1.8 O Espírito Santo
1.8.2 A identidade do Espírito Santo
criadas. A paternidade de Deus no Espírito com relação a Jesus se constitui a fonte de sua atividade com relação ao mundo e com relação a Israel.
Deus-Pai não é outro diverso daquele do Antigo Testamento e o Esp írito no qual Deus gera Jesus no mundo não é diferente daquele em quem Deus cria todas as coisas. Reconhecia-se desde então em Deus o Pai de Israel e o Pai da criação; mas daqui para frente sabe-se que a fonte de seu agir sobre o mundo e em Israel está na paternidade com relação a Cristo. Soube-se sempre que o Espírito é a operação do poder divino, mas se ignorava que toda atividade de Deus no Espírito tem sua origem na geração do Filho230.
No modo como Deus atua em Jesus no Espírito revela-se a identidade do Espírito. Nele Deus criou a humanidade e fez aliança com Israel. Mas Deus não fez nada que extrapolasse sua obra primordial, a geração do Filho. Embora Deus pudesse não criar, porque nele não há necessidade, mas pura liberdade, ao criar e eleger um povo, não o faz fora da geração do Filho.
Espírito é abertura e doação. “Como representar uma doação subsistente”235? Para Durrwell, a Bíblia nunca fala de ação de Deus sobre o Espírito. Ele não é gerado, nem revelado, nem encarnado. Não é autor, nem efeito, ele é a operação, aquele por quem Deus gera, se revela e se encarna. Por isso a teologia afirma que ele procede do Pai.
Emana como uma ação. Mas como conceber uma pessoa que é ação? “Ele é a graça pela qual Deus é gracioso, a salvação pela qual Deus é salvador, é o poder divino em sua atividade”236.
Ao identificar o Espírito com o poder no qual Deus faz todas as coisas, Durrwell chega a uma conclusão: “todos os atributos de Deus são hipostasiados no Espírito, que é Deus mesmo em sua profundidade”237. O Espírito é a glória, a santidade, o amor e a vida. Em Deus há as pessoas divinas e a natureza de Deus. Distinção necessária para a razão, mas a Escritura, mesmo admitindo esta distinção, embora o termo natureza só apareça num escrito tardio do Novo Testamento (cf. 2Pd 1,4), por influência do helenismo, atribui ao Espírito Santo o que a razão atribui à natureza. Não que se possa identificar a natureza divina com o Espírito Santo, mas “tudo o que contém a noção de natureza divina se encontra hipostasiado no Espírito”238. Dizer que Jesus é Deus porque possui a natureza divina está correto, mas o Novo Testamento vê em Jesus o homem do Espírito, nascido de Deus pelo Espírito (cf. Lc 1,35). Espírito que se identifica com o poder de Deus em ação. Jamais o Espírito se apresenta como o efeito de uma ação de Deus, ele se identifica com esta ação.
Na páscoa, em que o mistério trin itário se realiza plenamente no mundo e se revela, a ação ressuscitante pertence ao Pai que age sobre o Filho; o Espírito é o poder da ressurreição (cf. Rm 8,11). O Espírito não é glorificador, nem o que é glorificado, mas a g lorificação do Ressuscitado239.
O Espírito é, portanto, “o poder criador de Deus”240.
Definindo o Espírito Santo como o poder de Deus hispostasiado, por quem ele realiza todas as suas obras, Durrwell conclui:
Se é verdade que a ação de Deus em sua onipotência constitui um traço hipostasiado do Espírito, se, além disto, é certo que o Pai não tem senão uma
235 DURRW ELL, L‟Esprit Saint de Dieu, p. 13.
236 DURRW ELL, L‟Esprit Saint de Dieu, p. 13.
237 DURRW ELL, L‟Esprit Saint de Dieu, p. 32. Sobre o Espírito Santo na teologia de Durrwell, Tremb lay afirma: “Deus é santo, onipotente, vida, etc. Ora, o Espírito Santo é, segundo a Escritura, o Espírito de santidade, o Espírito de onipotência, o Espírito de vida, etc. Todas as perfeições divinas são personificadas, hipostasiadas nele”. (TREMBLA Y, François -Xav ier Durrwell, p. 178).
