apontou que os padres deveriam fazer um inventário dos bens deixados por Gaspar Alvares e logo em seguida entregá-los a quem fosse de direito.343 Foi longa a batalha entre jesuítas e a família de Gaspar Álvares pela herança, mas não há indicativo de que os jesuítas tenham devolvido os bens.
O Colégio da Companhia de Jesus em Luanda cumpriu papel estratégico no disciplinamento através do ensino, desde o ensino às crianças das primeiras letras, já era introduzida também a catequese e cultura ocidental. Cumpriu, ainda, importante papel na formação dos quadros religiosos que atuaram em Luanda, conforme aponta Teresa Neto: “A expansão da Igreja Católica se deve, em grande parte, aos convertidos, catequistas e ministros católicos nativos, que difundiam a sua nova religião”.344 Também foi importante na formação de homens para atuar na administração do território. As fazendas mantidas junto ao Colégio, conhecidas em Angola como arimos, permitiram uma maior independência da Companhia de Jesus em Angola, visto que eram espaços que permitiam a exploração do trabalho dos cativos. Além disso, o Colégio foi espaço de tomada de decisões importantes, foi a partir de uma reunião realizada no Colégio da Companhia de Jesus em Luanda, entre diferentes autoridades, incluindo o governador e o bispo, que se decidiu pela guerra contra a rainha Nzinga, como veremos a seguir.
autores, pois as próprias fontes que o narraram, indicam como causaram surpresa a imagem de Nzinga e a forma como se portou diante do governador.
O missionário capuchinho Cavazzi, só chegou a Angola na segunda metade do século XVII, entretanto, descreveu como foi o encontro de Nzinga com o governador João Correia de Sousa em Luanda. Antes mesmo de se dirigir a Luanda, o missionário relata que Nzinga teria recebido o conselho do seu irmão, o Ngola Mbandi, para que aceitasse o batismo caso lhe fosse oferecido, pensando nos interesses reais, levando em conta que: “as aparências exteriores eram uma coisa e os sentimentos interiores outra coisa”345. Já nesse trecho do relato, fica claro como o missionário tinha a percepção de que o batismo era aceito de acordo com outros interesses dos centro- africanos e como o Ngola Mbandi sabia da importância da aceitação do cristianismo para chegar ao acordo com os portugueses.
Sobre as vestimentas de Nzinga para a ocasião que, segundo o relato de Cavazzi, incluíam gemas preciosas e enfeites de penas coloridas346, Mariana Bracks Fonseca destaca que “foi estrategicamente pensada para demonstrar sua importância política, refletida pela imponência de sua imagem”.347
Ainda segundo o relato de Cavazzi, também chamou muita atenção dos presentes o momento em que Nzinga pediu que uma de suas donzelas se posicionasse no chão para que ela pudesse se sentar sobre suas costas, recusando- se a sentar no tapete que havia sido posto para ela, tal como era o costume dos reis centro-africanos. Tal atitude foi interpretada como uma forma de se pôr em igualdade com o governador, que estava sentado numa cadeira de veludo com enfeites de ouro.
Além dessa atitude, os presentes junto ao governador também ficaram surpresos com a forma de se expressar de Nzinga, a prudência com a qual tentava negociar a aliança entre o Ngola e o governador. Na ocasião, Nzinga informou que não pagariam tributo a Coroa, haja vista que, não eram uma nação que havia sido submetida, e sim buscando uma aliança de assistência mútua contra inimigos em comum, de modo que os portugueses não fizeram nenhuma objeção.348
345 CAVAZZI, João Antonio. Descrição histórica dos três reinos do Congo, Matamba e Angola. V.
II. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar, 1965, p. 66.
346 Idem, p. 67.
347 FONSECA, Mariana Bracks. Nzinga Mbandi e as Guerras de Resistência em Angola. Século XVII. Dissertação de Mestrado. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2012, p. 24.
