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A LINHA DE PREAMAR MÉDIA

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lavrará em livro próprio, com força de escritura pública, o termo competente, incorporando a área ao patrimônio da União91.

Somente depois de cumpridas essas determinações é que, em tese, poderia ser regularizada a situação dos habitantes de tais terrenos. Cumpridas as condições para regularização, notadamente o pagamente das taxas devidas, o habitante pode permanecer no local como ocupante ou, então, ser constituída a enfiteuse (ou Aforamento), caso em que haverá a possibilidade legal da exigência de taxa de ocupação ou foro e laudêmio por parte da União. Nesse momento a União passa a ser senhorio e o habitante no terreno, foreiro.

A preamar média indica-se a evidência do ponto médio entre as marés cheias máximas (preamar máxima) e as marés cheias mínimas (preamar mínima)92. Para que o entendimento seja mais completo, também se faz necessário que o conceito de marés esteja claro. Argeo Magliocca apresenta o seguinte conceito para maré:

Oscilações verticais periódicas das massas líquidas, existentes na superfície da Terra, e da atmosfera. É resultante das forças de atração da Lua e do Sol (ambos em movimento) sobre a Terra em rotação e translação.

O termo maré usa-se para indicar as marés oceânicas; no caso da atmosfera diz-se marés atmosféricas. Costuma-se chamar de maré o conseqüente movimento horizontal da água ao longo da costa, porém, é preferível dizer- se corrente de maré, reservando-se o termo maré para os movimentos verticais.93

Ressalte-se, ainda, que linha de costa não se confunde com Linha de Preamar Média.

Carlos Roberto Soares e Rodolfo José Ângulo esclarecem o que é linha de costa, diferenciando-a da Linha de Preamar Média, nos seguintes termos:

A linha de costa é o limite entre a costa e o litoral, cuja materialização espacial se dá através da presença de falésias (popularmente barrancos ou combros), no limite entre as dunas vegetadas e a praia, no limite máximo atingido pelas ondas nos costões rochosos, ou em qualquer outra feição geomorfológica que indique o limite máximo atingido pela ação do mar ou outro corpo d’água, que separe a costa do litoral. Essa linha não coincide com a linha de preamar-médio de 183194.

Devidamente conceituada a Linha de Preamar Média, surge a dificuldade, quase que instransponível, de delimitá-la em relação ao ano de 1831. A delimitação nos dias atuais é trabalhosa, mas factível, bastando para tanto que se tenham os equipamentos e meios adequados, notadamente marégrafos. Entretanto, a legislação exige que se delimite aquela que ocorria em 1831. E é justamente da solução desse complexo desafio que depende a correta delimitação dos Terrenos de Marinha, ou seja, dos 33 metros contados da posição da linha do preamar-médio de 1831.

O problema é tão complexo que, mesmo transcorridos mais de 60 anos de vigência do Decreto-Lei 9.760/1946, a Linha de Preamar Média de 1831 ainda não está claramente

92 SILVA, De Plácido e. Vocabulário jurídico. Atualizadores: Nagib Slaib Filho e Gláucia Carvalho. 26. ed.

Rio de Janeiro: Forense, 2005. p. 1072.

93 MAGLIOCCA, Argeo. Glossário de oceanografia. São Paulo: Nova Stella-EDUSP, 1987. p. 190.

94 SOARES, Carlos Roberto e ANGULO, Rodolfo José. Sobre a delimitação da linha de preamar-médio de 1831, que define os terrenos de marinha. Revista do Direito Ambiental, São Paulo, nº. 20, 2002. p. 263.

