físicos extraordinários (STAUDT; SILVA e MAGALHÃES 2018). De qualquer forma, ao lidar com a palavra, e ter esse desempenho notável, segundo o Quilombo, o poeta teria outros atributos como “um finíssimo temperamento emocional”. Aqui é preciso um olhar um pouco mais detido e contextualizado, pois se conjugam elementos raciais e masculinos analiticamente fecundos.
O homem da primeira metade do século XX no Brasil tinha como uma das prescrições de comportamento masculino, sobretudo em público, a contenção emocional, quer dizer, a expressividade ampla de suas emoções, chorar copiosamente, gargalhadas sonoras, fúria insana etc. não era algo bem visto entre seus pares homens e, também, em boa medida, por mulheres (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2013; FLORES, 2007). Essa “sisudez normativa”
poderia ser considerada uma demonstração de “maturidade viril” (THUILLIER, 2013) que estaria, por sua vez, ligada à racionalidade e civilidade (em contraponto aos arroubos emocionais) e, portanto, no domínio de si, visto como uma das premissas básicas, também, para o domínio do outro, como papéis de destaque e liderança, em que a temperança e o comedimento seriam atributos desejáveis (FLORES, 2007). Ademais, podemos compreender esse “finíssimo temperamento emocional” como sinônimo de sofisticação e elegância. Sendo Cruz e Sousa um poeta simbolista, que ao longo de sua vida tratou de temas profundos e complexos como a morte, a transcendência, o sofrimento de ser negro, o desespero interior e a fé, o texto valoriza tal bagagem. Assim, rudeza, brutalidade e primitivismo usualmente imputados aos homens negros (FAUSTINO, 2014) foram deslocados para sentidos mais
“nobres”.
Quando o Quilombo traz Cruz e Sousa e enaltece suas características emocionais, ele está empenhado em elevar moralmente e intelectualmente um “tipo de homem” que a princípio não teria as características “espirituais” necessárias para contribuir para o desenvolvimento da sua Nação, devido à sua cor/raça e gênero. Um forte indicador disso é que ao final do texto marca-se essa contribuição “(...) com seu talento, sua poesia, integrou sua raça e a si mesmo na inteligência de nossa pátria”. Isso expressaria a relevância de suas qualidades imateriais, não só para a sua raça como também para o Brasil. Evidente que há ambiguidades relevantes em relação a Cruz e Sousa, uma vez que a poesia, segundo os valores masculinos da época, não seria algo notadamente viril, podendo entrar no rol da
“literatura de ficção, ao devaneio” (FLORES 2007), inclusive as duas características atribuídas à sua obra, como “suavidade e pureza”, com o provável objetivo de demonstrar seu refinamento artístico e intelectual, também não nos parece adjetivos típicos de um “ideal viril” (KRITZMAN, 2013, p. 220).
Essa sofisticação nuança a ideia corrente de masculinidade, geralmente associada ao porte e desempenho físico e à racionalidade das ciências duras, principalmente quando se está lidando com homens negros, que vulgarmente possuíam uma forte estereotipia do fisicamente grotesco, da morosidade intelectual e do desequilíbrio emocional. Isso pode indicar que tais ideais normativos passam por releituras e disputas que dilatariam, ou restringiriam, o vocabulário masculino, abrindo possibilidades de outras expressões que não somente uma virilidade dura, violenta e dominadora. Ademais, “suavidade e pureza” não são qualidades normalmente relacionadas aos homens, sobretudo aos negros, ou seja, este sujeito também teria a capacidade de criar obras belas e virtuosas demonstrando um embate narrativo com as noções comumente associadas aos homens negros. Mas vejamos o Quilombo nº2, na seção Negros da História com a homenagem a Luiz Gama.
Figura 13 – Luiz Gama, Heroi e Santo da Abolição
Fonte: Jornal Quilombo nº 2, p.1, jan. 194938.
38 Disponível em: https://ipeafro.org.br/acervo-digital/leituras/ten-publicacoes/jornal-quilombo-no-02/
Luiz Gama, Heroi e Santo da Abolição
(...) Sud Mennucci, no seu belo livro sobre Luiz Gama, diz:
“Na luta que Gama sustentou em nossa terra, a favor dos escravos, luta tenacíssima, áspera, sem quartel, em que êle jogou tudo, sem excetuar a própria cabeça, sem esperança da menor recompensa, teve de sua parte a veemência de uma ideia fixa, a intensidade irracionada de uma paixão amorosa e a irreversibilidade de um apostolado místico”
Tudo nesse negro incomparável era grande e nobre. Seu coração e sua inteligência. (...)
