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O próprio Durrwell faz uma analogia6 da oração com o mistério da redenção. Para ele, “a teologia da redenção encontra na teologia da oração o quadro de uma síntese coerente. A oração diz respeito à pessoa em sua relação com Deus, ela a põe em comunhão; no mistério da redenção, tudo se refere à comunhão do Filho com o Pai”7. Durrwell chega mesmo a se perguntar: “Em vez de recorrer à analogia da justiça humana, tão diferente da justiça divina, por que a teologia da redenção não poderia se deixar guiar pela teologia da oração”8? Para Durrwell, a oração manifesta a busca de comunhão com Deus, e todo o mistério da redenção se entende a partir da comunhão que se realiza entre o Filho e o Pai no Espírito. A comunhão9 revela-se o eixo da teologia da redenção. O teólogo encontra na oração o “quadro de uma síntese coerente”10 para a teologia da redenção, porque nesta está subjacente a idéia de comunhão. A vida de Jesus só se entende à luz desta busca de comunhão q ue se consuma na páscoa. A vida e a morte de Jesus são vistas por nosso autor a partir da idéia da comunhão, cuja teologia se encontra totalmente ausente no que ele chama de

6 O termo analogia significa, nesse contexto, apro ximação. A oração permite uma apro ximação ao mistério da redenção. Teologicamente o termo analogia é co mplexo e conheceu, ao longo da história, vários significados. Mas uma boa definição se encontra no dicionário crítico de teologia: “na teologia, analogia designa a distância entre o conhecimento que o homem tem de Deus e o próprio Deus. Exprime duas exigências: respeitar a transcendência absoluta de Deus, inefável e incognoscível e, ao mes mo tempo, conservar no discurso da fé um mínimo de pertinência intelig ível”. Cf. BOULNOIS, O. Anologia.

In: LACOSTE, J. – Y (org.). Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004. p. 120- 123.

7 DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 49.

8 DURRW ELL, F. –X. Cristo nossa páscoa. Aparecida: Santuário, 2006. p. 70. Apesar de se utilizar a tradução brasileira desta obra, a edição francesa foi constantemente consultada, em vista, inclusive, da verificação da qualidade da tradução. Cf. DURRW ELL, F. –X. Christ notre pâque. Montrouge: Nouvelle cité, 2000.

9 O termo co munhão, assim co mo o termo analogia, pode ter vários significados, dependendo, inclusive, do contexto teológico no qual é utilizado. A h istórica da semântica do termo é co mp lexa. Em Durrwell, que não o exp lica detalhadamente, co munhão significa a participação numa mesma realidade que cria unidade. Ajuda a compreender o que Durrwell entende por comunhão o que diz Tillard, no seu verbete no dicionário crítico de teologia. O teólogo faz um estudo breve, mas profundo, do termo e seus possíveis significado. No que se refere à Trindade, afirma Tillard: “Há u ma co munhão trinitária, porque as três pessoas são o único Deus na comunhão de relações que as distinguem. Deus é a comunhão de três seres relacionais que só existem, cada u m, em função dos outros”. Deus é, portanto, uma „unidade diferenciada‟

ou uma „diferenciação unida‟. A comunhão está na profunda união de diferenças, na qual um participa da realidade do outro. Cf. TILLA RD, J.-M, R. Co munhão. In: LACOSTE, J. – Y (org.). Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004, p. 397-406. A redenção, para Durrwell, coincide co m a realização, na história, da comunhão trinitária. O Filho realiza, enquanto encarnado, sua comunhão com o Pai no Espírito. A co munhão do cristão com Cristo será estuda no terceiro capítulo.

10 DURRWELL, Jésus Fils de Dieu, p. 49. Apesar de encontrar na oração “o quadro de uma síntese coerente” para a teologia da redenção, não é esse o caminho que o próprio Durrwell faz. Ao pensar a oração a partir de sua teologia do mistério pascal, ele afirma que ela oferece u m horizonte de

teologia jurídica da redenção ou simplesmente teologia jurídica. Com esses dois termos, Durrwell critica não uma determinada teologia jurídica, mas todas as categorias jurídicas utilizadas na teologia da redenção, mesmo se, entre elas, possa haver certas diferenças11.

A crítica de Durrwell à teologia jurídica da redenção está tão prese nte em sua obra, o que não pode passar despercebida ao estudioso de seu pensamento. No seu primeiro livro, sobre a ressurreição de Jesus, só indiretamente faz alusão a essas categorias. Somente no prefácio da sétima edição dessa obra fundamental aparece uma crítica mais elaborada.