348 CAVAZZI, op. cit., pp. 67-68.
Nzinga permaneceu mais alguns dias em Luanda. Foi nessa ocasião que aceitou receber a doutrina cristã por parte dos padres jesuítas e se batizou, tomou por padrinho o governador João Correia de Sousa e passou a se chamar Anna de Sousa.349
Entretanto, existem outras versões sobre esse contato inicial entre Nzinga e o governador de Angola e seu batismo. Mariana Bracks Fonseca destaca que, na narrativa do governador Fernão de Sousa, que escreveu num período mais próximo dos fatos, Nzinga e mais duas irmãs foram a Luanda como reféns, como forma de garantia do acordo de paz e foram batizadas juntas em 1622. Segundo Fernão de Sousa, Nzinga teria atuado como embaixadora posteriormente, entre 1623 e 1624.350
Beatrix Heintze defendeu a versão de Fernão de Sousa. A autora examinou as fontes produzidas pelo governador e destaca como argumentos a proximidade temporal da sua escrita com o momento do contato de Nzinga com João Correia de Sousa e também explicou que a própria Nzinga inspirou a narrativa feita por Cavazzi.
No entanto, fez a ressalva de que a versão de Fernão de Sousa é resumida e incompleta.351
Na sua escrita, Linda Heywood destaca dois momentos, menciona a primeira embaixada descrita por Cavazzi e faz menção a uma nova ida de Nzinga a Luanda como embaixadora de Ngola Mbandi para cobrar o cumprimento do acordo, segundo o qual o governador apoiaria a retirada do jaga Cassanje do território do Ndongo, faria a mudança do forte de Ambaca mais para o leste e devolveria sobas e kijicus capturados pelo antigo governador Luís Mendes de Vasconcelos. O Ngola, por sua vez, deveria aceitar o batismo cristão e retornar para Cabaça, restabelecendo as feiras.352
Porém, o acordo de paz não foi muito adiante. O Ngola Mbandi não aceitou ser batizado pelo padre Dionísio de Faria Barreto, visto que, era um padre natural de Matamba, descendente de uma de suas escravas. A própria Nzinga confessou a Cavazzi que sugeriu ao irmão que não se batizasse, pois não deveria curvar a cabeça perante um inferior.353 Linda Heywood acrescenta que Nzinga também aconselhou
349 Idem, p. 69.
350 FONSECA, op. cit., pp. 116-117.
351 HEINTZE, Beatrix. Angola nos séculos XVI e XVII: estudos sobre fontes, métodos e história.
Luanda: Kilombelombe, 2007, pp. 300-301.
352 HEYWOOD, Linda M. Jinga de Angola. São Paulo: Todavia, 2019, pp. 62-63.
353 CAVAZZI, op. cit., p. 69.
seu irmão sobre os custos políticos da decisão, pois desagradaria os ambundos que o apoiavam por sua resistência aos portugueses.354
Ngola Mbandi acabou morrendo frustrado em 1624. Heintze indica como Fernão de Sousa deu vazão aos boatos que corriam em sua época de que Nzinga teria envenenado seu irmão para assumir o poder. O governador desejava elencar motivos para indicar que realizou uma guerra justa contra a rainha, entretanto, antes tratava o caso apenas como suicídio. Os mesmos acontecimentos foram relatados por Cavazzi, a autora acredita que mesmo que o missionário tenha tido acesso a uma outra versão dada por Nzinga, tenha utilizado sua escrita para agradar os portugueses.355 É importante lembrar que a escrita de Cavazzi se deu após as guerras entre Nzinga e os portugueses, o que aumentavam os rumores sobre sua astúcia e crueldade. Além do episódio de envenenamento do irmão, o missionário indicou que Nzinga assassinou o sobrinho como garantia de permanência no trono e vingança pelo seu filho que teria sido morto por Ngola Mbandi.356
No seu governo, Nzinga Mbandi assumiu a Missão de recuperar a soberania e poder do Ndongo e combater o domínio português. Para isso, a rainha travou intensas guerras contra o novo governador de Angola, Fernão de Sousa, que havia chegado a Luanda no mesmo ano que Nzinga ascendeu ao poder.