238 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 36.
239 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 23.
240 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 23.
ação, pela qual ele é o Deus Pai, uma conclusão se impõe: o Espírito Santo é, em pessoa, este poder gerador. Enu merando as três pessoas, pode-se dar ao Espírito u m no me trinitário, que corresponde ao do Pai e do Filho: em Deus há o Genitor, o Gerado e a Geração. Tanto o Filho como o Espírito procedem do Pai em sua paternidade, um é o gerado, o outro a geração241.
Santo Agostinho diz que eles são três: “o Amante, o Amado e o Amor”242. Para Durrwell, eles também são três: “um Genitor, um Gerado e a Geração, que é o Espírito Santo”243. Nosso autor tem consciência que definir o Espírito como geração não é comum na teologia244. Mas, para ele, a Escritura mostra o Espírito como o agir onipotente de Deus, em quem são feitas todas as suas obras. Se todas as obras divinas acontecem no Espírito, a obra de Deus por excelência, a geração do Filho, não poderia se dar fora do Espírito245. No poder do Espírito Jesus é gerado no seio de Maria, bem como na ressurreição, porque também “no mistério pascal eles são três: o Pai que ressuscita, o Filho ressuscitado e a ressurreição, ou seja, o Espírito, que é poder da ressurreição”246. O poder gerador que é o Espírito no devir histórico de Jesus exprime, na economia, o papel do Espírito no seio da Trindade.
O Espírito, que é a força operante de Deus na história, “poder hipostasiado”247, é também amor, “amor hipostasiado”248. Os escritos paulinos, como se mostrou, relacionam o Espírito com a caridade de Deus, ainda que não os identifique (cf. Rm 5,5). Portanto, “se é verdade que o Espírito é a operação do Pai e que ele é amor, pode-se concluir que o Pai gera amando”249. O Pai realiza todas as suas obras no amor, sobretudo sua obra por excelência, a geração do Filho. O Pai gera o Filho no
241 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 24. O cursivo é do autor. Em francês, a frase está assim:
“En Dieu, il y a le Géniteur, l‟Engendré et l‟Engendrement. Le Fils et l‟Esprit procèdent tous les deux du Père en sa paternité: l‟un est engendré, l‟autre est l‟engendrement”.
242 SANTO A GOSTINHO, Tratado sobre la Santíssima Trinidad, Madri: BAC, 1956, p. 535.
243 DURRW ELL, O Pai, p. 128.
244 Cf. DURRWELL, O Pai p. 128. Tal definição foi criticada por Iazzetta, segundo o qual ao identificar o Espírito com u ma ação, Durrwell estaria enfraquecendo o Espírito Santo como individualidade hipostática. Cf. IAZZETTA, Lo Sp irito Santo, “dono eterno”, p. 94.
245 Co mo Durrwell faz do axio ma trinitário de Rahner a regra de ouro de sua teologia, ele conclui que se o Espírito se mostra Espírito de geração na economia da salvação, tanto no ato inaugural da encarnação como na ressurreição, isto está conforme co m o que ele é no seio da Trindade. Portanto, o Espírito é na economia o que é na teologia: poder de geração. Cf. RÉMY, Une théologie pascal, p. 735. Para Galot, a idéia da geração eterna do Filho pelo Espírito não é aceitável, pois o papel do Espírito é apenas o de man ifestar na ordem das realidades humanas o mistério da Trindade imanente, no qual o Filho é gerado pelo Pai, sem a intervenção do Espírito, que procede do Pai e do Filho. Cf. GA LTOT, J. Esprit Saint, personne de communion. Saint-Maur: Parole et Silence, 1997. p. 65.
246 DURRW ELL, F. –X. Le Géniteur, l‟Engendré et l‟Engendrement. Communautés et Liturgies, Ottignies, p. 185, 1987.
247 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 32.
