2.2 A ética e sua aplicação na gestão
2.2.4 A gestão diante da responsabilidade ambiental
69 uma ética empresarial no desenvolvimento e na sustentabilidade de uma ordem social pode ser central. [...] Todavia, o que é preciso reconhecer em primeiro lugar é o papel primordial da ética da empresa em tornar possível a cooperação e a interação empresarial.
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A reputação, o honrar contratos, a responsabilidade social e ambiental com os seus investimentos, a preocupação com a formação de seu quadro interno tendo a consciência de sua importância cultural para a sociedade em geral, torna a empresa confiável, com a consideração dos colaboradores e clientes. Assim, toda forma de dinamismo que verse a construção destes ideais se configurará como avanço significativo no mundo corporativo.
A gestão ética da empresa não se reduz ao papel educativo e formador de cultura; as decisões tomadas e os impactos advindos de tais decisões merecerão atenção quando a questão-tema é a ética empresarial. A empresa, por possuir a face subjetiva, pode expandir sua compreensão para vida e cultura de seus colaboradores. Com sua face objetiva, tem importante tarefa na condução de projetos que foquem o cuidado com o meio ambiente onde atua. É o que se articula a seguir.
70 pode ser um meio muito importante para ampliar as liberdades dos membros de uma sociedade; porém, as liberdades das quais os indivíduos realmente desfrutam dependem também de outros fatores como os ordenamentos sociais e econômicos (por exemplo, os serviços de educação e cuidados médicos), assim como os direitos políticos e civis (por exemplo, a liberdade de participar em debates e escrutínios públicos). 107
O desenvolvimento como visto acima, possui uma concepção mais humana e criadora de sentido diante das ações da empresa e da economia em geral. Ele situa a empresa não somente em sua condição de geradora de riquezas, mas, também, em um horizonte de atuação de cuidado e respeito para com a vida e as relações socioambientais. O desenvolvimento ao mesmo tempo em que produzido pelas empresas ou governos, gera valores agregados e, por isso, submetê-lo a critérios éticos dará à sua função novos aportes significativos.
A empresa, além do investimento consciente de suas divisas, pode pautar em suas atividades a conscientização no uso dos recursos naturais, objetos de sua extração. Marzá trata da temática apontando questões relevantes ao trato desse tema. Num primeiro momento ele situa-nos na realidade dos problemas ambientais e a pouca efetividade ou interesse na resolução de tais situações. Traz à baila de forma contundente a realidade da crise ecológica a qual o mundo está submetido.
A problemática ecológica, e a consequente degradação do meio ambiente, não é um problema novo. A novidade das últimas duas décadas é a consciência de crise com a qual a relação do homem com a natureza é encarada. Com esse conceito, faz-se referência a situações em que há mais problemas que soluções, quando não é possível perceber alternativas efetivas aos problemas que surgem a cada momento e com os quais se mínguam a capacidade de agir e, por fim, a própria conservação de nossa existência. 108
Apresentada a crise, Marzá expõe uma realidade que não poderá ser negada pela empresa: a leitura de mundo sem negligenciar seu papel fundamental diante das crises ambientais que se apresentam. Há, de acordo com ele, uma liberdade de atuação da empresa que a habilita assumir responsabilidades diante do desenvolvimento econômico. As pressões sociais se dão justamente por ser detectado esse nível de atuação da empresa. Por isso
107 SEN, Ética da empresa e desenvolvimento econômico. In: CORTINA, (Org.), Construir confiança, p. 39.
108 GARCÍA-MARZÁ, Ética empresarial, p.215-216.
71 A empresa deve saber responder à consciência ecológica, hoje convertida em um aspecto essencial para sua legitimidade ou credibilidade social. Ninguém se atreve a falar de externalidades, para se referir às consequências no meio ambiente da atividade empresarial. 109
Isso mostra que o grau de sensibilidade social para tal tema está cada vez maior e a atenção por parte da empresa em dar a resposta coerente com as exigências sociais surtirá efeitos significativos em sua atividade. Marzá, portanto, vai insistir que existem razões para que a empresa pense em sua obrigação moral diante da sociedade. Segundo ele, a ideia de progresso que chega à modernidade e se consolida com a Revolução Industrial atrelando ciência e tecnologia, fez com que a relação com a natureza fosse conduzida sempre em orientação ao que o progresso permitiu perscrutar.