Mais claramente ainda que nas edições precedentes, nos esforçamos para mostrar o quanto às noções de aquisição de méritos pelo Cristo e sua aplicação, se nós os entendemos num sentido jurídico, responde pouco ao pensamento profundo da Escritura. Parece que as categorias jurídicas tantas vezes utilizadas na teologia da redenção – e por conseqüência nas outras áreas da teologia – sejam as menos aptas para conter a realidade viva da redenção, as menos capazes de apresentar uma síntes e dos elementos do mistério12.

O desejo de construir uma nova teologia da redenção o motiva a escrever seu primeiro livro. Mas a crítica à teologia jurídica da redenção vai se aprofundando pouco a pouco, e Durrwell se afasta cada vez mais dos pressupostos dessa teologia.

A primeira crítica mais elaborada aparece no seu livro Le mystère pascal, source de l’apostolat. Segundo o teólogo francês,

o pensamento ocidental sempre esteve inclinado a explorar o aspecto jurídico da redenção, tal qual se apresenta em certas imagens da Escritura, a do resgate (cf. Mt 20,28), realizado à custa de um alto preço (cf. 1Cor 6,20;

7,23) – a palavra redenção significa, aliás, resgate. Mas esta explo ração teológica de um vocabulário jurídico conferia u m valor absoluto ao que não

11 De fato, o que Durrwell chama de teoria juríd ica da redenção encontrou, n os teólogos que a defenderam e a defendem, nuances diferentes, que não seria o caso de aprofundar aqui. Satisfação, reparação, substituição, preço pago, satisfação vicária, mérito adquirido, substituição penal são expressões que Durrwell inclu i no que chama de teologia juríd ica da redenção.

12 DURRW ELL, F. – X. La résurrection de Jésus, mystère de salut. Étude biblique. Paris: Xavier Mappus, 1963, 7.ed, p. 9.

quer ser senão uma comparação, a ilustração através das realidades humanas de uma verdade maior13.

Tal crítica ecoa em quase todas as suas obras posteriores14, como um refrão ao qual o autor volta sempre para demonstrar a novidade de sua teologia da redenção.

No seu livro O Pai, Deus em seu mistério, ele resume a teologia jurídica:

Deus foi ofendido, sua justiça divina foi lesada. A ofensa exigia reparação , devia ser dada à justiça uma „satisfação‟ adequada, isto é, infinita. Capaz disso foi somente Cristo, homem-Deus, do qual toda ação tinha um valor infinito. Ele lançou na balança um peso infinito, o de seu sangue, obtendo assim que Deus se reconciliasse com os homens15.

Durrwell denuncia muitas lacunas no que chama de teologia jurídica da redenção. A primeira e mais evidente delas se encontra na ausência da ressurreição de Jesus, considerada apenas um epílogo ou conseqüência, mas que não interfere no

13 DURRW ELL, Le mystère pascal, source de l’apostolat. Paris: Ouvrière, 1970. p. 54-55. O que Durrwell chama de teologia juríd ica da redenção corresponde, em grande parte, à doutrina anselmiana da redenção, que o santo desenvolve no seu famoso “Cur Deus homo”. Cf. SANTO ANSELMO, Cur Deus homo. Por que Deus se fez homem? São Pau lo: Novo Século, 2003. Durrwell não tem, no entanto, o propósito de polemizar co m Anselmo, que, aliás, nem é citado por ele. Porém, toda vez que Durrwell faz um resumo da teologia jurídica, está em jogo o esquema básico de Anselmo que, mes mo tendo recebido interpretações diversas ao longo dos séculos, manteve o seu núcleo fundamental. Seria impossível fazer aqui um resumo de todas as controvérsias teológicas ligadas à teoria de Anselmo. As opiniões sobre sua doutrina da redenção entre os teólogos são váriadas e divergentes. Para Queiruga, por exemp lo, as tentativas posteriores de tornar as idéias de Anselmo aceitáveis aumentaram ainda mais o incômodo de sua doutrina, porque Deus, em tal teologia, não aparece como Pai amo roso e gratuito, mas como juiz implacável e até mesquinho. Queiruga faz u ma das mais duras críticas à teoria anselmiana da redenção, sobretudo como foi interpretada ao longo dos séculos: “o dano que tudo isto causou e continua causando à sensibilidade relig iosa – que, enquanto sensibilidade, não entende de distinções e sutilezas teóricas – é horrível e incalculável, constitui uma perversão – ao menos objetiva – da autêntica imagem de Deus e distorce, até uma profundidade que nunca poderemos medir, o sentido da experiência relig iosa”

(QUEIRUGA, A. T. Recuperar a salvação: Para uma interpretação libertadora da experiência cristã.