248 DURRW ELL, F. –X. L‟Esprit du Père et du Fils, p. 32. João Paulo II afirma que o Espírito Santo é, em Deus, “amor essencial” (DVi 10).
249
Espírito, amando-o. “O Pai e o Filho são tais no Espírito Santo: uma pessoa geradora e uma pessoa filial. Eles são personalizados no amor: Pai no amor, Filho no amor”250. A geração por amor parece mais correta teologicamente do que a geração por inteligência, como quer uma opinião muito recorrente na teologia latina251. O amor, para Durrwell, não é o que une o Pai e o Filho, sendo o elo de amor entre ambos, como comumente se admite252, mas a própria geração. Geração no amor e geração no Espírito coincidem.
Como geração, o Espírito não se encontra depois do Filho, mas entre o Pai e o Filho, num movimento de fluxo e refluxo, pelo qual o Pai gera o Filho e o Filho é gerado253. O Espírito é o Espírito do Pai em sua paternidade e do Filho em sua filiação.
O Espírito é amo r, ao mes mo tempo doação de si ao Pai e doação de si ao Filho; no primeiro, u m amor que se dá gerando; no segundo, um amor que se dá acolhendo a vontade do Pai. O Espírito Santo é flu xo e reflu xo , amor único em seu único movimento de doação de si e de acolhida do outro.
Espírito ao mesmo tempo de paternidade e de filiação, inconcebível sem a participação do Pai e do Filho em seu flu ir, fluindo e agindo no Pai e no Filho segundo a natureza de cada um254.
O fluxo e refluxo se manifestam não só na Trindade, mas em toda obra da criação e da salvação, porque o Espírito atrai e reconduz a Deus os seres que Deus cria para fora de si no Espírito.
O Espírito Santo é o Espírito do Pai (cf. Jo 15,26), pois na geração, no Espírito Santo, o Pai é o que é, a pessoa paternal e primeira. “A natureza do Pai está nesta geração infinita”255. Durrwell cita Mestre Eckhart: “a aspiração suprema do Pai é a de gerar”256. O Espírito Santo não se separa do ser paternal do Pai, enquanto a geração
250 DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 97.
251 Cf. DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 34.
252Segundo Kasper, “a interpretação do Espírito Santo como Amo r recíp roco entre Pai e Filho representa um elemento essencial da pneumatologia latina, co mo fo i impostada, sobretudo por Agostinho” (Cf.
KASPER, Il Dio di Gesù Cristo, p. 289). Cf. BOFF, A Trindade e a sociedade, p. 231.
253 Para Durrwell, só pensando o Espírito Santo no início e no fim na Trindade imanente se leva em conta a pericorese trin itária, segunda a qual as pessoas na Trindade se interpenetram mutuamente. O mistério da pericorese constitui um princípio fundamental para a teologia de Durrwell. Segundo o autor francês, a teologia grega afirma que o Pai gera o Filho e, de outra, espira o Espírito, portanto não liga a geração do Filho com o surgimento do Espírito. Mesmo quando alguns teólog os gregos admitem o que o Pai espira o Espírito através do Filho, a ligação entre a geração do Filho e o surgimento do Espírito não aparece claramente. A teologia latina, por sua vez, segunda a qual o Espírito procede do Pai e do Filho co mo de um princíp io indiferenciado, não exige ligação do Filho com o Espírito na Trindade imanente, porque o Espírito não surge do Pai em sua paternidade e do Filho em sua filiação, mas de uma mesma natureza divina. A teologia de Durrwell busca corrigir as falhas que ele detecta na teologia clássica da Trindad e.
Cf. DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 78. Quanto à doutrina da pericorese, Pastor a define “como a comunhão e compenetração eterna e inseparável (pericorese) na vida imanente (circu minsessão) e no plano da história salutis (circu mincessão)” (PASTOR, “Principiu m totius Deitatis”, p. 287).
254 DURRW ELL, O Pai, p. 191.
255 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 48.