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demarcada em todo o litoral brasileiro. Esta situação, segundo Diógenes Gasparini95, levou o Judiciário, os particulares e os órgãos públicos, mesmo a SPU, a aceitar critérios outros para sua determinação, como é o caso da linha do jundu, vegetação existente nas proximidades das praias, como marco substituto da Linha de Preamar Média de 1831. Sobre o assunto comenta ainda Gasparini:

O critério, a nosso ver, embora resolva na prática os problemas decorrentes da falta da demarcação oficial da faixa dos trinta e três metros, ressente-se de legalidade. A aceitação, pelo Judiciário e pela SPU, não o torna legal. Por ele, não se atende ao prescrito no art. 2º do Decreto-Lei n. 9.760/46, que exige sejam os trinta e três metros contados da linha da preamar média de 1831, e desconhece-se, por conseguinte, que os requisitos legais para a sua determinação são os registrados no art. 10. Estes são os únicos válidos.96 Acrescente-se, a par da ilegalidade apontada para a utilização de linha do jundu, que tal expediente conduz a uma demarcação que somente ao acaso pode corresponder ao preceito legal. Como esclareceram Soares e Ângulo acima, a linha de costa não coincide com a Linha de Preamar Média. O que a linha de jundu pode identificar é, exatamente, a linha de costa. E mais, a linha de costa atual, que pode ser, e geralmente é, destoante da linha de costa de 1831.

Portanto, a utilização da linha do jundu implica em: a) ilegalidade, segundo a avaliação abalizada de Diógenes Gasparini, acima exposta e b) mera estimativa da Linha de Preamar Média de 1831.

Nos termos do Decreto-Lei n. 9.760/1946, devem ser usadas como base “plantas de autenticidade irrecusável relativas àquele ano ou, quando não obtidas, à época que do mesmo se aproxime”97. É evidente a enorme dificuldade de localização de tais plantas, se é que existam ou existiram, tendo em vista o longo tempo decorrido. A dificuldade em obter-se tais plantas de autenticidade irrecusável, datadas desse ano, é comentada por Carlos Roberto Soares e Rodolfo José Angulo:

No caso da Baía de Paranaguá (Estado do Paraná), mapas antigos com datas mais próximas de 1831 podem ser encontrados em Soares & Lana (1994).

Entretanto, mesmo que nesses mapas estivesse delimitada a linha de preamar a pequena escala, geralmente em torno de 1:250.000, não permite marcar os 33 metros mencionados no decreto-lei, o que corresponderia na prática, em

95 GASPARINI, Diógenes. Direito administrativo. p. 865.

96 GASPARINI, Diógenes. Direito administrativo. p. 865.

97 BRASIL. Decreto-Lei nº 9.760, de 5 de setembro de 1946. Art. 10.

termos cartográficos, a aproximadamente 0,13 mm (aproximadamente ¼ da largura de uma linha de lápis fino)98.

Associado a este fator tem-se outro, que é a falta de equipamentos adequados para a aferição atual da Linha de Preamar Média. Ora, se é difícil estabelecer a linha de preamar média atual, imagine-se estabelecer aquela de 1831. Sobre tais dificuldades também comentam Carlos Roberto Soares e Rodolfo José Angulo:

Considerando-se a extensão da costa brasileira e a rede geodésica existente, pode-se afirmar que na maior parte da costa não há possibilidade de delimitar a linha de preamar-média atual. Fora este aspecto, a dinâmica dos ambientes costeiros, especialmente as praias, faz com que a linha de preamar possa mudar, até mesmo diariamente. Cabe ressaltar que a linha de preamar- média geralmente não coincide com nenhuma feição física da costa, que possa ser facilmente identificada, tal como a linha da costa.

Para conhecer o nível da preamar-média do ano de 1831 deveria ser encontrado um registro maregráfico desse ano, além da necessidade deste estar referenciado a um marco ou nível de referência. Este registro parece não existir para a costa brasileira. Uma possibilidade, para se obter um dado aproximado seria, da mesma forma que se faz uma previsão astronômica de maré para qualquer local situado na costa, calcular a altura da preamar- médio astronômica de 1831. Porém, permaneceria o problema da localização, pois não há menção no decreto-lei a um local ou a um nível qualquer de referência99.

Percebe-se, pela exposição dos autores que, mesmo utilizando-se de previsão astronômica, o que se pode obter é um valor aproximado da Linha de Preamar Média de 1831.

Por mais próximo ao real que fosse este valor, ainda assim, restaria o problema de fixá-lo adequadamente ao terreno em razão da falta de um local ou nível de referência. Resumindo:

obtido o valor para a altura da Linha de Preamar Média de 1831 ainda restaria o grande problema de espacializar esta linha, de fixá-la no terreno em sua posição correta.