De início, Nzinga e Fernão de Sousa se trataram com diplomacia, mantendo comunicação para negociar os termos do tratado de paz. A própria recomendação do Rei ao indicar Fernão de Sousa como governador era a de que buscasse a paz e conseguisse lucros para a coroa com base no comércio e não em guerras.357
Numa carta enviada ao rei espanhol em 1624, Fernão de Sousa deu notícia da comunicação que teve com Nzinga, o governador informou ao rei que Nzinga destacou que caso ele transferisse o presídio de Ambaca ela sairia das ilhas Kindonga, no rio Kwanza, e reabriria as feiras nos locais que costumavam acontecer. Nzinga também apontou que desejava receber padres da Companhia de Jesus para batizarem todos aqueles que quisessem em suas terras, e que seu tandala era o maior interessado no batismo. Também pediu que o bispo construísse igrejas em seu reino. Fernão de
354 HEYWOOD, op. cit., p. 62.
355 HEINTZE, op. cit., pp. 311-312.
356 CAVAZZI, op. cit., pp. 70-71.
357 HEINTZE, Beatrix. Fontes para a História de Angola do Século XVII: I. Memórias, Relações e Outros Manuscritos da Colectânea Documental de Fernão de Sousa (1622-1635). Vol. I. Stuttgart:
Franz Steiner Verlag, 1985: “Instrução Secreta do Rei a Fernão de Sousa (19/03/1624)”, doc. 3, p. 137.
Sousa informou ao rei que concordava com a transferência do presídio de Ambaca, haja vista que já havia sido acordado desde o governo de João Correia de Sousa e não seria tão necessária sua permanência em Ambaca pela pobreza e desabitação nesse território. Além disso, o governador destacou que seria uma ótima oportunidade para reabertura das feiras e expansão do cristianismo.358 Tempos depois, o governador escreveu outra carta ao rei, destacando que estava aguardando ordens para realizar a transferência do presídio.359
Entretanto, a situação foi conduzida de forma totalmente diferente. No final de 1624, a Câmara de Luanda decidiu que a retirada de Ambaca só se faria por ordem expressa do rei e que só devolveriam os Kijikus feitos cativos por Luís Mendes de Vaconcelos caso Nzinga se avassalasse. Mariana Fonseca afirma que ao contrário da retirada, o presídio de Ambaca foi fortalecido e inauguraram ali uma feira de escravizados, o que deu ainda mais importância aquele forte no avanço da colonização portuguesa.360
Em 1625, numa relação enviada ao rei Ibérico sobre a história das relações entre a Angola Portuguesa e o Ndongo, Fernão de Sousa destacou que Nzinga não havia reaberto as feiras e nem recebido os padres jesuítas, pelo contrário, estava estimulando a fuga dos cativos pertencentes aos portugueses e os acolhendo, o que era causa de preocupação por serem escravizados que auxiliavam nas guerras, Kimbares. Linda Heywood indica que Nzinga fazia isso com apoio de sua rede de mocunges, que transmitiam mensagens nas proximidades de fazendas e fortalezas portuguesas aos escravizados incentivando-os a aderir à sua causa. Nzinga prometia terras e afirmava que estes escravizados se tornariam senhores. Nzinga também recuperou o apoio de alguns sobas, que pararam de enviar tributos à Coroa.361 Nzinga pôde sustentar sua posição contrária aos portugueses graças ao apoio de centro- africanos que estavam sendo atingidos pelo modelo de escravização promovida pela administração portuguesa em Angola.
O governador indicou que havia comunicado a Nzinga que, caso não entregasse os escravizados, estaria se declarando inimiga. Ao que Nzinga respondeu que lhe mandassem padres da Companhia de Jesus e ela entregaria os cativos. Os
358 “Carta de Fernão de Sousa a El-Rei (15/8/1624)”.In: MMA VII, doc. 80, pp.249-250.
359 “Carta de Fernão de Sousa a El-Rei (28/9/1624)”. In: MMA VII, doc. 82, pp. 256-257.
360 FONSECA, Mariana Bracks, op. cit., pp. 125-126.
361 HEYWOOD, Linda, op. cit., p. 77-78.
padres Jerônimo Vogado e Francisco Paccónio se dirigiram ao Presídio de Ambaca e receberam ordens para que aguardassem lá o envio dos cativos por Nzinga, pois, na visão de Fernão de Sousa Nzinga queria os padres no Ndongo para evitar a guerra.