256 Cf. DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 124.
constitui o ser do Pai. Mas o Espírito é também Espírito do Filho (cf. Gl 4,6; Fl 1,19;
2Cor 3,17). O Filho o possui na mesma medida que o Pai; de outra maneira a plenitude da divindade não habitaria nele257. Tudo o que é do Pai é igualmente do Filho (cf. Jo 17,10). No Espírito Jesus é gerado, “mais do que um companheiro inseparável do qual fala Basílio, trata-se de uma total impregnação, de uma unção do ser”258. Mas o Filho possui o Espírito de modo diferente do Pai, o Pai é a fonte do Espírito, o Filho o recebe.
O Espírito está no início e no fim, no Pai que gera e no Filho que é gerado.
Durrwell, na sua teologia do Espírito Santo, faz uma passagem clara da economia para a teologia259. Se na história da salvação Deus realiza tudo no Espírito, no mesmo Espírito se encontra a realização da obra específica de Deus, a paternidade. Por isso o Pai gera seu Filho no Espírito Santo, não só no mundo, na encarnação e na ressurreição, mas desde toda a eternidade. Jesus é, desde sempre, o Filho do Pai no Espírito. O Espírito é, portanto, o seio de Deus, o útero260 no qual o Filho é gerado. Para Durrwell, a correlação entre a Trindade econômica e a imanente constitui-se como o pressuposto básico da reflexão teológica. Uma afirmação de ordem temporal sobre a Trindade remete necessariamente à eternidade da vida intradivina.
257 Também a afirmação de que o Espírito Santo é Espírito do Pai e do Filho encontra -se no Magistério (DVi 14).
258 DURRW ELL, L‟Esprit du Père et du Fils, p. 54. O cursivo é do autor.
259 Ladaria alerta mu itas vezes para o perigo desta passagem. Segundo ele, “o princípio da correspondência da Trindade econômica com a Trindade imanente é de aplica ção sempre difícil”
(LADARIA, La Trinidad, misterio de comunión. Salamanca: Secretariado Trin itario, 2007. p. 202).
260 A metáfora do Espírito Santo como útero de Deus, segundo Iazzetta, não é feliz, porque pode dar margem a uma concepção banalizante. “O mis tério divino se situa acima das imp ressões do sentido e das funções orgânicas das criaturas humanas”. Cf. IAZZETTA, Lo Spirito Santo, “dono eterno”, p. 95. Mas a metáfora do útero encontra-se na Tradição, pois foi afirmado no XI Sínodo de Toledo: “Nec enim de nihilo, neque de aliqua alia substancia, sed de Patris utero, id est, de substancia eius idem Filius genitus vel natus esse credentus est”. “De fato, devemos crer que o Filho não foi gerado nem do nada, nem de qualquer outra substância, mas do seio (útero) do Pai, isto é, de sua substância” (DH 526). Neste caso o útero é identificado com a substância, não com o Espírito, da qual o Pai gera o Filho, mas usa -se a mesma metáfora do útero, do que se conclui que a metáfora de Durrwell parece menos infeliz do que pensa
Durrwell tem consciência do problema que sua passagem da economia à teologia levanta261:
Esta visão da Trindade pode suscitar diversas objeções. Primeiramente porque a ordem tradicional parece perturbada. Não se situa o Espírito entre o Pai e o Filho? Ele é mes mo posto no início, u ma vez que se declara que o Pai gera no Espírito. A esta questão convém responder: não é necessário fazer do Espírito a pessoa última, que seria um impasse para o movimento trinitário, porque o Espírito seria estéril, já que dele nada sai, uma vez que o Pai gera e o Filho, junto com o Pai, exp ira o Espírito262.
Com sua teologia do Espírito, Durrwell pensa resolver o problema da esterilidade do Espírito na Trindade, pois, se o espírito não participa da geração do Filho, haveria margem para se pensar a relação do Filho com o Pai sem o Espírito.
