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9 E depois18YHWH falou a Moisés, para dizer: 10 fala aos filhos de Israel, e dize-lhes:
Quando vós passardes19 o Jordão à terra de Canaã, 11escolhei20 para vós cidades, para que sejam“cidades de refúgio”21para vós e o homicida fugirá para lá, aquele que feriu22
17 Assumiremos esta estrutura, mas existem outras propostas como a de Milgrom que subdivide em quatro partes: the cities of refuge (vv. 9-15); deliberate and involuntary homicide (vv. 16-23); involuntary homicide: the procedure (vv. 24-29) e supplement and peroration (vv. 30-34; cf. MILGROM, J. Numbers:
the traditional hebrew text with the new JPS translation. Philadelphia: Jewish Publication Society, 1990.
p. 291-297. [The JPS Torah Commentary]).
18 A frase inicia com o verbo rBed:y>w:, um imperfeito consecutivo, estabelecendo uma relação com a perícope anterior, por isso iniciamos com “e depois”.
19 O verbo rb[ está no particípio, a LXX traduziu com o verbo diabai,nete (presente do indicativo segunda pessoa plural), procedimento semelhante em Nm 33,51.
20 O verbo hrq na forma hiphil perfeito, neste contexto, pode ser traduzido por “escolher”, “selecionar” (cf.
hr"q' qäräh. In: ALONSO, DBHP, p. 592). Optamos por um imperativo em português. Em Js 20,7 é utilizada a raiz verbal vdq (“santificar”). Na LXX, os dois verbos, em Nm e Js, são traduzidos por diaste,llw.
21 Pode-se considerar um genitivo de finalidade, confira: JOÜON; MURAOKA, GHB, §129f .15, p. 495.
22 O verbo é da raiz hkn (ocorre em vv. 11.15-18.21(2x).24.30) e tem o sentido de ferir alguém de maneira fatal.
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uma pessoa23 involuntariamente24.12E serão para vós “cidades de refúgio”25 contra o resgatador26, para que o homicida não morra27 antes de apresentar-se diante da comunidade para o julgamento28.
13As cidades que dareis serão para vós seis “cidades de refúgio”: 14 dareis três cidades do outro lado do Jordão e dareis três cidades na terra de Canaã e serão “cidades de refúgio”. 15 Estas serão seis “cidades de refúgio”, para os filhos de Israel, para o imigrante29 e para o residente30 no meio deles, para que possa refugiar-se lá todo aquele que ferir uma pessoa involuntariamente.
4.2.1 Ordem geral: vv. 9-15
Nos vv. 9-15, é relatada a ordem dada por YHWH aos israelitas de escolherem seis
“cidades de refúgio”31, para que sirva de proteção para aquele que causou a morte de alguém de forma involuntária32, a fim de evitar que seja morto pelo “resgatador do sangue”, antes de ser julgado.
A perícope inicia com um imperfeito consecutivo,
rBed:y>w
:, estabelecendo uma unidade literária com o relato precedente, completando o que foi dito no v. 6. A ordem de YHWH, além de legitimar a instituição do~D"h; laeGO
e o sistema de “cidade de refúgio”, estabelece uma conexão com Moisés, o mediador, o intercessor do povo.A referência a YHWH nos remete à experiência exodal, visto que este nome divino é revelado a Moisés (Ex 3,13-15; 15,3 e 20,7). Inicialmente, o Tetragrama divino era associado ao auxílio de Deus para com aqueles que o adoram e confiam em sua promessa.
Posteriormente, assumiu um significado existencial em contraste com a inexistência dos ídolos (cf. Dt 4,39)33, objetivando enfatizar o monoteísmo. Esse nome divino exprime a benevolência e a misericórdia de Deus sendo, portanto, garantia de proteção e de resgate.
23 O termo é vp,n< significa também “vida”, “alma”.
24 O substantivo empregado é hg"g"v. e pode ser traduzido por “involuntariamente”, “inadvertidamente”, “sem intenção”, “acidentalmente”, por “engano”. A ideia de intencionalidade ocorre em Dt 19,4.
25 Outra tradução seria “para refugiar-se”, optamos por esta tradução, para manter o substantivo.
26 Há, na LXX, uma harmonização desta expressão com as demais ocorrências (cf. vv. 19.21.24.27), acrescentando “do sangue” (cf. avgcisteu,ontoj to. ai-ma). O termo poderia ser traduzido por “aquele que resgata”.
