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A teoria do reconhecimento (?) de Nancy Fraser

2.2 As teorias contemporâneas pós-Hegel

2.2.3 A teoria do reconhecimento (?) de Nancy Fraser

desenvolvimento de uma cultura e de relações de autoestima, de empatia e até mesmo pelo amor ao próximo214. O descortinamento das minorias invisíveis, com políticas públicas de integração, de inclusão e de promoção do pluralismo e da diversidade pelo Direito, pode despertar sentimentos nas relações sociais capazes de transformações e enraizamento de direitos muito mais fortes do que aqueles impostos pelo Estado por meio da força. Pode tornar a sociedade mais justa e representativa, ao dar voz àqueles que não possuem. Desenvolver relações sociais dessa natureza vai além da tolerância. Por isso, uma adaptação razoável que busque dar voz à diferença é essencial para a integração da sociedade e para a promoção da autonomia e de uma vida com dignidade.

Portanto, a acomodação razoável, sob a ótica do reconhecimento, exige inclusão, com uma relação intersubjetiva reforçada entre as minorias e as maiorias, trazendo um novo formato para a construção da identidade das pessoas. Exige, ainda, a promoção da igualdade, com a realização da justiça social e tolerância. Também faz parte da adaptação uma nova concepção do Estado, segundo a qual as políticas devem promover “empurrões” para que sejam incentivadas as trocas sociais entre os grupos excluídos e as maiorias, a fim de que sejam despertados sentimentos de empatia. A exigência de tolerância deve ser somente um patamar mínimo exigível juridicamente pelo Direito, o que não exclui outros a serem formulados à luz dos direitos fundamentais, especialmente da dignidade humana. Os sentimentos de amor e empatia funcionariam, assim, como os ideais regulatórios extrajurídicos.

essas demandas, mas as incorpora em sua teoria da justiça, de modo a abranger tanto reivindicações identitárias, quanto demandas por redistribuição. A essa dimensão identitária Fraser atribuiu a denominação de reconhecimento. Pouco tempo depois, Fraser incorporou uma terceira dimensão, de natureza política, à sua teoria, denominada paridade participativa216. Sua teoria abrange, portanto, redistribuição, reconhecimento e paridade participativa.

A autora destaca que, nas sociedades contemporâneas, muitas injustiças estão ligadas à economia política, mas que há outras associadas à injustiça cultural ou simbólica, decorrentes de padrões sociais de dominação cultural, que levam ao não reconhecimento e ao desrespeito217. Além disso, há uma imbricação entre as injustiças econômicas e culturais, na medida em que as práticas culturais estigmatizantes normalmente acarretam efeitos econômicos negativos para os estigmatizados, e, por outro lado, as assimetrias econômicas podem ensejar efeitos culturais perversos para os excluídos.

A filósofa propõe uma divisão analítica bifocal para distinguir os dois tipos de injustiça e seus respectivos remédios. Para combater as injustiças econômicas seriam necessárias medidas redistributivas, enquanto para enfrentar as injustiças culturais seriam exigidas políticas de reconhecimento. A título exemplificativo, Fraser destaca que os trabalhadores explorados sofrem injustiças que recaem sobre a distribuição, enquanto os homossexuais sofreriam injustiças ligadas ao reconhecimento. Entretanto, homossexuais poderiam sofrer tanto discriminação no aspecto identitário frente aos valores sociais heterossexuais, que predominam na sociedade, quanto no campo econômico, como discriminação no acesso ao mercado de trabalho ou à percepção de um benefício social. Nesse caso, a lesão econômica seria consequência de um não reconhecimento anterior.

Por outro lado, há grupos que, segundo Fraser, sofrem injustiças bivalentes, que ocorrem tanto no campo da redistribuição, quanto no do reconhecimento, como gênero e raça218. A opressão e a subordinação das mulheres e dos negros têm origem tanto na estrutura econômica da sociedade quanto na social. Segundo ela, o problema da redistribuição e do reconhecimento estaria na exigência de remédios diferentes e, eventualmente, conflituosos, visto que as políticas

216 FRASER, Nancy. Social Justice in the age of identity politics… Op. cit.

217 FRASER, Nancy. From redistribution to recognition? Dilemmas of justice in a “postsocialist” age. FRASER, Nancy. Justice interruptus: critical reflections on the "postsocialist" Condition. New York: Routledge, 1997, p.

14. 218 Ibidem, p. 19-23.

que exigem distribuição buscam diminuir as diferenças, enquanto as de reconhecimento visam a enaltecê-las219.

Para solucionar esse conflito, Fraser aponta que os remédios podem ser “afirmativos”

ou “transformativos”220. Afirmativos seriam aqueles que buscariam corrigir os resultados não equitativos dos arranjos sociais, sem que houvesse uma alteração radical desses arranjos – no caso da economia, seriam as políticas de combate à miséria, enquanto, no campo do reconhecimento, seriam as valorizações da identidade de grupos vulneráveis. Já os transformativos buscariam subverter as estruturas econômicas e sociais que originam esses desequilíbrios econômico-sociais – tais como o socialismo, no campo econômico, e a teoria queer221, no âmbito do reconhecimento. Eles não têm, portanto, foco no resultado, mas na estrutura do status quo.

