1.3 Três temas polêmicos: a política, o dinheiro e o mal
1.3.5 A IURD e a conversão: o medo dos encostos
Pode parecer que a história anterior à “mudança radical” de vida seja posta de lado, de modo a não possuir mais nenhum significado. Na verdade, dá-se o contrário. A vida passada é constantemente relembrada, apesar dos possíveis sofrimentos, como contraposição ao vivido após o “aceitar Jesus”. Em outros termos, a vida “no mundo” é sempre percebida como impura, mas não pode ser esquecida, pois foi a partir do sofrimento e dos erros passados que se pode alcançar a salvação.
de deter tanto ou mais poder que a anterior.80 A crença na magia e no feitiço permanece, o que pode ser ilustrado pelo seguinte relato:
O que me levou foi porque eu aceitei Jesus, mas não fui por amor, fui pela dor. E me dei muito bem, desde que aceitei Jesus a minha vida se transformou completamente. Ele modificou a minha vida. Porque muita gente pensa que você vai para a igreja para ficar rica, mas eu fui para ganhar a Graça de Deus. Fui pela dor. Fui sofrendo. Eu havia perdido meu filho atropelado, com cinco dias perdi meu pai, que morreu de infarto. Eu fiquei muito desesperada. Foi castigo, eu fui atropelada, foi castigo. Porque eu mesma caí debaixo do ônibus, aqui na Dutra. Uma semana antes, o “troço” arriou em mim. Eu trabalhava com o
“Malandro”, aí quando ele arriava, eu botava chapéu na cabeça, calça listrada, ficava descalça e com uma faixa vermelha na cintura. (mulher, membro da IURD)
A doença, aqui associada à crença anterior, só foi “curada” na medida em que a necessidade de busca de um novo caminho religioso tornou-se iminente. Um outro componente entra em cena no processo de conversão: o “medo”. Este está sempre presente, pois o crente, principalmente aquele que passou pelas religiões afro-brasileiras, deve permanecer em estado de vigilância. A experiência de conversão de uma entrevistada é exemplar. O “medo” constituiu o fator preponderante para sua filiação na IURD, exatamente por considerá-la como uma “igreja poderosa”. A crença na “magia” não desaparece, ela se distingue entre “magia benigna” e “magia maligna”; a conversão se dá pelo medo da “magia maligna”. Em conseqüência, há o reconhecimento de seu “poder”, percebido como inferior ao
“poder” da IURD.
1.3.6 “Fui pelo medo mesmo”: o circuito dos desafios e a conversão de Sueli
Sueli é manicure, ex-filha-de-santo, de “cabeça-feita” no Candomblé, seguindo a tradição de sua família. Uma tia é “mãe-de-santo” e tem um terreiro em Raiz da Serra, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Ela narrou sua trajetória até a conversão à IURD, onde
80 Como afirma Rolim, “Se os dons de falar e orar em línguas de profecia visam mais diretamente revigorar o grupo enquanto espaço privilegiado da manifestação do Espírito, espaço de proteção e de segurança, o de cura exprime a defesa do grupo contra os assaltos do inimigo, o demônio, na medida em que as curas são proclamadas
hoje é batizada, mas afirma que não gostaria de assumir um compromisso maior, como tornar- se obreira. Identifica-se como membro da IURD, embora questione os contínuos pedidos de dinheiro por parte de alguns pastores. Tal fato, no entanto, é relativizado, na medida em que acredita que a igreja realmente possui um “poder muito grande” para combater o mal e, conseqüentemente, necessite de dinheiro para esta missão: a “obra de Deus”. Afirma que sempre “gastou muito mais dinheiro quando estava no Candomblé”. A solicitação da igreja por muito dinheiro não constitui um motivo forte para abandoná-la, já que pode decidir dar ou não. Participa de várias correntes e dá ofertas quando pode. Nunca se sentiu constrangida por não responder aos apelos dos pastores. Relata que “fez a cabeça” aos dezessete anos. Hoje, com quase cinqüenta anos, faz questão de mostrar as “marcas” em seu corpo, feitas nos rituais de iniciação que, “graças a Deus, não aparecem muito”. Recebeu todos os ensinamentos da crença de sua tia, que desempenhou um papel fundamental em sua vida religiosa. Durante anos serviu aos “encostos”, como filha de Iemanjá. Considera que à época não possuía vida própria, trabalhava durante a semana e nos finais de semana permanecia no “Terreiro”.
Quando devia cumprir alguma “obrigação” se ausentava do trabalho. Certa vez desejou sair do Candomblé, mas foi convencida a permanecer, pois deveria “arcar com as conseqüências de abandonar os santos”. Ficou com medo. Seus “caminhos ficariam fechados”, o que “com certeza” causaria doenças em sua família.