Na busca de auxiliar na resolução de problema de tal magnitude, Obéde Pereira de Lima e Roberval Felippe Pereira de Lima, utilizando-se de instrumentos da Hidrologia, Geodésia, Informática, Topografia e Cartografia, realizaram estudos para delimitar a atual Linha de Preamar Média em dois setores distintos da cidade de São Francisco do Sul/SC.

Após, processaram os dados, efetuando análise harmônica e a retrovisão da Linha de Preamar Média para o ano de 1831. Para que pudessem fazer esta retrovisão ao ano de 1831, os autores

98 SOARES, Carlos Roberto e ANGULO, Rodolfo José. Sobre a delimitação da linha de preamar-médio de 1831, que define os terrenos de marinha. p. 265.

99 SOARES, Carlos Roberto e ANGULO, Rodolfo José. Sobre a delimitação da linha de preamar-médio de 1831, que define os terrenos de marinha. p. 264.

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consideram que o nível médio do mar vem subindo a uma taxa da ordem de 38 cm por século na área em estudo100.

Dispostos em base cartográfica, os resultados da pesquisa dos autores supra-citados, mostraram que a Linha de Preamar Média de 1831 “real” está localizada a uma distância lateral da ordem de cem (100) metros, mar adentro, com relação a Linha de Preamar Media de 1831 presumida pela SPU. Ou seja, pela linha estabelecida pelos autores citados, todos os Terrenos de Marinha, nos dois locais estudados em São Francisco do Sul, estariam submersos, não havendo, por óbvio, nenhuma ocupação sobre eles101. Já para a SPU, que posiciona a linha junto à costa, todos os Terrenos de Marinha, nos mesmos locais, encontram-se em espaço subaéreo, com ocupações.

Obéde Lima e Roberval Lima ressaltam que:

A exatidão e a precisão na medida da localização geodésica da LPM/1831 e das demais linhas que servem de limites na definição dos elementos da terminologia de praias estão intimamente associadas com o ângulo de declividade da costa, do estirâncio102 e da zona frontal. Desse modo, a altura da preamar média e o ângulo de inclinação do plano onde esta altura toca no continente são os elementos fundamentais para a localização planimétrica da isoípsa103 resultante104.

100 LIMA, Obéde Pereira de e LIMA, Roberval Felippe Pereira de. Localização geodésica da linha da preamar média de 1831 - LPM/1831, com vistas à demarcação dos terrenos de marinha e seus acrescidos.

Disponível em: <http://www.cartografia.org.br/xxi_cbc/024-G05.pdf>. Acesso em: 19 jan. 2008.

101 LIMA, Obéde Pereira de e LIMA, Roberval Felippe Pereira de. Localização geodésica da linha da preamar média de 1831 - LPM/1831, com vistas à demarcação dos terrenos de marinha e seus acrescidos. pp. 8-10.

(não numeradas no original).

102 Estirâncio ou estrão: Faixa do litoral entre a mais alta e a mais baixa maré, sendo, por conseguinte, a zona lavada do litoral. Cf. GUERRA, Antônio Teixeira e GUERRA, Antonio José Teixeira. Novo dicionário geológico-geomorfológico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, p. 249. Definição não constante no texto original.

103 Isoípsa: Linha que liga os pontos de igual altitude, situados acima do nível do mar. O mesmo que curva de nível. Cf. GUERRA, Antônio Teixeira e GUERRA, Antonio José Teixeira. Novo dicionário geológico- geomorfológico. p. 358. Definição não constante no texto original.

104 LIMA, Obéde Pereira de e LIMA, Roberval Felippe Pereira de. Localização geodésica da linha da preamar média de 1831 - LPM/1831, com vistas à demarcação dos terrenos de marinha e seus acrescidos. p. 6 (não numeradas no original).

Vale recordar aqui que Carlos Soares e Rodolfo Angulo salientaram o fato de que a costa brasileira é extremamente dinâmica, especialmente as praias, o que faz com que a linha de preamar possa mudar, até mesmo diariamente105.