Em seu terceiro conceito, Fraser aponta que deve haver, no processo político, uma paridade participativa222. Segundo ela, a justiça requer arranjos sociais que permitam a todos membros de uma sociedade a interação com os seus pares, sendo necessário o estabelecimento de padrões de igualdade formal e legal223.

Além disso, Fraser elenca, ainda, mais duas condições especiais que deveriam ser satisfeitas: uma objetiva e outra subjetiva. A primeira ocorre da seguinte forma: a distribuição material dos recursos deve ser realizada de tal modo que garanta aos participantes voz e independência, impedindo, portanto, todas as formas e níveis de desigualdade material e de dependência econômica. Assim, devem ser banidos arranjos sociais que institucionalizem explorações, privações, grandes disparidades em renda, em saúde ou que impliquem em grande perda do tempo de lazer, de forma a negar a algumas pessoas a integração com seus pares224.

A segunda se realizaria com a institucionalização de padrões culturais de interpretação e avaliação que expressassem igual respeito por todos os participantes, assegurando igual oportunidade de alcançar estima social225. Essa condição impede a imposição de padrões culturais que sistematicamente depreciam algumas categorias de pessoas e as qualidades

219 Ibidem, p. 16.

220 Ibidem, p. 23-33.

221 A teoria queer aponta a natureza arbitrária de distinções ligadas a sexo, gênero e sexualidade, buscando demonstrar como essas categorias são responsáveis por opressões e pela clausura das pessoas em padrões sociais.

Ver BUTLER, Judith. Undoing gender. New York: Routledge, 2004.

222 FRASER, Nancy. Social Justice in the age of identity politics… Op. cit., p. 30-32.

223 Ibidem, p. 30.

224 Ibidem, p. 30-31.

225 Ibidem, p. 31.

associadas a elas226. Impedem, portanto, a institucionalização de esquemas de valores que denegam a algumas pessoas o status de parceiros integrais na interação, seja limitando suas interações por meio da ampliação da saliência de suas “diferenças” em relação aos demais, seja falhando no reconhecimento de sua distinção227.

Dessa forma, a condição objetiva se associa, na teoria de Fraser, com justiça distributiva, o que exigiria, portanto, a redistribuição da estrutura econômica da sociedade, enquanto a intersubjetiva estaria relacionada com as condições da filosofia do reconhecimento, especialmente no que concerne ao pertencimento a um status de uma ordem social, que culturalmente define hierarquias sociais228. Assim, o remédio que se busca na condição objetiva é a redistribuição, enquanto na intersubjetiva é o reconhecimento.

A teoria de Fraser tem a vantagem de focar nas práticas sociais e, principalmente, nas instituições. Sua redução a uma categoria jurídica, especialmente de um direito fundamental, seria uma tarefa mais simples e menos problemática, em relação aos neo-hegelianos, que focam no “bem-viver” e não em uma teoria da justiça229. Sem embargo, sua teoria apresenta vários problemas. Em primeiro lugar, como teoria da justiça, a proposição da autora é insuficientemente liberal, deixando de lado a autonomia pessoal, tão presente e importante na obra de outros filósofos, como John Rawls, Ronald Dworkin, Jürgen Habermas, Amartya Sen e Martha Nussbaum, o que acaba por ignorar o conflito entre liberdade e reconhecimento230.

Além disso, ela deixa de lado o aspecto psicológico do indivíduo, ressaltado na teoria de Honneth, na primeira esfera, diminuindo a importância da (inter)subjetividade dos indivíduos nas demandas por reconhecimento231. Aliás, esse ponto é extremamente relevante, visto que a autora, ao enfrentar o problema posto em sua teoria, só apresenta exemplos institucionais, sem atentar para a dimensão que mais caracteriza o reconhecimento: a relação intersubjetiva232.

Outro ponto relevante é em relação ao reconhecimento proposto por Fraser: seria sua teoria realmente reconhecimento? As demandas por identidade são objeto de estudo por vários autores liberais igualitários, como os citados anteriormente, que propõem abordagens mais

226 Ibidem.

227 Ibidem.

228 Ibidem, p. 32.

229 Nesse sentido, cf. SARMENTO, Daniel. Dignidade da Pessoa Humana... Op. cit., p. 254.

230 Ibidem.

231 Ibidem.

232 Agradeço à San Romanelli e ao João Feres Júnior por apontar essa crítica. Sobre a ausência de intersubjetividade em Fraser, cf. MENDONÇA, Ricardo Fabrino. Dimensão intersubjetiva da auto-realização: em defesa da teoria do reconhecimento. Revista brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 24, n. 70, junho de 2009, p. 147.

completas tanto do ponto de vista da liberdade, quanto da igualdade. No final, Fraser não propõe nada diferente do que uma política liberal igualitária de promoção de igualdade entre as diferentes identidades, de modo que elas tenham igual respeito e consideração na sociedade, assemelhando-se à teoria de Thomas Scanlon233.

Diante disso, uma teoria que busque reconduzir o pensamento de Fraser a uma categoria jurídica não poderia ser enquadrada como uma teoria de um direito ao reconhecimento. A sua teoria aponta importantes proposições para a identificação desse direito na ordem constitucional, mas não pode se limitar a ele, sob pena de se estar delineando uma faceta do princípio da igualdade. Abaixo tentarei desenvolver um direito ao reconhecimento que busque conciliar as críticas expostas em relação aos autores trabalhados nesta parte.