém não é aplicado a uma mulher. Dessa forma, a pergunta apontada por Siquans é: como Rute conseguiu atingir um status legalmente positivo numa sociedade judaíta? Sua resposta é que Rute, em oposição às leis deuteronômicas e às de Esdras e Neemias, foi consideradarGE
, portanto poderia usufruir de vários benefícios44, estreitando-se, assim, o paralelo entre Rute e Abraão. A única objeção a este argumento é que se precisaria confirmar se realmente havia uma distinção do ponto de vista legal entre os termos utilizados para definir a condição de estrangeiro, visto que é difícil definir com precisão a diferença entre esses termos. Contudo, não podemos negar que há um desprezo peloyrIk.n"
, nos textos legislativos no Deuteronômio (cf. Dt 14,21; 15,3; 23,20).Um segundo elemento a ser examinado são as bênçãos dirigidas a Rute. A primeira é dita por Noemi no momento que se despede de suas noras (Rt 1,8-9), na qual YHWH é invocado, e é pedida sua benevolência, à semelhança da benevolência que essas estrangeiras tiveram com os vivos e os mortos. A sogra suplica a YHWH para que lhes conceda a paz em seu futuro lar em Moab, revelando, por conseguinte, a soberania universal do Deus de Israel.
Um termo empregado nessa bênção, que perpassa a narrativa, é
ds,x,
,caracterizando a ação de Rute e de Orfa. Segundo Sakenfeld45, apesar de assumir vários significados, no geral,
ds,x,
não exprime uma ideia, mas uma ação concreta e traz em seu bojo o sentido de gratuidade. Zobel46 indica três elementos constitutivos do termo: é um ato concreto, é um conceito relacional e exprime uma ação constante. Ele demonstra, ainda, o sentido comunitário da raiz verbaldsx
, e observa-se que é empregada para expressar as relações no interior do grupo de parentesco. Esse termo é, também, atribuído ao Deus de Israel (Ex 34,6-7; Ne 9,17; Jl 2,13; Na 1,3; 9,17.31; Sl 86,15; 103,8; 118,1-4;
44 Esses benefícios estão presentes em: Dt 1,16; 5,14; 14,21.29; 24,21-29; 26,11; Ex 22,20; Lv 16,29 e Nm 35,15.
45 SAKENFELD, K. D. The meaning of hesed in the Hebrew Bible: a new inquiry. Missoula: Scholars Press, 1978. Cap. I–IV. (HSM, 17).
46 ZOBEL, H.-J.
ds,x,
[HeºseD]. In: BOTTERWECK G. J.; RINGGREN, H. (A cura di). GLAT.Brescia:Paideia, 2003. v. 3, p. 62-66.
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136; 145,8), e um dos efeitos da benevolência divina é ter salvado do extermínio a família de Lot, que é associado a Moab.
Antes do encontro noturno com Rute, Booz pronuncia uma bênção (Rt 2,12a) destinada a ela. A bênção contém frases que são usadas para exprimir a maldição que virá sobre aqueles que fazem o mal e, particularmente, são pronunciadas contra as nações (YHWH retribua o teu feito, e seja cumprida a tua recompensa da parte de YHWH, o Deus de Israel)47. Ela é empregada de forma neutra somente em Jó 34,11, e de forma positiva em Rt. O termo “recompensa” aparece na história de Jacó (Gn 29,15; 31,7.41), estabelecendo outra vez uma relação entre os patriarcas, as matriarcas e Rute. A metáfora das “asas de Deus”, em Rt 2,12c, que é frequente nos Salmos (17,8; 36,8, 57,2; 61,5; 63,8; 91,4), exprime proteção, salvação e também pode assumir um sentido cultual, que significa confiar-se à proteção de Deus. Essa proteção, porém, é dada só ao povo de Israel, nação eleita por YHWH. Uma ocorrência significativa dessa expressão é Jr 48,40, no oráculo contra Moab. Dessa forma, a frase em Rt 2,12 contrapõe-se às maldições e ao preconceito que existiam contra os moabitas.
