pelo missionário jesuíta em Angola Francisco Paccónio e publicado apenas em 1642.
Como veremos melhor adiante, o padre italiano percorreu os sertões angolanos, missionando até mesmo na corte do rei do Ndongo e nos arredores de Massangano e Cambambe.
Uma outra obra em quimbundo foi publicada anos mais tarde, para ensino do quimbundo aos padres que lidavam com os escravizados de origem angolana no Brasil. Tratava-se da Gramática “Arte da Língua de Angola” do Jesuíta Pedro Dias, publicada em 1697. Diferente de Francisco Paccónio, que aprendeu o quimbundo na sua vivência na missão em Angola, o padre Pedro Dias aprendeu a língua atuando na assistência religiosa e médica junto aos escravizados que desembarcavam no litoral brasileiro.313
Apesar dos esforços com relação à produção dessas obras, outras estratégias foram pensadas pelos jesuítas para sanarem as dificuldades com relação à língua.
Vanicléia Santos aponta para os esforços conjuntos desenvolvidos entre os jesuítas em Angola e no Brasil para o ensino do cristianismo aos escravizados, tendo em vista que a escravidão havia sido justificada a partir da cristianização das populações retiradas da África. A autora menciona além da elaboração dos catecismos, a importação de vocacionados de Angola e a formação de catequistas bilíngues, destacando que a igreja não tinha recursos para atender todos os cativos com essas iniciativas.314
A autora também indica que o plano de vincular a Missão de Angola a Província do Brasil, anteriormente mencionado, havia partido inicialmente do padre Inácio de Tolosa, na intenção de receberem na Bahia padres de origem angolana que fossem aptos a lidar com os cativos. Mesmo o plano não tendo sido concretizado, não demorou para que os jesuítas passassem a enviar ambundos para o noviciado da Bahia, que se tornaram jesuítas e atuaram na catequese dos escravizados.315 É provável que entre as intenções do padre também estivesse facilitar a recepção de cativos para suavizar as tensões com os colonos em torno da escravidão indígena.
Conforme afirma Marcocci, os colonos no Brasil demonstraram preferência pelo escravizado africano, bem como, foi elaborada legislação sobre a liberdade indígena
313 MARCUSSI, op, cit, p. 69.
314 SANTOS, Vanicléia Silva. As bolsas de mandinga no espaço Atlântico: Século XVIII. Tese de Doutorado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2008, p. 142.
315 Ibidem, pp. 145-146.
e a Igreja se posicionou oficialmente por meio da Bula Veritas ipsa (1537), afirmando a plena humanidade dos indígenas e condenando sua escravidão. Entretanto, sobre a escravidão dos africanos havia silenciamento316, sendo considerada necessária ao trabalho missionário realizado entre indígenas. É importante frisar que ainda assim o trabalho indígena também continuou sendo explorado.
Sobre a origem desses jovens angolanos que foram ordenados padres na Bahia, Vanicléia Santos indica que eram filhos de portugueses, sendo alguns deles negros. A autora acredita que a presença desses padres negros no Colégio da Bahia tenha motivado as solicitações de meninos pardos para que pudessem ser aceitos no Colégio da Companhia de Jesus, apesar do estatuto de pureza de sangue para os vocacionados.317
Conforme aponta Marcussi, também em Angola houve projetos para formação de padres de origem ambunda pela Companhia de Jesus. Esse foi um dos motivos citados pelo visitador Pero Rodrigues para a construção do Colégio de Luanda, que apontava que o Colégio poderia oferecer ordens sacras à nobreza local e aos filhos dos colonos. O autor também apontou que o rei de Portugal autorizou em 1684 a construção de um anexo do Colégio de Luanda no interior de Angola, que deveria formar jovens para o ensino da doutrina cristã, os padres da Companhia escolheriam os jovens, mas teriam preferência os filhos dos sobas avassalados. Entretanto, devido aos custos, a obra provavelmente não foi executada. Ainda assim, a Companhia de Jesus formou sacerdotes em Luanda e em seus colégios no Brasil e em Portugal, integrando até mesmo alguns a Ordem, que exerceram papel importante na atividade missionária no interior de Angola ou junto aos cativos no Brasil.318
A formação desse clero de origem angolana dividia opiniões, apesar de serem capazes de romper com as barreiras linguísticas, pesava sobre eles o estigma de serem inclinados aos vícios da carne, expressos, por exemplo, na poligamia. Alguns outros religiosos também se preocupavam com o ensino do cristianismo africano, trazendo traços das religiões locais.319 De todo modo, foi formado um clero, sobretudo
316 MARCOCCI, Giuseppe. Escravos ameríndios e negros africanos: uma história conectada. Teorias e modelos de discriminação no império português (ca. 1450-1650). Tempo, Niterói, v. 16, n. 30, 2011, pp. 61-63.
317 Ibidem, p. 155-156.
318 MARCUSSI, Alexandre Almeida. A formação do clero africano nativo no Império Português nos séculos XVI e XVII. Temporalidades - Revista Discente do Programa de Pós-Graduação em - História da UFMG, Belo Horizonte, v.4, n.2, ago/dez 2012, pp. 57-59.
319 Ibidem, p. 45.
secular, de origem angolana, que ainda assim foi insuficiente para atender a quantidade de escravizados que deveriam embarcar em Luanda. Marcussi sintetiza da seguinte maneira os diferentes interesses na formação do clero de origem africana:
Diferentes setores do clero esperavam alcançar objetivos distintos com os padres africanos: para alguns, eles deveriam ser os tradutores do catolicismo para as culturas africanas com as quais se identificavam; para outros, deviam ser os representantes e difusores de um ideal laico de civilização numa África “bárbara”;
para outros ainda, deveriam ser os instrumentos para um enraizamento definitivo das instituições eclesiásticas e diocesanas no interior do continente. Portadores de uma identidade cultural africana e defensores de um ideal de civilidade europeu, tais eram os papéis contraditórios que os padres nativos eram chamados a representar.320
Pelos jesuítas, foi no âmbito dos colégios que tais estratégias foram pensadas, de forma articulada entre o Colégio de Luanda e os Colégios do Brasil. A centralidade dos missionários no Colégio de Luanda e o declínio das Missões no interior também esteve ligada ao enfoque na catequese dos escravizados