27 No texto samaritano o verbo utilizado é tm;Wy (“será morto”), conforme o v. 17.
28 Cf. Nm 27,2; Dt 19,17; Js 20, 6.
29 O termo rG
E
pode ser traduzido pelas palavras “forasteiro”, “peregrino”, “estrangeiro” e “hóspede”.30 O termo bv'AT pode ser traduzido por “imigrante”, “forasteiro”, “servo”, “doméstico”, “aquele que habita”.
31 O significado do termo jl'q.mi é incerto, mormente é traduzido por “refúgio” ou “asilo”. Gray afirma que provavelmente deriva da raiz jwlq (Lv 22,23), que significa “acolher”, “receber” (cf. GRAY, A critical and exegetical commentary on Numbers, p. 470).
32 A instituição das “cidades de refúgio” é atestada em outros textos bíblicos e nos documentos de outras culturas, mas a diferença está em considerá-las como lugar de proteção somente nos casos de homícidio não premeditado.
33 METTINGER, T. N. D. Buscando a Dios: significado y mensaje de los nombres divinos en la Biblia.
Córdoba: El Almendro, 1994. p. 31-64.
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Deus se faz conhecer ao revelar seu nome (YHWH). Essa revelação não é abstrata, visto que ela se dá em seu agir redentor e na constatação de sua presença salvífica (Ex 6,2.6-8).
Desse modo, o nome YHWH nos direciona a um evento específico (a experiência exodal), indica a necessidade de manter viva a memória da libertação (Jr 32,20) e serve para reanimar o povo nos períodos exílico e pós-exílico.
Independente de ter sido um ato deliberado ou acidental, o sangue da vítima deve ser resgatado por meio da morte do homicida. Em casos de homícidio involuntário, outra alternativa era o “assassino” permanecer na “cidade de refúgio”, vivendo uma espécie de
“exílio” (longe de sua casa, do grupo de parentesco, sem direito de ir e vir)34.
O julgamento deve ser feito pela
hd'[ e
35 (v. 12). O termohd'[ e
, neste contexto, pode ser interpretado como sendo uma representação legal da comunidade36, e não os anciãos, diferenciando de Dt 19,12, no qual estes têm a autoridade de prender o assassino e entregá- lo ao “resgatador do sangue”. Nestes textos são indicados os representantes legais para julgar o caso, mas não são mencionados os procedimentos para o julgamento.Em Js 20,4-6, há dois grupos distintos responsáveis pelo julgamento. Inicialmente menciona os “anciãos das cidades de refúgio”, que devem julgar, à porta da cidade, se foi um ato acidental ou não (v. 4), antes de acolher na cidade o indíviduo que provocou a morte de outra pessoa. Eles têm a responsabilidade de proteger essa pessoa contra o
“resgatador do sangue”, antes e depois do julgamento, nos casos de homicídio involuntário. No v. 6, não é claro se a pessoa permanecerá na cidade de refúgio até comparecer diante da comunidade para ser julgada novamente.
Apesar de algumas diferenças com relação às autoridades jurídicas em caso de homicídio e da responsabilidade do parente em resgatar (vindicar ou reivindicar) o sangue, é perceptível o envolvimento da comunidade (“anciãos” ou representantes da comunidade), em supervisionar o cumprimento da lei e não do grupo de parentesco. Os anciãos devem
34 A noção de “cidade de refúgio” como sendo um lugar de punição encontra-se nos escritos de Fílon e de Flávio Josefo. Nas leis tanaíticas utilizam o termo “exílio”, conforme sublinha GREENBERG, The biblical conception of asylum, p. 129. Confira também DAVIES, Numbers, p. 367.
35 O termo hd'[e é importante em Nm (1,16.18; 3,7; 4,34; 10,2-3; 13,26; 14,1-2.10.27.35-36; 15,24.33-36;
16,2-2.9.19.21-22.24.26; 17,7.10-11; 20,1-2.8.11.22.27.29; 25,7; 26,9-10; 27,2-3.14.16.19.21-22; 31,13.26- 27.43; 32,2 e 35,12.24-25) e é típico da tradição sacerdotal. Sua raiz verbal na forma nifal significa “reunir- se” e a LXX a traduziu por sunagwgh,, mas pode ser também traduzido por “conselho” e “campo de guerra”.
Este termo designa a reunião do povo num determinado culto; um grupo de homens; todos os homens com mais de 25 anos (Nm 1,2.47); um grupo de israelitas (Nm 27,21); uma “assembleia”; os “anciãos” (Jz 20,16); a comunidade” com uma organização definida, com representantes que podem agir em seu nome, com a função de chefes (Nm 1,16 e Lv 4,15) ou com poder de decisão, com autoridade no âmbito social e político (Jz 20,1.2; 1Rs 12,20 e Js 22,12.16), na esfera jurídica (Lv 24,10-16 e 15,32-26) e religiosa (Nm 20,27-29). Para o estudo do termo confira CARDELLINI, Numeri 1,1–10,10, p. 73-75.