261 Este problema, que se situa no nível da passagem da economia à teologia, é longamente tratado por Ladaria, que se mostra favorável à pneumatologia de Durrwell, quanto à economia. Discorda, porém, que o Espírito seja o “o amor hipostasiado”, prefere ver o Espírito como o amor que une os dois e é fruto deste amor, co mo afirma a tradição. Segundo Ladaria, Durrwell muda a taxis trinitária ao afimar a geração eterna do Filho no Espírito. Se por u m lado a intuição de Durrwell é válida, por não fazer do Espírito Santo um apêndice do Pai e do Filho, por outro faz-se necessário vê-lo unido ao Pai e ao Filho, mas sem mudar a taxis trinitária. Ao defin ir o Espírito como geração na Trindade imanente, Durrwell acaba confundindo espírito com natureza divina, poder no qual o Pai gera. Fica esquecido o Espírito Santo como terceiro na Trindade que, segundo a tradição, é o amor do Pai e do Filho no qual os três se unem. Durrwell estaria, co mo outros autores, propondo uma “inversão trinitária”, u m “Spirituque”, na med ida em que o Filho procederia do Pai e do Espírito. Quanto à geração de Jesus na ressurreição pelo Espírito, é u m dado bíblico, mas tal geração se compreende desde a economia, o que não significa geração eterna no Espírito antes da encarnação. Portanto, “a base econômica para a idéia da geração eterna no Espírito não parece totalmente evidente”, o que justifica sua opinião, segundo a qual a passagem das categorias da Trindade econômica às da Trindade imanente não é sempre evidente. A geração do Filho no Espírito desde sempre também não encontra apoio seguro na tradição. Ladaria, na sua teologia trinitária, mantém-se fiel à taxis trinitária, como v ista pela tradição. O Pai gera o Filho e ambos espiram o Espírito. Quanto à esterilidade do Espírito na Trindade, Ladaria pensa resolver com a doutrina clássica do Espírito Santo como amo r do Pai e do Filho. Cf. LA DARIA, La Trinidad Misterio de comnunión, p. 205-236. Galot faz a mesma crítica a Du rrwell, embora bem menos elaborada. Cf.
GA LOT, Nuestro Padre, p. 56. Também Dupuis, apesar de reconhecer os insigts de Durrwell, se pergunta se ele não estaria mudando a taxis trin itária. Cf. DUPUIS, J. Recension to “Holy Spirit. An essay in Biblical Theology”. Gregorianum, Ro ma, n. 69, p. 133-134). A questão, porém, da participação do Espírito na geração do Filho está longe de ser resolvida. Congar afirma que “se se transpusesse para a Trindade imanente todos os dados da economia, seria necessário dizer que o Filho procede „a Patre Spirituque‟”. Portanto, para o grande teólogo, há suficiente base econômica para se pensar a geração eterna do Filho no Espírito, embora ele não a afirme. Cf. CONGA R, Y. Je crois en l’Esprit Saint III: le fleuve de vie coule en Orient et en Occident. Paris: Cerf, 1980. p. 43. Boff ace ita, sem mais, o
„Spirituque‟, não a partir do que diz Durrwell, mas do que diz Evdokimov, segundo o qual o Filho, ao ser gerado, recebe do Pai o Espírito, que permanece semp re co m ele. O Pai gera o Filho dando -lhe o Espírito.
O Filho é gerado ex Patre Spirituque. Segundo Boff, partindo das idéias de Evidokimov, “o Pai gera o Filho com a participação do Espírito Santo e espira o Espírito com a participação do Filho”. Tal pensamente aproxima -se do pensamento de Durrwell. Para Boff se está diante de um pensamento
“rigorasamente trinitário”. Além disto, esta é “a direção que torna possível um encontro ecumênico fecundo, ultrapassando as polêmicas do passado” (BOFF, A Trindade e a sociedade, p. 249 -250). O alcance ecumênico da peneumatologia de Durrwell fo i tratado na tese doutoral de Iazzetta. Cf.