O resultado foi que as ideologias modernas tal como a liberal, a comunista e a socialdemocrática, balizaram sua confiança e gestação na ideia do progresso. Essa confiança no progresso entra em declínio, a partir do momento em que não se mostrou coerente para entregar o que prometeu. Diante de tal constatação,
[...], a consciência ecológica atual é um claro indício do que permaneceu de tal confiança: ninguém espera hoje, do progresso tais contribuições, porque ninguém sustenta mais tal otimismo. Não se contesta que o progresso tenha proporcionado melhoras à qualidade de vidam muito menos se discute o que é hoje, a pior ameaça existente para a sobrevivência da humanidade. Por isso a reflexão ecológica deve iniciar com a análise crítica dessa ideia de progresso, a qual esconde uma concepção simples da pessoa como um ser egoísta, que nada deve aos demais, pois só pensa em maximizar seus próprios interesses, sempre definidos a partir de valores econômicos, qualificáveis em propriedades, rendas e capitais. 110
Júnior111 abordando fatores intrinsecamente ligados ao meio ambiente com leitura social aponta que tratar do meio ambiente é fugir de reducionismos que mascaram a realidade e perpetuam as questões problemáticas que surgem deste debate. Para ele, tratar de meio ambiente é considerar a justiça e relacionamentos
109 GARCÍA-MARZÁ, Ética empresarial, p. 216.
110 GARCÍA-MARZÁ, Ética empresarial, p. 218.
111 JÚNIOR, A dimensão socioestrutural do reinado de Deus, p.146.
72 sociais; é discutir os problemas para além da ―conservação do meio‖ transcendendo- os em sua abordagem.
Na verdade a natureza só se torna problema na trama das relações sociais. ―A degradação está intimamente relacionada aos usos e os usos são sociais‖. De modo que não faz sentido (se é que na prática é possível) dissociar a natureza da sociedade quando se trata de problemas ambientais. [...] O que é problemático e precisa ser redefinido não é, portanto, o caráter social dos problemas ambientais, mas as formas sociais de uso e a apropriação dos bens naturais. Estas, sim, são emblemáticas e, na atualidade, revelam-se como socialmente injustas e ambientalmente insustentáveis. 112
Os dados apresentados acima mostram a responsabilidade socioambiental na qual a empresa está envolvida. Diante de tal fato, a empresa que optar por experienciar uma postura ética com relação às suas atividades no meio ambiente comprometeria sua atividade econômica?
García-Marzá insiste que ―o compromisso ecológico não sofre pelas dificuldades de concreção, encontradas nos demais âmbitos da responsabilidade.
No entanto ele se depara, de forma mais direta, com o problema da integração entre ética e benefício 113‖. Com isso reforça que
A empresa desempenha um papel essencial na proteção e melhora do meio ambiente: como aplicadores de capital (participando em organizações ecologicamente saudáveis); como produtores (reduzindo a contaminação); como clientes (exigindo essa aposta a seus provedores); como formadores de opinião (aproveitando as organizações empresariais, etc). 114
Desse modo, cada vez mais se exigirá da empresa a sua responsabilidade socioambiental, o que configura sua obrigação moral diante da sociedade e um aceite de sua vocação para além do negócio e do investimento de seu capital. Por isso mesmo, mais que uma obrigação legal, a empresa pode situar- se diante de tal contexto com valores que contribuam para melhoria da sociedade e do meio ambiente dando-lhes novos sentidos.
A confiança poderá ser o caminho que unirá a gestão e os colaboradores na direção de um projeto de respeito e crescimento mútuos. O gestor e colaboradores podem empenhar-se nesta construção resguardando aspectos
112 JÚNIOR, A dimensão socioestrutural do reinado de Deus, p.146.
113 GARCÍA-MARZÁ, Ética empresarial, p.226.
114 GARCÍA-MARZÁ, Ética empresarial, p. 226.
73 fundamentais para a construção tal relação. Nos tópicos posteriores será verificada a gestão diante dos colaboradores e os caminhos possíveis a serem trilhados na consecução de ações práticas dentro da empresa.