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A luta pelo reconhecimento de Axel Honneth

2.2 As teorias contemporâneas pós-Hegel

2.2.2 A luta pelo reconhecimento de Axel Honneth

A teoria de Honneth sobre reconhecimento é ainda mais densa e tenta dar uma roupagem contemporânea para a teoria intersubjetiva do reconhecimento de Hegel, associando-a à teoria da psicologia social de George Herbert Mead. Honneth defende que a negação de reconhecimento infligiria dano às pessoas e degradaria sua autoimagem, gerando desrespeito204.

p. 177-195. Com essa mesma crítica ao liberalismo, defendendo sua “correção” comunitarista v. WALZER, Michael. Politics and Passion: toward a more egalitarian liberalism. New Haven: Yale University Press, 2004, p.

141-163.

203 É certo que as pessoas com deficiência não integram uma cultura, como é dirigida a proposta de Taylor. As pessoas com deficiência compõem um grupo muito mais amplo, podendo ter membros de diferentes classes sociais, raças, nacionalidades, sexo, gênero, idade etc. Como se pode ver, o pertencimento a esse grupo minoritário pode gerar muitas outras discriminações, que são agravadas, ainda mais, pela falta de meios para acomodação para que as pessoas com deficiência possam exercer sua autonomia livres de impedimentos ambientais, materiais ou sociais.

204 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... Op. cit.; HONNETH, Axel. Redistribution as Recognition…

Op. cit.; HONNETH, Axel. Integrity and disrespect: principles of a conception of morality based on the theory of recognition. Political Theory, v. 20, n. 2, mai. 1992, p. 188.

O filósofo desenvolve sua teoria do reconhecimento sob três esferas: amor, direito e solidariedade. A cada uma delas existiriam três correspondentes formas de violação: violação (“morte psicológica”), privação de direitos (“morte social”) e degradação (“negação de estima social”). Na esfera do amor, o filósofo engloba todas as relações próximas do dia a dia: relações entre casais, familiares, pais e filhos e amigos próximos. A partir da psicologia de Mead, ele defende o papel essencial do amor na primeira infância para o desenvolvimento da autoconfiança do indivíduo e, futuramente, para a sua autonomia. A violação dessa esfera seria a forma mais grave de violação (“morte psicológica”), uma vez que estaria associada à integridade corporal. Segundo ele, o estupro e a tortura seriam as maiores e mais graves forma de desrespeito, porque essas violações são uma forma de submissão à vontade do outro, com a perda de autonomia205.

Na segunda esfera, concebida a partir da teoria de Thomas Humphrey Marshall, Honneth defende que a atribuição de direitos às pessoas promove relações de reciprocidade, na medida em que, a igualdade e a liberdade entre os participantes confere autonomia ao indivíduo.

A esfera do direito estaria, portanto, relacionada ao desenvolvimento de um autorrespeito, sem o qual haveria a diminuição da pessoa, já que ela deixa de se ver como um ser moral e merecedor de igual respeito na vida social206.

Na terceira esfera, a da estima social, o sujeito é reconhecido pelas suas peculiaridades, pelo seu estilo de vida e pelos seus atos. A reputação e o prestígio social estão ligados às realizações individuais que são confluentes com valores e objetivos socialmente compartilhados. Ao se perceberem valorizadas socialmente, a autoestima individual tende a florescer, na medida em que há a valorização do indivíduo pelo outro. O desrespeito à estima social promoveria efeitos deletérios sobre a autoestima do indivíduo, ensejando a degradação (“negação de estima social”)207.

O sentimento negativo decorrente do desrespeito em cada uma dessas três esferas, associado a outros fatores políticos e sociais seriam, para Honneth, o principal impulso para as lutas por reconhecimento208. Entretanto, esses fatores não estão sempre presentes. A título

205 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... Op. cit., p. 213-215; HONNETH, Axel. Integrity and disrespect... Op. cit., p. 190-191.

206 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... Op. cit., p. 197-217; HONNETH, Axel. Integrity and disrespect.... Op. cit., p. 194.

207 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... Op. cit., p. 218; HONNETH, Axel. Integrity and disrespect...

Op. cit., p. 195.

208 HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento... Op. cit., p. 224; HONNETH, Axel. Integrity and disrespect...