(Continua na pág.2)
Figura 14 – Luiz Gama, Heroi e Santo da Abolição (continuação)
Fonte: Jornal Quilombo nº 2, p.1-2, 194939
Nota-se nessa pequena biografia o esforço em retratar Luiz Gama quase como um
“Santo Guerreiro” repleto de virtudes combativas e justas, um obstinado pela causa abolicionista. Expressões e frases como: “apostolado místico”, “tudo nesse negro incomparável era grande e nobre”, “uma discrição e uma ternura de um verdadeiro santo”, pretendem acentuar algumas dessas características nobres do rábula, emprestando-lhe uma excepcionalidade modelar, com a intenção de impressionar aqueles que estão lendo o jornal, pessoas que poderiam se espelhar nesse vulto histórico para se orgulharem de quem são e, com isso, quem sabe, mudarem os rumos de suas vidas. De outra parte, é possível perceber o caráter viril de Luiz Gama, visto que é descrito como um homem enérgico, de ação, que se insurgiu contra seus superiores, afrontou latifundiários e libertou centenas de escravos. Não à toa “o enterro do mísero negrinho que se fizera grande homem em quarenta anos de lutas porfiadas foi o maior de que há notícia na época”. Nesse caso, a descrição perpassa a excelência da conduta moral utilizando-se de um “virtuosismo católico”. Dessa maneira, pode-se dizer que a masculinidade, e sua valorização, se encontra mais nuançada. Os casos acima, sugerem que a discrição dos traços viris (em Luiz Gama), e praticamente sua ausência (em Cruz e Sousa) não só não os rebaixaram, como os celebraram. Outro ponto perceptível no
39 Disponível em: <https://issuu.com/institutopesquisaestudosafrobrasile/docs/jornal_quilombo_ano_i_n2>.
(Continuação da pág.1) (...) tornou-se causídico temível, o horror dos escravagistas. Conseguiu libertar mais de quinhentos escravos. Depois de libertá- los, ajudava-os com o que ganhava como advogado para se manterem e todos os sábados fazia distribuição de dinheiro às famílias necessitadas. Isto êle praticava com um pudor, uma discrição e uma ternura de verdadeiro santo.
A 24 de agosto de 1882, o apostolo, o precursor, a figura máxima da abolição no Brasil, terminava os seus dias em São Paulo, sem assistir à queda da escravidão por que tanto batalhára. Morreu cercado de respeito e de glória, amado do povo, da multidão que em lágrimas carregou o seu corpo inanimado até ao cemitério da Consolação.
E assim “o enterro do mísero negrinho que se fizera grande homem quarenta anos de lutas porfiadas, foi o maior de que há notícia na época.” (...)
texto é que a construção da masculinidade (e da virilidade) e seu prestígio social se dá por atos e ações.
O antropólogo Rolf de Souza traz uma definição de masculinidade muito pertinente para entendermos essa dinâmica de transformar-se em homem: “(...) a masculinidade é uma experiência coletiva em que um homem busca reconhecimento através de práticas com as quais conquistará visibilidade e status social perante seu grupo” (SOUZA, 2013, p. 36, grifo nosso). Não é sem motivo que tanto a obra literária de Cruz e Sousa quanto as lutas abolicionistas de Luiz Gama são frisadas, são elas que comprovariam suas virtudes. O historiador Michel Pigenet (2013, p. 269) ao tratar das virilidades operárias na França do século XIX entende que “[d]a mesma maneira que qualquer outra identidade, esta só tem valor, no entanto, na medida em que é mantida, demonstrada e reconhecida”. Essas demonstrações, entretanto, não se esgotariam nas classes populares ou subalternizadas, elas englobariam o “mundo dos homens” de maneira geral. Da aristocracia ao homem do povo, do duelo de pistolas e sabres, à briga de bar, do embate político, ao jornalístico, os valores masculinos seriam virtudes práticas, aliás, ao que tudo indica, toda virtude para ter reconhecimento social dependeria de atos.