Um exemplo bastante significativo desta dinâmica da costa brasileira está presente no Estudo de Impacto Ambiental realizado pela Ambiens Consultoria e Projetos Ambientais por solicitação do Município de Itapema/SC com vistas à implantação da Avenida Beira Mar na praia de Meia Praia106.

Tal estudo identifica a praia de Meia Praia como disposta em uma baía bem protegida com relação ao regime sul-brasileiro de ondas oceânicas. Esta proteção deriva de sua orientação e da dimensão de seus costões rochosos. A combinação destes fatores determina que as ondas que tem maior acesso à baía são aquelas provenientes de nordeste, com características de alturas pequenas e baixos períodos. As ondas de maior energia da costa catarinense, oriundas de sul-sudeste, são quase que totalmente bloqueadas pela configuração geográfica local.107

Mesmo com toda esta proteção que a praia de Meia Praia possui ela é extremamente dinâmica. A Figura 1, mostrada adiante, registra dois perfis topográficos com diferenças marcantes entre eles, levantados no mesmo local, na porção central da praia. O primeiro efetuado na data de 4/8/2006 e o segundo, em 29/8/2006.

No curto intervalo de tempo de 25 dias identificou-se o acréscimo de 1,98 m3/m de sedimentos na parte subaérea do perfil, enquanto que na parte submersa foi identificada uma acresção natural de 9,58 m3/m. Este volume expressivo de material, acumulado naturalmente ao local, promoveu uma incrível mudança na linha de praia de 8,28m (oito metros e vinte e oito centímetros) positivos. Isto é, a linha da praia avançou 8,28 metros em direção ao mar em apenas 25 dias. A declividade da face praial que era de 2°07’ (dois graus e sete minutos), em 4/8/2006, reduziu-se para 2° (dois graus) em 29/8/2006108.

105 SOARES, Carlos Roberto e ANGULO, Rodolfo José. Sobre a delimitação da linha de preamar-médio de 1831, que define os terrenos de marinha. p. 264.

106 AMBIENS CONSULTORIA E PROJETOS AMBIENTAIS (Itapema). Estudo de Impacto Ambiental - EIA Implantação da Avenida Beira-Mar: Município de Itapema/SC. Florianópolis, 2006. pp. 318.

107 A AMBIENS CONSULTORIA E PROJETOS AMBIENTAIS (Itapema). Estudo de Impacto Ambiental - EIA Implantação da Avenida Beira-Mar. pp. 170-177.

108 AMBIENS CONSULTORIA E PROJETOS AMBIENTAIS (Itapema). Estudo de Impacto Ambiental - EIA Implantação da Avenida Beira-Mar. pp. 90-94.

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Figura 1. Perfis em datas diferentes da porção central da praia de Meia Praia (Itapema/SC) mostrando variação de volume de sedimentos, aumento tanto na porção subaérea, como na porção submersa, e avanço em direção ao mar da linha de costa (fora de escala). Fonte: AMBIENS CONSULTORIA E PROJETOS AMBIENTAIS (Itapema). Estudo de Impacto Ambiental - EIA Implantação da Avenida Beira-Mar: Município de Itapema. Florianópolis, 2006. p. 92.

Evidentemente que alterações tão significativas na face praial fatalmente conduzirão a alterações na Linha de Preamar Média, pela razão simples de que a configuração da face praial condiciona o alcance da maré cheia. Se o perfil é menos inclinado, a preamar avança mais em direção ao continente. Se a linha de praia avança em direção ao mar, a Linha de Preamar Média tende a recuar em relação ao continente.

Tal grau de variabilidade depõe contra o esforço elaborado por Obéde Lima e Roberval Lima para a definição da Linha de Preamar Média de 1831. Verifica-se que, por melhor que tenha sido o programa computacional utilizado, o grande potencial de variação dos ângulos de declividade da costa, do estirâncio e da zona frontal, dificilmente é avaliado adequadamente. Ademais, o resultado alcançado por estes autores para retrovisão a 1831 está

fundado na premissa de que houve uma variação positiva do nível do mar da ordem de 38 cm por século, algo ainda a ser cabalmente demonstrado. Desta maneira, a localização da Linha de Preamar Média de 1831 obtida pelos autores ainda não pode ser afirmada como real.