Paulus: São Paulo, 1999. p. 168-170). Mas a doutrina de Anselmo também conhece avaliações mais positivas. Para Ratzinger, por exemp lo, “não se pode negar que essa teoria captou em suas reflexões aspectos decisivos, tanto bíblicos como humanos. Quem se dispuser a acompanhar com alguma paciência a sua linha de pensamento há de constatá-lo sem maiores dificuldades. Ela merece respeito como uma tentativa de reunir os elementos isolados da mensagem bíblica no contexto de um sistema abrangente”.

Mas o teólogo alemão, mes mo admitindo aspectos positivos da doutrina anselmiana, dá-se conta também dos seus riscos: “não se pode negar que a lógica perfeita desse sistema de direito humano -divino, que Anselmo construiu, distorce as perspectivas, podendo lançar, com a sua lógica férrea, u ma lu z medonha sobre a imagem de Deus” (RATZINGER, J. Introdução ao cristianismo. São Paulo: Loyola, 2006. p.

172-174. Uma análise muito ponderada das idéias de Anselmo, nos seus alcances e limites, encontra-se em Sesboüé. Cf. SESBOÜÉ, B. Jésus-Christ l’unique médiateur: essai sur la rédemption et le salut. Paris:

Desclée, 2003. p. 329-349.

14 Cf. DURRW ELL, L‟eucharistie, sacrement pascal, p. 38; Esprit Saint de Dieu, p. 48-49; O Pai, p. 48- 49; L‟Esprit du Père et du Fils, p. 8; Marie, p. 38; DURRWELL, F. –X. Régards chrétiens sur l’au-delà.

Paris: Médiaspaul, 1994. p. 30-31; DURRW ELL, F. –X. Aux sources de l’apostolat: l‟apôtre et l‟eucharistie. Paris: Médiaspaul, 1999. p. 22; DURRW ELL, Jésus Fils de Dieu, p. 76; Cristo nossa páscoa, p. 51-53; La mo rt du Fils, p. 17. Os livros estão citados em ordem cronológica. Mesmo criticando duramente a teologia jurídica, Durrwell ad mite que “nem tudo é errôneo na teologia jurídica.

Uma teologia é uma apro ximação do mistério, mas esta teoria se aproxima só de muito longe, o que pode induzir a erros grosseiros” (DURRW ELL, O Pai, p. 49). Uma análise co mpleta da teoria jurídica da redenção na teologia de Durrwell encontra-se na tese de Mimeault. Cf. MIMEAULT, La sotériologie, p.

274-303.

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próprio conceito de redenção. Tal lacuna se encontra na origem da intuição fundamental do teólogo desenvolvida no seu livro La réssurection de Jésus, mystère de salut.

Outra lacuna igualmente séria aparece na ausência do Espírito Santo.

Sendo paterna e filial, a obra da redenção é cheia do Espírito Santo. Porque é no Espírito que Deus é o Pai; é nele que, desde sua origem, Jesus é o Filho (cf. Lc 1,35); é nele, enfim, que Jesus é oferecido ao Pai na mo rte (Hb 9,14) e que ressuscita (Rm 8,11)16.

Além disso, a morte de Jesus, na teologia jurídica, é compreendida como preço pago, portanto como fato exterior à sua relação pessoal com o Pai. Nessa teologia aparece uma imagem impessoal de Deus, identificado com um atributo, a justiça;

ignora-se, pois, o mistério filial de Jesus que, nesta teoria, é visto como homem-Deus, cujo ser possui uma dimensão eterna que torna possível a adequada reparação. Essa visão distancia-se muito da imagem de Jesus oferecida pelos Evangelhos, que apresentam Jesus como homem-filho de Deus no Espírito Santo. A teologia jurídica não leva em conta a redenção como evento trinitário17. Para Durrwell, no entanto, “o Deus da salvação é Pai, age enquanto Pai, acolhendo o Filho, glorificando-o nele mesmo (cf.

Jo 17,5), vivificando-o no Espírito (cf. Rm 8,11). Toda relação entre Deus e Jesus é pessoal, paternal de um lado, filial de outra”18. Durrwell resgata o aspecto inegavelmente trinitário do mistério pascal: “Uma iniciativa de Jesus que pagasse a Deus o preço de sua reconciliação com os homens não se deixaria integrar na visão de um Deus que é Pai e Filho no Espírito Santo”19. Durrwell, à teologia jurídica, prefere a teologia da comunhão. A redenção acontece quando a comunhão que se dá entre o Pai e o Filho no Espírito se interioriza no mundo.

