• Nenhum resultado encontrado

Como uma forma de protesto e permanência no mercado, mesmo o clandestino, esses livreiros marginais buscam formas de impor as suas presenças e a forma encontrada é a falsificação de livros, prática que ganha ares de requinte, quando os textos de peças teatrais que seriam transformados em livros têm suas versões falsificadas, circulando antes da publicação oficial do livreiro detentor dos direitos sobre tal publicação. Estes falsificadores são criativos, adotam inclusive técnicas de memorização e taquigrafia para transcrever o discurso oral das peças teatrais, assistidas várias vezes, produzindo assim um texto idêntico ao original, como afirma Chartier (1997), ao dizer que a adaptação inglesa de As Bodas de Fígaro teve sua transcrição a partir desse processo. Para Feyerabend (apud MINAYO, 1977,p.16) o progresso da ciência está associado mais à violação das regras do que à sua obediência.

Fig. 39: Adolescentes envolvidas em um bate papo virtual

A comunicação via internet é um espaço onde os usuários exploram suas possibilidades de expressão e reagem aos desenvolvimentos tecnológicos, introduzindo novas combinações. O que era padrão não funciona nesse novo espaço. As pessoas precisam aprender como passar um e-mail, como participar de um grupo de bate-papo, ou construir uma página da web, mas não existem regras por que o curto espaço da propagação da internet como ferramenta não estabeleceu ainda um comportamento universalmente aceito, o que não deve acontecer, pelo perfil eclético do sistema.

Fig. 40: O novo espaço do discurso

A comunicação intermediada pela internet é um contraste com o mundo que se baseia no papel como suporte.

[...] um novo tipo de comunicação via internet que não é nem a linguagem escrita, nem linguagem falada, que subleva as regras do mundo da escrita usando abreviaturas de palavras e vários recursos gráficos para tornar vivo e falado o que está escrito na tela do computador. (CRYSTAL, 2004, p..9 )

Isso reforça a condição da comunicação mediada pelo computador, como uma nova forma de comunicar. Nos chats, este processo reflete-se no aparecer das letras na tela do computador, como a condensação do pensamento que vai materializando–se como um estigma. É, portanto, como já foi mencionada, a materialização do processo oral, só agora atingido pela humanidade. O ato de ler e ver ao mesmo tempo representa a passagem da escrita para a imagem. O internauta é o criador e a criatura ao mesmo tempo, assim como espectador de si mesmo. É um componente dessa metalinguagem, próprio dessa comunicação vivenciada pelos usuários da internet, parte integrante da ciência da computação. Dessa forma, cabe aqui a seguinte observação: “Numa ciência onde o observador é da mesma natureza do objeto, o observador ele mesmo, é uma parte da observação”. É assim que

STRAUS (apud MINAYO, 1997, p. 14), vê a condição daquele que faz uso da internet. O ciberespaço, um dos futuros da leitura e da escrita, é o novo espaço comunicativo e interativo, virtual e sem fronteiras. Aqui as mensagens materializam-se e consumam a sua missão primária: informar.

Na Internet, um emoticon (algumas vezes referendado pelo nome original, the smiley) é uma seqüência curta de letras e símbolos do teclado, usualmente emulando a expressão facial, sugerindo sentimentos que suplementam a comunicação usada através de e-mails, bate-papos ou mensagens postadas. Há uma teoria de que os emoticons foram inventados por Scott E. Fahlman, quando postou uma mensagem no boletim da Universidade Carnegie Mellon com a intenção de criar figuras gozadas para compor a leitura. Mas é muito mais lógico fazer uma estreita relação com o kanji – uma escrita japonesa – essencialmente ideogramática, como base para o surgimento dessa linguagem. Da mesma forma que não é sensato imputar à criação da escrita a um único gênio criador, o surgimento da linguagem emoticon pode ter a sua origem a partir do momento em que os ideogramas chineses se ajustaram melhor do que o alfabeto latino para compor os ícones dos teclados alfa-numéricos e então, de posse desse conhecimento, algum estudioso ou estudiosos ocidentais do kanji tenham adaptado os sinais diacríticos do teclado latino como parte dessa conjuntura que vai estreitando os laços entre as escritas oriental e ocidental, criando um tráfego mais freqüente entre essas duas formas de escrever, principalmente no final do século XX, em conseqüência das novas tecnologias que resultaram nas telecomunicações, na informática e na velocidade dos meios de transportes, fazendo nascer o conceito da globalização. Hoje os ideogramas são mais freqüentes no ocidente e influenciam a disseminação dos símbolos em todas as áreas das atividades profissionais, como na sinalização, vestuário e outros usos correlatos.

No Japão, os usuários do computador têm trabalhado com os emoticons adaptados à sua cultura. De acordo com o jornal The New York Times, edição de 12 de agosto de 1996, os japoneses usam essa linguagem bem mais que os ocidentais. Em função de seus Pcs possuírem teclados com caracteres em Kanji, que o usuário pode optar pelo modelo simples ou duplo de certos caracteres, às vezes sublinhados, o que permitem certo grau de expressão.

O Kanji pode ter influenciado na criação do emoticon. Os ideogramas utilizados pelo Kanji, que se baseiam na escrita chinesa, representam situações que resultam em comunicação entre o emissor e o receptor. Assim, a palavra Japão (nihon) é formada por dois ideogramas: ni – sol, e hon – origem, daí nihon ou Japão, a terra do sol nascente. Estes ideogramas são normalmente formas gráficas daquilo que se quer representar. É possível que em breve surja um teclado já contendo os sinais de pontuação destinados à comunicação via emoticon de

forma que o leitor não mais tenha que inclinar a cabeça para a esquerda para ler, como acontece com o emoticon japonês. Tais sinais prestar-se-ão unicamente para a escrita emoticon e, nesse caso, conviverão pacificamente com seus antigos concorrentes no mesmo teclado. A linguagem emoticon é mais uma variação da escrita que será somada ao alfabeto, de forma tão sutil quanto o uso de maiúsculas e minúsculas no alfabeto romano. Sem se dar conta, o usuário do alfabeto latino escreve em dois alfabetos: caracteres maiúsculos e caracteres minúsculos, sem que se aperceba de tal heterogeneidade. Em certos momentos as letras minúsculas em nada se assemelham às suas irmãs maiúsculas, levando-se em conta que os sinais diacríticos que servem para compor os emoticons já são velhos conhecidos e antigos colaboradores. A utilização do parênteses, do colchete, de dois pontos, da vírgula e de vários outros sinais, antes relegados a uma condição de inferioridade, começam a ser incorporados à escrita, não como eram conhecidos antes, mas como uma nova forma de escrever.

No documento Tipografia e Virtualidade.2008.pdf - UEFS (páginas 73-77)