A invocação dos dois nomes divinos (
laer"f.yI yhel{a/ hw"hy>
) nos remete a Deus como criador e redentor, acentuando sua ação salvífica na história de Israel.O reconhecimento por Booz da ação bondosa de Rute, em Rt 2,11-12, nos reporta ao chamado de Abraão em Gn 12,1. É legítimo afirmar que Rute merece ser reconhecida como pertencente ao povo de Israel, usufruindo o direito de cidadania, porque segue os passos do prosélito Abraão.
Há também duas bênçãos pronunciadas por Noemi. Na primeira, em Rt 2,19, Noemi agradece aquele que reconheceu Rute, no sentido de outorgar-lhe seus direitos e sua dignidade como pessoa, sem saber, até então, que era Booz. O que chama a atenção é que a raiz hebraica empregada, traduzida por “reconhecer”, é a mesma raiz da palavra
“estrangeiro” (
rkn ,
cf. Rt 2,10). A segunda bênção é ambígua, por não ser claro se o sujeito é YHWH ou Booz. Pelo contexto, é mais plausível optar por YHWH, que agiu com misericórdia, concedendo um “resgatador”, não só para Noemi, como também para Rute.A frase alude à história dos Patriarcas, mas, desta vez, é a história de Isaac e Rebeca (Gn 24,27). Mais uma vez, o termo
ds,x,
ocorre nessa bênção, como sendo um ato de Deus, direcionado tanto a uma israelita, Noemi, quanto à prosélita Rute.
47 A frase em hebraico é: laer"f.yI yhel{a/ hw"hy>~[ime hm'lev. %Ter>Kuf.m; yhit.W %le[\P' hw"hy> ~Lev;y>. Alguns aspectos desta frase ocorrem em 2Sm 3,39; Dt 7,9-10; Jr 25,14; 50,29 e Is 59,18.
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Em Rt 3,10, Booz proclama a grandeza da ação de Rute e a chama de “bendita do Senhor”. Ele também usa, em Rt 3,11, a expressão
lyIx; tv,ae
(“mulher de valor”) referindo-se a Rute, que é similar àquela dada a Booz em Rt 2,1. Essa expressão, além de Rt, ocorre somente duas vezes, em Pr 12,4 e 31,10, ambas relacionadas à esposa. Entre Rute e a mulher descrita em Pr 31,10-31 há várias analogias48, também quanto ao vocabulário (vv. 26.27.30). A diferença é que a mulher chamada “de valor” ou “forte”, que representa a pessoa sábia, é a figura antitética da mulher estrangeira. Em contraposição ao livro de Rute, no livro dos Provérbios a mulher estrangeira, ou o estrangeiro, não indica apenas a pessoa que pertence a outra etnia, mas é o símbolo de quem é infiel à “casa”, à“comunidade” e à tradição49.
Outra benção é pronunciada pelas testemunhas à porta da cidade e é dirigida ao casal Booz e Rute (Rt 4,12), estabelecendo um elo explícito com a história dos patriarcas (cf. Gn 24,60; 29,31-35; 30,22-24; 35,23-26 e 38,29).
As “mulheres de Belém” agradecem a Deus por ter concedido um resgatador para Noemi, a fim de sustentá-la e consolá-la. Rute é, novamente, nomeada como a nora que ama sua sogra e como alguém de grande valor (Rt 4,15).
Em quase todas as bênçãos há uma referência a Rute. Na bênção destinada a Booz, as beneficiadas são Noemi e Rute, sendo significativo o uso, pela primeira vez, por Noemi, dos pronomes pessoal e possessivo: “nós” e “nosso” (Rt 2,20). As bênçãos proferidas em cada ação benevolente, envolvendo as personagens, têm um caráter litúrgico e religioso.
A última observação a ser feita é a relação entre a história de Rute e a dos patriarcas e matriarcas. Desse modo, legalmente Rute pode ser considerada uma prosélita.