Não havendo Nzinga devolvido os cativos, os padres retornaram a Luanda. No mesmo documento, Fernão de Sousa defendeu que Nzinga fosse presa por estar como uma rainha intrusa no Ndongo e que fosse nomeado um rei natural avassalado ao monarca ibérico com dever de pagar tributos, liberar feiras e permitir a instalação de uma Residência da Companhia de Jesus no Ndongo.362
Para minar a autoridade de Nzinga e aproveitando que a mesma estava fortificando-se nas Ilhas Kindonga, Fernão de Sousa promoveu a escolha de um novo rei para o Ndongo. Foi levantado o nome do Soba Hari a Kiluanje, que descendia da linhagem que havia perdido o trono para Kasenda, avô de Nzinga. Os membros dessa linhagem haviam se aliado aos portugueses, Hari a Kiluanje havia se tornado vassalo do rei espanhol desde o governo de João Correia de Sousa.363 Enquanto Nzinga estava nas Ilhas Kindonga, o governador mandou bandos para transmitirem recados em português e em quimbundo informando que os sobas deveriam prestar obediência ao novo rei, de modo a evitarem guerras. Também informavam que os kimbares que retornassem a seus antigos donos seriam perdoados e receberiam alforria e mercês.364
Apesar dos esforços de Fernão de Sousa, muitos sobas não reconheceram a autoridade de Hari a Kiluanje como Ngola. Segundo Mariana Fonseca, Hari a Kiluanje foi “visto como incapaz de garantir a ordem e de fazer chover”.365 Linda Heywood destaca que também não reconheceram a autoridade de Hari a Kiluanje os conselheiros da corte do Ndongo e a população em geral.366
De qualquer forma, Nzinga tentou, de forma diplomática, impedir o apoio a Hari a Kiluanje, defendendo o posicionamento de que este era seu súdito e que ela era uma rainha cristã, que prestaria obediência ao monarca espanhol.367 Nzinga mais uma vez remeteu-se ao seu batismo e sua condição de cristã, considerando seus
362 “História das relações entre a Angola portuguesa e o Ndongo 1617 - Setembro de 1625 (6/9/1625)”.
In: HEINTZE, 1985, doc. 24, p. 199-200.
363 HEYWOOD, Linda, op. cit., p. 79.
364 FONSECA, Mariana Bracks, op. cit., p. 132.
365 Idem, p. 133.
366 HEYWOOD, Linda, op. cit., p. 80.
367 FONSECA, Mariana Bracks, op. cit., p. 133.
interesses numa tentativa de evitar conflitos. Apesar disso, no início de 1626, Nzinga realizou um ataque contra Hari a Kiluanje em Ambaca, que teria sido motivado pelo roubo de algumas peças que Nzinga havia mandado a uma feira. Nos embates morreram três soldados portugueses e foram capturados e levados para Nzinga outros seis, episódio que Fernão de Sousa usou para argumentar em favor de uma guerra defensiva.368
Francisco Rodrigues informa que foi no Colégio da Companhia de Jesus, que o Governador Fernão de Sousa reuniu um Conselho formado por “todos os religiosos, teólogos e clérigos letrados com o Vigário Geral, que havia na cidade, e foi resolvido por todos que a guerra era necessária e justa”. Partiu de Luanda, no início de 1626, Bento Banha Cardoso com seus homens de guerra, porém, tinha ordens de não fazer guerra caso conseguisse a rendição de Nzinga sem uso de força. Acompanharam a expedição os padres jesuítas Francisco Paccónio e Antônio Machado com o objetivo de pregarem naquele reino. Os padres foram enviados pelo Reitor do Colégio da Companhia de Jesus em Luanda, o padre Duarte Vaz.369
Tal como nas primeiras campanhas ao lado de Paulo Dias de Novais, os padres cumpriram o papel de realizarem as confissões e orarem junto às tropas, batizaram ou confessaram também aqueles que estavam em leito de morte, assim como, prestaram cuidados médicos. O padre Francisco Paccónio, que conhecia a língua de Angola, também ensinava na ocasião a doutrina aos ambundos.370
Não é nosso objetivo aqui discutir os pormenores das guerras travadas contra Nzinga, mas é importante destacar como ela se tornou símbolo de resistência aos portugueses. Nzinga inspirou a rebelião de vários sobas que passaram a se recusar a pagar impostos aos portugueses e lutaram ao seu lado. Foram diversas batalhas, até que Nzinga simulou uma rendição e aproveitou a ocasião para fugir das Ilhas Kindonga. A rainha não aceitou sua derrota e, em outros momentos, enfrentou os portugueses novamente, com apoio dos jagas e até mesmo dos holandeses, o que culminou na interrupção da missão jesuíta em Angola em 1641.