Fala, com certa mágoa, que passou a ser tratada de forma diferente por sua tia/mãe de santo, quando revelou sua intenção de deixar a casa. Esta começou a prescrever obrigações e castigos para Sueli por um certo tempo. Ao não suportar mais o que vinha acontecendo, decidiu sair. Para Sueli este foi o momento mais dramático de sua vida. Ao ver que estava realmente decidida, a “mãe-de-santo” fez com que “baixasse um êrê” (orixá criança). Ela relata com tristeza que durante dias ficou “incorporada”, sem comer e dormindo na rua. Pediu esmolas e catou comida no lixo. Era uma condição humilhante. De acordo com sua narrativa, poderia ter permanecido “virada no santo” indefinidamente, caso algumas pessoas não intervissem com sua tia. Ela interpretou esta situação como castigo por desejar sair do Candomblé. Ao retornar do transe, com as vestes sujas e rasgadas, sentiu-se perdida. Naquele mesmo momento percebeu o quanto havia sido humilhada e “estava no fundo do poço”. Não queria mais aquela vida. Foi então que rompeu com esta religião.
Chegou na casa onde residia com sua mãe. Pegou todas as roupas e objetos ligados aos
“santos”, colocou-os em um saco de lixo. Sua mãe achou que estava ficando louca. Um rapaz
e assim legitimadas pelos crentes”. (1985, 212)
evangélico que trabalhava em sua casa a ajudou. Ela considerou que ele fez questão de auxiliá-la no despejo das “vestes e objetos malignos”. Por muito tempo ainda recebeu
“ameaças” de sua tia, que não aceitava sua saída do “Terreiro”. Disse que não cuidaria mais do “assentamento do seu santo” e, conseqüentemente, várias coisas negativas começaram a afetar sua vida e a das pessoas que a cercavam. Doenças e desemprego seriam decorrentes de sua saída do Candomblé, seriam castigo pelo seu rompimento.
Quando indagada sobre a escolha da IURD e não de outra igreja, Sueli respondeu enfaticamente que não tinha ido lá pela dor nem pelo amor: “fui pelo medo mesmo”, ressaltou. Ela temia a perseguição das forças sobrenaturais, a ponto de desafiar aquele poder anunciado pela IURD. A informante utilizou o termo desafio. Ela não foi diretamente do Candomblé para a IURD, passou um longo tempo até decidir procurar esta igreja. Um vizinho sempre a interpelava sobre seu vínculo com o Candomblé. Ela o desafiou: já que ele falava tanto que o “poder de Deus era maior” e que este estava presente na IURD, tinha que por isto à prova. Por seu intermédio foi até a sede estadual da igreja, na Abolição, Rio de Janeiro. Lá conheceu e confirmou este “poder maior”. Como conseqüência, passou a não mais sentir
“medo das perseguições dos espíritos malignos”. Foi batizada nas águas e está “preenchida pelo poder do espírito santo”. Ela continua acreditando no poder dos “espíritos malignos”, mas está “habitada pelo espírito santo”. A IURD oferece a proteção necessária contra os possíveis efeitos de sua escolha de mudança de religião. A idéia de buscar uma “igreja com poder maior” para combater o mal é interessante, pois indica um nexo com a construção de catedrais como representantes deste “poder”. Neste caso, conversão e catedral estão entrelaçadas.
Neste capítulo foram ressaltados aspectos da trajetória da IURD com o objetivo de compreender a forma como é elaborada sua identidade, por meio de movimentos de aproximação e de distanciamento relativo ao diálogo com seus interlocutores. Como sugerem os estudos clássicos sobre construção de identidade é no processo de interação, oposição e comunicação cultural – e não no isolamento – que as fronteiras identitárias se constituem.
No capítulo que se segue são apresentadas reflexões que possibilitam uma compreensão dos princípios a partir dos quais a IURD se pensa como igreja. O período posterior a 1995 é enfocado, especialmente a retórica da superação, presente no movimento de intensificação de sua consolidação institucional.
2 O CIRCUITO DA CONQUISTA: A PERSEGUIÇÃO, A REVOLTA, O SACRIFÍCIO E A CONQUISTA
Olhem para mim. Preste atenção. Assim como Abraão abençoou Isaac e Isaac abençoou Israel e Israel abençoou os seus doze filhos, eu abençôo vocês, em nome do meu Senhor Jesus. Em nome do Senhor Jesus seja abençoado. Coloque as duas mãos no coração e receba. Receba neste momento as bênçãos de Deus. Receba a autoridade, a autoridade, em nome do Senhor Jesus, sobre todo o mal. Recebe o poder de Deus neste momento, que a sua fraqueza se transforme em força, você deixa de ser fraco para ser forte. Seja um vencedor a partir de agora. Em nome do Senhor Jesus. (bispo Macedo, sede mundial, 9 de Julho de 2002)
Neste capítulo analiso a pregação realizada pelo bispo Macedo, um dos fundadores e principal liderança da igreja, na sede mundial, em 9 de julho de 2002, quando a IURD comemorou seus vinte e cinco anos, anunciado como o “Jubileu de Prata”. As palavras pronunciadas pelo bispo Macedo nesta comemoração permitiram a elaboração de um interessante instrumento de análise, para compreender como a IURD elabora sua identidade religiosa. O circuito da conquista é formado por quatro categorias: “perseguição-revolta- sacrifício-conquista”. Antes de abordar o circuito, a noção de perseguição – referência relevante no diálogo entre a IURD e seus interlocutores – deve ser mais explorada.
2.1 A perseguição como passagem: a retórica da superação como expressão do