36 Cf. ASHLEY, The book of Numbers, p. 653; DAVIES, op. cit., p. 363 e BUDD, Numbers, p. 382-383.
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assegurar a vida do homicida, contra o “resgatador do sangue”, em todo o processo do julgamento. Nessas leis, em Nm 35, o homicida não pode ser resgatado, sendo, inclusive, negada a substituição da vida de um homicida por um membro de sua família37. Apesar de ser prescrita a morte do assassino, é nítida a intenção de limitar a ação do “resgatador do sangue” e da retaliação, tanto no v. 12 como em Ex 21,23-25.
No v. 12, ocorre pela primeira vez a expressão
laeGO
(“resgatador”). Alguns biblistas38 consideram o “resgatar o sangue” uma das primeiras funções dolaeG O
. Essaprática fundamenta-se na concepção de que quando é tirada a vida de um membro do grupo de parentesco afeta todos os membros da comunidade, e toda a terra, tornando-a impura (vv. 33-34). Por isso, além de purificar a terra, o resgate do sangue restaurava aquilo que tinha sido violado39. Por conseguinte, a execução do direito de “resgatar o sangue” de um parente não era concebida como vingança, mas como uma forma de defender a integridade da família40, restaurando-a e mantendo seu equilíbrio41. O vindicar ou reivindicar estaria vinculado com a equidade42, visto que o
laeG O
resgata o sangue da vítima, que estava sob o controle de seu homicida43. Neste sentido, o “resgatador do sangue” não era culpabilizado pela morte do assassino, por ser seu direito e dever (cf. Ex 22,1; Lv 17,4; 19,16; 20,9; Dt 21,8 e Ez 18,13).Não há especificação se o resgate segue uma sequência agnática, porém constata-se que o “resgatador do sangue” é um “parente”44 (cf. Nm 35,12) e não um membro da comunidade em geral45.São escolhidas seis cidades (vv. 13-14), sendo três localizadas além do Jordão. As demais cidades serão determinadas quando o povo já estiver estabelecido na terra de Canaã. Por isso, não são mencionados os nomes destas, mas o autor informa que serão cidades pertencentes aos levitas. Essa lei cumpre a promessa presente em Ex 21,13 e
37 Cf. McKEATING, H. The development of the law on homicide in ancient Israel. VT, Leiden, v. 25, n. 1, p.
53-56, Jan. 1975.
38 Cf. SCHAEFFER, H. The social legislation of the primitive semites. New Haven: Yale University Press, 1915. p. 77. Essa temática é trabalhada por DAUBE, Studies in biblical law, p. 59-58.123-125.
39 PEDERSEN, J. P. E. Israel: its life and culture. London: Cumberlege, 1946-47. v. 1-2, p. 378.389.390.
40 GRAY, A critical and exegetical commentary on Numbers, p. 470.
41 Daube afirma que a ação do “resgatador do sangue” pode ser definida com “restauração” e “compensação”, restabelecendo-se o equilíbrio do grupo de parentesco (cf. DAUBE, Studies in biblical law, p. 123).
42 PEDERSEN, op. cit., p. 378.392-395.
43 DAUBE, op. cit., p. 124 e PHILLIPS, A. C. Ancient Israel’s criminal law: a new approach to the Decalogue. Oxford: Basil Blackwell, 1970. p. 103-104.
44 Cf. ASHLEY, The book of Numbers, p. 650-651.
45 Não há um consenso sobre esse aspecto. Segundo, Phillips o “resgatador” não pode ser identificado com um parente da vítima, mas é uma pessoa designada para tal função por um tribunal, uma assembleia, ou até poderia ser um guardião da comunidade (cf. PHILLIPS, op. cit., p. 104-105). Confira a crítica à proposta de Phillips em MAYES, A. D. H. Deuteronomy: based on the revised standard version. Grand Rapids:
Eerdmans, 1981. p. 286-287. (NCBC).
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ressalta o papel dos sacerdotes e levitas como pessoas autorizadas a administrar a justiça, por julgarem com imparcialidade. A nomeação das cidades encontra-se em Js 20,7-846, e são denominadas três em Dt 4,41-4347.