Após essa primeira derrota de Nzinga, Hari a Kiluanje acabou morrendo numa epidemia de varíola, sendo escolhido como rei do Ndongo, em eleição promovida por
368 Idem, p. 134.
369 RODRIGUES, op. cit., p. 248.
370 Ibidem, pp. 249-250.
Bento Banha Cardoso junto aos sobas, o irmão de Hari a Kiluanje, Ngola Hari, que assumiu o trono em outubro de 1626.
Também coube aos padres jesuítas a doutrina e batismo do novo rei do Ndongo. O padre Francisco Paccónio e o padre Antônio Machado permaneceram na corte de Ngola Hari e se encarregaram da sua preparação e de seus familiares para o batismo. O novo rei promoveu a construção de uma igreja e foi batizado por Francisco Paccónio na metade de 1627, um pouco depois da morte do padre Antônio Machado, vítima de doenças da terra.371 Mais missionários jesuítas atuaram posteriormente no Ndongo, porém, foram constantes as queixas dos poucos recursos para manutenção ali e o pouco fruto que se fazia, até que a Missão foi interrompida com a conquista de Luanda pelos holandeses.
O exemplo de Nzinga foi aqui trazido para compreendermos como se processava a recepção do cristianismo imposto pelos jesuítas pelas autoridades ambundas. A aceitação de Nzinga se deu num contexto de busca de aliança política, e como já foi ressaltado o próprio irmão de Nzinga havia a alertado sobre a importância dessa aceitação, mesmo que superficialmente, para desenvolver uma boa relação com os portugueses. Apesar de ter recebido a doutrina e ter se batizado, de acordo com Linda Heywood, Nzinga expandiu para além do seu avô e seu pai a religião local, prova disso foi seu envolvimento direto nos rituais de funeral do seu irmão, promovendo o sacrifício de criados e guardando ossos de Ngola Mbandi para rituais futuros.372 Os ossos podiam ser utilizados para que médiuns intermediassem contato com os mortos, conforme aponta John Thornton essa prática guardava semelhanças com o ato de portar as relíquias de santos católicos.373 Apesar de não ter abandonado sua antiga religião, nas suas negociações com os portugueses, sobretudo na tentativa de evitar as guerras, Nzinga sempre lembrou seu status de rainha cristã.
Como vimos ao longo de toda a dissertação, o projeto de conquista de Angola pela Coroa Portuguesa foi construído com a participação ativa dos jesuítas visando, pela conquista espiritual, a conquista militar e política. Por outro lado, a sujeição ao cristianismo pelos ambundos também se mostrou útil para a preservação de seus interesses e para o alcance de benefícios políticos, como foi o caso de Nzinga e vários sobas.
371 RODRIGUES, op. cit., p. 249.
372 HEYWOOD, Linda, op. cit., pp 85-87.
373 THORNTON, John, op. cit., pp. 321-322.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Percebemos, ao longo deste trabalho, as drásticas mudanças de cunho político, econômico e social sofridas no território de Angola a partir dos contatos com os portugueses. O Reino do Ndongo, anteriormente sujeito ao Reino do Congo, conquistou sua independência e pode negociar diretamente com os europeus. Do mesmo modo, aquele território foi visto por Portugal como área de interesse econômico, com potencial de fornecimento de escravizados mais baratos.