Uma das explicações dessa necessidade de manifestação ativa dos valores masculinos foi esposada pelo naturalismo, sobretudo nas obras médicas do século XIX, ao combinar o físico e o moral. Na passagem a seguir, o historiador francês Alan Corbin (2013) destaca a relação entre a morfologia do pênis e a atividade masculina vinculando-as a um conjunto de prescrições:
O homem – à imagem de seus órgãos genitais – é voltado para o exterior. Sua energia e seu vigor o predispõem ao esforço. Sujeito à imposição do agir, dotado de ambição, possuidor do senso de iniciativa, cabe-lhe controlar suas emoções, dominar seus medos, demonstrar coragem e firmeza seja no trabalho, seja no campo de batalha. Ele precisa encarar desafios; se necessário, não recusar um duelo. Tudo isso implica o autodomínio. Longe dos caprichos e da decisão efêmera, o homem é destinado à realização de projetos duradouros. Essa temporalidade viril autoriza a dilatação, a expansão do ser. “A mulher é, o homem se torna”. Ele está sujeito ao perpétuo crescimento do eu. O progresso provém do homem viril (CORBIN, 2013, p.
20, grifo nosso).
Sem a pretensão de desvendar se esse tipo de explicação procede ou não, o que nos interessa é a dinâmica traçada entre o sexo masculino, sua “intrínseca” necessidade de ação, os preceitos que este deveria cumprir e sua suposta “missão civilizatória”, pelo simples fato de ter um pênis, ou seja, ser um macho da espécie humana. A externalidade do membro masculino é incorporada a esse conjunto de preceitos, havendo uma naturalização entre o membro viril e os ideais masculinos. Entretanto, tal naturalização sinaliza algo inacabado,
porque o tornar-se homem dependeria justamente da atividade, da perseguição dessas orientações para seu desfecho (nunca realmente concluso).
O masculino, nesse sentido, não seria um mero dado da natureza, como um atributo deveria de ser aprendida e exercitada, isso fica claro quanto à sentença “a mulher é, o homem se torna”. A bagagem biológica seria apenas um pré-requisito inicial. De toda maneira, esse tipo de explicação, que combina biologia e construção social, parece ter tido contundente influência nesse período (que ressoa até hoje), sobretudo pelo movimento eugênico brasileiro da primeira metade do século XX (SANTOS, 2008; STEPAN, 2005) e, por conseguinte, na composição de um imaginário social que influenciou uma parte considerável de nossos cientistas (sociais ou não), inspirando políticas públicas, conceitos e todo um arcabouço teórico-ideológico sobre o que seria um homem, como ele deveria se comportar, e qual seria seu papel na sociedade, inclusive com importantes clivagens raciais. De toda maneira, o importante é a possibilidade de presenciar muitos desses códigos morais e expectativas comportamentais nos jornais em análise, indicando a força de tais princípios através do tempo e espaço, mesmo que com adaptações e reconfigurações.
Com efeito, a masculinidade, e a virilidade, envolve uma série de convenções, a maioria delas difíceis de serem cumpridas, ela, em grande parte, é um ideal a ser realizado e, portanto, vulnerável e constantemente ameaçado. Penso que aí paradoxalmente está sua força e fragilidade, Bourdieu (2016, p. 77) vê a virilidade como uma carga e responsabilidade, estando os homens muitas vezes presos às representações dominantes e inalcançáveis: “Tudo concorre assim, para fazer do ideal impossível de virilidade o princípio de uma enorme vulnerabilidade” (p.77). Em todo caso, Luiz Gama provou seu caráter viril e sua masculinidade virtuosa, ao sair da condição social de “mísero negrinho” para “grande homem” através de condutas e realizações tidas como dignas por parte considerável da sociedade, sendo temido e respeitado inclusive por seus inimigos. É na provação que a virilidade se manifesta. “A virilidade é ensinada pelo exemplo e pela emulação”
(CHAPOUTOT, 2013, p. 352). E foi através da produção poética de Cruz e Sousa que sua masculinidade sofisticada pôde ser aferida. Talvez esse seja um dos motivos que fizera com que essas figuras ganhassem destaque nos periódicos.