As normas apresentadas devem ser aplicadas em benefício dos israelitas, mas também dos
rGE
e dosbv'AT
(estrangeiros). Estes dois termos estão presentes em Lv 25,23.35.47, como hendíadis. Em Nm 35,15 são utilizados termos distintos, e o substantivobv'AT
ocorre só neste versículo. Essa cláusula não está presente em Ex 21,12-17, nem em Dt 19,1-13. Ela ocorre em Js 20,9 e é aplicada somente para orGE
48. O termorGE
, nos textos sacerdotais, designa o estrangeiro que é integrado na vida social e religiosa de Israel, submetido à Lei Mosaica e à circuncisão, por conseguinte pode ser considerado um prosélito. Também pode ser o estrangeiro não circunciso, totalmente excluído da vida social e religiosa. O substantivo também é empregado para nomear o israelita oriundo da diáspora, que se estabeleceu em Israel. Em Nm, é permitido ao “estrangeiro” (rGE
)participar da Páscoa (9,14), apresentar ofertas (5,14), participar do rito de purificação (19,10) e ter seus pecados perdoados quando cometidos inadvertidamente (15,26.29).
Apesar de aparecer como o último na escala social, é considerado alguém que pertence à comunidade de YHWH (9,14 e 15,29-30). Isso indica a participação do imigrante e estrangeiro na vida religiosa cultual de Israel. Essa concessão parte do princípio teológico
46 Nesta perícope, YHWH ordena a Moisés e Josué a escolha das “cidades de refúgio”. O assassino permanecerá com os anciãos da cidade até ser julgado e se realmente for um homicídio involuntário poderá residir na “cidade de refúgio” até a morte do sumo sacerdote. As “cidades de refúgio” (vv. 7-8) são: Qedesh da Galileia (nas montanhas de Neftali; Js 19,37), Siquém (montanha de Efraim; Js 24,1), Hebron (montanha de Judá; Js 10,3); e do outro lado do Jordão: Bezer (Tribo de Rúben), Ramot em Galaad (Tribo de Gad), Golan no Bashan (Tribo de Manassés). Segundo Vaux, as cidades denominadas em Js 20 são escolhidas por sua localização geográfica, contudo transparece uma relação com as cidades levíticas. As cidades de Bezer e Golan aparecem exclusivamente neste contexto. Bezer é atestada como cidade israelita na estela de Mesha. Qedesh é uma cidade santa. Siquém é santificada; é onde está a tumba de José; reporta à aliança com Josué e aos ciclos de Abraão e Jacó (cf. VAUX, Le istituzioni [1998], p. 168-169).
47 Confira PAGANINI, S. Deuteronomio: nuova versione, introduzione e commento. Milano: Paoline, 2011.
p. 155-157. (I Libri Biblici. Primo Testamento, 5).
48 O substantivo rGE é mais comum e ocorre em Gn 15,13; 23,4; Ex 2,22; 12,19; 18,3; 20,10; 22,20; 23,9.12;
Lv 16,29; 17,8.10.12.13.15; 18,26; 19,10.33.34; 20,2; 22,18; 23,22; 24,16.22; 25,23.35.47; Nm 9,14; 15,14- 16.26.29.30; 19,10; 35,15; Dt 1,16; 5,14; 10,18.19; 14,21.29; 16,11.14; 23,8; 24,14.17.19-21; 26,11-13;
27,19; 28,43; 29,10; 31,12; Js 8,33.35; 20,9; 2Sm 1,13; 1Cr 22,2; 29,15; 2Cr 2,16; 30,25; Jó 31,32; Sl 39,13; 94,6; 119,19; 146,9; Is 14,1; 27,9; Jr 7,6; 14,8; 22,3; Ez 14,7; 22,7.29; 47,22-23; Zc 7,10 e Ml 3,5.
Esse termo nos textos deuteronomistas é, mormente, citado entre os grupos vulneráveis da sociedade (órfão, pobre, viúva, cf. Dt 14,17.20-21; 27,19). É uma categoria complexa e de difícil definição. Alguns comentadores alegam que são pessoas oriundas do Reino do Norte, que fugiram para o Sul com a invasão do Império Assírio e com a queda da Samaria (2Cr 11,13-14 e 15,9), portanto justifica serem beneficiados no plano jurídico (Dt 24,14.17 e 27,19), social (Dt 14,29 e 16,11-13) e cultual (Dt 5,14; 14,21 e 31,12).
Mas, também são definidos como uma categoria social e étnica e, nesse sentido, são excluídos do culto.
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de que Israel é uma terra santa, na qual Deus habita, e para viver nesta terra é necessário ter o cuidado de não a contaminar, por isso a lei também se estende aos estrangeiros49.
O substantivo