Op. cit., p. 199-200.

exemplificativo, pessoas em situação de marginalização constante podem, em função da condição que ocupam, não se levantar contra o status quo, pelo fato de determinada situação já estar consolidada na realidade adversa, gerando um conformismo. Por outro lado, pode ser que pessoas, em geral não submetidas a violações, ao serem submetidas a situações de degradação ou desrespeito, unam-se em uma luta por reconhecimento.

Como se observa, a teoria de Honneth é demasiadamente ampla. Abarca a privação de direitos, mas não se limita a ela209. Além disso, seria quase impossível transplantar para o Direito as categorias de “amor” e “estima social”, que se relacionam mais com a filosofia moral do que com a teoria política. Seria também difícil pensar em situações de judicialização dessas categorias.

Contudo, elas podem ser utilizadas para uma concepção crítica da adaptação razoável.

Em primeiro lugar, o amor e a autoestima, realmente, não são passíveis de serem reduzidas a categorias jurídicas. Mas o Direito pode adotar medidas que despertem comportamentos sociais desejáveis. Isso pode ocorrer com o recurso à técnica do chamado “paternalismo libertário”, os nudges de Cass Sunstein e Richard Thaler210. O Estado não é neutro. Ele, a todo momento, realiza escolhas não neutras e “sugere” comportamentos aos seus cidadãos, como quando adota políticas públicas que visem a encorajar que as pessoas façam exercícios, abandonem o tabagismo e adotem uma alimentação melhor211. Na consecução desse fim, o Poder Público não poderia se valer de proibições ou sanções, salvo casos absolutamente excepcionais, sendo as políticas públicas de fomento a determinados comportamentos, tais como as medidas de outra natureza, como campanhas educacionais, fomento, tributação com finalidades extrafiscais etc.

lícitas e legítimas212. Assim, a própria garantia da liberdade permitiria que o Estado abandonasse sua suposta neutralidade para propiciar um ambiente cultural mais hospitaleiro para o livre desenvolvimento da personalidade de cada integrante da sociedade213.

Diante dessa nova percepção da função do Estado como não neutro e responsável pelo

“empurrão” dos cidadãos para uma concepção de “vida boa” – sem coerções, obviamente –, pode-se esperar que esse “empurrão” se dê numa direção que promova a inclusão e o

209 SARMENTO, Daniel. Dignidade da Pessoa Humana... Op. cit., p. 249.

210 SUNSTEIN, Cass R. THALER, Richard H. Nudge: improving decisions about health, wealth, and happiness.

New York: Penguin Books, 2008.

211 SARMENTO, Daniel. Op. cit., p. 173. Os exemplos utilizados apenas ilustram o que é o nudge. É possível, contudo, que nessas mesmas situações possam surgir demandas adaptativas razoáveis, como o pedido de uma pessoa para que, em nome de um estilo de vida, utilize alimentos específicos que não necessariamente serão saudáveis. Agradeço a Letícia Martel por alertar sobre essa questão.

212 Ibidem.

213 Ibidem.

desenvolvimento de uma cultura e de relações de autoestima, de empatia e até mesmo pelo amor ao próximo214. O descortinamento das minorias invisíveis, com políticas públicas de integração, de inclusão e de promoção do pluralismo e da diversidade pelo Direito, pode despertar sentimentos nas relações sociais capazes de transformações e enraizamento de direitos muito mais fortes do que aqueles impostos pelo Estado por meio da força. Pode tornar a sociedade mais justa e representativa, ao dar voz àqueles que não possuem. Desenvolver relações sociais dessa natureza vai além da tolerância. Por isso, uma adaptação razoável que busque dar voz à diferença é essencial para a integração da sociedade e para a promoção da autonomia e de uma vida com dignidade.

Portanto, a acomodação razoável, sob a ótica do reconhecimento, exige inclusão, com uma relação intersubjetiva reforçada entre as minorias e as maiorias, trazendo um novo formato para a construção da identidade das pessoas. Exige, ainda, a promoção da igualdade, com a realização da justiça social e tolerância. Também faz parte da adaptação uma nova concepção do Estado, segundo a qual as políticas devem promover “empurrões” para que sejam incentivadas as trocas sociais entre os grupos excluídos e as maiorias, a fim de que sejam despertados sentimentos de empatia. A exigência de tolerância deve ser somente um patamar mínimo exigível juridicamente pelo Direito, o que não exclui outros a serem formulados à luz dos direitos fundamentais, especialmente da dignidade humana. Os sentimentos de amor e empatia funcionariam, assim, como os ideais regulatórios extrajurídicos.