IAZZETTA, Lo Spirito Santo, “dono eterno”, p. 85-88. E também por Remy . Cf. REMY, Une théologie pascal, p. 731. No contexto da pesquisa não seria o caso de investigar a questão do alcance ecumênico da teologia trinitária de Durrwell, nem de aprofundá-la. Mas, ao se confrontar as opiniões sobre a participação do Espírito na geração eterna do Filho, se constata que o debate está aberto e que as idéias de Durrwell podem mostrar-se ainda muito fecundas e importantes para o debate ecumênico sobre a questão.
Suas intuições são válidas e inteligentes.
262 DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 98-99.
Durrwell, em certo sentido, muda a taxis trinitária263, o que pode ser problemático, mas a teologia tradicional tem seu limite, o de apresentar o Espírito como produto passivo do Pai e do Filho, estéril, portanto, na Trindade imanente, em oposição ao seu papel ativo na economia da salvação264.
A intuição do teólogo francês mostra-se, portanto, justa. Uma vez que a teologia latina pensou a participação do Filho na processão do Espírito265, porque não se poderia pensar a participação do Espírito na geração do Filho? Segundo Durrwell, o Espírito, na Trindade imante, está no início e no fim. “O Espírito está no início e no termo: o Pai gera nele, o Filho é gerado nele. Ele não vem depois, mas é co-eterno em seu surgimento, com o Pai em sua própria paternidade e com o Filho na sua própria filiação”266. O Espírito Santo seria, portanto, a “fecundidade de Deus”267. Muitas vezes, a teologia privilegia a linguagem conceitual, mas a Escritura prefere utilizar metáforas e imagens. Para falar do Espírito, por exemplo, diz sopro, água viva, fogo. Buscar explicar a identidade do Espírito com definições conceituais significa deixá-lo escapar.
Mesmo a taxis trinitária encontra sua melhor expressão nas imagens:
O Filho é como uma palavra pronunciada pelo Pai, enquanto o Espírito é o sopro que carrega esta palavra, a voz que a torna audível. A palavra é dita, compreensível, o Filho é a verdade revelada; o Espírito é o não dito, Deus - mistério, parecido co m o sopro e a voz que não são objeto de compreensão268.
Durrwell prefere a metáfora para definir o Espírito. Por outro lado, para justificar sua posição, afirma que nem a Tradição e nem a Escritura desconhecem o
263 Durrwell, no entanto, reconhece a lógica da táxis trin itária tradicional: “na enumeração das Pessoas, o Espírito é, co mu mente, nomeado em último lugar. A justo título, porque a palavra „Pai‟ evoca imediatamente a palavra „Filho‟ e so mente depois o „Espírito‟ no qual o Filho é gerado” (DURRW ELL, Le Géniteur, l‟Engrendré, l‟Engendrement, p. 195). Entretanto, para o teólogo, “a terceira pessoa não é a última, co mo é habitualmente apresentada, vindo depois das outras, termo (e impasse) do movimento trinitário. O Pai é o início, o Filho o termo, o mistério é bipolar, o do doador e o daquele que infinitamente recebe. O Espírito está no início e no fim, tudo se realiza nele. Não é a pessoa infecunda, como muitas vezes se diz, u ma vez que nenhuma outra procede dele: ele é a fecunidade” (DURRW ELL, F. –X. La Trinité révélée en Jésus-Christ. Jésus Caritas, Paris, n. 250, p. 50, 1993.
264Rémy aceita a novidade da pneumatologia de Durrwell, porque a doutrina tradicional afirma ser a geração do Filho de tipo intelectual, no que ela se engana, por pensá-la independentemente do amor fecundo que é o Espírito. Cf. RÉMY, Une théologie pascal, p. 738-739.
265 Para a questão do Filioque, doutrina latina segunda a qual o Espírito procede do Pai e do Filho ou do Pai pelo Filho, ver o que diz Kasper. Cf. KASPER, Il Dio di Gesù Cristo, p. 288-307. Sobre a resposta de Durrwell ao problema do Filioque, ver o excursus de Márcio Santos em sua tese. Cf. SANTOS, Pesquisa teológica, p. 56-57.
266 DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 98.
267 DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 98.
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