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O século XIII presencia o desenvolvimento da letra gótica, que nasceu na França e tem o seu desenho diferenciado da carolíngia, sua antecessora, e que pode ser entendido

como a busca de uma nova estética escriturária, tendo por referência, entre outras coisas, o uso do arco quebrado na arquitetura. Também é provável que o estilo de letra tenha mudado em função de um novo tipo de pena. De acordo com Higounet (2004, p. 139). “A escrita carolíngia era obtida com penas de bico reto, enquanto a escrita gótica só se obtinha com penas talhadas de modo oblíquo, com bico curto inclinado para a esquerda”. No século XII, a vida cultural na Europa saiu dos mosteiros em direção às recém criadas universidades de Paris, Montpellier, Oxford, Cambridge, Bologna e outras cidades, formando um número considerável de intelectuais. Em conseqüência destas universidades, os novos textos primavam por uma escrita correta. Os estudantes eram os responsáveis por essa triagem dos textos e suas encadernações, fazendo surgir a figura do estacionário, que mais tarde vai se tornar o livreiro. A introdução do papel, o desenvolvimento da administração dos estados, o surgimento de bancos e do primeiro papel moeda em 1.260 e das várias formas de registros do cotidiano do comércio e a idéia de renovação intelectual que permanecia no ar nos séculos XII e XIII, fez da arte de escrever, até então restrita à vida monástica, difundirem-se pelo mundo leigo. Mesmo de forma lenta a escrita vai processando pequenas mudanças. Nos séculos XIV e XV passa-se a escrever sem levantar a pena do papel, isso muda mais uma vez a forma da letra gótica.

Fig. 15: Escrita gótica

Nos últimos dias do feudalismo a escrita já era conhecida e consumida pelas elites letradas, professores, clérigos e a monarquia. “No final do século XV, a reprodução de materiais escritos começou a transferir da escrivaninha do copista para a oficina do impressor” (EISENSTEIN, 1998, p.17). Os copistas, antes restritos à casta monástica, são

somados aos copistas leigos, um novo profissional assalariado, que oferece os seus serviços aos papeleiros, uma classe emergente de comerciantes, surgida nos séculos XII e XIII, que atendiam às necessidades relativas aos impressos solicitados nas cidades universitárias e nos centros urbanos. O suporte usado já era o papel. O papeleiro, que mais tarde vai se tornar o livreiro, já não reunia os copistas em uma mesma sala ao se ocuparem cada um de uma parte do texto, a produção de um livro, por exemplo, passa a ser modular. Sendo assim, o processo gráfico mecanizado não passou direto do monge que grafava no pergaminho para o tipógrafo que imprimia no papel. Eisenstein (1998, p.24), expõe com clareza essa mudança de hábito, em relação aos copistas medievais. “É importante o contraste entre o trabalho gracioso de monges, que labutavam pela remissão dos seus pecados, e o trabalho assalariado de copistas leigos”. Logo em seguida surge a xilografia, técnica que consistia em esculpir as letras, para compor palavras e palavras para compor frases, até formar uma placa totalmente inscrita que recebia certa quantidade de tinta na sua superfície e em seguida um papel era posto sobre esses caracteres untados, recebendo uma pressão capaz de transferir para o papel a inscrição feita em madeira, possibilitando no final do séc. XV a reprodução de livros. Certamente um dos livros mais famosos impressos nessa técnica é a “Bíblia dos Pobres”, impressa em papel barato e de um lado só. A Xilografia, irmã da xilogravura, teve a sua origem na China no século VI. Aliás, esse era um processo em hibernação, uma vez que os romanos, já no século III, utilizavam um processo de impressão semelhante ao da xilogravura. Gravavam sinais em uma placa de madeira e aplicavam sobre o pergaminho. Também os egípcios imprimiam desenhos sobre tecidos, e os japoneses realizaram suas primeiras impressões já no século V.

Em 1.041, na China, Pi Ching, talhou blocos de argila em forma de sinais e compôs uma página. A página era desmontável e os mesmos blocos podiam ser reorganizados em outra disposição, formando novas páginas. Surgem, embora em argila, os “tipos móveis”, portanto, a impressão surgiu na China, pois somente 400 anos depois, na Europa, em 1430, Coster, na Holanda, utilizou caracteres móveis de madeira para imprimir livros. Depois dos chineses, Coster e não Gutenberg, seria o pai da imprensa. Acontece que Gutenberg evoluiu o nível de impressão, após testar os caracteres de madeira, substituindo-os por cobre e em seguida por aço. As letras gravadas em relevo, individualmente e montadas em uma base de chumbo, deram ao impressor a qualidade ideal para imprimir em latim a famosa Bíblia de 42 linhas, 1.200 páginas e uma tiragem de 300 exemplares. Assim a história diz que o grande feito coube a Gutenberg por sistematizar o processo de impressão para a feitura de livros.

As impressões tabulares, uma técnica semelhante à xilogravura, também tiveram seu

início na China e também vão aparecer na Holanda no século XV. A xilografia, seja ela oriental ou ocidental, resultava em uma continuidade entre a arte do texto manuscrito, a caligrafia e o caractere impresso. Essas tábuas eram impressas a partir de modelos caligráficos. No mundo ocidental, houve uma ruptura entre o texto manuscrito e a letra romana, com a invenção da impressão mecanizada, o que não ocorreu com o oriente, que permaneceu utilizando a arte caligráfica como tradição. O motivo da impressão com tipos móveis orientais não ter evoluído, como aconteceu com o ocidente, pode ter sido o número de ideogramas contidos no seu sistema de escrita.

Cada caracter era trabalhado em tipo separado e com todos eles compunha- se uma página de livro; quando se tiravam todas as provas, podiam se separar de novo as letras, para compor novas páginas. Se esse processo não se desenvolveu na China é porque os chineses empregam um número muito grande de sinais; para um livro ordinário são precisos de 4 a 5 mil caracteres.

(SVEND DAHL apud MARTINS, 1996, p.129)

Como já foi comentado, nos séculos que precederam a gráfica, os livros eram escritos por profissionais conhecidos por escribas, em pergaminhos ou papiros, enrolados em dois cilindros. Podiam medir até 50 metros e ficavam guardados em vasos de cerâmica especiais.

Antes disso, no início da Idade Média, somente os monges escribas copiavam trabalhos de teologia, astronomia, física, história e traduções de obras antigas.

CAPÍTULO 2

DOS TIPOLOGISTAS AO CYBER-

No documento Tipografia e Virtualidade.2008.pdf - UEFS (páginas 41-45)