Ao construir uma teologia da redenção a partir da teologia da comunhão, Durrwell acaba aproximando os conceitos de redenção e oração, porque ambos dizem respeito à relação do Filho com o Pai no Espírito. Mas o ponto de partida do teólogo francês para entender a redenção não é a oração. Primeiro Durrwell constrói sua teologia da redenção, marcadamente trinitária, como aparece na sua primeira obra, sobre a ressurreição de Jesus. Mais tarde, ao tratar da oração, ele irá fundamentá-la no tema central de sua teologia: a redenção enquanto mistério de comunhão entre o Pai e o Filho no Espírito. Redenção e oração dizem respeito à relação de Jesus com o Pai. A teologia

16 DURRW ELL, O Pai, p. 52.

17 DURRW ELL, L‟Esprit Saint de Dieu , p. 48.

18 DURRW ELL, L‟Esprit Saint de Dieu, p. 48.

19 DURRW ELL, O Pai, p. 52.

da redenção de Durrwell poderia ser chamada de teologia da comunhão. O teólogo francês, no entanto, a chama simplesmente de teologia do mistério pascal. Ele mesmo a opõe à teologia jurídica.

Cada uma das duas teologias tem sua própria imagem de Deus. Na primeira, Deus é um Pai cu ja preocupação é a salvação dos homens. Na gratuidade total do amor, ele gera para eles, no mundo, o Filho, a fim de que os pecadores possam se tornar seus filhos. Na segunda, ele está, desde o início, preocupado com seus direitos: ele só perdoa após a ofensa ter sido reparada.

O modo de pensar também é diferente, personalista em u ma, juríd ico na outra. Na primeira fala-se de comunhão, da salvação que se realiza em Cristo em sua relação com o Pai, da extensão da salvação a todo mundo pela comunhão com Cristo. Na segunda, fala -se de direitos lesados e reparados, de direito adquirido pelo Cristo em favor dos homens, da aplicação aos homens dos direitos adquiridos por Cristo. A palavra comunhão nem mes mo é pronunciada20.

Para fazer uma hermenêutica da oração de Jesus no seu mistério pascal segundo a teologia de Durrwell, o pesquisador necessita entrar na especificidade da teologia do mistério pascal por ele desenvolvida, ainda que o objetivo seja o de aí situar a oração de Jesus. Cada teologia da redenção terá sua própria hermenêutica da oração de Jesus. Na teologia de Durrwell, ela contém o significado de seu mistério pascal. Não é, portanto, indiferente o fato de Jesus orar no momento de sua paixão. Entretanto, um dado teológico fundamental e imprescindível se impõe no estudo da teologia do mistério pascal em Durrwell. Apesar de o teólogo ter dado uma importante contribuição para o estudo do significado salvífico da ressurreição, sua teologia é apenas uma entre muitas outras. Há várias teologias da redenção. Mesmo os autores bíblicos apresentam teologias diversas da redenção21, embora tais teologias estejam de acordo quanto ao fato de a salvação ter se dado em Jesus Cristo. O mais louvável em Durrwell está no seu

20 DURRW ELL, Cristo nossa páscoa, p. 52.

21 Segundo Duquoc, “o Novo Testamento não nos fornece uma síntese teológica a respeito do sentido libertador da morte e ressurreição de Jesus. A perspectiva dos autores apostólicos ou dos Evangelhos não pode se reduzir a um conceito único, sem uma exagerada simp lificação. Jesus não atribui à sua própria morte, por mais que a exegese nos permita d iferenciar o pensamento dele e o da co munidade primitiva, um significado inteiramente idêntico ao que São Paulo lhe atribui. Encontramos no Novo Testamento organizações parciais e variadas do pensamento teológico. Numa palavra, nós jamais poderemos atingir o evento da morte de Jesus como tal, isto é, na unidade do fato e do sentido. Esse evento nos é proposto de formas diversas, ao interno de coerências diversas” (DUQUOC, Cristologia, p. 171). Sesboüé chega à mes ma conclusão no seu excelente tratado sobre a redenção: “a multiplicidade mes ma do vocabulário empregado e a variedade dos registros utilizados atestam que a salvação cristã não pode se exprimir numa linguagem única que a diria inteiramente. A diversidade das aproximações lingüísticas exprime, à sua maneira, a transcendência da realidade em questão. A salvação cristã é um mistério que não pode ser reduzido às idéias claras e distintas caras a Descartes. A salvação permanece no coração mesmo dos

intento de uma compreensão unitária e sintética do mistério da redenção22. Na sua teologia, Jesus não adquire a redenção; ele próprio se torna redenção23. Essa intuição fundamental explica o sucesso de seu primeiro livro sobre a ressurreição de Jesus e o reconhecimento de sua teologia posterior.