Como de costume nos territórios africanos, a embaixada portuguesa enviada para ter com o rei do Ndongo contava também com missionários religiosos. Já na metade do século XVI, Portugal pôde contar com religiosos de uma nova Ordem no Congo, no Brasil, no oriente e também em Angola, os jesuítas. Notamos que apesar dos jesuítas terem estado presentes na África, mesmo antes da primeira missão enviada ao Brasil, mais precisamente no Congo em 1548, muitos autores que tratam da Ordem sequer mencionam a presença jesuíta na África, utilizando como exemplos apenas as missões na América e no Oriente.
Diante disso, propusemo-nos a investigar de que modo os missionários atuaram na missão ali fundada junto ao poder da Coroa Portuguesa e posteriormente da Coroa Espanhola e que estratégias empregaram no projeto de cristianização daquele território. Perante a frustração da primeira missão jesuíta enviada ao Ndongo, os inacianos passaram a defender a conquista daquele território. Logo, muitas estratégias formuladas pelos jesuítas configuraram-se como parte do projeto de conquista, sem a qual, defenderam que não seria possível a conversão. Ressaltamos, nesse sentido, o papel de importância dos jesuítas para os primeiros planos de conquista do Estado Português, que encabeçaram as ações feitas nesse sentido pelas nações europeias em Angola.
Pontuamos o envolvimento dos jesuítas na busca de apoio militar de chefes ambundos, explorando os conflitos que já existiam localmente e assegurando forças militares centro-africanas para lutarem junto aos exércitos portugueses, que não possuíam resistência às doenças locais, e que como vimos também foram causa da morte de alguns missionários. Visualizamos que, perante essas autoridades e seus súditos, os jesuítas procuraram combater as religiões locais e ocuparem as funções anteriormente exercidas pelos sacerdotes locais, prestando aconselhamento e deslegitimando os poderes dos gangas.
Nesse ponto, foi possível notar como, mesmo entre diferentes povos e diferentes lugares, os jesuítas puderam fazer uso de estratégias semelhantes.
Notamos isso, por exemplo, no enfrentamento aos caraíbas no Brasil e aos Gangas em Angola. A intensa comunicação entre os missionários garantia o conhecimento dos problemas enfrentados e alternativas utilizadas para contorná-los. Tanto é que, como citamos anteriormente, Prosperi percebeu como as missões realizadas em outras partes do mundo forneceram modelos que foram aplicados nas missões realizadas entre os camponeses europeus.
Não pôde deixar de ser notado o entrelaçamento e vinculação entre os missionários jesuítas no Brasil e em Angola. Juntos, os missionários dos dois lados do Atlântico elaboraram a justificativa religiosa para a escravidão negra, indicando que, por meio da escravidão, estavam livrando os africanos da morte e dando possibilidade de conversão em um novo território, da mesma forma, puderam defender a função catequética do trabalho.
No âmbito de seus Colégios os jesuítas puderam oferecer a formação mecânica para seus cativos e para os ameríndios, bem como, puderam formar religiosos de origem ambunda, que atuaram tanto entre os cativos no Brasil, quanto no interior de Angola, estratégias que puderam auxiliar nas dificuldades impostas pela diferença de idioma.
A leitura das fontes nos permitiu notar que apesar dos esforços perpetrados na conversão dos ambundos e imposição da religião cristã, o cristianismo não foi abraçado na sua ortodoxia com constância pelos povos daquela missão. Como visualizamos pelo exemplo da rainha Nzinga, por vezes, o cristianismo foi aceito como forma de garantir vantagens nas negociações com os europeus. Talvez, a fixação dos missionários no Colégio em Luanda tenha se dado também pela desesperança com relação a conversão dos ambundos e o trabalho desempenhado em conjunto com os missionários no Brasil para a conversão dos cativos já na outra margem do Atlântico.
Por outro lado, é inegável o impacto de ordem política e econômica da atuação dos missionários jesuítas em Angola, tendo em vista que, os missionários defenderam a escravidão africana e deram suporte as campanhas militares feitas contra o Ndongo, sustentando até mesmo perante os monarcas europeus a ideia de que havia ricas minas naquele território para que houvesse o envio de armamentos e homens.
Partindo da ideia de Miller, que busca visualizar o escravismo como uma estratégia