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O recurso metodológico utilizado no grupo de professores para responder ao que se focou como objeto - problema desta pesquisa (investigar as marcas e expressões da identidade profissional/ocupacional), teve por inspiração a entrevista psicológica fundamentada em Bleger (1995), com aproximação da escuta psicanalítica inspirada na

extensão da clínica proposta por Herrmann (2003) e na concepção de Orientação baseada em Bohoslavsky (1995). Esta é uma metodologia de abordagem qualitativa.

A entrevista é o instrumento fundamental para a investigação em Psicologia, tendo seus próprios procedimentos para a aplicação do conhecimento científico. Optamos por entrevistas psicológicas abertas, que são aquelas nas quais se buscam objetivos psicológicos, seja investigação, diagnóstico ou terapia. O entrevistador tem ampla liberdade para as perguntas ou para suas intervenções, permitindo-se toda a flexibilidade necessária em cada caso particular e deixando surgir assuntos paralelos trazidos por meio de associações feitas pelo próprio entrevistado, o que possibilita o surgimento de idéias fantasiosas sobre os sintomas, angústias e mal-estar, comuns a todos os seres humanos.

A liberdade do entrevistador, neste caso, reside em uma flexibilidade suficiente para permitir, segundo Bleger (1991), que o entrevistado configure o campo da entrevista de acordo com sua estrutura psicológica particular, ou seja, que o campo da entrevista se configure pelas variáveis que dependem da personalidade do entrevistado.

A entrevista aberta possibilita um aprofundamento mais amplo da personalidade do entrevistado: todo ser humano, conforme vemos em Bleger (1995), tem organizados em si uma história de sua vida e um esquema de seu presente, aspectos que devem, com a entrevista, ser deduzidos e apresentados ao sujeito, que os desconhece.

Nas entrevistas somos convidados para outros pontos que não fazem necessariamente parte integrante do roteiro: são relatadas informações que parecem ter pouco significado objetivo, mas que falam bem sobre o caráter, a personalidade e as emoções do sujeito.

Devemos estar atentos igualmente ao comportamento verbal, nas informações relatadas envolvendo sua história e seu presente em graus variáveis de coincidências ou contradições com que se expressa pela consciência e intencionalidade. Por isso a relevância de, na aparente desordem, saber-se que se está na ordem, não do rigor exatamente científico, mas do caminho emocional, do deixar que surja e tomar em consideração.

Do mesmo modo, como observa Oliveira (2006), as entrevistas, como diagnósticas, permitem um saber discriminado sobre as especificidades da organização da vida psíquica de cada entrevistado, permitindo, assim, a organização de seu discurso. Nas entrevistas deixa-se surgir a palavra que expressa a emoção e toma-se em consideração a mesma quando ela surge, sem nunca perder de vista o objeto de investigação.

Considerando o número de participantes, a entrevista psicológica pode ser também um processo grupal, isto é, com um ou mais entrevistadores e/ou entrevistados. No entanto,

esse instrumento é sempre em função da sua dinâmica, um fenômeno de grupo, mesmo que seja com a participação de um entrevistado e de um entrevistador.

Bleger (1991) compreende que a entrevista psicológica busca o estudo e a utilização do comportamento total do indivíduo em todo o curso da relação estabelecida com o entrevistador, durante o tempo que essa relação durar.

A entrevista psicológica funciona como uma situação na qual se observa parte da vida do entrevistado. Mas, nesse contexto, não consegue abarcar a totalidade de sua personalidade, uma vez que não pode substituir e nem excluir outros procedimentos de investigação mais extensos e profundos, a exemplo de um tratamento psicoterápico ou psicanalítico (que demandam tempo).

Quem dirige a entrevista é o entrevistado, mas quem a controla é o entrevistador: ele deve permitir que o campo da relação interpessoal seja estabelecido e configurado pelo entrevistado, pois sua personalidade é cheia de pautas, isto é, um conjunto de repertório de possibilidades, sendo isso o que esperamos que se exteriorize durante a entrevista.

Como diz Bleger (1991), as dissociações e contradições são inerentes à condição humana: a entrevista oferece condições para que as mesmas sejam refletidas e trabalhadas. É uma situação “natural” em que se dá o fenômeno que nos interessa estudar: o fenômeno psicológico.

No que diz respeito à intervenção em processo grupal, apontamos o enquadre, definido por Berlin apud Bohoslavsky (1995) como limite da identidade e possibilidade de ação de cada um, sendo um instrumento que permitirá ao profissional observar, pensar e agir livremente, e, assim, atingir o máximo de eficiência profissional e o mínimo de confusão ou identificação com a situação problemática.

Uma prática desenvolvida por meio de uma orientação que faça uso da estratégia clínica (que prioriza a escuta), proporciona uma investigação sobre a personalidade do sujeito; identifica e aborda suas situações de conflito; busca compreender o funcionamento de suas atitudes; ajuda na elaboração de sua problemática; colabora para detectar as interferências que o sujeito sofre nesse momento de escolha e favorece a construção de um projeto de vida mais compatível com seus reais interesses e potencialidades.

Essa estratégia clínica funciona concomitantemente no desempenho de duas tarefas:

uma explícita, que se refere à própria escolha que deverá ser realizada, e outra implícita, que se refere à resolução da problemática vinculada à escolha (o pensar sobre ela, a elaboração que transcorre da reflexão, os sentimentos e a ação resultante desta, etc.). Esse procedimento

clínico deve levar em consideração aspectos conscientes e inconscientes, o individual e o social, deve voltar-se sempre para o resgate e para a manutenção da dignidade do orientando e considerá-lo como um ser ao mesmo tempo único e multifacetário, buscando tanto promover o descobrimento de suas potencialidades e capacidades quanto favorecer o seu desenvolvimento por meio de um projeto de vida mais consciente e com maiores chances de ser bem sucedido.

O significado de orientação pode ser definido, segundo Houaiss e Villar (2001), como

“a arte de orientar, determinar a posição em relação aos pontos cardeais; dirigir-se, encaminhar-se, saber onde fica a direção a qual se deve seguir; reconhecer a situação para saber como se deve proceder.”.

Com as possibilidades da escuta psicanalítica dirigidas aos professores e com o manejo da transferência no “deixar que surja, para tomar em consideração”, conforme proposto por Herrmann (2003), permite-se que as questões emergentes no grupo não sejam obturadas ou julgadas a partir de um saber prévio, mas que possam ser desdobradas, cotejadas e, muitas vezes, respondidas pelo próprio grupo através de um saber compartilhado construído ao longo do trabalho.

Do mesmo modo, nos apoiamos em Bohoslavsky (1995) no que ele propõe para a atividade do psicólogo no contexto de uma orientação, que se caracteriza por uma cooperação não diretiva com os entrevistados, a fim de lhes permitirem, neste caso, o acesso e a apropriação do discurso sobre a prática pedagógica influenciada por questões profissionais e pessoais, ressaltando-se as marcas e expressões da identidade profissional/ocupacional dos educadores.

Ressalta-se, assim, a importância do espaço de grupo como espaço de fala, de reconhecimento e de suporte para novas identificações. Espaço, portanto, privilegiado para a emergência do inconsciente, já que é por meio da fala que este se manifesta. Nessa perspectiva, o grupo promove um fechamento em torno de um sintoma, de uma fantasia, (alimentada pelas identificações horizontais entre seus integrantes), de forma que o que surge dentro do grupo se constitui em formações do inconsciente grupal que devem ser interpretadas e decifradas pelo psicólogo.

Nossa proposta, nesse contexto, toma o grupo como um dispositivo facilitador de um trabalho que não se esgota no próprio grupo e que possibilita, igualmente, um trabalho subjetivo que também é individual e singular. Dirige ao psicólogo ou psicanalista, assim, uma série de questões sobre o inconsciente que aí se manifesta, sobre o discurso que aí se

produz e sobre a sua escuta, em relação ao pedido manifestado e sobre o seu objeto de estudo.